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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Rainha precisa-se


 Por Catarina Fonseca

O MUNDO tem mais uma rainha. Chama-se, como qualquer plebeia ali da Musgueira, Estela Sílvia (o Sílvia ser da avó não é desculpa) e é sueca. Isto para vos dizer que, estando eu nessa altura na Suécia, tiveram que me amarrar para não comprar todas as revistas – em sueco – com a história da Lilla (pequena) Estelle.
À vinda, fiquei na sala de embarque a remoer em duas coisas: por que é que eu, uma republicana convicta, era tão fã de realeza, e porque é que não havia uma sex-shop no aeroporto. Já estava imaginar uma data de suecos em delírio a embarcarem com bonecas insufláveis e algemas de renda. Bem, não se entusiasmem que o tema não é esse.
No tempo da minha avó, ela e as amigas votavam todas as semanas na Maria de Lurdes Resende para Rainha da Rádio. E eu era obrigada a ler a ‘Hola!’ em voz alta de fio a pavio, revista que começava invariavelmente com um artigo com a princesa Carolina en um rincón de su hogar.
Hoje não temos nada assim. Falta-nos isso, que não era pimbice, era a nossa necessidade de rainhas. A nossa necessidade de cor-de-rosismo na vida. De vestidos e tiaras e princesas Disney. Temos a ‘Caras’, mas não é a mesma coisa. E temos os Óscares, mas é pouco, porque os atores e atrizes não estão suficientemente longe de nós para funcionarem como sonho. São só um sonhozinho. Assim pequenito, como a Lilla Estela.
O T.S. Eliot dizia que a Humanidade não consegue aguentar demasiada realidade. Às vezes, sinto que é isso que temos agora. Demasiada realidade. Já não aguento revistas a mandarem-me poupar e a dizerem-me como é que eu hei de ser feliz mesmo assim pobre como estou, ou sobre pessoas que deram a volta à crise criando fantásticos negócios.
Quero a rainha a que tenho direito. Não quero uma Lilla Estela adotada. Tenho vontade de raptar a Lilla Estela aos suecos.
Depois li um artigo espanhol sobre japoneses sem sexo. Um em cada três japoneses não tem sexo não porque não haja japonesas, mas porque, basicamente, dá trabalho. Dá mais trabalho satisfazer a namorada do que passar horas a ver filmes porno, jogar jogos de vídeo porno ou, cúmulo da originalidade, ir a Cafés de Gatos (literalmente, não gatos como o Bradley Cooper) apaziguar a falta de relações humanas acariciando felinos. Também para estes japoneses o mundo é demasiada realidade, mas responder com uma substituição total não foi uma boa ideia...
Resultado: as japonesas estão a dar em malucas (os japoneses presume-se que já tenham dado, há muito tempo) e as ocidentais fazem a si próprias a pergunta: será que este cenário é uma exceção ou uma previsão?
Isto aparentemente não tem nada a ver com rainhas porque ainda não se fez nenhum documentário sobre rainhas sem sexo (imaginem as dificuldades burocráticas, se para apanhar a princesa Carolina en un rincón de su hogar já não deve ter sido fácil) mas mostra como fantasia a mais também não é nada bom. Claro que mostra muito mais como temos cada vez mais dificuldade em nos darmos aos outros, em percebermos que não somos perfeitos e não podemos exigir isso a ninguém, mas que ainda não se inventou nenhum jogo de computador que substitua a pele (e não estou a falar da pele de gato).
Conclusão: cuidado com as fantasias que arranja, mas não deixem de as ter, porque neste mundo de troikas, é isso que nos protege. E sejam românticos: realizem o sonho de alguma mulher (ou homem) que conheçam e mandem-lhe flores (não virtuais). E boa primavera.

«Passiva» de Abril de 2012

sábado, 28 de abril de 2012

O fim do mundo (e dos feriados, que é pior)


Por Catarina Fonseca

ÀS VEZES, uma pessoa está sem inspiração. Acordei assim. Raio de país mais cinzento. Raio de mês mais vazio. Há dias que mais vale voltar para a cama. Tristemente, este não foi um deles.

Corri o Facebook à procura de iluminação. Nada. Tirando fado, crise e futebol, nada. Então lembrei-me da secção que o Miguel Esteves Cardoso tinha no ‘Independente’. Chamava-se ‘Encomendação das almas’, onde os leitores lhe davam o mote.
A má notícia foi quando descobri que ninguém se lembrava da ‘Encomendação das Almas’. Os cotas têm memória curta. O Google ainda não era nascido. E os mais novos nem sabem o que foi o ‘Independente’. A boa notícia, é que pelo menos assim podia plagiar à vontade. Pedi então a amigos e conhecidos que me ‘encomendassem’ qualquer coisinha.
Prestimosamente, assim fizeram. Passei a tarde a rir. Houve temas a sério: por que é que as mulheres riem mais do que os homens; pessoas que foram morar para o campo; porque é que se constroem tantas igrejas que parecem hospitais psiquiátricos finlandeses. Houve temas a gozar com a minha cara e o meu drama: Como passar uma tarde de Inverno a colecionar selos; A plantação de cebolas e os fundos comunitários do QREN; A literatura búlgara na segunda metade do século XVIII; como fazer mergulho na costa da Jordânia; A importância do sudoku nas salas de embarque dos aeroportos; porque é que as mulheres não sabem mudar o pneu de um carro (hmmm. E quantos homens saberão?); A vida e obra de Ângela Merkel em quatro volumes; Uma ode ao António Zambujo; Uma ode ao Jerónimo de Sousa; As amantes do ministro húngaro dos negócios estrangeiros; O impacto da Bimby nos homens que vivem sozinhos.
Quando a malta começou a votar em massa nas cebolas e nas amantes do ministro húngaro, achei que era tempo de falar daquilo que mais oprime os portugueses: o roubo dos feriados.
Não sei que raio de contas eles fizeram, mas não me parece que quatro dias façam um rombo assim tão grande na economia do país. É tão ridículo como a meia hora de trabalho extra.
Quem é que queremos enganar? Toda a gente sabe que ninguém passa o 5 de Outubro a meditar na República ou o 1 de Dezembro a dizer ‘ai que bom que não somos espanhóis’, e contam-se pelos dedos os fiéis que celebram o Corpo de Deus. Mas a malta precisa de balões de oxigénio para ir mantendo a sanidade num país onde ela não é muito acarinhada.
O que interessa é que isto é o princípio do fim: qualquer dia tiram-nos os 25 de Abril (nada de instigar o povo à revolução), o 1º de Maio (o dia do trabalhador deve ser passado, precisamente, a trabalhar), o Carnaval (já chega de palhaçadas), o Dia de Portugal (qual Portugal?) e todos os feriados religiosos (afinal, isto é um Estado laico) exceto o Natal, que é bom para o comércio.
De qualquer maneira, nada disto interessa. A minha colega Bárbara que fez o artigo do fim do mundo acaba de me dizer que não adianta nada o saquinho dos terramotos porque isto vai mesmo tudo a eito, e nada vai voltar a ser o mesmo. Ó céus. E achava eu que janeiro era um mês sem graça.
«Passiva» de Janeiro de 2012

domingo, 27 de novembro de 2011

Recursos humanos

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Por Catarina Fonseca

AGORA JÁ NÃO SAÍMOS a dois, mas a três (e quando não a quatro) – eu, tu e o teu telemóvel. Desde quando é que começámos a precisar tanto de nos ‘partilhar’?

Toda a gente que me conhece sabe que eu sou uma facebookiana convicta. Mas esta coisa que há agora de só existirmos enquanto existimos para os outros assusta-me. No outro dia liga-me uma amiga minha a contar esta cena comovente: uma tarde destas de verão foi com um admirador beber um copo a uma esplanada. Vieram as bebidas, e ela vê-o sacar do telemóvel e tirar uma fotografia ao copo do daikiri. Passam-se minutos e minutos, e ele não larga o telemóvel. Às tantas, ela lá pergunta: - Olha lá, tu estás no Facebook? - E estava! Tinha postado a foto do copo mais uma legenda do tipo ‘Ai que lindo pôr do sol, como eu estou aqui bem’, e estava na converseta com os amigos e amigas, sem lhe ligar nenhuma a ela.

‘O que mais me deprimiu’, dizia ela, ‘é ele achar que devia tirar a foto ao copo...’

Percebi nos dias seguintes, quando contava esta história, que estes menages à trois – eu, tu e o teu telemóvel – eram recorrentes, e que a cena de postarem a foto do copo enquanto tomavam o dito era tão comum que só podia mesmo ter escapado à pessoa mais distraída do universo (eu). A partir daí, fui a desconfiança em pessoa. Desenvolvi um reflexo de Pavlov sempre que via um telemóvel. Nos dias seguintes, rosnava quando avistava um Nokia. Fez-me meditar nesta necessidade de nos ‘partilharmos’ constantemente com os outros. Sempre me ensinaram que existimos sozinhos – myself and my Creator – (eu e o meu Criador, dizia o Dr. Johnson, que é um fantástico exemplo para uma ateia, mas vocês percebem) Existimos e somos nós inteiros sem precisar do olhar dos outros. Agora já não...

A cena do telemóvel, além de recorrente, tem ‘adendas’ ainda mais requintadas. “Eu e o meu namorado estávamos completamente apaixonados”, contou-me outra amiga. “Até que, em pleno fim de semana romântico, ele me fez essa cena do telemóvel. Achei estranho, não me perguntes porquê. Cheguei a casa, e criei um alter ego no Facebook. Ele ‘amigou-me’ logo, claro que sem saber que era eu. Então perguntei-lhe se era comprometido. Resposta dele: Sou, mas não hei de ser por muito tempo...”

Fiquei a pensar até que ponto esta facilidade de comunicações – telemóveis, facebooks, mailes – nos está a afastar das conversas difíceis. Conheço várias pessoas que foram despedidas por mail – o mesmo para todas, note-se – sem que o patrão se tivesse dado sequer ao trabalho de lhes ligar, quanto mais ter uma conversa cara a cara (e ainda teve a lata de acrescentar: ‘Apareça quando quiser, está em sua casa’ e não era uma piada).

O ‘cara a cara’ sempre nos assustou, mas agora temos possibilidade de fugir dele, e fugimos sem que isso nos tire o sono. Já não há pessoas, há ‘recursos humanos’ – duas palavras que, não sei se repararam, são mutuamente exclusivas: quando somos um ‘recurso’, qual é a humanidade possível? Como dizia a Lídia Jorge, já não há museus, há ‘equipamentos culturais’. Podem dizer-me que isso são só palavras. Mas são as palavras que constroem o nosso mundo.

Cansada de pensar, que está demasiado calor para isso, fui ‘partilhar’ tudo isto com a minha amiga Tininha, que é uma alma sábia. Ela ouve (ou talvez não), levanta uma sobrancelha e recita: ‘Toda à vida fui pastor, toda a vida guardei gado, e tenho uma cova no peito ai ai de me encostar ao cajado.’

É o que dá tentar discutir sociologia com insensíveis.

«Activa» de Agosto 2011

sábado, 19 de novembro de 2011

Amigas salva-vidas

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Por Catarina Fonseca

OS AMIGOS são a nossa rede afetiva: como sobreviveríamos, sem eles?

Penso muitas vezes que, se não tivesse amigos, a minha vida seria desesperada. É verdade que também penso isso se não tivesse sobrinhos, mãe, bacalhau à Brás, livros, festinhas e chocolate branco (não necessariamente por esta ordem) mas isso agora não interessa nada.

É triste mas só me vêm frases kitsch à cabeça, como a dos amigos serem a família que se escolhe, ou que os amigos estão connosco mesmo quando não estão. Ter amigos é um bocadinho como estar apaixonado, mas sem os AVCs da paixão (ai tomem lá mais esta kitsch, isto hoje vai ser sem dó nem piedade). Se bem que há várias formas de se exercer uma amizade. Lembro-me de uma altura em que andava em baixo, e de ter dito à minha amiga Cristina, “Olha, posso ligar-te quando estiver desesperada?”. Depois comecei a ver a conta de telemóvel, e reformulei: “Olha, posso só pensar em ligar-te quando estiver desesperada?”

Há amigas que eu tenho há mais de 20 anos e que sobreviveram a casamentos e filhos e separações. Há quem tenha reencontrado e com quem tenha construído uma amizade que nunca tivemos quando éramos crianças ranhosas. Há quem eu tenha amado em pequena e se tenha afastado até não ter quase pontos de encontro comigo. Há as pessoas com quem trabalho, que eu não escolhi como não escolhi a minha família, mas que são a minha segunda família.

Também tenho amigos ‘virtuais’, que me animam de manhã quando acordei com nuvens, que têm sempre um ‘like’ para me sustentar. Ai irrita-me tanto aquela teoria que há agora de que o Facebook leva à solidão! Até porque geralmente quem diz isso é quem lá não está. Quem é solitário por definição nunca deixa de o ser, com ou sem FB.

É verdade que temos cada vez menos paciência para os outros. Uma coisa que me irrita é quando eu digo ‘Não querem vir jantar comigo? ‘ e respondem: ‘Ai não, vem tu cá a casa’. Mas a culpa não é do Facebook. Nunca deixei de ver os meus amigos ‘reais’ por causa dos ‘virtuais’. Pelo contrário: vejo-os muito mais agora. Conheço muito mais gente ‘em carne e osso’ desde que tenho gente – quê? Desossada? – a falar comigo. Há pessoas que eu nunca teria conhecido sem o FB, e sem as quais a minha vida agora – como sem chocolate branco e sem sobrinhos – seria desesperada. Todas as oportunidades para fazer amigos são boas: porquê perder mais esta, num mundo em que as pessoas já se encontram tão pouco? Entre não ter amigos nenhuns e ter um amigo internético, o que é que escolhiam? E entre ter só amigos ‘reais’ e ter os mesmos amigos reais mais outros amigos ‘virtuais’, o que é que escolhiam? E entre ter só amigos reais e ter amigos virtuais e mais amigos reais que começaram em virtuais, o que é que escolhiam?

Olhem, vão lá ligar aos vossos amigos. Não façam como eu, e não pensem só em ligar-lhes.

(Como já repararam, desta vez não estou sozinha. Estas são a Tininha e a Catarina. Estão aqui em representação das minhas amigas todas porque são as que consegui agarrar assim de repente sem que pudessem fugir – inda quiseram evadir-se mas o edifício é ‘inteligente’ e as janelas não abrem - e porque lhes disse que as desamigava se recusassem, e elas não tiveram outro remédio senão concordar de boa vontade).

«Activa» de Julho 2011

sábado, 29 de outubro de 2011

Uma aventura no deserto

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Por Catarina Fonseca

É PRECISO dizer que não sou esquisita com as praias. Desde que tenham areia e mar, para mim servem. Mas há sempre uma legítima na nossa vida, sejam quais forem os affaires. A minha legítima é o Guincho. É verdade que a engano a torto e a direito com qualquer outra que se me atravesse à frente. Mas sempre que lá volto percebo por que é que me casei.

Aliás, casaram-me à força. Eu tinha 4 anos e nem conhecia o noivo. Vais aprender a amá-lo, disseram-me, e eu acreditei, porque aos 4 anos acredita-se em tudo (que remédio).

Nem me lembro do primeiro encontro, que deve ter sido traumático. Mas lembro-me desses primeiros anos. Era na Pré-História. Os dinossauros partilhavam a areia com as gaivotas e ainda não havia um surfista à vista (rima interna. Não façam isto em casa). Aliás, não havia mesmo mais ninguém.
A minha avó tinha decidido, não sei porquê, que aquela era a praia a que se devia levar as crianças. Escusado será dizer que, naquela altura (foi há muitos anos mas há pouco tempo), a única criança num raio de bué quilómetros era eu. A minha avó avançava deserto fora intrepidamente comigo à trela (não sei se literalmente), mais uma terrina de canja, mais a panela do arroz de pato, mais mesa e quatro cadeiras (nunca percebi para quem era a quarta, quem iria visitar-nos àquele fim de mundo?), mais a toalha de linho e respetivos guardanapos bordados, mais os talheres de prata mais o meu avô de fato completo, colete e chapéu preto (que nunca tirava).
Passávamos o barqueiro e a casa do barqueiro que rangia como um barco e cheirava a madeira molhada e a lona molhada e a basicamente quase tudo desde que molhado. Alugávamos uma barraca de lona (a única no areal) e lá ficávamos o s três, eu com creme Nívea no nariz, a minha avó a correr atrás de mim com a toalha aberta como uma gaivota gigante, o meu avô de fato completo sentado numa cadeira de realizador, como se estivéssemos à espera dos outros atores para começar o filme, os dinossauros e as gaivotas a passarinharem por ali.

Todos os dias me explicavam por que é que aquela praia se chamava Guincho. Todos os dias eu percebia porquê. Era um descanso que pelo menos qualquer coisa nesta vida respondesse pelo nome. Acho que era por isso que íamos tanto para lá. Era uma praia em quem se podia confiar, como aquelas pessoas que estão sempre maldispostas.

Hoje já chegaram muitos outros atores. Já não se pode estacionar depois das 8 da manhã. Há campeonatos de surfe todos os minutos. Os dinossauros já debandaram. As gaivotas quase. Até já me contaram que há dias em que nem vento faz. Não interessa. Um amor verdadeiro é para sempre.

«JL» - Lulho 2011

terça-feira, 20 de setembro de 2011

As mulheres e o lobo mau

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Por Catarina Fonseca

DIGAM-ME LÁ, aqui que ninguém nos ouve (só para aí 220.000 leitoras e leitores): vocês admiram a pessoa com quem estão?

Aqui há uns tempos, dizia-me uma a amiga: ‘Tu já reparaste que os homens admiram sempre a mulher com quem estão?’ Podem admirá-la pelas razões mais estapafúrdias (adoro esta palavra, ainda mais que fibroblastos e sempre é mais fácil de usar): porque tem umas pestanas daqui até Nova Iorque, umas pernas daqui até Los Angeles (não vão à volta, faz favor), faz bem bacalhau à Gomes de Sá, porque joga póquer, sabe preparar um martini, cheira a relva molhada (eles não dão por isso, passem à frente), lembra-lhes a prima Anica que eles amaram aos 3 anos, ou é uma incansável defensora do meio ambiente, dos coiotes-bebé e dos pobres da Malásia.

Seja por que razão for, os homens admiram sempre a mulher com quem estão. E nós? Nós, pronto, para sermos honestas (e curtas), não. Nós, quanto mais nos fizerem sofrer, mais nós amamos o desgraçado. Para as mulheres, amar é sofrer.

Isto só me lembra uma história que a minha tia Aurora adora lembrar (não sei se já vos contei, desculpem lá, é o mal dos casamentos longos): um tipo pobretanas, planeando o golpe do baú, casou com uma senhora com muitos anos e ainda mais dinheiro, planeando esfalfá-la até à morte assim que pudesse. Durante esse ano em que estiveram casados, foi o desvario: o marido arrastou a pobre da velhinha rica por tudo quanto era atividade. Levou-a a calcorrear a muralha da China, a escalar os Himalaias, a aprender a comandar avionetas do tempo da Luftwaffe, esfalfava-a todas as manhãs com maratonas no paredão de Algés, todas as tardes no bowling do Colombo e todas as noites com sexo selvagem, e ela resistia heroicamente. Desesperado, ele resolveu comprar um descapotável para a levar a andar a 300 à hora e ver se ela arranjava, sei lá, um AVCzito. Quando guiava para casa, estampou-se numa árvore e morreu. No funeral, a viúva chorava desalmadamente e não parava de contar a toda a gente como ele tinha sido um marido dedicado e como ela se tinha divertido durante aquele único, e movimentado, ano de casada...

Depois pensei naquela amiga minha que tem um namorado giro, meigo, esperto e que a adora, mas que se embeiçou ultimamente com um idiota que não lhe liga nenhuma, que a trata com os pés e que lhe foge com as pratas, ao que ela diz, ‘ai ele no fundo no fundo gosta de mim!’
Pois. No fundo no fundo. Tão no fundo que só ela é que dá por isso. E quando eu pergunto, ‘Ouve lá, mas o que é que tu admiras nesse homem?’ Ela encolhe os ombros e não responde. Ou diz qualquer coisa do estilo ‘O amor não se explica’. Ai explica explica. Desculpem lá, mas explica. Ou então não é amor. É outra coisa. É dependência. Sonho. Maluquice. Medo. Sei lá, fome. Olhem, já lá dizia o Álvaro de Campos, ‘Come chocolates, pequena’. Pelo menos o Toblerone não nos foge com as pratas.

(Ai lembrei-me de repente que o tema deste mês era o Futuro! Ó Deus. Que é que eu digo em 4 linhas sobre o Futuro? Olhem, como dizia a mãe do Capuchinho Vermelho, vão pela sombra. Não se esqueçam do chapéu. Usem protetor solar. E obviamente, cuidado com o lobo mau.)

«Activa» de Junho de 2011

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Profissão: Convidada

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Por Catarina Fonseca

ADORO CASAMENTOS, embora não perceba para que é que servem. Mas isso sou eu, que sou uma insensível.

Quando eu era pequena, as pessoas casavam-se a torto e a direito.

Eu tinha casamentos praticamente todos os fins de semana. Eu e a minha avó. Atão era assim: a gente engalanava-se, metia-se no carro da noiva (a minha avó era sempre a madrinha da noiva, até aos 4 anos achei que a profissão dela era ser Madrinha e que eu estava a treinar para lhe suceder), o carro atulhado até ao cocuruto com montanhas de tule e tafetá e outras variações em branco e pó, eu a espirrar, o motorista a afastar o tule do nariz para ver o caminho, e a minha avó a dizer à noiva que não ficava bem chorar daquela maneira, que dava a ideia que preferia ir antes para a praia ou ter-se casado com o João Paulo. Chegados à igreja, davam-me um cestinho com uns anéis e explicavam-me que não desse os anéis a ninguém, e sobretudo que não os comesse. Passava a cerimónia a rosnar a quem se aproximasse dos anéis. A noiva ria. Chegava a altura em que o padre me dizia: “Podes dar-me as alianças, minha filha?”. Eu rosnava ao padre. A noiva ria. O padre tentava arrancar-me as alianças. Era o principio dos 100 metros barreiras. Eu desatava a correr igreja fora. A noiva ria. O padre gritava ‘agarrem aquela criança!’. Eu corria ainda mais. Eventualmente, a coisa tinha um final feliz (para o padre) mas frustrante (para mim). Foi aí que aprendi que era inútil fugir ao Destino, principalmente quando ele corria mais do que eu.

Quando o meu irmão casou, eu já não tinha três anos e fui promovida a madrinha. Por momentos, com as alianças na mão, ainda me apeteceu desatar a correr pelo mundo fora. Era o reflexo de Pavlov aplicado aos casamentos mas sem a baba, ai pelo menos sem a baba. Metade da família susteve a respiração. Mas eu já não tinha 3 anos, e como sou cobarde tive medo das represálias. Foi o primeiro casamento em que ninguém teve de correr atrás de mim.

Isto para vos dizer que, com ou sem alianças, as pessoas casavam-se a torto e a direito. E não percebo por que é que continuam a fazê-lo, com a taxa de divórcio nos 50%. É aquilo a que se chama um investimento a fundo perdido (não sei muito bem o que é, mas soa-me fantasticamente). Digam lá, se alguém vos viesse propor um negócio e dissesse: ‘Ah é uma fantástica oportunidade, é certo que metade dá para o torto, mas eu sou um romântico incurável.’ E nem se pode dizer ‘Ai vamos chamar o FMI e fazer eleições e salvar este casamento’.

Mas pronto. Digamos que a pessoa veja o copo meio cheio e ache que pode calhar nos primeiros 50, e além disso tudo vale a pena para se vestir de princesa. O que eu não percebo mesmo é aqueles vips que vão para a ‘Caras’ dizer que, pronto, encontraram o Zé Manel, que é o homem da vida delas, e compraram casa com ele, e tiveram três crianças com ele, sem falar no rotweiller, o Adolfo, e agora, depois de 24 anos de vida em comum, agora depois da Maria, do Joãozinho, da Carlota Alexandra, e do Adolfo a pingar veneno dos caninos, agora é que sim, agora é que estão finalmente preparados para dar o grande passo: o casamento. Quer dizer: têm uma criança com aquela pessoa, mas o grande passo é o casamento?
Não digo que, se o George Clooney se ajoelhasse aos meus pés, eu dissesse, ‘Ai ó Joca, pára lá de ver o copo meio cheio!’ Também eu (embora não pareça) sou uma romântica incurável. Mas por enquanto, continuo a preferir levar as alianças.

«Activa» de Maio 2011

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Crónica fútil

Por Catarina Fonseca

PASSAMOS A VIDA a comparar-nos com as outras. Ai eu sei que é inútil, mas são estes pequenos momentos que nos deitam (momentaneamente) abaixo.

Sabem aqueles dias em que nos sentimos mesmo giras? No outro dia, acordei assim. Saí de casa a pensar, Ai que gira que eu estou. Estou mesmo gira. É que se fosse homem saltava-me imediatamente para cima.

Eis senão quando se me pranta à frente uma tipa com três metros de perna, mais quatro de trança, mais bronze do Optimus Alive. Era eu em gira. Em muito muito muito mais gira. Fui condenada a segui-la rua abaixo. Inda por cima a rua era comprida. Vocês não odeiam metáforas?

Fiquei a pensar naquela cena deprimente de haver sempre quem seja muito melhor do que nós, o que quer que se faça ou seja na vida. Cheguei de autoestima arrasada à minha secretária e comecei logo bem o dia com um daqueles mailes de Bobis a precisar de lar: ‘Cãozinho acorrentado a uma casota, de família de etnia cigana, com fome, parasitas, e ferido…’ O pobre do Bobi cigano (dúvida que me ocorre de repente: e terão tirado o cão à família cigana com parasitas e deixado lá as crianças?) com parasitas e fome estava bem pior que eu, que a única desgraça que tinha na vida era não ser tão gira como a Rapunzel da minha rua (além de ter janelas que fecham mal e um estore avariado, que não chega a ser tão mau como ter parasitas, embora chegue ligeiramente mais perto). É verdade que a inveja é o pior dos parasitas, mas ainda assim não é tão grave como parasitas a sério.

Decidi portanto procurar ajuda especializada e embrenhei-me no livro ‘Os segredos das mulheres brasileiras’, da fantástica Nelma Penteado. De certeza que a outra rapariga o leu. Ou se calhar não precisava. Há quem tenha a sorte de nascer brasileira de alma (e ainda mais sorte em nascer de corpo). Estava eu embrenhada a divertir-me mais do que na Feira Popular (ai que saudades!) quando dou com o seguinte parágrafo sobre reforçar os nossos pontos positivos: “Não gosta das suas pernas? Há pessoas que não as têm! Não gosta do seu rosto? Há pessoas bem piores! Tem só uma perna? Passe-lhe creme, pinte as unhas dos pés e transforme a sua vida numa vida feliz.”
Ai meu Deus. Estou a tremer até hoje. Só uma perna? Imaginei-me só com uma pernita, a passar verniz nos meus cinco deditos únicos! Tive pesadelos a noite toda comigo mesma a tentar fazer RPM só com uma pernita. Isto sim, é mau! É muito pior do que ser cão com parasitas numa família cigana! Comparado com isto, já nem me atrevo a chorar no ombro da minha mãezinha e dizer-lhe “Ai porque é que não saio ao tio Olímpio que ele sim tinha três metros de perna!” ao que ela me responderia, se bem a conheço, “Pois tinha, e também era careca e estrábico, e não se chamava verdadeiramente Olímpio porque havia mais 16 irmãos e a mãe pôs o mesmo nome a dois filhos.”

Não liguem. É do calor. Da ressaca das férias. Conclusão disto tudo? Sejam o mais giras que possam e não olhem para as outras. Não abram mailes de cãezinhos abandonados ao princípio da manhã. E acima de tudo, passem creme na(s) perna(s).

P.S – Isto era para ser uma crónica séria e útil sobre o eterno retorno do Regresso às Aulas. Sendo que não tenciono regressar às aulas nem amarrada de pés e mãos, fiquem-se com a Nelma e sejam felizes. E giras. Se puderem.
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«Passiva» de Set 10

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

As pequenas coisas

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Por Catarina Fonseca

NASCEMOS FELIZES como nascemos com cabelo castanho, olhos azuis e predisposição para bolhas nos pés, ou tornamo-nos felizes?

Tenho um amigo cronicamente infeliz. Sofre de infelicidade como outras pessoas sofrem de reumático, dores nas costas, asma ou hemorróidas. A infelicidade, nele, é quase uma forma de ser feliz. Sempre que nos encontramos, temos a mesma conversa (a seguir a ‘Porque é que toda a gente nos trata como se tivéssemos 14 anos’): afinal, por que é que vale a pena viver?

Da primeira vez, fui apanhada desprevenida. Durante uns bons minutos nem soube o que lhe responder. Finalmente, lá consegui gaguejar: “Chanel 19?”

É para vocês verem os estranhos labirintos do nosso cérebro. Só a seguir é que me veio à cabeça tudo o que me faz verdadeiramente feliz: os meus sobrinhos (especialmente a dormir), o mar da Costa Nova, gelado de cheesecake, borboletas no estômago quando nos apaixonamos, banhos de imersão com sais cor de rosa, conversas metafísicas, pessoas interessantes, livros que nos fazem ter vontade de voltar para casa. Despejei-lhe tudo isso aos trambolhões. A tudo ele torcia o nariz. O mar? É gelado! Os bebés? Choram! E rematava, “E isso são pequenas coisas”. Iá? Mas não são as pequenas coisas que nos fazem verdadeiramente feliz? Quando me preparava para voltar ao ataque com novas munições a eito (“aviões! lareiras! presentes! rouxinóis! Mozart! O George Clooney?”) percebi de repente que estava a gastar o meu Clooney. Os infelizes não são convertíveis porque a felicidade não depende de qualquer coisa fora de nós. Depende de nós. De que parte de nós e em que altura da nossa vida é que a contraímos, já não sei. Temo que tenha qualquer coisa a ver com sermos amados em bebés, mas como conheço imensa gente amada em bebé que está de mal com o Universo desde que largou a chucha, não deve ser assim tão simples.

Fui portanto documentar-me. O estudo mais recente sobre a felicidade é decisivo: ser feliz não tem a ver com a pessoa que se é mas com o sítio onde se vive. E então, qual é o país mais feliz do mundo? Não, não são as Caraíbas. É a Suíça. O que faz sentido: muitos chocolates e poucos impostos. Parece-me uma boa receita para a felicidade. Não sei se a Heidi também terá alguma coisa a ver com isso. Estão empatados com a Dinamarca (também faz sentido: são todos louros e acreditam em fadas) e a seguir os islandeses. Sendo que o inquérito era de 2006, seria interessante saber se depois de terem levado com duas cacetadas na carroceria (as cinzas do Fyjfyjfyj – pronto, do Zé Manel – e a bancarrota) continuam assim tão felizes. Os mais infelizes são os moldovos. Eu nem sei onde é que fica a Moldova. Eles pelos vistos também preferiam não saber.

Conclusão: não é preciso ter praias, é preciso ter amigos e confiança em quem nos governa. Nós portugueses desconfiamos profundamente da felicidade. Aliás, capitalizamos no fado, o que me parece bem. Já que somos infelizes, ao menos que se venda muito CD sobre isso aos totós dos Suíços. Mas, ó meninos, não exagerem! Sejam lá felizes e não chateiem! Há uns tempos, a propósito daquele 7-0 no Mundial com os pobres dos Coreanos, houve um comentador que disse: ‘É preciso não entrar em euforia!’ A única pessoa que achou isto estranho era (adivinhem lá) brasileira.

«Activa» de Agosto 2010

quarta-feira, 28 de abril de 2010

TODOS PARA A COZINHA

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Por Catarina Fonseca

HÁ OS QUE FAZEM tudo, os que não fazem nada, e os que funcionam só com o frigorífico. E o seu, como é?

- O Desinteressado – Acham que a cozinha é o Reino da Mulher, ou quando muito da Mulher a Dias, ou de outra pessoa qualquer que não eles. Moram na mesma casa há 30 anos e ainda não sabem onde está o açucareiro. A relação de máxima proximidade que têm com a cozinha é gritarem do sofá: ‘Ó Maria Teresa, traz-me aí uma cerveja”.

- O Especialista – Há o especialista em bolos, que faz imensa porcaria. Quando ele sai, há chantili desde o tecto aos imans do frigorífico, quatro tigelas por lavar, a super-centrifugadora com cascas de ananás nas sete divisórias, e a bancada coberta de farinha, pão ralado e açúcar. O especialista em salgados passa o tempo entre a cozinha e o telefone, ou tem o telemóvel no bolso do avental, porque se farta de telefonar para a prima Elvira a perguntar em que parte do refogado é que entra o colorau. Em comum, os dois especialistas têm o facto de nunca incluírem no pacote de especialista a parte de lavar a loiça, arrumar a cozinha e consertar os estragos.

- O Criado – Faz tudo, mas com um ar muito deprimido. Já percebeu que dá mais trabalho refilar do que despachar serviço, e portanto despacha serviço. Geralmente é dos que têm uma mulher paranóica que não suporta um copo em cima da mesa. Geralmente também, são daqueles que saem de casa um dia para comprar cigarros e não voltam.

- O Cozinheiro – Este é a sério. Até sabe fazer Bôla, daquelas com queijo e fiambre e uma mistura que ele começa a explicar que leva alho, pimenta, carne de porco, banha, cebolinho, e a meio já toda a gente desligou com um ar muito deprimido como se ele estivesse a ensinar uma equação de terceiro grau, isto depois de ele ter assegurado que era a coisa mais simples do mundo e que tinha aprendido com a mãezinha dele antes de fazer 4 anos. Podia montar sozinho um pronto-a-comer na Lapa, mas prefere cozinhar para os amigos e ouvir os elogios como se não fosse nada com ele.

- O Aplicado – Coitado, ele bem tenta, mas na maioria das vezes quando quer fazer Frango na Púcara sai-lhe empadão de arroz, e quando tenta as almôndegas sai-lhe uma espécie de Brigadeiros de cimento. Ninguém lhe dá tempo para aprender, ele convence-se que um Homem não nasceu para aquilo e pronto, aqui temos mais um candidato ao sofá e ao ‘Maria Teresa traz-me aí uma cerveja”.

- O Esporádico – Até se esforça, mas é só às vezes. Ao Sábado acorda de madrugada particularmente decidido, vai à praça com um grande cesto, e chega com um ar tão importante como se estivesse na Pré-História e chegasse à caverna a arrastar um dinossauro. A única parte da cozinha digna de um homem é o ‘barbecue’. Durante o dia faz carne assada, porco no espeto, sardinhas e camarão frito, e depois fica três meses de rastos sem sequer lavar um copo.

- O Gourmet – São os que falam do mundo macho do touro e do vinho tinto, e ainda incluem a cozinha. Acham que a verdadeira culinária pertence aos homens, e que as mulheres só sabem fazer arroz de tomate e puré de legumes para os bebés, que coitadinhos inda não se sabem queixar. São os das ervinhas e dos enchidos, dos charutos e das garrafeiras, os que assinam a revista do azeite, os que dizem que têm uma relação ‘sensual’ com a culinária, o que quer dizer que só cozinham quando lhes apetece e sempre só para eles próprios ou para um rancho de amigos homens. Mais uma vez, escusado será dizer que quem lava a loiça e arruma a cozinha é a mulher a dias.

- O Distraído – Tem uma relação quase fetichista com o frigorífico. Ficam eternidades de pé com a porta aberta a olhar lá para dentro como uma vidente para uma bola de cristal. Ninguém sabe porquê, deixam a porta do frigorífico aberta todo o tempo que passam na cozinha, mesmo que lá fiquem duas horas à espera que o arroz coza. Para eles, nunca nada leva menos de duas horas a cozer.

- O Perfeito – Nem é que queira ser moderno, mas já percebeu que as coisas funcionam melhor se de facto houver um trabalho de equipa. Até já aprendeu a fazer açorda. Geralmente, como todos os recém-convertidos, faz muito bem açorda.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O que eles (não) mudam por amor

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Por Catarina Fonseca

É O SONHO de qualquer mulher – a seguir a conhecer o George Clooney e ter dinheiro para não ter de pensar na vida: conseguir que um homem mude por amor. Ao que parece, é desejo inútil: eles não mudam mesmo. Ou será que sim? Fomos investigar, afinal, o que é que pode esperar em termos de mudança.

O que queríamos que mudassem

Queríamos, pois queríamos, mas podemos esperar sentadas: nunca vai acontecer. Mas seria assim tão difícil que eles mudassem…

- A toalha no chão – Não apanham. É escusado. Podem estar quatro toalhas em ‘cúmulo’ como nuvens de Primavera, que eles continuam a alçar a perna e passar por cima na maior das descontracções. Também não fazem ideia de onde nos vem a mania de andar sempre a puxar tampa da sanita para cima, por que é que uns pelitos no lavatório nos põem apopléticas ou por que raio é que uma tampa de pasta de dentes fora do sítio pode arruinar um casamento.

- O copo na mesa da sala – Altos ou baixos, gestores ou trolhas, atinadinhos ou destrambelhados, há uma coisa em são todos todos todos iguais, ainda mais iguais que no Estranho Caso da Toalha no Chão: acham que tudo o que deixaram desarrumado se arruma sozinho. Aliás, arrumar pertence ao tipo de coisa que eles nem notam que precisa de ser feita. Afinal, daqui a nada já está tudo desarrumado outra vez...

- A ‘dislexia’ para datas - “Ó Ricardinho, o dia de hoje não te diz nada?”, e ele franze o sobrolho e todos os seus neurónios (o Tico e o Teco) franzem os neurónios um para o outro e pensam, “Espera lá, Ricardo Manuel, será dia de levar o cão ao veterinário? De pagar à mulher a dias? Do Benfica-Estrela da Amadora?” e depois pensa “Bem, o Benfica-Estrela da Amadora não deve ser com certeza” e fica a remoer nas outras duas hipóteses. Depois estranha que ela faça greve de sexo durante três dias por causa do cão, acha que deve ser do período, depois lembra-se que ou ela teve nesse mês três períodos ou não deve ser do período, e só muito mais tarde é que descobre que faziam anos de namoro. Mas continua sem perceber por que isso tem assim tanta importância. Afinal, continuam juntos, ou não?

O que eles não mudam mesmo

Há coisas sagradas, fincadas com todas as forças na personalidade deles. Ele pode estar disposto a morrer por si mas nunca estará disposto a abandonar...

- O Clube – Quem nasceu Benfiquista (ou Sportinguista ou Boavisteiro) morre Benfiquista, seja o que for que lhe aconteça entre nascer e morrer, e pode vir a Giselle Bundchen que o Benfica há-de sempre estar em primeiro lugar no seu coração.
A Mãezinha – Bem, em segundo. Em primeiro, vem sempre a mãezinha. Quem tenha mãezinha, claro. Com os homens, não há meio termo: ou são orfãos (há os que não são verdadeiramente mas são tecnicamente orfãos, que costumam ser ainda piores que os que têm Mãezinha) ou a Mãezinha é que manda. Desiluda-se: a mãezinha é que faz os melhores pastéis de bacalhau, com a mãezinha é que se almoça ao Domingo, ao sábado à tarde é preciso ir passear a mãezinha mais o Lúcifer (é o caniche da mãezinha), e a mãezinha pode dizer coisas do estilo ‘ó Zezinho estás mesmo magrinho, é essa lambisgóia que não trata de ti’, a mãezinha pode mandar bitaites sobre tudo, do nome dos filhos às tortas de laranja, a mãezinha pode dizer que acha que Carlota é nome de cadela e que Sebastião só houve um e deu mau resultado, a mãezinha pode dizer que as crianças estão malcriadas e o chão está sujo, e a mãezinha é a única pessoa à face da Terra que poderá pronunciar as palavras “o Makukula falhou lamentavelmente aquele penalti”. Palavras que, aliás, nunca ninguém ouviu nem ouvirá na boca da mãezinha…

- Os Amigos – Há sempre um Zé Pedro, que andou com ele no secundário. O Pimpão, que tocava baixo na banda. O Tozinho, que deu em gestor e agora é o Dr. Ataíde e tem uma secretária loura com quem toda a gente acha que ele engana a mulher mas não engana porque é gay mas só o melhor amigo é que sabe. E depois há os adventícios: os da cerveja ao sábado, os do futebol ao Domingo, os do trabalho, dos copos, das farras, do body-pump e do congresso de máquinas agrícolas onde ele foi há 6 anos. Não interessa. São todos para a vida. E para a morte, evidentemente.

Também nunca aceitarão mudar de…

Até podiam mudar, com um bocadinho de boa vontade, mas se pensarmos bem, será assim tão importante começar uma guerra por causa da…

- Música – É na música que se revela toda a sua alma de guerreiro: tudo o que não tenha batuques, é para meninas. Tudo o que tenha cheirinho de melodia, é para meninas. Tudo o que seja cantado, é para meninas. Há os executivos que gostam da Diana Krall, mas só porque ela é loura e não se despenteia enquanto canta e têm uma secreta fantasia de levar a Diana Krall à festa da empresa (levar a Diana Krall para a cama não lhes interessa nem metade que levá-la à festa da empresa). Os outros, quem lhes tira She Wants Revenge, Rammstein, ou Rage Against the Machine, tira-lhes tudo. Se estiver muito muito muito apaixonado (para aí na primeira semana) até pode ser que vá arrastado a um concerto do Roberto Carlos, mas de óculos escuros e sempre a olhar para todos os lados, não vá alguém reconhecê-lo. Se quiser ir de t-shirt com a cara do ídolo e uma tira azul-fosforescente na testa a dizer ‘Roberto É o Rei’, leve um grupo de amigas e esqueça os homens.

- Carro – Para nós, um carro é um carro. Para os homens, um carro é um amigo. E nada se interpõe entre um homem e os seus amigos. E então se tiver mota, pior. Há-de acordar a meio da noite e vir contemplá-la da janela, há-de passar a tarde de sábado a polir as jantes com um paninho de camurça e a ssusurrar-lhe ao, enfim ouvido?, há-de dar mais passeios com ela do que consigo. Habitue-se.

- Playstation – Há-de aproveitar o facto de a mulher estar a tomar banho para jogar Fifa 2008 às escondidas como os miúdos, há-de dizer ‘vai para a caminha, querida, vai que estás com ar cansado’ só para ficar rodando entre galáxias on-line num jogo tipo Guerra das estrelas com up-grade que joga com mais quatro internautas por esse mundo fora, um americano, um japonês, um polaco e um de Odivelas, e é o homem mais feliz do mundo.

O que, com um bocadinho de esforço, até conseguem

Aleluia! Nem tudo são más notícias! Chegámos à parte boa. É agora que ele vai ser um Príncipe! Enfim, alguém que se possa apresentar à avó.

- Roupa – Dá um bocado de trabalho, mas como para eles, geralmente, tanto faz vestir uma t-shirt como outra, a gente dá-lhes outra (desde que não seja cor de rosa) e eles nem percebem que ficam muito melhor, até porque acham que é daquelas áreas em que nós percebemos mais do que eles (e têm razão, o que não é dizer muito). Também se pode pedir-lhes que mudem de corte de cabelo, e alguns até mudam. Até se pode pedir que cortem o bigode (isto é um favor à Humanidade) e até se pode oferecer-lhes uma água de colónia que não cheire a insecticida. Bem envernizadinhos, ninguém diria que têm idade mental de dez anos e meio.

- O Controlo da televisão –Dêem-lhes um sofá e um écran, e estão no paraíso. Não são esquisitos, e papam tudo o que nós vemos na maior das boas-vontades, desde os CSIs de todas partes da América até aos Drs. House, correm todas as urgências dos hospitais de Chicago (costumam adorar isto, porque são todos hipocondríacos) e choram baba e ranho com os hospitais de animais. E cuidado: habituam-se a ver telenovelas com mais facilidade que uma adolescente. Claro que nunca admitiriam aos amigos que vão ficar em casa a ver ‘Desejo Proibido’, mas prepare-se, porque lá chegará o dia em que vai querer sair com ele e ele há-de atirar ofendido: “Nem penses. Hoje é o dia em que a Maria Paula vai dizer ao Reginaldo que o filho não é dele.”

- A Barriga – Com um bocado de sorte, passam a ir ao ginásio connosco, principalmente se lá andarmos, não tanto para perder a barriga como para fiscalizar a concorrência. Geralmente, acontece uma de duas coisas: ou desistem ao fim de duas semanas, ou ficam daqueles ‘freaks’ do Body-Attack que fazem a aula com dois relógios de calorias um em cada pulso e vão à net ver as coreografias novas e se correspondem com outros ‘freaks’ de todo o mundo e quando você diz que aquilo até está fácil franzem as sobrancelhas e respondem: “Deixa-me decorar os passos e aprender a coreografia e tu já vais ver o que é que é fácil’. Acham todos que dois passos à frente e um atrás é uma coreografia.

- A Ajuda – Pronto, é verdade: eles acham que ‘ajudar em casa’ é levar o cão à rua e pôr o lixo lá fora. Mas com muita persistência, até se pode treiná-los para qualquer coisa. Claro que a iniciativa é sempre nossa, por eles dormiam nos mesmos lençois até ao Euro 2012, mas enfim…

- A Comida – Com os amigos continuam a comer feijoada e perceves, mas em casa nós é que mandamos porque somos nós que vamos ao supermercado, quando eles só se lembram de ir ao Clube del Gourmet comprar patê de texugo turco e ostras congeladas.

- A Decoração – Há uns muito picuinhas que vão connosco às lojas e fazem finca-pé porque sempre sonharam ter cortinados roxos na sala como a família Adams, mas homem que é homem nem vê onde é que está sentado, e se for um sofá aos coraçõezinhos com a cara da Betty Boop tudo bem, desde que seja um sofá.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Todas acreditamos no amor romântico

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Por Catarina Fonseca


EMBORA nos estejam sempre a dizer que ‘isso só acontece aos outros’, a verdade é que todas acreditamos em milagres… amorosos. Quer a prova? A gente apresenta uma data delas. Atreva-se a dizer que consigo é diferente.

Mesmo o mais racionalista, o duro dos duros, o que sabe perfeitamente que o amor romântico é um mito, poucos resistem aos seguintes gestos:

- Abrir um mail com o título ‘encontre a sua alma gémea’ – Mesmo que esteja farta de dizer a si própria que não existem almas gémeas, quando muito existem almas ligeiramente irmãs, ou enfim, primas, quem é que não resiste a saber se por acaso, do outro lado do mar ou aqui mesmo à porta, não está o verdadeiro amor da nossa vida?

- Fazer um teste de compatibilidades entre signos – Mesmo quem não acredita em signos, mesmo quem está farta de dizer a toda a gente que não tem nada a ver com o Escorpião que as estrelas lhe destinaram, a verdade é que fazemos sempre aqueles testes que dizem que, se lhe calhou um Aquário na rifa, esqueça, porque o Aquário não atura um Escorpião. A gente lê e fica tristíssima, embora continue a não acreditar em nada disso, e até chegamos a pôr a hipótese de nos concubinarmos com um Touro qualquer, que pelo menos astralmente é mais dado a escorpiões.

- Achar que ele nos lê a mente – É um dos mitos mais perigosos do amor romântico, e no entanto toda a gente parte do princípio de que é verdade. Achamos que, só porque ele nos ama de paixão, sabe exactamente o que nos vai na alma em cada minuto da nossa existência, e se isso não acontece é porque afinal não nasceu para nós.

- Acreditar no amor à primeira vista – Mesmo que nunca tenha acontecido connosco, sabemos que há-de haver um dia em que vamos bater os olhos nele e cair um raio do céu e ouvir vozes, muitas vozes, que nos dizem que sim, que finalmente aconteceu.

- Acreditar nos anúncios – A gente sabe que aquelas cenas do rapaz a correr pela rua fora à chuva e à neve atrás da rapariga, ou dos namorados a atirarem-se do prédio, ou o clássico dos clássicos do desconhecido que nos oferece flores (que saudades!) são só para vender carros, ou telemóveis, ou desodorizantes, mas no fundo no fundo achamos que mais telemóvel menos telemóvel aquilo ainda vai acontecer connosco, qualquer dia.

- Acreditar que a Barbie anda mesmo com o Ken - Embora toda a gente saiba que ela tem um caso com o Action Man.

- Acreditar que o amor existe mesmo, nós é que não procuramos direito – Como diria o Luis Fernando Veríssimo. Aliás, na maioria das vezes nem procuramos, deixamo-nos estar sentadinhas à espera que ele nos desça pela chaminé, como o Pai Natal, mesmo que nem sequer se tenha chaminé…

- Acreditar que o Hugh Grant existe mesmo, nós é que nunca fomos a Hollywood – Mas quando lá formos vai acontecer o mesmo que com a Júlia Roberts em ‘Notting Hill’, a gente vai entrar numa livraria e ele vai lá estar. Que o Hugh Grant não trabalha em livrarias é um pormenor sem a mínima importância.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A Lei das Compatibilidades: Descubra o Homem que Nasceu para Si

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Por Catarina Fonseca

AO CONTRÁRIO
do que nos ensinaram, não há almas gémeas absolutas. Às vezes, as almas gémeas dependem da altura da vida em que se está. Saiba quais podem ser as suas melhores escolhas em termos de… romance.

Diga-nos em que situação está, e nós dizemos-lhe para onde dirigir as suas energias:

A Principiante
- Situação: Tem 17 anos, é estudante, mora em casa dos pais. Tem quem lhe lave a roupa e lhe faça a cama, o que não é necessariamente mau. É da geração que já sabe que o Príncipe Encantado não existe, mas nunca comeu morangos sem açúcar, e portanto ainda não sabe até que ponto a inexistência de um príncipe é dramática.

- Par incompatível: Sabe aquele amigo do seu pai? O que tem nome de Rei Mago, o Baltazar, o que aparece ao fim da tarde e lá fica a um canto da sala a fumar e a beber um resto de conhaque dourado num copo de borda metálica, tão metálica como os olhos dele que a apanham de vez em quando lá do fundo, muito de vez em quando como quem não quer a coisa, e de vez em quando vem ter umas conversinhas para o seu lado, ronronando como um gato, assim umas coisas de adultos sobre jazz pós-moderno e Kafka, coisas que se viessem de uma pessoa normal lhe entravam a si por um ouvido e saíam pelo outro, que também é o que acontece agora mas também não interessa nada o que ele está a dizer. Sabe quem é? Esqueça. Saia da sala quando ele entrar. Vá ao cinema com o João Filipe. Vá ouvir jazz pós-moderno fechada no seu quarto.

- Par compatível: O João Filipe, seu colega de carteira (ou enfim. De mesa pré-fabricada) pode parecer absolutamente inviável: partilham o mesmo autocarro (ele a cair de sono e a cheirar a ténis velhos, você a tentar ter um ar digno apesar de àquela hora nem sequer saber como é que se chama a sua mãezinha), ele dá-lhe graxa para que você lhe empreste os apontamentos de química, e o mais romântico de que se consegue lembrar é passar-lhe uma rasteira e dar-lhe um carolo como prova do seu amor e da sua dedicação. Más notícias: nesta altura do campeonato, é a sua melhor hipótese.

A Desalentada
- Situação: Tem 25 anos, acabou com o seu último namorado e acha que a vida acabou. Entre a sua vida e o deserto de Góbi, parece-lhe que a única diferença é que o deserto ainda vai tendo uns oásis. A sua vida é isto: o emprego de sonho custa a chegar, um amigo do seu pai (não o Gato Baltazar, que fisgou uma sueca e montou uma empresa de produção de eventos em Estocolmo) arranjou-lhe um lugarito de ‘assistente’ num escritório de contabilidade onde você baralha os números e navega pela net com toda a fúria do cargueiro do ‘Speed 2’, apesar de toda a gente dizer que é ‘muito aplicada’.

- Par Incompatível: O Vasco, que é primo da sua amiga Constança e que conheceu numas férias em Vilamoura. O Vasco também é aplicadinho, tirou Economia e Gestão na Católica e não pára de lhe falar em casamento. Ao princípio até parece um Par Compatível, mas cuidado antes de comprar o vestido de noiva: o Vasco há-de desatar a comprar lençóis de linho biológico pela net, depois amua porque a loja não tem o serviço Vista Alegre que ele queria, depois há-de querer convidar 600 pessoas, depois a mãezinha dele há-de dizer que o seu vestido é pindérico e corre o risco de se achar daqui a um ano grávida de gémeos sem saber muito bem como é que se meteu naquilo.

- Par Compatível: O irmão mais velho do João Filipe, que você quase nunca via porque sempre que lá ia a casa ele estava nos treinos de horseball de alta competição ou enfiado no quarto a bater com o lápis da mesa e a estudar engenharia genética de ‘headphones’ postos com os Pixies a berrar muito, e as guitarradas dos Placebo que ele acha que lhe dá um ar cool, ou os ronronanços do Leonard Cohen, que lhe dá um ar ainda mais cool mas de que ele se envergonha secretamente porque acha que é música para meninas. Voltou a encontrá-lo numa festa de amigos e descobriu que ele não só tinha um ar cool como era a sua alma gémea. Quando perceber que não existem almas gémeas, já estará casada com ele. Mas não se preocupe com isso agora.

A Desesperada
- Situação: Tem 35 anos, e das duas uma: ou está desesperada porque acabou de se separar do Paulo Jorge que a deixou sozinha com os gatos nos braços, ou está desesperada porque depois de passar anos em festas de amigos, passeios temáticos, cruzeiros no Douro (sozinha) e chats onde só lhe apareciam criançolas inconscientes à procura de noites escaldantes, percebeu finalmente que o Príncipe Encantado só existia na ‘Bela Adormecida’ e mesmo aí, uma aposta em como era gay.

- Par Incompatível – Com separação ou sem ela, muito cuidado com os ‘homens do desespero’: não se meta em nada a achar que é só ‘para animar’. Os homens que adoram as desesperadas geralmente só querem é copos e curtes. Os que querem qualquer coisa mais séria, nunca a querem com uma desesperada. Portanto, arrisca-se a dar com uma alma que só quer é curtes e copos. Problema: você também diz que o que quer é curtes e copos, mas as mulheres NUNCA querem só curtes e copos, portanto arrisca-se a entrar numa relação em que as duas partes querem coisas diferentes.

- Par Compatível – Como dizia o Luís Fernando Veríssimo, ‘o amor é como a tesourinha das unhas, nunca está onde a gente espera’. Por isso, refreie o desespero. Volte a frequentar as festas de amigos. Com um bocado de sorte, o irmão do João Filipe, que você deixou escapar aos 25, também se há-de estar a divorciar. Com ainda mais sorte, o Baltazar já voltou de Estocolmo (pormenor irritante: tem três filhos suecos, o Lars, a Ingrid, e qual é o outro, o Sven? Todos a falarem como se estivessem num filme do Ingmar Bergman mas pronto). Azar: continua a não querer mais nada do que ronronar-lhe ao ouvido. É capaz de continuar a não ser boa ideia.

A Carente
- Situação: Tem 43 anos e um divórcio traumático aos ombros. Teve de dividir filhos, pratas e DVDs. Foi chato. Principalmente o Sebastião. Teve de lutar pelo Sebastião, porque o seu ex também o queria. Mas ficou com o vinil do álbum ‘Revolver’ dos Beatles. Isso calou-o. O Sebastião agora dorme com a cabeça na sua almofada e passa as noites a ladrar por tudo e por nada, deve achar que é o homem da casa.

- Par Incompatível – Qualquer pessoa com um divórcio igualmente traumático. Quem está recentemente divorciado não tem alma para andar a construir novas relações, eles nem têm alma para lavar a louça quando chegam a casa, quanto mais para se apaixonarem. Só têm alma para desabafarem os seus desgostos, e como você também precisa de colo, vão-se chocar dois divórcios, duas carências, e quatro pessoas. Ah, e esqueça os romances com rapazes de 20 só para fazer ciúmes ao seu ex (ele não está nem aí) ou se sentir 20 anos mais nova. Correm sempre mal, principalmente porque os rapazes de 20 nunca ouviram falar da ‘África Minha’ e não se pode ter romance decente com alguém que nunca viu a ‘África Minha’. Se ele se chama Fábio e o filme preferido dele é ‘O Maneta de Ferro contra a Guilhotina Voadora’, parta para outro.

- Par Compatível – Temos pena, mas não é o Sebastião. O homem certo é aquele que a ama em segredo há anos, à espera que você finalmente visse a Luz e desse um chuto no Luís Miguel. Tristemente, você despreza-o, acha-o um choninhas, e nem sequer sabe que ele existe. Investigue bem. Não se esqueça de olhar por baixo da secretária.

A Impaciente
- Situação: Tem 52 anos. Está sozinha há mais tempo do que leva a aprender mandarim. Mil caracteres de solidão por dia. Há tanto tempo que até já nem liga. Parece que já nada de interessante vai acontecer. Passa o serão no sofá a ler ‘600 Receitas Para Quem Gosta de Cozinhar mas Não Tem Tempo’. Só fala com velhinhos chatos a querem desabafar consigo as suas mazelas, colegas de trabalho que a vêem como uma colega de trabalho, rapazolas que não lhe ligam porque afinal já é uma cota (aliás, se tivesse vinte anos a menos já era uma cota), e a sua filha a querer que você ature as crianças no fim de semana enquanto ela vai em segunda lua-de-mel com o marido para o Choupana Hill, e em resumo, ninguém percebe a mulher fantástica que ali está. Parvos.

- Par Incompatível: A sua filha, que só quer o seu bem, a sua felicidade, e mais um par de braços para manietar o Salvador, o Tomás e o Sebastião (o filho, não o cão) arranjou um jantar a quatro com ela e o marido e mais um amigo do marido. Problema: não tem gracinha nenhuma. Só lhe pergunta se já foi ver a exposição do Berardo. Diz que as lulas lhe dão azia. Os dentes dele gritam por um aparelho desde que ele tinha 14 anos (que já foi há mais ou menos 120). Os abdominais dele gritam por um ginásio desde que ele tinha 18 (que já foi há 116). Ele continua surdo. Metafórica e verdadeiramente falando. E ainda há quem ache que podia ser o homem da sua vida.

- Par Compatível: Como dizem no Canal Odisseia, ‘Abra Sua Mente’. Se Sua Mente não está definitivamente virada para os encantos dos velhinhos nem dos rapazolas nem dos tipos com divórcios traumáticos às costas, pode ser que um dia destes tenha uma surpresa e descubra que aquele seu colega que se oferece para lhe tirar fotocópias para que você não perca o seu rico tempo pode ser o homem da sua vida. Ah, e é verdade: o Baltazar agora é que deve estar no ponto, quando nenhum de vocês está interessado em nada mais sério (é verdade que já fez 75, mas continua charmoso e a beber conhaque com ar de gato se os gatos bebessem conhaque).

quarta-feira, 31 de março de 2010

7 coisas parvas que fazemos por eles

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Por Catarina Fonseca

POIS, O DIFÍCIL é encontrar só sete, mas elegemos algumas das mais parvas. São isso algumas de que nos lembrámos. Mas havia tantas outras…

1 – Deixar as amigas

E já nem falamos dos amigos… Só porque ele tem uns ciúmes loucos da Aninhas, da Marta e da Joana, isso não quer dizer que lhes faça a vontade. Todos os homens acham que a gente fala mal deles nas costas deles (regra geral temos mais em que pensar) principalmente com as amigas. Que todo o tempo que estamos com elas é para lhes contarmos que ele se baba na almofada, arrota depois do hamburguer e é sexualmente mais incompetente que, sei lá, que um pepino. Para todos os homens, todas as mulheres são potencialmente a Nereida do Ronaldo. Também é verdade que às vezes quem deixa as amigas é ela: porque a Joana tem um lindo sorriso e a Marta tem uma linda conta bancária, a Ana Isabel não pode ver um homem à frente nem que seja padre, estrábico ou casado com a sua melhor amiga (nem as três coisas ao mesmo tempo), a Ritinha é uma sonsa que você bem a conhece e a Vanessa, quer dizer, nem é bom pensar na Vanessa à solta com o seu Zé Manel, e portanto afasta-se delas e leva o seu Zé Manel para qualquer sítio muito longe, onde não existam amigas. É um erro: até porque ninguém sabe o dia de amanhã e se arrisca a ver-se um dia sem ele e, o que é pior, sem elas.

2 - Deixar de usar minissaia

A frase que ele mais diz é: ‘Vais sair nessa figura?’. ‘Nessa figura’ geralmente resume-se a uns centímetros a menos do que ele acha que devia ser. Todos os homens são potenciais chefes de harém: por eles, sairíamos à rua de burqa. Por eles, nem sairíamos à rua. Problema: se ceder na primeira minissaia, vai passar a ter de mudar de roupa sempre que o senhor achar que há um potencial chefe de harém rival à solta, que é o que eles acham que são todos os outros homens.

3 - Fingir

A partir do momento em que queremos agradar a alguém, damos por nós a fingir as coisas mais disparatadas, e não são só orgasmos. Começa com uns fingimentozinhos inocentes (achamos nós), ai sim, querido, perco-me por bolo de chocolate, e a tua mãezinha é tão simpática e acolhedora, e eu também adoro dias de sol para ir dar 30 voltas ao estádio da Cidade Universitária. Quando dá por si, mente-lhe tantas vezes que começa a achar que tem um desvio de personalidade. Diz-lhe que é fanática por futebol desde que ia aos jogos na Catedral da Luz com o seu paizinho; que acha o Paulo Jorge (o melhor amigo dele que nunca trabalhou um dia na vida e vive às custas da avó trancado em casa a jogar póquer ilegal pela internet) um excelente rapaz; que as piadas dele têm mesmo graça; que o Pavlov (o pastor alemão que lhe dá lambidelas nojentas na boca sempre que a vê pela frente e passa a noite com insónias a ladrar ao gato da vizinha e larga pêlos pretos espetados e com pepitas de carraças no seu sofá branco) não nos põe a cabeça em água; que não, quer lá agora casar de papel passado, que ideia, você é pela união de facto…

4 - Passar a comer 8 mil calorias por refeição

Até ao Zé Manel, você era um exemplo para qualquer nutricionista. Depois do Zé Manel, a única vez em que volta a ver a cor verde na sua vida é quando o Benfica joga com o Sporting. Nos primeiros dias até tentou convertê-lo aos bróculos, depois tentou comer bróculos enquanto ele se encharcava de esparguete à bolonhesa com tiramissu e ainda lhe mandava bocas do estilo: - Só comes isso? Depois ficas sem defesas e apanhas gripe A e eu tenho de ficar uma semana sem te ver - O Zé Manel acha que vegetais é para coelhos, muesli é para piriquitos, iogurte é para bebés, coitadinhos, e tofu é para professores de ioga gay sentados em cima de tapetes com os olhos fechados a meditar em imenso sexo tântrico que podiam fazer e não fazem porque não se alimentam convenientemente.Em resumo, quando dá por si, com todo o esparguete à bolonhesa à luz das velas e todo os jantarinhos românticos, já engordou cinco quilos.

5 - Perdoar-lhe tudo

Se ele anda maldiposto é porque o chefe é um bruto e não lhe reconhece a genialidade, se ninguém o ensinou a abrir a porta às senhoras é porque é um espírito livre e acredita na igualdade dos sexos, se não pára de falar é porque é uma pessoa super-interessante e com imenso assunto, se não ouve o que lhe dizem é porque, coitadinho, é um bocadinho aluado como todos os Aquários, e se é um egoista de primeira apanha e só pensa nele próprio é porque teve um trauma de infância quando o pai dele saiu de casa tinha ele 7 anos. Ou seja, você corre o risco de acordar um dia com o efeito do elixir de amor já expirado, e pensar de repente: - Mas que palhaço! Onde é que eu tinha a cabeça?

6 - Dar o nome da mãezinha dele à primeira filha

Assim que soube que era menina, ele bateu o pé. Que tinha de ser Odete Emília, porque a mãezinha dele ia ficar tão contente! E pior ainda é se a mãezinha dele já cá nem estiver para ficar contente. Você, pronto, que lhe queria chamar qualquer coisa mais, enfim, moderna, inda torceu o nariz, mas não adianta nada, é Odete Emília ou ele sai de casa com a Odete Emília às cavalitas… Acorde! Não deixe! Telefone à Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, peça asilo político, fuja de casa numa noite escura e tempestuosa, mas não deixe a criança arcar com um nome que não nasceu ara ela.

7 – Adiar as suas férias

Tirou uns dias para depois do verão ainda antes de o conhecer, mas ele agora protesta que ninguém vai de férias em Novembro, que não vai aguentar ficar sete dias sem si, que podiam ir ao dois em Abril para um hotel de charme e fazer massagem tailandesa com óleos de orquídea silvestre… Não adie. Sabe lá se vai cá estar em Abril. Sabe lá se vai estar com ele em Abril. Sabe lá se não vai haver um golpe de estado de extraterrestres que vai rebentar com a Terra! Hehehe. (Isto é da BD de ficção científica dele. Já a contagiou. Que você já lhe disse milhares de vezes que adora, apesar de achar mais infantilóide que a Ovelha Xoné).

´"ACTIVA" - 2009

quarta-feira, 24 de março de 2010

Erros de ‘casting’

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Por Catarina Fonseca

NÃO, NÃO TEM NADA a ver com o cinema. Ou melhor, tem a ver com o ‘filme’ da nossa vida. Sabe aquelas pessoas que achámos fantásticas e depois percebemos que não eram o que esperávamos? Cá ficam algumas desilusões por que quase todas passámos.

Afinal, as nossas primeiras impressões nem sempre são muito apuradas. Enganámo-nos, por exemplo, nas seguintes:

- A Mulher a Dias Tradicional

Situação: Ao fim de uns meses a jurar que conseguíamos fazer tudo sozinhas, era o que faltava, naquela casa nunca entraria mão alheia, ao fim de sonharmos anos e anos que, no dia em que tivéssemos casa nova, ela ia cheirar a cera e a maçãs, a realidade cai-nos em cima com todo o seu peso de realidade (costuma ser muito). Não só não conseguimos fazer tudo sozinhas como a casa, se cheira a alguma coisa, é aos ténis do Paulinho e a porcaria entranhada, nada que lembre remotamente cera ou maçãs.

Sonho: Ao fim de muitas investigações, decidimos contratar a Odete. A Odete é a mulher da nossa vida. A Odete tem a cara e o aspecto que tinham todas as empregadas dos filmes, e só não anda fardada porque, enfim, já era um bocadinho demais. Mas quando chega a casa e vê a roupa lavada, tem vontade de beijar a Odete na boca.

Realidade: Ao fim de uns dias, a roupa demora um bocado mais a ser lavada. Há bolinhas de cotão por todos os cantos. A Odete deu em fiscalizar a sua vida e torce os cantos da boca de cada vez que você lhe diz. Ó D. Odete, por favor não me arrume os cds que eu gosto de os ter espalhados. No dia seguinte, os CDs estão outra vez empilhadinhos e você já não sabe onde tem nada. A Odete queima-lhe equipamentos de ginástica à velocidade da luz, porque ainda não percebeu que há certas coisas que não gostam de ferro. A Odete acha que você é uma galdéria que não sabe o que a vida custa a ganhar e de certeza que lhe roga pragas pelas costas e põe sal atrás das portas.

- A Vizinha Simpática

Situação: Você acaba de se mudar para uma casa nova onde não conhece ninguém. Não sabe a que porta bater se o telemóvel pifar, o cão tiver um ataque de histeria ou entrar uma barata pelo cano do lava-loiças. Sente-se uma alma desamparada num caixote com muitas gavetas, e amaldiçoa o dia em que decidiu ser independente.

Sonho: Nos filmes a malta tem sempre um vizinho louro e simpático e incompreensivelmente solteiro, apesar de ser louro, simpático e com casa própria. A malta vai-lhe bater à porta porque precisa de um ovo e no episódio seguinte já estão enroladinhos à lareira a escolher o nome dos filhos.

Realidade: Ao fim de um tempo, faz finalmente amizade com a D. Albertina, do 5º esquerdo. Desvantagem: a D. Albertina é como os rotweillers, quando ferra não larga. A D. Albertina faz-lhe esperas para lhe contar a sua vidinha de uma ponta à outra, do filho que casou e foi para a Suíça e partir daí nunca mais ninguém o viu, até ao primo Anacleto que era tão bom rapazinho e coleccionava escaravelhos e veja lá, deu em drogado, ‘então e a menina, tem namorado? Ah não? Porquê? Olhe que essas coisas não se podem arrastar, olhe depois chega aos 40 e não encontra homem que a queira.’ Ainda por cima, arrasta cómodas corredor fora até às 4 da manhã (deve ser promessa, porque ninguém tem assim tanta cómoda para arrastar) ou depois ouve o Frei Hermano da Cãmara até às 4, porque tem insónias e é surda.

- A Companheira de Viagem

Situação: De repente, apeteceu-lhe tirar uns dias só para si. Uns dias para ir a algum sítio onde a mão do Homem nunca pôs o pé. Ou enfim, a qualquer sítio mais exótico que Cascais. Problema: detesta viajar sozinha, e o Paulinho avisou logo que nos meses mais próximos não podia tirar dias nenhuns porque o chefe andava maldisposto e quando o chefe anda maldisposto, não se lhe pode pedir nem um pacote de açúcar.

Sonho: Decide investigar qual das suas amigas terá um chefe mais bem-disposto que a deixe tirar uns dias para vir a algum sítio mais exótico que Cascais. Encontra a Joaninha, que é um amor de pessoa e sempre teve o sonho de ir a Pequim.

Realidade: Percebe imediatamente que a Joaninha não tem a noção de onde fica Pequim. O avião inda vai no ar há 12 minutos e já ela refila que tem pavor de aviões e que um ministro famoso morreu de tromboflebite numa viagem a não sei onde. Depois quer sempre ir à janela. Protesta que a comida nos aviões é de plástico. Chateia a hospedeira porque precisa de uma manta, depois porque a manta tem muito pêlo e depois porque afinal não quer a manta que deve estar atochadinha de ácaros. Quando chegam, fica de trombas porque está a chover, depois porque na China só falam chinês, são uns ignorantes, depois porque o hotel não é nada como nos folhetos, depois porque o guia cheira mal dos pés, os nativos são todos iguais, e a comida não é nada como no ‘Dragão do Oriente’ lá ao pé de casa dela. Quando a viagem chega ao fim, toda a gente jura que nunca irá mais longe que Cascais. Ou pelo menos, na companhia da Joaninha.

- A Instrutora Loura

Situação: Decide finalmente que desta é que é: vai perder aqueles quilos que a impedem de ser a Giselle Bundchen e vai descobrir finalmente onde é que ficam os trícepes. Enche-se de coragem e inscreve-se num ginásio. Compra um top que lhe deixa o umbigo à mostra, uns ténis daqueles com molas no calcanhar e apresenta-se assim fardadinha no primeiro dia de aulas, com a vaga sensação de não ter estudado a lição.

Sonho: Quando bota os olhos na instrutora, fica mais descansada. A rapariga deve ter metade da idade da sua filha, está vestida de cor de rosa dos pés à cabeça como uma bailarina de caixa de música, e também tem ténis com molas nos calcanhares, o que a deixa mais calma. Podia ir numa procissão mascarada de anjinho.

Realidade: O Anjinho avisa logo que não está ali para brincadeiras e quem quiser uma cena calminha pode iniciar-se no ponto cruz. Parece que baixou um Espírito do Mal que a leva a dizer as coisas mais anti-condizentes com alguém vestido de cor de rosa. Os outros têm todos cara de quem nunca fez ponto cruz na vida, nem qualquer outra ‘cena’ pró sossegado. O Anjinho já ligou a turbina, e o resto da turma tem um ar feroz como se fosse para o Afeganistão depois de amanhã. Dez minutos depois, você parece uma torneira humana. Pouco falta para malhar com as ossadas no chão. Só se lembra da Luísa Castel-Branco a dizer ‘Você é o elo mais fraco, adeus’. No dia seguinte, são precisas quatro tentativas para sair da cama. Doem-lhe todos os músculos, inclusive músculos que não sabia que tinha. Continua a não saber qual deles é o trícepes, mas de certeza que também lhe dói.

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CAIXA

Como prevenir desilusões
- Investigar bem se aquela é o tipo de pessoa que você procura.
- Não se deixar levar demasiado pela aparência.
- Conhecer-se a si própria: costuma julgar bem as pessoas à primeira vista ou não?
- Racionar o seu tempo: não gaste demasiado tempo de vida com pessoas de quem não gosta.

´"ACTIVA" - 2009

quarta-feira, 17 de março de 2010

O que ainda falta inventar

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Por Catarina Fonseca

JÁ QUASE TUDO foi inventado, é certo, mas havia tantas coisas que nos fariam infinitamente felizes e nos transformariam a vida para sempre!

Aqui ficam apenas alguns exemplos de engenhocas que nos fariam imenso jeito.

Detector de Sacanas

- Situação: A gente está numa festa/’rave’/missa, de copo/pastilha/missal na mão, e de repente achega-se um qualquer e diz: ó Rita/minha/irmã, dá-me o teu telemóvel que te acho uma mulher inacreditável e nunca conheci ninguém como tu.
- Sem DS: A malta, esteja onde estiver e seja com que capacidades lhe sobrarem na altura, acredita instantaneamente que o tipo viu aquilo que ninguém mais viu: como você é uma pessoa absolutamente genial. Dá-lhe o seu telemóvel e fica três dias à espera que ele ligue. Ele não só não liga como sempre que a vê finge que não a conhece. Encontra-o na próxima festa/rave/missa a dizer a mesma coisa a outra.
- Com DS incorporado no seu, digamos, sutiâ: 1ª versão: Uma Voz que lhe lembra o Brad Pitt/Bob Marley/ Deus sai-lhe do peito e lembra-lhe todas as razões por que aquele não é o homem ideal para si. Infelizmente, a primeira versão do DS revelou-se completamente inútil porque a maioria das ‘informadas’ desligavam imediatamente o sensor e seguiam em frente assim mesmo. A segunda versão é constituída por um engenhoso sistema que liberta gás hilariante. A gente desata a rir na cara do tipo, mesmo que não queira, e depois é obrigada a ir à casa de banho lavar a cara. Quando volta, ele já lá não está, ou está com a autoestima de rastos, o que vai dar no mesmo.

Telecomando para os Miúdos

- Situação – O Manel quer andar de baloiço, a Maria também, o Manel prega uma galheta na Maria, a Maria desata a gritar e para animar a festa chega uma criança alheia que se senta no baloiço, caso em que o Manel e a Maria desatam os dois a gritar em coro.
- Sem TM – A pobre mãe tenta rever mentalmente todos os programas da Oprah com especialistas que ensinavam a lidar com crianças e todos os livros do Brazelton a informar que se deve deixar gritar os filhos. O Brazelton nunca deve ter tido filhos. Ou pelo menos, filhos que gritam.
- Com TM – Aponta-lhes o telecomando no botãozinho que diz ‘Birras’ na setinha do volume, e baixa-lhes o som. Depois carrega na setinha que diz ‘rewind’ até ao sítio onde se aproximou do baloiço, e leva-os rapidamente para o outro lado do parque sem nunca terem passado por baloiço nenhum. Aponta o comando à criança alheia, carrega em setinha que diz ‘Lot’ e transforma-a numa estátua de sal (pronto, está bem, num vendedor de gelados, que estátua de sal já está muito visto. Pensando melhor, é melhor não. Vendedor de gelados, em não se querendo comprar gelados, é ainda pior que um baloiço. É melhor transformá-lo numa amoroso caniche com as vacinas em dia, a que as crianças possam fazer festas). Aponta o comando ao baloiço e carrega na setinha que diz ‘Jorge’. O baloiço transforma-se imediatamente no George Clooney que a leva para o seu chalé no lago Como e se dedica a ser seu escravo sexual e a servir-lhe cafés como nomes de música clássica para o resto da vida.

Sapatos Inteligentes

- Situação – Tenta calçar aqueles sapatos de salto vertiginosamente alto/fino/finíssimo que viu na revista, onde lhe garantiam que lhe acrescentavam mais meio-metro de perna. De facto acrescentam, mas têm como efeito secundário que passa a vida a enterrar os stilettos entre as pedras da calçada portuguesa, que deve ter sido toda feita por calceteiros gay que odiavam profundamente as mulheres.
- Sem SI - No fim do dia, partindo do princípio que consegue chegar ao fim do dia, doem-lhe tanto os dedos dos pés que só se lembra das irmãs da Cinderela que tiveram de cortar os dedinhos para caberem no sapatinho de cristal. Começa a desconfiar que há qualquer coisa que todas as outras mulheres lhe estão a esconder. Quando regressa a casa aos esses pela calçada, esborracha-se nas pedras. Incapaz de se levantar, lá fica a ouvir uma velhota resmungar: “estas raparigas agora metem-se todas nas drogas e andam por aí aos caídos que é uma tristeza, gente tão nova”.
- Com SI - Os sapatos transformam-se automaticamente conforme a situação do dia. Quando sai de casa, são uns sólidos sapatos de caminhada. No local de trabalho, crescem automaticamente para 10 cm de salto se, e só se, se aproximar alguém que valha a pena (é favor não fazer analogias com outras coisas). Em estando a 10 m do ginásio, transformam-se em ténis fluorescentes com molas cor de rosa nos calcanhares e contador de calorias. Os modelos mais recentes incluem GPS e um DS incorporado, que a leva automaticamente para onde deve estar em qualquer momento da sua vida.

Instrutora de Moda

- Situação – A gente acorda verde como a princesa do Shrek, como é que ela se chamava, com vários quilos a mais como a princesa do Shrek, e o problema é que não podemos ir trabalhar com um vestido cor de rosa até aos pés. Queremos recordar a paleta de cores que nos fica bem, segundo lemos num artigo da Activa, e não conseguimos. Por qualquer razão, nada na gaveta/armário/chão nos grita: ‘veste-me e leva-me contigo para o trabalho!’.
- Sem IM – A gente apanha a primeira coisa que encontramos na gaveta/armário/chão, mesmo que não faça parte da nossa paleta, nem da paleta de qualquer outra pessoa, mesmo que nos faça gorda e nos transforme num clone da avó Emília e nos grite que nenhum homem à face da Terra gostaria de ser visto ao nosso lado num semáforo, quanto mais ao nosso lado num altar.
- Com IM – Quando acordamos, ligamos a Instrutora de Moda como ligamos o Esquentador. A Instrutora de Moda aparece no espelho como uma projecção holográfica da nossa melhor amiga, e diz-nos: “Olá, Sofia/Rita/Catarina, estás tão gira hoje! Eis como podes ficar ainda mais gira. Veste aquele top branco que juraste à tua mãezinha que nunca usarias, aquelas calças pretas que achas que nasceram para a mãe da Família Adams mas que fazem um rabo minúscuclo, ah, e onde pára o casaco cor de rosa, está na máquina há três semanas, não faz mal, podes vestir o azul, aquele que o teu ex te deu, ah, queimaste-o/ofereceste aos Emaús/aproveitaste para um esconjuro à luz do luar na Serra de Sintra, não faz mal, pronto, veste o kispo! Sim! O que tens desde o euro 94! 1894! Sim, o preto! Quero lá saber da tua paleta de cores!”

Escravo Holográfico

- Situação - O dia arrasta-se como se a força da gravidade fosse maior para nós do que para o resto do mundo. parece que andamos com botas de chumbo nos pés, como os prisioneiros daquelas prisões de alta segurança nos Estados Unidos. Só nos lembramos das penas para os condenados nos livros do Lucky Luke: 25462849 anos de trabalhos forçados. Carregamos compras. Levantamos pesos no ‘body pump’. Carregamos a criança. E o carrinho da criança. E a mala da infindável tralha de que a criança precisa. E depois, ainda temos que vestir e despir, que dá uma grande trabalheira!
- Sem EH – Desenvolvemos olheiras perpétuas, o Zé Manel começa a fazer olhinhos à Soraya que anda no body-attack de top cor de rosa que lhe acaba acima do esterno (não que ela saiba onde fica o esterno), o Luisinho traz uma mensagem da professora a dizer que é hiperactivo e disléxico e a culpa é nossa, vamos ao médico e ele encosta o estetoscótpio que é frio como as estepes da Ucrânia às nossas costeletas, manda inspirar e expirar, e diz: ‘o que a senhora tem é cansaço’.
- Com EH – Eis que entra em cena o, digamos em homenagem ao Natal, Rodolfo. O Rodolfo, é alto, espadaúdo, de olho azul e nunca diz: olha carrega tu os sacos que eu já levo aqui a grade de cerveja. O Rodolfo lava, aspira, puxa o lustro e pole as pratas sem um queixume, o Rodolfo levanta-se de noite quando o bebé chora e canta-lhe cantigas de embalar do Zeca Afonso, o Rodolfo vai connosco ao supermercado e carrega trinta packs de dez de leite meio-gordo, o Rodolfo programa do gravador de DVDs para todas as ‘Anatomias de Grey’ até ao ano 4000, o Rodolfo vai connosco ao ginásio e carrega a barra por nós, faz ele próprio 600 flexões e 516 abdominais e corre daqui até Cascais sem uma palavra de desespero, o Rodolfo acompanha-nos ao vestiário, veste-nos e despe-nos e maquilha-nos, depois leva-nos a casa e põe o banho a correr com sais cor de rosa e o patinho vibrador, enfia-nos na cama e dá-nos um beijo de boa noite e aconchega os lençóis e deita-se no chão, no tapete, depois de ter dito: ‘Até amanhã, Milady.’

Teletransporte

- Situação – Prometemos à tia Júlia que a íamos visitar ao, digamos, Texas, se ela prometesse votar no Obama. Problema: é preciso mudar de avião a meio, e antes de mudar de avião é preciso entrar nele, que dá uma grande trabalheira e por isso é que ainda não cumprimos a promessa desde que a tia Júlia ajudou a pôr o Obama lá onde ele está.
- Sem TT – Recorda-se demasiado tarde que os aviões que vão para a América nunca são o fofo ‘Pisco’ nem o, como é que ele se chama, ainda mais fofinho ‘Alexandre O’Neil’, são umas coisas gigantescas onde de certeza que vai escaqueirar o Galo de Barcelos gigante que comprou para a tia Júlia, e de certeza que o seu casaco vai acabar atochadinho de ácaros no meio de todos os outros casacos, as hospedeiras têm cara de pau e de certeza que sabem qualquer coisa que você não sabe, e ao seu lado acaba de se sentar um gajo trombudo e de barba preta com um ar muito enervado que tem ‘Atenção! Sou director-geral da Al-Caeda e pretendo fazer explodir todo este avião e respectivo conteúdo dentro de cinco minutos assim que sobrevoarmos o Fórum Picoas porque me prometeram 11 mil virgens!” escrito na testa. Tem vontade de lhe dizer que não há 11 mil virgens em todo o mundo. A não ser no Horóscopo. De certeza que ele não está a pensar no Horóscopo. Pensa se deve prevenir a hospedeira. E se ele será Escorpião.
- Com TT – Lembram-se do ‘Caminho das Estrelas’? Toda a gente teria um Teletransportador em casa, era como ter, sei lá, microondas, a gente casava-se e o sogro oferecia-nos o teletransportador, que se punha a um canto da casa de banho com o desumidificador apontado para não criar bolor. A gente era só pegar na mala e no Galo de Barcelos, abrir a porta do teletransportador, digitar a morada da tia Júlia e a quem queriámos que fosse avisado caso alguma coisa corresse mal na reagregação de moléculas (esoperam lá, isto é melhor não) e pimba. Meio segundo depois, estávamos na cozinha da tia Júlia, ou na lareira, caso fosse um daqueles teletransportadores comprados em saldo no Natal que só funciona de lareira em lareira e por isso foi muito baratinho.
Em resumo: resolvia-se a crise do petróleo, dos transportes, e dos cereais. Era a solução para o mundo! Quais energias renováveis!

´"ACTIVA" - 2009

quarta-feira, 10 de março de 2010

Casais que conhecemos

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Por Catarina Fonseca

ENCONTRAMO-LOS todos os dias, no trabalho, na rua, na casa de amigos. Um casal é mais do que a soma de duas pessoas, e algumas duplas podem ser mesmo explosivas.

Dos felizes aos disfuncionais, esta é apenas uma pequena amostra do que podemos encontrar:

- O calado e a matraca – Podem estar juntos há 3 meses ou há 30 anos, que o esquema é sempre o mesmo: ela fala fala fala como se não houvesse amanhã, ele não responde ou responde com uns grunhidos. Prognóstico de duração: depende. Ou já estão casados há tanto tempo que já se acomodaram ao esquema, ou então há um dia em que ele se revolta e dá o salto com a Sãozinha da contabilidade, deixando a ex de rastos porque nunca lhe passou pela cabeça que ele tivesse coragem para roer a corda.

- O intelectual e a bomba – O que ele viu nela é claro, o que ela viu nele nem por isso, o que corresponde ao nosso racismo cultural de achar que a beleza é mais importante que os neurónios. Ela nunca faz nada sem falar com ele. Ele dá-lhe pelo ombro e vai ao dobro das festas desde que anda com ela, com um braço pela cintura da bomba e aquele sorrizinho de ‘vejam lá o que eu consegui’. Prognóstico de duração: Pode resultar, mas geralmente a bomba acaba por cansar-se e partir em busca de novos neurónios. Ou vice-versa…
- Os marretas – Toda a gente os conhece: ela diz mata, ele diz esfola. Têm um único objectivo na vida: fazerem a cabeça em água um ao outro. Qualquer pormenor é pretexto para uma refrescante discussão: a escola do filho, a tigela do cão, quem é que vai pôr o lixo lá fora, se estão a ter um ataque de coração ou um ataque de fúria, em que restaurante é que se janta e se o vestido da Vanda era cor de rosa choque ou cor de rosa escuro. Prognóstico de duração: Geralmente, é prisão perpétua, e aquilo dura até algum deles morrer de exaustão e surdez aos 89 anos.

- Os colas – Não falam com ninguém, nem sequer um com o outro. Andam encolhidinhos como se estivessem sempre cheios de frio, nos restaurantes entretêm-se a observar a mesa do lado, nas festas não descolam um do outro, mal abrem a boca, e não é que sejam antipáticos, partilham é um mal-estar constante perante o mundo. Prognóstico de duração: Se o mal estar é um com o outro, a relação está por um fio, se é timidez partilhada, é para a vida.

- Os pombinhos – Ainda têm aquele ar fresquinho de felizes com a vida e um com o outro. Ela chama-lhe kiducho e ele chama-lhe fofinha e isto por tudo e por nada, ‘ó kiducho passa-me aí o sal’, ‘ó fofinha como é que se chamava aquela tua tia de Alfornelos que fazia muito bem tigelada’, e não saem de cima um do outro, ele ao colo dela, ela ao colo dele, as mãozinhas eternamente dadas e aquele ar babado de quem não sabe que o resto do mundo existe. É muito irritante sair com eles porque, como vivem um para outro, tem-se sempre a sensação de que se está a mais, ou mesmo de que se está sozinha. Prognóstico de duração: Depende dos pombinhos, mas quando a coisa é demasiado melada geralmente dura o tempo que dura um pacote de açúcar.

- O engatatão e a inocente – Ele é um lobo com pele de cordeiro: dorme com todas as outras (a amiga dele, as amigas dela, a melhor amiga de ambos, a menos amiga, a prima, a patroa, a secretária, a colega, a conhecida, a quase desconhecida, a mesmo desconhecida) e trata a mulher nas palminhas. Aparentemente são um casal modelo, não fosse o pormenor de toda a gente saber das traições menos ela. Prognóstico de duração: se ele fizer bem as coisas e ela aprender a fechar os olhos, para sempre.

- Os felizes para sempre – São raros, não porque os casais felizes sejam raros mas porque os casais felizes sem que a gente tenha vontade de lhes furar as almofadas são raros. São felizes mas não alardeiam a sua felicidade, não a atiram à cara dos outros, não a exibem como um troféu. Prognóstico: Há duas hipóteses: a mais provável é que seja mesmo para sempre. Mas também pode acontecer que sejam tão felizes que um dia se possam separar docemente, sem as mágoas e as lutas que afectam os outros casais.

- Os sócios – Lembram-nos que há outros motivos para casar que não o amor e a paixão, o que nos desconcentra ligeiramente, mas vistas bem as coisas, por que não? Geralmente são um casal modelo, que não briga em público, não exige amor eterno um ao outro, e tolera escapadinhas que não ponham em causa o contrato. Prognóstico: É muito civilizado no papel, mas a verdade é que já não estamos na Idade Média e a maioria das pessoas quer mais de um casamento. Aguenta até algum deles se apaixonar de verdade por alguém: ou exigir ao outro mais sentimento do que o contrato estabeleceu.

- Os ‘Que Giros que Nós Somos’ – Escolheram-se mais porque ficavam bem ao lado um do outro do que por qualquer outra coisa. Pertencem a um mundo onde a imagem é parte do sucesso, e ambos sabiam isso quando se escolheram. Prognóstico de duração: Quando se cansarem da cara um do outro, escolhem outro bibelô.

- Os que não assumem – Vão sempre juntos para todo o lado mas não, não há nada entre ambos, juram eles, passam a vida a jurar e a aparecer juntos, andam de mãozinha dada mas são só amigos, ou pior, já vivem juntos há 30 anos e têm dois filhos mas quando se apresentam um ao outro ainda é só ‘A Ana, a minha namorada’. Não se percebe de onde lhes vem o medo do compromisso mas como a vidinha é deles e não chateiam ninguém e os amigos já se habituaram àquilo, ninguém liga. Prognóstico: Dura a vida toda.

- Os que vivem para os filhos – Nem se percebe como é que têm tempo um para o outro. Funcionam em equipa: ambos passam a vida a correr atrás das crianças, ‘Ó Madalena não se bate no Salvador, ó Tomás tire a cadeira de cima da Maria, e alguém viu a Teresinha?” Uma conversa típica com os amigos é: “Olhe, tem por acaso uma fralda nº3?”, “Sim, acho que a Pilar já não precisa delas, largou-as no mês passado”. Curiosamente, são pais despachados e pouco dados ao drama, o que é necessário quando se tem cinco filhos. Não se acham sacrificados, acham que serem pais é uma missão que têm na vida. Prognóstico: Dura até os filhos saírem de casa.

- Os sempre em crise – Nunca se sabe muito bem se estão juntos ou separados. Ora estão apaixonados ora não se podem ver, ela atira-lhe com a panela de massa à cabeça e ele sai de casa, ela pede-lhe desculpa e ele volta, ele diz-lhe que a mãe dela é insuportável e ela sai de casa, e etc. Prognóstico: Parece que podem andar nisto a vida toda, mas chega uma altura em que um deles fica pelos cabelos e a ruptura é de vez. Sai de casa batendo a porta, com a panela da massa debaixo do braço e o estômago cheio de farfalle.

- Os loucos por cães – Aqui não há crianças mas há caniches, cockers, e rafeiros daqueles irritantes com as pernitas curtas e a barriga a rasar o chão, que têm a cara da nossa tia Augusta (também sofrem do coração e têm cataratas e um dente desalinhado como ela) e ladram indignadíssimos pela noite dentro se alguém no último andar do prédio deixa cair uma colher. Quanto mais feinhos, mais digno e terno o nome: São as ‘Ladies’ e as ‘Bonecas’ para as ‘meninas’, ‘Piruças’ ou ‘Bolinha’ para os ‘meninos’. Fazem-lhes festas de anos e vestem-lhes t-shirts para cão e cozinham-lhes carne de borrego com arroz e dão-lhes bolos de chocolate que lhes fazem pessimamente. Raramente se atrevem aos Grand-Danois, quem tem Grand-Danois são os rapazes atléticos que vivem sozinhos. Prognóstico: Depende do Piruças.

- Os casados há 30 anos – Não vivem em estado de paixão mas ainda têm coisas que os unem, a rotina, o filho, os amigos. O tempo encarregou-se de arrefecer a paixão mas não foi o suficiente para arrefecer a amizade. Prognóstico: Pode acontecer que de repente um deles se canse de viver só de amizade, mas geralmente, se aguentou até aqui, aguenta o resto.

- O clandestino – Geralmente são os dois casados com outras pessoas. Deitam-se olhares pelo canto do olho, encontram-se às escondidas, vão às mesmas festas sem que ninguém se aperceba que há ali alguma coisa entre eles, e divertem-se com o jogo do gato e do rato. Prognóstico: Um deles – geralmente ela – cansa-se e encosta o outro à parede. Tudo depende do que acontece depois.

´"ACTIVA" - 2009

quarta-feira, 3 de março de 2010

A que grupo do Facebooker pertence você?

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Por Catarina Fonseca

HÁ QUEM apoie uma causa, quem ande na lavoura o dia todo e quem se dedique a angariar mais amigos. E há quem faça tudo isto. Qual é a sua ‘onda’ preferida?

- Os Apoiantes
São contra várias coisas: as touradas, o bloqueio em Cuba, o apedrejamento das afegãs, a criminalização da homossexualidade, os animais maltratados, o uso de cães como isco para tubarões e de tubarões como isco para cães, a pobreza, o cancro, as birras, ou a prisão de variados mártires à volta do mundo. Querem salvar as criaças dos pedófilos, os touros dos toureiros, as mulheres dos homens, e as empregadas da Carolina Patrocínio. Também são a favor de várias coisas, mas o que lhes faz mesmo bater o coração é ser Contra.

- Os Latifundiários
São IMENSOS! Aliás, quase toda a gente que está no Facebook tem uma quinta, e quem ainda não se converteu à reforma agrária é melgado incessantemente por todos os lados para se tornar no próximo vizinho. Quinta mais pequena ou maior, depende da dedicação e empenho do lavrador, e também da quantidade de ‘vizinhos’ dispostos a oferecer-lhes carneiros, galinhas e porcos. Enquanto os Apoiantes são uma comunidade solta, que nem sempre angariam muitos sócios para as suas causas, os Lavradores são solidários, até porque precisam uns dos outros. Ajudam-se uns aos outros desde a apanha do mirtilo (apostamos que a maioria deles nunca viu um mirtilo no seu estado natural) até à construção de um novo poço. Desunham-se a trabalhar para comprar tractores, flamingos e mega-morangos. Passam a vida a receber medalhas e prémios de ‘Melhor Lavrador à Face da Terra’. Levantam-se às 4 da manhã para regar os tomates. Encarregam os amigos mais próximos de lhes regarem a horta enquanto estão de férias (isto se forem para a floresta Amazónica entre os índios Tupi e for absolutamente impossível levar o portátil). Há esquemas no mercado negro para ganhar mais pontos. Também se fartam de acolher variados animais tresmalhados: “Uma pobre ovelha negra perdida veio parar ao celeiro de José…” Há quem já deva ter em casa exércitos de pobres ovelhas negras perdidas. Qualquer dia faz-se o Starwars 7 sobre exércitos de ovelhas-negras-clones. Não é que não pertençam a outros grupos: até podem ser imensamente dedicados a Cuba, mandar 340 beijinhos à Lindinha e apoiar a causa das geribérias amarelas, mas não há nada como um tractor pronto a estrear. Também há os que têm aquários e os que pertencem à Máfia, mas nada que se compare ao imenso ajuntamento de lavradores.

- Os Alarmistas
Vivem em permanente teoria da conspiração. Postam todos os avisos à comunidade, desde o Manual com as 356 Diferenças entre a Gripe A e a Reles Outra até àqueles avisos que dizem que se formos passear a um centro comercial com a família de um momento para o outro podem-nos chegar clorofórmio ao nariz, arrastam-nos para a casa de banho das senhoras e nunca mais ninguém sabe de nós, ou que entramos numa loja dos chineses, vamos lá ao fundo examinar as chaves de fendas em plástico de Taiwan e acordamos três dias depois em Dubrovnik sem um rim. Frases preferidas: “Sabiam que Andorra só tem um caso de gripe A?” e “Acabam de nos mandar um mail sobre a gripe, parece que em caso de espirro temos de avisar primeiro os Recursos Humanos e depois é que ligamos para a Saúde 24…”, “Ah, e as Seychelles também só tem três”.

- Os Ziriguidunzinhos
Têm um coração de ouro. Aliás, têm corações de várias espécies e feitios: de ouro, de veludo, de chocolate, com apliques, sem apliques, e mandam-nos a amigos e conhecidos sem dó nem piedade. Aliás, não mandam só corações: mandam tudo o que encontram pela frente, acompanhado de mensagens ternas:“Olá amiguinha, bom dia! Olá Luisinho, bom dia para ti também! Ó kiducha, começaste bem o fim de semana? Ó fofinho, tás pprado p mais uma manhã de trabalho? Ora toma lá um coraçãozinho! Um smile! Um vodka-limão! Uma galleta! Um chocolate! Um bombonzinho com mensagem em italiano! Um malmequer! Uma caixa de música! Ai põe-me a tocar, põe! Maria has sent you a warm hug! Sim sim! Mais abracinhos, que hoje acordei muito em baixo! Mais hugs, e kisses, e taças de champanhe, e presente por presente, já que não se paga nada, para que estamos com subtilezas, até há quem ofereça O MUNDO INTEIRO! Depois disto, que mais se pode oferecer? Há quem atire almofadas, há quem acumule beijinho atrás de beijinho como se não houvesse prá semana, há quem (Alice has just achieved 400 hearts!) seja um verdadeiro latifundiário do coração. Uuuuff!

- Os Testes-de-Ferro
Estes são os fanáticos dos testes. Inda não têm um sindicato como os do Farmville, mas para lá caminham. Geralmente, não se sabe bem como, a coisa funciona em cadeia: se alguém decide saber ‘Que tipo de Bolo de Natal seria você’ vai toda a gente atrás. Geralmente também, costuma dar a mesma coisa a toda a gente, ou haver pelo menos dois resultados ‘obtíveis’. Há testes em inglês, em francês, em espanhol, e até em sueco, para quem estiver apostado em apurar a parte direitado cérebro. Graças aos testes, descobrem coisas fantásticas todos os dias: se há fantasmas lá em casa, que tipo de gato são, que tipo de estrela de cinema, de realizador, de maluco, de sociopata, de doença, de difunção social, de série com médicos. Qual é o número que os representa, a invenção portuguesa que mais se lhes assemelha, a diva que levam dentro (pronto, este era em espanhol). A coisa pode ser levada a níveis intensos de esquizofrenia: é possível fazer um teste em sueco para descobrir que tipo de turco se é. Quem começar a ficar preocupado com o imparável galopar do vício, tem à sua disposição testes sobre… os testes! ‘Qu’est-ce qui te pousse à faire tous ces testes débiles ?’ Boa pergunta, de facto…

- Os Fantasmas
Eles estarem inscritos até estão, porque houve um amigo/namorado/marido/mulher/conhecido/desconhecido que lhes mandou uma mensagem a perguntar se queriam ser amiguinhos deles, e eles, coitados, lá disseram que sim só para o amigo/namorado/etc parar de lhes chagar a cabeça com um ‘ai mas é tão divertido! Mas anda lá! Eu depois mando-te um ziriguidunzinho! E recomendo-te a todos os meus amigos! E podes ser meu vizinho na quinta! E também lá está a prima Armindinha! E um gajo que é poeta tunisino!’ E atão pronto, eles renderam-se. Mas na prática, nunca lá põem os, eh, pés? São neuróticos que acham que a net está povoada de hackers prontos a entrarem-lhes no perfil pela calada, como as ovelhas negras da Farmville (‘Hello José, a lonely hacker has just wandered into you barn’) , para lhes destruirem os relatórios, invadirem a vida, e deixarem a conta a zeros. Também têm medo que haja por lá alguma ex-namorada que poste fotos deles com umas cuecas da Hello Kitty e uns tapa-mamilos com lantejoulas cor de rosa e uma bandelete com orelhinhas da Playboy. Mas pronto, apesar de tudo antes a bandelete das orelhinhas que a conta a zero. Resultado: ao fim de três meses no Facebook, continuam com os mesmos quatro amigos (a mãe, a mulher, a prima Armindinha e um desconhecido que achou que tinha ido com ele à Ovibeja em 1998 mas já percebeu que estava enganado). Não que eles saibam, claro…

- Os Deprimidos
Começam logo à segunda feira a postar qualquer coisa como: ai que tristeza de vida, estou para aqui abandonado e ninguém me pergunta o que é que eu tenho e tou com um ataque de tosse cheio de ranho daquele verde, de certeza que é gripe A, e mesmo que não for, estou mesmo mesmo em baixo’. A galheta anuncia-lhes catastroficamente: ‘Choramos ao nascer porque chegamos a este imenso cenário de dementes’. Não era preciso. Ele já tinha chegado lá mesmo sem ajuda. Quando lhe passam a mão pelo pêlo, ataca com citações de Fernando Pessoa do tipo ‘O dia deu em chuvoso’, e não há ziriguidunzinho que lhe anime a existência. Os testes também não ajudam: sem dó nem piedade, a bruxa do Facebook diz-lhe na cara que ele vai morrer /ter um tumor encefálico/ sofrer de artrite reumatóide até aos 97, que o seu tipo de velhinha é a Velhinha Saudosista, que o tipo de chocolate é Amargo, que o tipo de tempo é – adivinhem lá – Chuvoso. Os amigos mandam-lhe sóis, abracinhos e kisses, chocolates com sóis, abracinhos e kisses, mandam-lhe vídeos da rumba cubana, as Boswell Sisters a abanarem os folhitos no swing jazz, mais o ‘Canta Camarada’ do Zeca Afonso e o ‘Blue Sky’ do Sinatra, e nem isso o anima, nada, ‘Blue Skyyyyy, smiling at me’, e ele nada, quando muito responde com o ‘Je suis malade’ da Dalida, ou se estiver mais bem-disposto a Rita Redshoes a chilrear ‘I don’t want/ to die in a sunny day’… Suspiro…

- Os Familiares
“Estes são o Manel, a Mariana, a Madalena e o Martim Maria!, “Aqui a Mariana e o Martim Maria a correrem atrás do gato!”. “Aqui o Manel a amandar uma cadeira para cima da Madalena, que foooooofo!”. “Aqui a Mariana e o Martim Maria a tentarem atirar o gato pela janela.” “Aqui o gato a tentar assassinar a Mariana e o Martim Maria.”
“Agora uma cartinha do Paulinho dedicada à sua querida mãe.” Estes são os pais e mães babados do facebook. Uma vez mãe babada, mãe babada para sempre. Não já foto sem a Constança. Não há dia sem o Bernardo. Às vezes, o perfil deles é uma foto… das crianças. Não há posta sem um relato minucioso das gracinhas do Martim e das covinhas da Carlota. Quem não tem filhos, ataca com os sobrinhos, os enteados, ou mesmo o gato. Nada como uma criatura pequenina, fofinha, novinha em filha. Em folha.

- Os Musicais
Estes não se perdem em divagações líricas sobre o que o futuro pode trazer, que tipo de naperon português é, ou o que as nuvens de tempestade anunciam. Ataca logo de manhã com a ‘Tourada’ do Fernando Tordo, põe uns Mozzarts e uns Vivaldis para aquecer, estampa com um Chopin (mas não o concerto para violino), segue para bingo com o ‘My Funny Valentine’ (mas o do Chet Baker), atira com o ‘Ne Me Quites Pas’, não for dar-se o caso de estar a perder audiência. Depois de vir do ginásio pergunta se uma canção com o título de ‘Everytime I see you Falling’ não será uma escolha estranha para uma aula de trampolins, depois passeia pelos Brasis, que fica sempre bem gostar de Caetano (ai como é que é aquela muito machista em que ele chama cabra à mulher com todos os nomes), depois passa para o Roberto Carlos que lhe lembra uma namorada que teve em Porto Galinhas no verão de 1986 (‘se um outro cabeludo aparecer/ na tua rua) e a propósito lembra-se que a tipa o trocou pelo Válter e dedica-lhe o ‘Fuck You Very Much’ da Lily Allen (embora de facto não tenha nada a ver), e acaba às 4 da madrugada a fazer toda a gente (enfim, toda a gente que por lá pára às 4 da madrugada) chorar baba e ranho com a Audrey Hepburn no parapeito a sussurrar o ‘Moonriver’. Enfim, são vocações…

- Os Intelectuais
Levam a vida a sério: estes não estão aqui para brincar. Aliás, não estão em lado nenhum para brincar. Aliás, já não se lembram da última vez que brincaram. Rechaçam os ziriguidunzinhos, não sabem o que é um jagode, não querem saber onde vão estar daqui a 10 anos nem que personagem das ‘Mulheres Desesperadas’ é a sua, conseguem viver sem descobrir que Princesa Disney lhes corresponde e muito menos que Diva del Cine llevan dentro ou qual é o tempo (em sueco) que faz dentro da sua alma. Nunca saberão o trabalho que dá um mega-morango, nunca terão a alegria de oferecer uma faneca ao aquário de um amigo ou participar na apanha de mirtilos, e escusado será dizer que nenhuma vaca perdida há-de ir parar ao seu celeiro. Estes estão aqui para Educar o Povo e discutir o Estado da Nação. Falam da política do Sócrates, das reformas da Ferreira Leite, da dificuldade que o Obama vai ter em impor a sua visão do que deve ser um sistema nacional de saúde, e quando muito das crianças das favelas brasileiras e dos soterrados no Haiti. É uma chatice porque tem de se lhes explicar todas as graçolas. Petições, só assinam aquelas que forem para libertar mártires políticos ou candidatos ao prémio Nobel daqueles que vivem toda a vida presos e nunca hão-de poder sair nem para receber o guito a Estocolmo. Tambem estão sempre a protestar que o Facebook não é um recreio e que está tudo cada vez mais infantilizado, mas ninguém lhes liga nenhuma a não ser para lhe tentarem explicar que aquilo é suposto ser um recreio. Coisa que eles nunca vão entender porque nunca foram ao recreio em toda a sua vida, eram os que ficavam na sala de aula a rever a matéria. Coitadinhos.

- Os do Contra
São os protestantes de serviço: fartam-se de espernear contra tudo. Se a galheta do dia lhes deu ‘Do not vainly regret what is already past’ protestam, ‘Arependo-me sim senhor! Arrependo-me até ao osso! Volta, Maria José!’. Se o teste de ‘Onde é que vai estar daqui a um ano?’ lhes anunciou alegremente ‘Você vai ter um bebé!’ espanta-se (com uma certa razão) “Um bebé? Mas eu tenho 67 anos!” Os testes tiram-no do sério, o que é ainda mais estranho dado que ele não consegue deixar de os fazer. Já fez um teste em espanhol, ‘Eres adicto a los testes?’ e deu que sim, que era, pois que outra coisa, Eu, a Cinderela? Singing to rodents? A cantar para os ratos? Van Gogh? Não quero ser Van Gogh! Sou muito afeiçoado às minhas duas orelhas! Sou um Bugatti? Mas isso não é um carro um bocado gay? A Padeira de Aljubarrota? Por amor de Deus! Mas quem é que faz estes testes? Não, não devolvo o abracinho! Não quero mais sóis, que me irrita aquela cara deles cos óculos estampados. Não dou o meu coração, que tenho só um e faz-me falta! Não me peguem no braço! Não gosto que me peguem no braço! Não quero mais nada com quintas! Não me mandem mais coelhos, nem bananeiras, nem cabras, nem galinhas, e o que raio é uma ‘avocado tree’, que nunca vi nenhuma? Mas alguém me explica onde é que esta coisa se desactiva?’ Em vez da quinta o que ele queria era uma GulagVille! Uma GulagVille na Sibéria, onde seriam vizinhos de celas e mandariam jagodes uns aos outros, um GulagVille em chique, com check list e dress code, ‘José has just sent you a confinement cell and hopes for a confinement cell in return’! ‘A little lost black slave has just wandered into your prison!’ Exige que salvem as pessoas em vez dos touros, que lhe expliquem como é que se elege o Mr. Facebook que ele quer concorrer, e que a empregada da Carolina Patrocínio seja paga ao caroço.