domingo, 10 de janeiro de 2010

VINTE AMIGOS

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FOI AO CHEGAR A CASA que encontrou os bilhetes para o concerto.
Sempre a mesma coisa: compra dois, na esperança de poder cravar alguém para ir com ela, mas acaba sempre por ir sozinha, e não tem graça nenhuma ouvir música sozinha, sem poder bichanar para o lado “acho que o fagote está meio desafinado“, ou “ a tuba já precisava de ser limpa”…
Abre o computador, para ver se há correio — mas fica logo maldisposta, sempre a mesma coisa, “se não reencaminhar isto dentro de 15 segundos…”
Suspira fundo e carrega no botão para apagar aquela série de imagens que a ameaçam de terríveis fatalidades se ela não as passar para pelo menos vinte amigos.
Se não o fizer — avisam-na — há-de acontecer-lhe o mesmo que ao presidente da Argentina, a quem morreu um filho por ter quebrado a corrente.
Ela murmura “que tolice”, mas não é isso que a aborrece, até porque ela não tem filho nenhum, e tem a vaga ideia de que, na Argentina, não há UM presidente mas UMA presidente, e é suficientemente racional para saber que, se não reenviar aquela treta, não lhe vai acontecer desgraça de maior, nem ao filho que não tem, nem ao presidente da Argentina.
O que verdadeiramente a deprime, o que a põe virada do avesso, é aquela lenga-lenga do “reenviar a 20 amigos”.
Mas alguém tem 20 amigos?
Amigos mesmo, daqueles a quem se pode ligar às cinco da manhã e eles, assim que atendem, perguntam logo “precisas que vá aí?”, já com o braço a agarrar o capacete da mota?
Uma vez, ligou num fim de semana a um namorado que acabara de a deixar por outra dez anos mais velha e, apesar da voz anasalada que fabricou, e do rol de doenças que inventou para o encher de remorsos, o mais que conseguiu ouvir-lhe foi: “toma uma aspirina que eu na 2ª, se puder, telefono”.
Vinte amigos—quando a ela lhe bastava apenas um, que a acompanhasse ao CCB.
Procura na agenda, podia ser que nos últimos dias a lista tivesse aumentado sem ela ter dado por isso. Mas, do A ao Z (incluindo aquelas letras que dantes eram ilegítimas na nossa língua mas que o acordo ortográfico, como bom pai, decidira perfilhar) os resultados não foram brilhantes.
Começa a chegar-lhe a vontade de ligar para o Sr.Valdemar, que é o técnico de computadores que a salva das desgraças electrónicas, ou para o menino do call-center que lhe atura as reclamações da netcabo, ou para o atendimento da CP, “muito bom dia, fala Pedro, em que posso ajudá-la?”, e explicar que não quer ajuda nenhuma, quer só saber onde encontrar um amigo que a ature, um único, nada daquele exagero dos 20, que a corrente dos azares exige.
Toca o telefone e reconhece logo a voz aguda da mãe, a contar as habituais desgraças, a osteoporose da avó Carlota, a anemia da prima Albertina, ali não há possibilidade de fugir, nem mesmo arranjando 20 amigos para travar os perigos, e é então que de repente se ouve a dizer-lhe “quer vir comigo a um concerto?”, e a mãe espantada, porque nunca ela se lembrou de a convidar fosse para que fosse, e ela já arrependida, porque vai ser a noite inteira a ouvir recriminações, e relatos de zangas, e queixas da família, mas antes isso que ficar sentada sozinha, e será a sua boa acção de princípio de ano.
Combina a hora a que a vai buscar, e desliga o telefone. E dá consigo a olhar para o espelho e a sorrir, com a sensação estúpida de ter salvo o filho do Presidente da Argentina.

in "ACTIVA" Janeiro 2009

O QUE SE LEVA DESTA VIDA

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QUANDO NO AR COMEÇA a cheirar a Carnaval, lembro-me sempre do tio Guilherme.
Lá em casa ninguém podia falar nele.
A minha mãe tinha esse método asséptico e eficaz de matar quem a aborrecia. Não se pronunciava o nome e pronto.
Há muitos anos que não vejo o tio Guilherme, coitadinho, que sempre foi um paz de alma. A vida dá muitas voltas e vamos esquecendo as pessoas.
Mas no Carnaval lembro-me sempre dele.
- O meu irmão Guilherme morreu.
Ainda oiço a voz da minha mãe a anunciá-lo, depois de um sábado de Carnaval, exactamente no mesmo tom com que em tempos anteriores anunciara
- A prima Henriqueta morreu
ou
- A vizinha Idalina morreu
E por aí fora.
Embora miúdos, já distinguíamos que, para a minha mãe, havia mortos de primeira (com direito a flores nas jarras diante do retrato) e mortos de segunda (com direito apenas ao silêncio e a olímpicos olhares de desprezo se, por um acaso do destino, se tropeçasse neles no meio da rua)
A tia Vera, por exemplo.
Depois de muitos anos de “morta”, começámos a poder nomeá-la à vontade a partir do momento em que a minha mãe viu o seu retrato na necrologia do jornal.
- Coitada, nem era má pessoa… - murmurou.
Estando efectivamente morta, a tia Vera tinha ressuscitado para a minha mãe.
E não havia gente que a minha mãe mais amasse do que os mortos que só ressuscitavam porque ela deixava.
Mas naquele distante sábado de Carnaval, as coisas começaram logo a correr mal, quando o tio Guilherme se atrasou a chegar ao assalto.
Os “assaltos de Carnaval” em casa de amigos, conhecidos, conhecidos-de-amigos-ou-nem-isso eram a única diversão da época. As portas das casas ficavam abertas pela madrugada fora e entrava quem quisesse.
Mas é claro que tinha de haver alguém, ainda que discretamente, a ter olho no pessoal, e esse era o trabalho do tio Guilherme.
Animava os mascarados, ordenava as pessoas em fila como num comboio, e lá iam percorrendo as divisões da casa, bamboleando-se todos ao ritmo das marchas brasileiras
“o que se leva desta vida/
é o que se come, o que se bebe/
e o que se brinca, ai,ai…”
Mas naquele sábado de Carnaval o tio Guilherme não só chegara atrasado como, ainda por cima, levava a Aida a tiracolo.
Crime sem perdão: com a falta de homens que já então havia, todas as casas que abriam as suas portas para um assalto tinham por dever garantir que nenhuma menina de boas famílias (regra geral cheias de dinheiro e cheias de pelos na cara) ficaria sem par.
Atrelado à namorada, o tio Guilherme era uma baixa de peso.
Mas o pior veio no fim da festa.
Com os vapores do álcool, os ritmos brasileiros, as voltinhas pelas salas, o tio Guilherme baralhou-se e, em vez de sair com a Aida, saiu com a Vera, que estava prometida ao primo Ricardo, emigrado em França.
Nunca mais soubemos dele até ao dia em que recebemos um cartão a anunciar o casamento.
Foi nesse dia que ele morreu para a minha mãe.
E a tia Vera também.
Só que essa teve a sorte de morrer mesmo, o que, para a minha mãe equivalia a ressuscitar e a ganhar direito ao nome.
Acho que há dias vi o tio Guilherme a sair de um café. Velho e a arrastar os pés, mas sobrevivente da minha mãe e da tia Vera.
E quase jurava que o tinha ouvido cantar “o que se leva desta vida, é o que se come, é o que se bebe, é o que se brinca, ai,ai!”
Ai, ai.

in "ACTIVA" Fevereiro 2009

A PRENDA DE NATAL

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DESEMBRULHA O PRESENTE que o marido lhe deu e fica muito tempo a olhar para ele, sem saber se há-de rir se há-de chorar.
- Que raio de prenda - murmura a filha — Um papel velho numa moldura…
Ela não responde.
Dias antes tinha encontrado aquele papel, com os nomes escritos todos em maiúsculas, seguidos do nome de um objecto, livro, disco, camisola, cachecol, etc, e, no fim de tudo, Madrinha, só isso, e ela a querer desviar os olhos daquele papel e a não conseguir, e de repente a voz da mãe há 40 anos gritando “claro, esqueceste-te da Madrinha, pois olha que sem ela não eras nada, ouviste? Nada! Mas tu tens sempre muito em que pensar, já para não falar nas asneiras que andas a fazer, que eu bem sei, julgas que sou burra mas não sou!”
E ela sentindo-se a sufocar naquela casa, com as paredes cheias de quadros de gôndolas e açudes e meninos de lágrima a escorrer pela cara, onde paira a sombra da Madrinha, onde tudo se faz com o dinheiro da Madrinha, porque a Madrinha é que lhes destina a vida. E agora era tempo de Natal, e ela tinha comprado prendas para toda a gente da lista que escrevera a mando da mãe.
Para todos menos para a Madrinha, mas apenas porque estava muito cansada, mas a mãe tinha decidido implicar, e gritou, gritou, e ela disse que tinha sido apenas um esquecimento e ainda foi pior.
Ela não consegue tirar os olhos do papel e com ele regressa a voz da mãe, e ela a tentar não responder mas a mãe tinha a suprema arte de saber atingir nos pontos onde tudo doía mais, sobretudo desde que descobrira que ela se encontrava com o Carlos, “uma desavergonhada, é o que tu és, o que não diria a Madrinha se soubesse”, as palavras da mãe a rasgarem o fundo do seu coração, e para ver se a mãe se calava ela disse então uma tolice qualquer, “por que é que pendurou este quadro, mãe, é tão feio”, e de repente a mãe a apontar para o fim do corredor, “ se não gostas tens bom remédio, a porta é ali”
Quer deitar fora o papel mas não é capaz, as coisas que se guardam, meu Deus!, e por onde terá andado este papel durante estes anos todos, este papel que lhe traz a voz da mãe e depois a dela, “se é assim que quer”, ela abrindo a porta e saindo para a rua sem mais nada, mais nada a não ser aquela lista idiota cheia de nomes de pessoas para quem comprou prendas porque era tempo de natal e assim a mãe lhe tinha ordenado que fizesse.
Olha mais uma vez para o papel e só se lembra de o ter nas mãos e de não saber o que fazer, nem para onde ir — mas com a certeza absoluta de que, naquele natal, era ela que iria renascer. Noutra vida. Noutro lugar.
- Que papel é esse?
Estremeceu, não tinha dado pela entrada do marido na sala.
Entregou-lho e ele abriu os olhos de espanto:
- Tu guardaste isto?!
Ela encolheu os ombros.
- Se calhar... Nem me lembrava. Abri uma gaveta e lá estava, no meio de papelada velha…
- Caramba…Há quantos anos…Dá cá essa porcaria, que eu deito fora.
Ela hesitou em dar-lhe o papel, mas no fim entregou-lho, para que quereria ela aquilo, realmente.
- Diga lá, mãe, o que é isto? — a voz da filha a trazê-la à realidade.
Ela olha para o marido, e ouve-se, há quarenta anos, a murmurar:
- Posso ficar contigo?
A filha continua a olhar para ela.
- Isto — responde ela, finalmente, — é a prenda de Natal mais bonita que o teu pai alguma vez me deu.

in "ACTIVA" Dezembro 2008

FAMÍLIA É SEMPRE FAMÍLIA

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TINHA SIDO COMPLICADO arranjar data que conviesse a todos, mas finalmente tudo se resolvera - e os cinco casais de irmãos, irmãs, cunhados e cunhadas, pela primeira vez em 30 anos, iam ter férias em conjunto.
Era o sonho de uma vida inteira.
Áfricas, Brasis, emigrâncias tinham-nos afastado — e agora, finalmente reformados, queriam pôr a vida em dia, contar histórias, lembrar os que já tinham partido, recordar aventuras, rir em serões de janelas abertas sobre o mar, distribuir afectos e memórias.
Iam ser, pela primeira vez, uma família, daquelas felizes e despreocupadas, como nos cartazes de publicidade às companhias de seguros.
O irmão mais velho, o único a viver em Lisboa, é que tinha alugado a casa para o mês inteiro, e o reencontro foi uma alegria, pareciam miúdos de escola quando voltavam de férias e queriam contar tudo logo no primeiro intervalo.
Uma das cunhadas perguntou apenas se por acaso ali não haveria melgas, e o mais velho zangou-se, melgas?, mas ela pensava que estava no Pantanal ou quê? Não voltaram a tocar no assunto.
Ao fim do segundo dia ainda não tinham decidido quem é que fazia a comida, quem é que lavava a loiça, e como se dividiam as despesas.
“O Ricardo é um machista de primeira”, murmurou então uma das irmãs, “ nem para ir buscar uma cerveja ao frigorífico ele se levanta do sofá, palavra que não sei como a Carmo o aguenta!”
Mas ou o murmúrio não foi suficientemente murmurado, ou as paredes não eram suficientemente fortes, o resultado é que a Carmo saiu em defesa do marido, e que os das outras não eram melhores, que ela bem os via sentados à mesa enquanto todas andavam num virote a levar e trazer pratos e travessas da cozinha, ao que o dito Ricardo respondeu que já estava muito velho para mudar e, para ele, cozinha era lugar de mulherio, e fim de papo.
“Era o que faltava, que me mandassem calar na minha casa e na minha terra!”, berrou o mais velho, em jeito de anfitrião ofendido.”
“Mas quem é que mandou calar quem?”, disse a mais nova, meio conciliadora, e todos fizeram um esforço e acalmaram.
“Todos juntos, que bom!”, exclamou de novo a mais nova no dia seguinte, à mesa do pequeno almoço, “o nosso pai é que havia de gostar de nos ver!”
“O nosso pai?”, explodiu a irmã do meio, “ o nosso pai nunca gostou de nós! Só as vezes que ele me batia com aquele vime que escondia atrás da porta! Acho que ainda tenho as marcas!”
“A mim nunca me tocou!”
“Pudera, eras o queridinho, denunciavas toda a gente, ainda me lembro quando lhe foste dizer que eu tinha bebido a garrafa inteira de jeropiga, seu acusa-cristos!”
“Seu quê? Repete lá isso, repete a ver se tens coragem?”
Ela teve e repetiu e ele só não lhe foi à cara porque os outros o seguraram, “então, Zé, estamos aqui em família, tão felizes!”
Ao quarto dia houve um problema de contas de supermercado, “estás-me a acusar de meter dinheiro ao bolso, é?”, “ó Felícia mas quem é que está a dizer uma coisa dessas?”
Aguentaram cinco dias.
Fizeram as malas e cada casal foi à sua vida, prometendo todos mandar um belo cartão de Boas Festas pelo Natal.
Porque família é sempre família.

in "ACTIVA" Outubro 2008

ERRO DE CÁLCULO

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NO DIA EM QUE LAURA FEZ 60 ANOS, o marido prometeu-lhe dedicação a tempo inteiro se ela se reformasse.
Ela riu com aquela expressão tão burocrática, e ele voltou a afirmar-lhe que estava farto de a ver sair de casa de madrugada, e chegar muito tarde, farto de jantar sozinho diante da televisão, farto daquela vida que não era vida, mas que era a sua desde que atingira os 65 e deixara a empresa.
Os filhos estavam criados e já casados, ela tinha mais que tempo de serviço para ficar com a reforma por inteiro, para quê esperar?
Nesse ano, Laura deu uma grande festa.
Nunca tinha gostado de comemorar os anos – mas sempre tinha dito que, quando fizesse os 60, ia festejar mesmo a valer.
E festejou mesmo a valer.
Quase 200 pessoas, baile a preceito num palacete lisboeta, desses que se alugam para fazerem de conta que são jóias de família —quando já não há nem família nem jóias.
Convidou chefes e subordinados, ex-ministros e antigas criadas, amigos e apenas conhecidos, para mostrar como se dava bem com toda a gente, e não fazia distinção de classes.
Mas só gente para lá dos 60, numa espécie de hino de louvor à terceira idade.
De cada vez que Laura ia ao cemitério pôr flores na campa da mãe, recordava-se sempre do que ela tantas vezes lhe repetia:”cautela com os homens de meia idade! Perdem a cabeça por qualquer rabo de saias com idade para ser sua neta!”
Dançou-se até de madrugada.
A festa teve honras de várias páginas em todas as revistas, mais por causa dos ex-ministros do que propriamente pela anfitriã.
O marido tinha sido dos mais animados. Ele que, regra geral, nem era muito de danças, não tinha parado um segundo.
Cada vez que Laura olhava para ele, lá o via a rodopiar, em grande animação, sempre com Maria Teresa, uma velha amiga de liceu que ela, ainda estava para saber porquê, se lembrara de convidar.
Maria Teresa nem tinha sido das colegas mais chegadas, até porque nem andavam no mesmo ano e, nessa altura, quatro ou cinco anos a mais faziam passar Maria Teresa, sem apelo nem agravo, para o estado de adulta, quase velha.
Ao fundo da sala, a filha de Maria Teresa. Desengraçada e sem a garra da mãe. Laura nem se lembrava do nome dela, nunca a tinha visto, e, se ali estava, tinha sido apenas porque Maria Teresa lhe tinha pedido, “para depois não voltar sozinha para casa, percebes?”
De vez em quando, olhando o ar tão sério de todos os convidados, as barriguinhas proeminentes de alguns, Laura sorria e pensava nos avisos da mãe, enquanto olhava para o marido, dançando com Maria Teresa.
Maria Teresa, com mais 5 anos do que ela.
Maria Teresa, já oficialmente na terceira idade, com direito a desconto nos transportes, nos museus e nos cinemas.
Maria Teresa, velha.
Quando, algumas semanas depois, o marido lhe veio com a conversa de que estivera a pensar melhor e se calhar a reforma antecipada talvez não fosse grande ideia, habituada a sair cedo e entrar tarde todos os dias, como iria ela reagir a dias e dias sem horários nem trabalho aturado—ela não achou estranho, e até lhe deu razão.
Depois, de repente, ele começou a ser requisitado pela antiga empresa para a representar no estrangeiro, ele tinha sido um alto funcionário, por isso nada melhor do que ser ele escolhido, apesar de reformado.
“Por uma questão de prestígio”, dizia ele.
Até ao dia em que, ao folhear uma revista no cabeleireiro, Laura deu de caras com ele, há dois meses, no Baile das Flores, na Madeira, dançando com Maria Teresa.
Maria Teresa, que não tinha idade para ser neta dele.
Maria Teresa, com mais 5 anos do que ela.
Maria Teresa, velha.
O divórcio veio rápido, ainda bem que as coisas agora estavam tão facilitadas, e eles eram pessoas civilizadas.
A vida continuou como sempre.
Mas Laura nunca mais foi ao cemitério pôr flores na campa da mãe.

In “ACTIVA”, Agosto 2008

UM GRANDE HOMEM

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ABRIU O CAIXOTE e o papel de jornal começou a esfarelar-se entre os dedos. Logo ao de cima, o prato das papoilas, o primeiro que pintara. Para ele escolhe o lugar mais visível da parede da sala. E depois os outros todos. Há uma leve poeira à medida que os vai desembrulhando e pregando na parede.
Há 40 anos que sonha fazer isto, desde que, recém-casada, veio viver para Lisboa.
E tem de ser hoje, agora, enquanto espera pelo filho para o primeiro almoço de domingo sem ele.
Martela com cuidado, não quer fazer muito barulho por causa dos vizinhos, mas acaba por encher a parede. Finalmente todos os pratos que pintou estão no lugar onde sempre sonhou vê-los.
Olha para cada um deles e sente uma saudade imensa de si há quarenta anos, uma saudade do cheiro das tintas, dos pincéis, dos olhos seguindo o desenho.
Quando chegou ao casarão de Lisboa tratou de escolher um quarto para lá pôr todo o material, mas logo o marido lhe disse que nem pensasse, enquanto solteira podia divertir-se como quisesse, mas agora, mulher casada, o seu trabalho era a casa e os filhos quando viessem. E não queria palermices daquelas nas paredes, avisava já.
O marido era um homem importante. De vez em quando havia reuniões lá em casa, que se prolongavam pela madrugada fora, e a que ela, evidentemente, nunca assistia. Aparecia apenas para levar café, e para abrir a porta quando todos partiam, e via a deferência com que todos tratavam o marido. Um grande homem, o marido.
Viveu a revolução de Abril com alegria, tudo ia mudar, a liberdade tinha chegado, e ouve na rádio e na televisão, e lê nos jornais, como o marido era importante, como tinha sido um dos pilares da revolução, como tinha lutado pela democracia.
O país desdobrava-se em manifestações, mas ela continuava em casa, a voz do marido, “que é que tu lá ias fazer? Fica mas é a tratar das crianças, que as mulheres não se fizeram para a política.”
Um dia acompanhou-o numa viagem ao Brasil, a única em que ele a levou, porque iam outras mulheres de oficiais e podia parecer mal. Foi nessa viagem que comprou um vestido às ramagens verdes, amarelas e vermelhas.
O vestido que agora veste, feliz por não se ter deixado engordar, por ter o mesmo corpo de há vinte anos, quando ele lhe disse, à chegada a casa, “nem penses em vestir isso, já não tens idade para certas coisas.”
Entre as paredes da casa, os saias-e-casacos cinzentos, a comida servida a horas, foi criando o filho.
Às vezes um ou outro colega do marido ia lá jantar e dizia, “por que é que a D. Laura nunca aparece?”, e logo ele respondia por ela, “ a minha mulher tem uma casa e um filho para cuidar”, e ela sorria.
Envelheceu com os pratos embrulhados no caixote, e o vestido de ramagens ao fundo do guarda-fato.
E agora ele tinha morrido.
No enterro foi beijada e abraçada por gente que nunca tinha visto, os ramos e as palmas e as coroas nem couberam na igreja, e toda a gente a tentar confortá-la, que ao menos ficava a recordação de um homem excepcional, que tinha dedicado a vida inteira à luta pela democracia.
Ouve a campainha, e de repente a voz do filho, espantada, “ó mãe, que é que fez à parede? Quando é que comprou estes pratos todos?”
E ela encolhe os ombros e diz apenas que os tinha guardados há muito tempo.
Depois ele olha para o vestido, para as cores berrantes do vestido, e vai dizer qualquer coisa, mas acaba por não dizer, faz-lhe uma festa e murmura, “fez bem, mãe, fez muito bem em não pôr luto, é com alegria que temos de recordar o pai e, onde quer que ele esteja, tenho a certeza de que está muito feliz por vê-la assim!”
“Também tenho a certeza”, disse ela.
E sentaram-se à mesa.

in "ACTIVA" Julho 2008

MUDAR DE VIDA

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TINHA-LHE DITO que chegava às oito.
Ela teria preferido antes. Oito horas era a hora do jantar.
À uma almoçava-se; às oito jantava-se.
Quando entrara pela primeira vez naquela casa essa tinha sido uma das primeiras regras que aprendera a não quebrar.
Durante anos a sua vida tinha-se processado dentro de esquemas rigorosos, cronometrada ao segundo, dias certos para tudo, horas certas para tudo.
“Estou velho para mudanças”, tinha dito o marido antes de se casarem, para que ela não dissesse que não sabia o que a esperava.
A família tinha-a avisado: ” tudo menos casar com um viúvo!”.
Porque, explicava-lhe a mãe, “ um divorciado é diferente; se deixou a mulher é porque não tem boas lembranças dela, é porque ela lhe fez a vida negra e, com perdão da palavra, com uma cabra é muito fácil competir. Agora, um viúvo…”
Nessa altura a mãe respirava fundo, e depois explicava-lhe todas as desvantagens de casar com alguém que perdera a mulher, não interessava se há muito se há pouco tempo.
Para a mãe, que roubara descaradamente o marido a uma colega de escola sem nunca ter tido o mais leve vestígio de remorso, casar com um viúvo era coisa inaceitável.
Um viúvo era a missa todos os anos, a romagem ao cemitério, a recordação das coisas maravilhosas que tinham passado juntos, os lugares onde tinham estado, o perfume que ela usava, a maneira como passava as camisas, o tempero que punha no caldo verde.
Casar com um viúvo era casar com um homem que sofria de uma doença incurável: saudades da defunta.
E ninguém podia competir com uma morta, porque todos os mortos são perfeitos.
Ao princípio, achou que a mãe exagerava, mas acabou por lhe dar razão.
Nunca sentira como sua aquela casa velha, com um corredor enorme, quartos interiores, a luz a chegar apenas da janela da cozinha lá ao fundo.
Uma casa desconfortável, já vivida antes dela.
Como um vestido comprado em segunda mão e que lhe estivesse sempre largo.
E, pior do que tudo, o retrato da morta, com um sorriso levemente irónico, pendurado na parede do quarto, diante da cama.
Quando adormecia, a morta era o último rosto que levava nos olhos.
Quando acordava, era a primeira a anunciar-lhe o dia
Durante todos os anos que durara o seu casamento, partilhara sempre com a morta a intimidade do quarto.
Até ao dia em que o marido morreu.
Então toda a família lhe disse que tinha chegado a hora de ter finalmente uma casa sua.
--Uma casa feita à tua imagem – dissera a mãe.
Mas tinham-se passado vinte anos. Vinte anos da sua vida entre aquelas paredes, aquela loiça nos armários, aquela roupa nas arcas, aqueles retratos nas molduras.
O homem devia estar a bater à porta.
O homem que vinha combinar com ela o dia em que viria recolher os móveis, os bibelôs, as montanhas de revistas e jornais velhos, os trastes acumulados durante anos.
Olhou, impaciente, para o relógio.
Já passavam dez minutos das oito, o jantar ia ficar atrasado. Embora, para além dela, não houvesse mais ninguém à mesa. Mas rituais eram rituais.
De repente sentiu-se inquieta, como se um abismo a aguardasse e ela fosse cair nele, desamparada, e teve a certeza de não querer uma casa à sua imagem, de não saber movimentar-se dentro dela.
Como se tivesse engordado, e o vestido largo passasse a apertá-la a ponto de a sufocar.
Quando o homem chegou, pediu muita desculpa, disse que tinha havido um engano, que não queria desfazer-se de nada, que aquele tinha sido o seu mundo, e ninguém se pode separar do mundo onde lançou raízes.
Nessa noite teve a certeza de que o sorriso irónico da defunta se transformara numa sonora gargalhada.

in "ACTIVA" Junho 2008

O ANJO DE AGOSTO

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QUANDO A FOTOGRAFIA lhe veio parar às mãos, pelo meio de muitos papéis amarelecidos por muitos anos passados naquela gaveta, ela nem queria acreditar. Mas a dedicatória não oferecia dúvidas:
“À menina Geninha, no seu 10.º aniversário, envio-lhe os meus parabéns com desejos de que esta data tenha bis por muitos anos na companhia de seus Exº Padrinhos, são os desejos de Gualberto Santos (o do Saxofone)”
O estilo podia não ser muito literário, mas a letra era muito bonita, com as maiúsculas cheias de floreados, numa tinta a que os mais de 50 anos passados tinham dado um tom de azul muito claro.
Eugénia (ao tempo que não era “menina Geninha” para ninguém..) sorriu para aquele homem de meia idade , de risco ao meio, fato e gravata, de pé , as mãos agarrando um saxofone, que lhe pendia do pescoço.
E com uns olhos muito tristes.
Eugénia sempre se lembra dele com olhos tristes, tocando à noite, para animar um pouco os jantares daquele hotel das termas, onde os padrinhos passavam sempre o mês de Agosto .
Nunca se lembra de alguma vez o ter visto rir.
Nem sequer sorrir.
Exactamente como o Buster Keaton dos filmes da sua infância.
O Sr. Gualberto tocava saxofone. E o instrumento fazia de tal maneira parte de si próprio que, de cada vez que se apresentava a alguém, fosse adulto ou criança (e ele falava a uns e outros exactamente da mesma maneira), batia ligeiramente os calcanhares e murmurava:
“Gualberto Santos, o do saxofone”.
O Sr.Gualberto era o anjo da guarda das crianças naquele velho hotel das termas de Caldelas, onde as horas escorriam dolorosamente, sem nada para fazer. Eugénia ainda hoje se lembra: nem um baloiço, nem um escorrega, nada. Tudo naquele lugar era unicamente pensado para adultos muito velhos, a clientela que ali procurava remédio para todas as maleitas.
Mas o Sr.Gualberto inventava festas e jogos, sabia lengalengas e adivinhas, contava histórias como ninguém (sempre com aquele ar de sexta-feira santa...), punha os miúdos a cantar—e, de manhã à noite, andava sempre com uma multidão de catraios atrás dele.
Eugénia estremece, “meu Deus, seria que hoje isso poderia acontecer assim, com a cabeça das pessoas envenenada por tanta coisa que se lê nos jornais?” - mas afasta para bem longe esse pensamento para recordar apenas esses meses de Agosto da sua infância, com a sensação de eles nunca terem pertencido a nenhum tempo, a nenhum lugar, qualquer coisa que chegava quando Agosto chegava ,e acabava quando Agosto acabava.
O seu breve tempo de liberdade.
Depois era o regresso a casa, as zangas constantes, os castigos — e o anjo da guarda a ficar longe, muito longe, e sem poder fazer nada por ela.
Porque o seu poder exercia-se apenas naquele pequeno paraíso de Agosto, quando os padrinhos a largavam e ela podia, no breve espaço de trinta dias, ser feliz.
De repente recorda-se com grande nitidez do rosto e dos nomes das outras crianças, “Bé, Pedro, Tracy, Mitucha, Miqui, João Pedro “ que nunca mais viu, que se calhar já morreram, ou são avós, como ela.
E gostava de saber se a todas o Sr.Gualberto terá mandado uma fotografia no dia dos anos, e estupidamente espera que não, espera, mas espera mesmo, que há 50 anos ela tenha sido especial para ele.
Um dia destes há-de comprar uma moldura, a mais bonita que encontrar, para pôr a fotografia.
Como se se tratasse da fotografia do seu primeiro namorado.

in “ACTIVA”, Agosto 08

GENTE QUE ME SIRVA

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QUANDO ELA CHEGOU ao balcão do supermercado, éramos três à sua frente.
Aquele era um balcão de atendimento rápido, uma ou outra informação, a compra dos jornais, os sacos que ali se depositavam e se vinham depois buscar, e pouco mais.
Um balcão onde tudo se resolvia sem grandes demoras.
Ela sorriu, esperou alguns momentos (o tempo de a empregada fazer o troco de um jornal) e depois, em voz mansa, pediu se nós não nos importávamos de lhe ceder a vez. Tratava-se de uma emergência, dizia, de um caso complicado, ela nem gostava de pedir favores a ninguém, custava-lhe mesmo muito, mas ali tinha que ser, “as senhoras nem imaginam o que se pode passar com as pessoas, a vida dá cada volta!...”
Nós olhámos umas para as outras, e depois para a senhora, aconchegada no seu casacão de fazenda castanha com gola de pele, e que continuava a sorrir e a afirmar que se tratava mesmo de um caso de grande necessidade.
Que grande necessidade seria, isso é que nenhuma de nós conseguia descortinar, pelo menos assim à primeira vista, mas pronto, estávamos em maré de simpatia e boa vizinhança, lá concordámos e dissemos todas que sim, ela que avançasse primeiro.
Então ela dirigiu-se à empregada e, já em tom diferente daquele que usara connosco, disse:
- Preciso de alguém que venha fazer as compras comigo.
Devo dizer, antes de mais, que eu nem sonhava que houvesse esse serviço disponível nos supermercados (e ainda agora não tenho lá muito a certeza de que haja...) – mas pelo menos naquele havia.
A empregada não disse nada, olhou para a senhora também com ar de quem não percebia a urgência nem sequer a necessidade daquele pedido mas, certamente lembrada de que o cliente tem sempre razão, lá ligou para um telefone interno, assegurando depois que uma colega viria dentro de momentos.
- Que não demore muito…--murmurou a senhora. - Estou com uma certa pressa.
- Vem já – garantiu a empregada
A senhora suspirou fundo e murmurou que agora já ninguém trabalhava como devia ser, era tudo um bando de incompetentes e, para além disso, era tudo uma malandragem que até fazia impressão.
A empregada fez que não ouviu e foi atender outros clientes.
A senhora não estaria na sua primeira juventude, pois não, mas também ninguém ousaria chamar-lhe velha. Bem vestida, bem penteada, bem maquilhada, pernas, braços e mãos nos seus devidos lugares, a ver e ouvir normalmente, como ali ficara provado—por mais voltas que eu desse à minha cabeça não conseguia entender por que motivo precisava ela de acompanhante para fazer as compras.
Ela deve ter entendido o nosso silêncio e o nosso olhar meio espantado. Endireitou-se melhor e, sem sorrisos nem voz mansa, disse:
“Aqui onde me vêem, fiquem a saber que vivi sempre numa casa onde havia cinco criadas. Cin-co cri-a-das! Nunca mexi um dedo para fazer fosse o que fosse. E não era depois de velha que o ia fazer. Quando vieram estes tempos…”
E aqui hesitou, faltava-lhe um adjectivo adequado, e nós a olharmos para ela sem sabermos o que dizer, e ela a olhar para nós e com o discurso engasgado, até que, de repente, lhe volta a veia oratória e a diatribe é retomada exactamente no mesmo ponto em que a largara:
“Quando vieram estas modernices, eu disse cá para mim, há-de sempre haver gente que me sirva.”
Respirou fundo e repetiu:
”Sempre!”
Nesse momento chegou a empregada destacada para o serviço, e desapareceram ambas pelos corredores dos legumes e da fruta.
E eu fiquei ali especada junto do balcão, com uma estúpida sensação de ter assistido a um filme muito antigo, e que não acabava nada bem.

In”ACTIVA”, Março 2008

O VESTIDO DE NOIVA

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PASSOU
a mão pelo tecido.
Já o podia imaginar sobre a sua pele, o vestido a cair suavemente sobre o corpo, e as mangas a escorregarem pelos braços, a nascerem de um grande decote, como ela viu uma vez num filme.
Era um filme passado em tempos muito antigos, e a noiva era rainha, e esperava a chegada do cavaleiro que a levaria ao altar.
Já quase nem se lembra da história, de resto ela esquece sempre rapidamente a história dos filmes que vê. Mas às vezes há pequenos pormenores que a toda a gente escapam e que ela guarda para sempre. Uma frase desgarrada. Um gesto. Uma paisagem fugaz. Um vestido de noiva. Branco, com a cauda a arrastar, e duas mangas compridas a nascerem de um grande decote
Desde esse dia sempre imaginou que o seu vestido de noiva seria assim.
Estende o tecido sobre a mesa, e a cliente murmura:
-É igualzinho ao tecido do vestido de noiva da minha filha. Ficam lindas as noivas com vestidos destes.
A senhora fala como se não estivesse mais ninguém na loja.
Ela está habituada. Habituada a que as clientes nem olhem para ela, que está ali apenas para as servir. Não tarda muito, será substituída por um robot, a tecnologia pode tudo, e é muito mais eficaz, e não faz reivindicações, nem fica grávida, nem pede aumento de ordenado.
-A minha filha casou-se no Rio de Janeiro - continua a cliente, e ela a pensar que para ela bastava-lhe a igreja da sua aldeia, com uma santa que tem fama de proteger quem vem de fora para ali se casar.
- Foi lindo…A cauda do vestido a arrastar por aquela escadaria imensa…
A igreja da aldeia dela não tem escadaria, mas ela, desde que tenha o Luís a seu lado, que lhe importa a escadaria.
- Na Igreja da Penha, já ouviu falar? - continua a senhora.
Ela diz que não, e a cliente admira-se.
- Não? Mas é tão conhecida…É aquela que fica no alto de um monte e tem uma grande escadaria. Há quem diga que são 382 degraus. Eu não os contei, claro, mas custaram-me tanto a subir que eu até acho que devem ser muito mais.
Faz uma pausa e insiste:
- Nunca ouviu falar?
Ela quer ser simpática, mas a verdade é que nunca ouviu.
Então a cliente vai contando a história toda, até parece daqueles folhetos das agências de viagem, ou então aqueles que às vezes aparecem nas caixas de correio.
E ela tem pena de não conhecer, ela até vê muitas telenovelas mas em nenhuma se lembra dessa tal igreja, ou estava distraída ou então adormeceu, às vezes chega a casa tão cansada que nem aguenta chegar ao primeiro intervalo.
A cliente vai continuando as explicações:
- E então agora ainda é mais conhecida, porque o vencedor de um dos Big Brothers do Brasil foi lá pagar a promessa que fez à Senhora da Penha antes de entrar no concurso.
- Se ele ganhou, então é porque a santa faz mesmo milagres…--diz ela,para ser simpática.
Mas a cliente fica subitamente muito séria:
- O homem ganhou o concurso, é verdade, mas a minha filha, um ano depois do casamento já estava divorciada.
Ela vai responder que os santos, se calhar, nem sempre estão atentos a tudo, mas a cliente já deu meia volta, e largou a seda sobre o balcão.
Ela suspira e arruma tudo com cautela, e volta a pensar que há-de casar um dia com um vestido daquele tecido. Na igreja da sua aldeia. Sem escadaria - mas com uma santa que olha por todos.

In “ACTIVA”, Fevereiro 08

HISTÓRIA DE AMOR

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OLHO PARA TI, nem sei bem porquê, és uma mulher de meia idade igual a todas que enchem este centro comercial, mas entras no café, escolhes uma mesa ao pé de mim, também não há grande alternativa, as outras estão todas ocupadas, sacos e mais sacos a encherem cadeiras como sempre acontece nestes lugares.

Bebes rapidamente o garoto que pediste, olhas para o relógio, e vais já a levantar-te quando, de repente, uma amiga te aparece pela frente, o teu olhar espantado quando ela te agarra o braço, te enche de beijos, te obriga a sentar de novo.

Tu ainda murmuras “ia já a sair” mas ela nem ouve, ao tempo que não se encontravam, exclama, e tu olhas discretamente para o relógio, “estava só a descansar uns minutos, a minha vida é uma correria constante”, dizes, mas ela volta a não ouvir, ou então ouve mas as tuas correrias não a interessam por aí além, o que ela quer mesmo é saber que é feito de uma data de gente, e pergunta por um rol infindável de nomes, que lhes aconteceu?, estão bem?, e fulano ainda é vivo? e os teus filhos ainda estão casados?, sim porque isto, minha filha, é um casa descasa que vai por aí que a gente nunca sabe, eu já nem pergunto pelos maridos ou mulheres quando encontro alguém, digo sempre “tudo bem?”, e pronto!

Olhas desesperadamente para a porta de saída do centro, mas nem isso ela percebe, vai embalada na conversa, caramba! está mesmo contente por te ter encontrado, e tu também não lhe queres estragar a alegria.

Com algum esforço (a voz dela é muito aguda, cansa qualquer um…) vais dando notícias de todos, a que ela vai sempre contrapondo exclamações de surpresa, ah! vê lá tu !, quem diria!.

E de repente pergunta pelo teu marido, se continua a viajar muito ou se já se reformou, e tu ficas calada por alguns instantes, olhando ainda com mais insistência para a porta, para o relógio, para qualquer coisa que venha em teu auxílio, e murmuras:

- Está numa clínica. Tem Allzheimer.

Ela fica a olhar para ti, subitamente esgotadas todas as palavras, como se de repente te quisesse ver muito longe dali, como se a dor de cada sílaba fosse doença contagiosa, e tu explicas que todos os dias o vais ver, que todos os dias estás com ele todo o tempo possível, mas que ele já nem a ti conhece,

olha-te como se fosses uma estranha, e grita muito, e tu tens muita pena de não o poderes ter em casa, levá-lo para aquela clínica foi o maior desgosto da tua vida.

Dizes tudo com ar cansado, mas muito doce, e acrescentas que lhe tinhas prometido chegar hoje às quatro horas, com os chocolates de que ele gosta muito, e já vais chegar atrasada.

Ela olha para ti e murmura, um pouco para te consolar, um pouco para preencher um silêncio incómodo:

- Deixa lá, se dizes que ele já nem te conhece, também não vai saber que chegas atrasada…

E é então que tu a olhas bem nos olhos, e te levantas, decidida, da cadeira, e agarras no saco de plástico onde levas os minúsculos quadrados de chocolate preto de que ele gosta tanto, e mudas a tua voz doce para uma voz estranhamente firme, e lhe respondes:

- Não sabe ele, mas sei eu.

E sais quase a correr do centro comercial.

E eu fico a olhar para o teu rasto, com muita pena de não te conhecer e de não te poder dizer que esta foi, de certeza, uma das histórias de amor mais bonitas que me lembro de alguma vez ter ouvido.

In “ACTIVA”, Janeiro 08