sábado, 20 de fevereiro de 2010

O SR.MATEUS FOI PRESO

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

AINDA nem estou em mim. Eu e a rua toda.
O Sr. Mateus foi preso ontem.
O Sr. Mateus morava no prédio ao lado do nosso, era de poucas falas, mas dava sempre os bons dias e boas tardes quando nos encontrávamos.
Vivia sozinho, mas há dias a Rosa disse:
- Os galegos acartaram ontem com quatro caixotes para casa do Sr. Mateus. Os desgraçados suavam que nem porcos, com perdão da palavra…
- E então? — murmurou a minha mãe – os galegos não fazem outra coisa, que é que isso tem de estranho?
- O que é que tem? Tanto caixote para casa de um homem que vive sozinho?
- Se calhar mandou vir a família para viver com ele e está a arranjar a casa - disse a minha mãe.
- As mulheres é que arranjam as casas, não são os homens! Um homem sabe lá do que uma casa precisa! A senhora pergunte um dia ao Sr.Fernando que coisas é que há numa cozinha e vai ver como ele fica caladinho que nem um rato. A casa é das mulheres, e...
- E se você fechasse essa matraca? — ralhou a minha avó.
A Rosa não gosta que a mandem calar.
E enfiou-se na cozinha a cantar.
É sempre a vingança da Rosa: cantar aquilo que se ouve pelos teatros e pelos cegos das romarias, e que sabe que põe a minha avó fora de si:
- “Já mataram o rei gordo
E o magrinho também
Acabem com o que ficou
Depois liquidem a mãe!”
- Ou você se cala imediatamente ou vai já para o olho da rua! —gritou a minha avó.
A Rosa lá se calou — e também nunca mais se lembrou dos caixotes do Sr. Mateus.
Até ontem.
- Eu é que tinha razão! Tanto caixote para casa de um homem sozinho… Estava-se mesmo a ver que aquilo trazia água no bico…
Água no bico não trazia — mas trazia pólvora, cardas de sapateiro, brochas, rolhas, ferros, barbante, tudo o que era preciso para fazer bombas e granadas.
Ao que parece, não tinha sido só a Rosa a desconfiar: alguém denunciou o caso, e logo de manhã a Secreta entrou pela casa do Sr. Mateus, que nem teve tempo para esconder fosse o que fosse, e foi dali levado para os calabouços da esquadra do Caminho Novo.
- Quem havia de dizer…- murmurou a minha mãe — Numa rua tão pacata como a nossa…Ainda se fosse na Rua do Corrião…
Há muito tempo que se diz que é nessa rua que mais bombas se fabricam em Lisboa. E nestes últimos tempos quase todos os dias rebenta uma bomba na cidade. Mas tem sido sempre longe da minha casa, por isso, para falar verdade, nunca me incomodaram muito.
Mas agora foi ao meu lado.
A minha avó diz que são os republicanos.
O meu pai diz que são os anarquistas.
A minha mãe diz que se as mulheres mandassem, isto era muito diferente.
E eu fico a ouvi-los sem entender o que se passa.
Só sei que às vezes há mortos e feridos, e que as cadeias estão cheias.
Estou quase a concordar com a minha avó: se não é o fim do mundo, anda lá perto.

«JN» de 20 Fev 10

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A avó do Hitler

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Por Catarina Fonseca

ACHAM QUE a História da Humanidade seria diferente se mais avós tivessem feito o que lhes competia?

No Dia dos Avós, tenho por hábito reunir os meus quatro sobrinhos e, pronto, obrigá-los (é triste mas a palavra é essa) a fazer uns cartõezinhos para oferecer às duas avós. Cada um pode fazer o que bem lhe apetecer: desenho, poema, rabisco, texto. Felizmente ainda nenhum deles se lembrou de imitar um amigo meu, mandar um envelope vazio com uma nota a avisar: “Mando-lhe ar de Paris…”
Claro que nem sempre a coisa corre como previsto. Há dois anos, foi particularmente complicado. O Pedro estava na fase do xixi-cocó. Olhei para o desenho dele, rezando para que não lhe desse para explicar à avó Cila o que eram aquelas bolinhas a sair do (“Quem é este?” “É o Afonso Henriques.” “O Afonso Henriques? Mas porquê?”, “Porque ele quis.” “Ah. De facto, é uma boa resposta.” “E olha, ele está a fazer…” “Já sei, já percebi o que é que ele está a fazer, obrigada”, “Pela muralha abaixo!”, “Que giro”). O Diogo, então com 8, trabalhava compenetradamente. De língua de fora, escrevia escrevia. Terminou com um desenho. Uma matrona numa… mota?
“É uma avó, a senhora da mota?”
Ele levantou a cabeça e franziu o sobrolho, com ar ofendido. Suspirou levemente (aquele suspiro com que brindamos os menos inteligentes que nós) e lá explicou: “É a avó do Hitler.”
Engoli em seco. Estava-me a ver a apresentar o cartão a alguma das avós: de um lado, o Afonso Henriques a desfazer-se em diarreia pela muralha abaixo, do outro a avó… do Hitler.
Ele defendeu-se: “Então, até ele havia de ter avó, ou não?”
Meditei por um momento. Os meus conhecimentos de História mundial não se alargavam à avó do Hitler. “E como é que lhe chamaste?”
Ele franziu o sobrolho novamente mas lá respondeu: “Helga.”
Bem, pelo menos não era Conceição. Helga. E tinha uma Harley Davidson, pelos vistos. E duas pistolas. E pelo que pude ler na legenda, estava a mandar o neto para o seu próprio campo de concentração.
Ele estava contente com a obra. “Tá fixe, não tá?”
“Não achas melhor” tentei eu, “fazer agora outro cartão para a outra avó?”
Ele encolheu os ombros. Rezei para que não saísse dali a avó do Mussolini. Do General Franco. Do Estaline ( Estava mesmo a ver. A avó Olga, a mandar o neto para os gulags da Sibéria). E o Salazar, teria avó?
Toda eu me preparava para o AVC quando peguei no segundo cartão. Um pacato cavaleiro de espadinha mais uma pacata dama com saia de balão.
“São os avós de quem?” inda arrisquei (Pedro o Grande? Ivan o Terrível?).
Ele olhou-me como se estivesse a gozar com ele.
“Não são avós de ninguém! São príncipes! Não querias uma coisa mais à avó? Fiz-te uma coisa mais à avó! As avós gostam de princesas!”
Bem, resta acrescentar que a avó Alice acabou a rir até às lágrimas quando se apanhou frente a frente com a avó do Hitler (inda lá está em lugar de honra na prateleira da sala) e a avó Cila adorou os príncipes. Eu fiquei a pensar. De facto, toda a gente teve uma avó. Ou não? Será que o Hitler foi o Hitler porque não teve uma avó? Se tivesse uma avó Helga, teria sido pacatamente Herr Schicklgruber toda a vida? E onde estavam as avós de Mussolini, Franco e Estaline, quando se precisou delas?
Não pensei mais. Para quê? Há coisas que são tão verdade que não servem para nada.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

JÁ VOLTEI AO COLÉGIO

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

JÁ VOLTEI ao colégio.
A minha mãe obrigou-me a vestir todos os casacos que encontrou no roupeiro, e não descansou enquanto não me enfiou pela cabeça abaixo um boné de fazenda aos quadrados castanhos e pretos.
Fico horrível de boné.

Mas a minha mãe diz que aquele é a última moda em bonés, que o meu pai tem um igualzinho, comprado no Old England.
A minha mãe vai à abertura da estação do Old England, na Rua Augusta, como outras pessoas vão à abertura da temporada no São Carlos: enfia um vestido verde que só usa em ocasiões especiais, mitenes, e um chapelinho em cima dos bandós.

A Rosa arranja a mesa da casa de jantar, com pratinhos de bolachas Marselhesa e um bule de chá de tília, para ela se sentir mais reconfortada no regresso — não esquecendo a garrafinha de Anisette, porque não há nada como um cálice de licor para uma pessoa ter alma nova.
Então, quando regressa das compras, senta-se à mesa, com ar de imensa felicidade, e murmura, como se recitasse:

- “Toda a elegância se curva diante do rei da elegância”.

(Acho que é assim que vem nos anúncios dos jornais)
E depois de uns minutos de silêncio, acrescenta:

- A loja merece bem o reclame.

E ataca as bolachinhas. E o licor.
Mas isto não quer dizer que o meu boné não seja horrível.
Então lá fui até ao colégio, subi a Rua das Pedras Negras, sempre com esta chuva miudinha que não há meio de parar.
Lá se passou o tempo, pelo meio das regras-de-3, juros e quebrados, e as declinações do latim, e o “D. Jayme” que é preciso saber de cor e nunca mais me entra na cabeça.
Com o meu antigo professor, tudo era diferente.
Lembro-me que um dia saímos da escola com ele, subimos até à Travessa do Almada e depois ele apontou para uma parede e disse:

- Quem é capaz de ler o que aqui está?

Ficámos a olhar para ele, sem entender, era uma parede como outra qualquer, com umas placas muito velhas lá pelo meio.
Ele fez-nos olhar muito bem para elas e disse que eram lápides, e o que de mais antigo restava em Lisboa do tempo dos romanos.
Depois leu o que lá estava escrito em latim.
Já não me lembro de tudo, claro. Mas lembro-me de o ouvir dizer “Felicitas Júlia”, e de ele nos explicar que era aquele o nome da cidade de Lisboa no tempo de Júlio César.

De cada vez que passo por ali, lembro-me sempre do meu professor.
Chamava-se Manuel Buíça.
Há dois anos, naquele dia em que eu vinha da rua Augusta com a minha avó, ele pegou numa carabina e matou o rei. E logo de seguida alguém o matou a ele.

Mas hoje não quero pensar nisso.
Hoje recordo apenas a sua voz a dizer “Felicitas Júlia”
E volto a correr para casa.
Pode ser que a Rosa me dê bolachas Marselhesa e um copo de água chalada.
Acho que só mesmo com muita água chalada é que consigo engolir o “D. Jayme”.

«JN» de 13 Fev 10

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

OVELHA NEGRA

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Por Catarina Fonseca

DIGAM-ME LÁ: em que é que Marte desalinhado com Vénus pode influenciar a minha vida, a não ser que venha vertiginosamente na direcção da terra, caso em que também já não haveria muito a fazer?

Sabem a que distância está Marte? Pode atingir 378 milhões de quilómetros! Em 2004 atingiu a distância mínima de 56 milhões. Estivemos, em resumo, quase lá. Bastava um dedinho esticado e tocávamos em Marte.

Aconteceu alguma coisa aos Carneiros como eu? Nada. Népia.
Outra coisa que me chateia é que, quando tento desconverter alguém, olham-me com ar pesaroso de quem viu a Luz e rematam sempre:

“É típico dos Carneiros. Não acreditam em nada.”

Chateia-me ser descrente, porque a vida para um descrente é dura. E o que mais me dói é que, sendo descrente, nunca consigo passar um horóscopo sem meter o nariz.
Aliás, mais do que meter o nariz, leio tudo de fio a pavio. Leio os Carneiros, leio outra vez os Carneiros (o meu ascendente também é carneiro, uma desgraça nunca vem só), depois leio os Balanças, porque um bruxo me disse uma vez que fui Balança numa outra vida (também fui lavadeira de caravelas, mas isso agora não interessa nada) , e depois leio Virgens e Escorpiões e Capricórnios a eito, porque mais vale estar preparada para qualquer eventualidade.
Saio sempre desconsolada.
Nunca encontrei um horóscopo que me dissesse preto no branco “Minha Filha! É agora! Levanta esses cornos com orgulho porque vais encontrar o Homem da Tua Vida!”
Ou: “Carneiros de todo o mundo, uni-vos: o Euromilhões vai ser vosso, em vez de ir parar ao velhinho de Odivelas do costume que vai herdar 20 milhões sem dar dois euros à AMI!”
Não.
Dizem-me coisas incompreensíveis, tipo “A sua energia vai estar em alta”, ou “a sua capacidade para entender os outros estará mais apurada”, ou “a sua intuição estará mais desenvolvida”.
Quero lá saber!
Não quero energia em alta, que me pode dar um AVC!
Não quero entender os outros quando eles querem ser inentendíveis!
E que raio quer dizer que a minha intuição vai estar desenvolvida? Algo me diz que não significa “vais encontrar o George Clooney — esperem lá, que tenho a redacção a uivar-me para, por amor de Deus, dar outro exemplo que o Clooney já enjoa, o, sei lá, o Jude Law não, que tem pestanas de menina, o Brad é quase avô, o Daniel Craig está na moda, mas parece que lhe deu uma cólica renal, pronto, o, como é que ele se chama, o “Dr. House”. Nada me diz “vais encontrar o Hugh Laurie no Oeiras Parque e ele vai-te injectar epinefrina até pedires misericórdia de joelhos!”

Não. Tenho de me contentar com a intuição.
Em resumo: não acredito, mas ainda não perdi a esperança de um dia acreditar. De um dia acordar e ver Marte pela janela e de ele me dizer “alevanta-te e anda!”.
Ou coisa do género.

(Activa, Janeiro 2009)

sábado, 6 de fevereiro de 2010

QUANDO MATARAM O REI

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

A GRIPE NÃO HÁ MEIO de passar, já não suporto a canja, já não suporto estar deitado — mesmo que o meu pai me deixe ler o Texas Jack, coisa que ele só admite quando me vê doente.
Confesso que me dá um certo ânimo seguir aquelas aventuras no terrível Desfiladeiro dos Mochos, onde Texas Jack está sempre em risco de ser vítima dos sinistros bandidos que atacavam as mala-postas — mas não chega para baixar a febre.

Cá em casa o ambiente não é dos melhores: a minha avó foi à Sé assistir às exéquias por alma de D. Carlos e D. Luís Filipe, e o meu pai ainda não se recompôs do choque.
No ano passado ela tinha feito a mesma coisa mas, depois de uma conversa no escritório, tinha-lhe prometido não voltar a fazê-lo.
Por isso o meu pai nem queria acreditar quando a viu chegar a casa, partilhando a tipóia da vizinha de baixo — que, tal como eu previa, ainda não tirou as tarjetas negras das molduras dos dois mortos. Só não me importei de ter perdido a aposta com a minha mãe porque, mesmo que a tivesse ganho, não teria podido assistir ao salto mortal no Coliseu por causa da gripe.
Mas o meu pai diz que saltos mortais é o que não vai faltar nos próximos tempos. Às vezes o meu pai tem uma maneira estranha de falar. Deve ser de ler muito.

A verdade é que, mesmo não sendo talassa como a vizinha de baixo, acho que ainda não me recompus daquele dia de Fevereiro em que mataram o rei, fez esta semana dois anos.
A minha avó tinha decidido ir comprar-me um fato na Casa Africana, para a festa de casamento da filha de uma amiga.

Lembro-me de ter barafustado, detestava ir com a minha avó à Baixa, mas não tive outro remédio. Quando eu às vezes digo “eu não quero”, logo toda gente grita:”o menino não tem quereres”.

O meu pai ainda hoje está convencido de que a minha avó só quis ir à Baixa naquele dia porque sabia que os reis iam chegar ao Terreiro do Paço, vindos de Vila Viçosa, e aproveitava para assistir à chegada e ao desfile das carruagens até às Necessidades.
Ela nega, e diz que tudo não passou de um acaso do destino.

Fosse como fosse, tínhamos já descido a Rua Augusta quando rebentou a confusão.
Só me lembro de ouvir tiros, fuzilaria, de ver gente a correr de um lado para o outro, e gritos, muitos gritos, “mataram o rei!”, e ninguém se entendia, e depois alguém disse que o príncipe herdeiro também tinha sido morto, e que o outro ficara ferido, e havia sangue por toda a parte, e lembro-me de ver ao longe um ramo de flores nas mãos da rainha, com que ela batia aos que atacavam a carruagem, e a minha avó puxava-me pelo braço, empurrava-me —e ainda estou para saber como chegámos a casa, com ela sempre a gritar “é o fim do mundo, é o fim do mundo!”
No meio da confusão, perdeu-se o meu fato.
Mas também não houve casamento, que o tempo não vai para festas.

«JN» de 6 Fev 10

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A MINHA INFÂNCIA NA REVOLUÇÃO

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Por Catarina Fonseca

HÁ DIAS ENCONTREI um caderno do tempo em que era artista.
Até aos 4 anos a coisa corria normalmente: havia uma família de aranhiços que era suposto ser a minha, evoluindo depois para umas borboletas, umas casas, umas noivas, uns príncipes e princesas em variadas fazes da sua existência.

Aos 4 anos, tudo acaba: há páginas e páginas de monstros com couves-flores espetadas e uns gajos às manchas com chapéus esquisitos e penas nos bonés.
Segundo me explicaram depois, eram chaimites, cravos e soldados.

O mais estranho é que eu nunca tinha visto uma chaimite, nem um soldado, e cravos só na praça, porque no dia da revolução tinha ficado em casa da minha avó, dentro do armário, a mascarar-me com estolas, diamantes falsos e luvas até ao cotovelo, tudo do tempo em que a família era burguesa e ainda não estava desperta para os amanhãs que cantam.
Uma infância na revolução podia ser divertida, mas na altura eu não sabia. Só sabia que a minha amiga Teresa tinha uma Barbie com fatinhos de noiva, de hospedeira e de dona de casa, e sapatinhos que passávamos a vida a perder e encontrar nos lugares mais estranhos.

Eu tinha a Olga, que não era noiva, nem hospedeira, e muito menos dona de casa, valha-nos São Lenine : era do meu tamanho e loira-nazi, embora tivesse vindo da URSS trancada no porão a deitar hálitos de tundra pelas narinas, e não se podia vesti-la e despi-la porque ela calçava para aí o 43, e quando eu acordava de noite conseguia ouvi-la a dar ordens à KGB no escuro.
Noite sim noite sim havia comício.

Era o equivalente a uma overdose de Festa do Avante arraçada de feira popular, mas não tinha carrosséis de gonzos mal oleados nem teias de aranha sobre esqueletos de plástico verde incandescente nem o Manolito a arriscar a vida no poço da morte na mota a fazer tracatracatraca cada vez mais depressa à volta do poço e à volta da morte, mas tinha uns gajos a gritar coisas incompreensíveis e a esticar o punho.
Um tipo barbudo apareceu-me certa vez e rosnou, visivelmente preocupado:

“Então, camarada, ainda de chucha?!”

De vez em quando também havia catecismo para nós, os pequeninos. Lembro-me de uma peça de teatro com uns pintainhos amorosos, em que vinha um pintainho amoroso e dizia para outro pintaínho amoroso:

“Olá, vens da clandestinidade?”

Para grande desgosto da família, nem eu nem o meu irmão parecíamos devidamente revolucionários. Ainda se falou em irmos para os Pioneiros. Perguntei de que cor era o lenço. Olharam para mim como se eu tivesse perguntado de que cor era o cavalo branco de D. José, e algo me disse que a resposta não ia ser: “cor de rosa”.
O meu pai suspirou, e pôs-me no ballet.
Foi o fim da minha carreira na revolução.
Mas não se perdeu tudo: pelo menos, havia fotos do Bolshoi no meu quarto. Não era o busto do Lenine, mas sempre era um bocado da mãe-Rússia.

(Activa, Abril de 2009)

sábado, 30 de janeiro de 2010

ESTOU COM GRIPE…

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910"

DESDE O PRINCÍPIO do mês que há temporais no país inteiro.
Aqui por Lisboa nem se sente tanto, mas no Porto o rio subiu que parecia o mar, com os barcos rabelos a chocarem uns nos outros, e o vapor “Cintra” a naufragar na barra.

No Ribatejo também as coisas estiveram muito feias — e há dias até fui com a minha mãe ao Salão Central, ver um documentário sobre “As Últimas Inundações do Tejo em Santarém”.
Não sei se foi por causa disso, ou pela chuva que não pára de cair, fiquei de cama com gripe, e com uma dor de garganta que não passa, por mais zaragatoas que me façam. Odeio aquele sabor do mercurocromo embebido no algodão, e estou sempre com medo de engolir o pincel, mas a minha avó diz que ainda não se inventou outro remédio.

O meu pai diz que, se isto não passar, vai ter de chamar o Dr. António José, que é quem nos trata a todos, ou então leva¬-me ao consultório, no Largo de Camões.
Mas parece que o Dr. António José ultimamente tem andado muito ocupado — e não é a ver doentes…

- Se houver justiça neste mundo e esta corja for ao ar …
(“Então, Fernando!, olha o menino!”, exclama a minha mãe, que não gosta de o ouvir usar esta linguagem)
- …o Dr. António José ainda há-de ser Presidente da República.
- Vá de retro Satanás! — grita logo a minha avó-- Não me diga que ainda quer mais mortos!
- Eu não quero mortos, senhora minha sogra — responde o meu pai -- mas há alturas na vida em que até a violência se explica… Se olharmos para este país tão atrasado, para esta miséria, para a exploração nas fábricas, para as prisões que se enchem de dirigentes políticos (como o Dr. António José…) enquanto os ladrões andam cá fora a roubar e a assaltar casas, se pensarmos nos desgraçados obrigados a emigrar, se olharmos para todo este povo que não sabe ler, que…
- Chega, meu genro! O senhor não está num comício da Av. Rainha D. Amélia! – diz ela e acaba-se o discurso.

O meu pai diz que ainda não perdeu a esperança de a converter aos ideais republicanos, mas que é preciso ir com calma.
A Rosa, que é a nossa criada e tem uma secreta paixão pelo Dr. António José (e que se recusa a acreditar que ele vai casar dentro de dias) diz que o meu pai está cheio de razão, ela bem sabe o que ouve na Praça da Figueira quando lá vai às compras.

- Inda agora me disseram que a Giraldinha voltou a atacar — diz ela.

A minha mãe está sempre a dizer à Rosa que tenha muito cuidado ao abrir a porta, e só deixe entrar quem ela conhece. Ao que diz o “Século”, a Giraldinha faz-se passar por amiga da família, e depois rouba tudo a que pode deitar a mão.
A Rosa tem um particular ódio à Giraldinha porque, para lá de em tempos ter sido criada, também se chama Rosa.

- Há coisas muito injustas… - suspira ela, antes de se enfiar pela cozinha para tratar da minha canja.

«JN» de 30 Jan 10

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A INFIDELIDADE SINTÉTICA

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Por Catarina Fonseca

DESCULPEM LÁ: qual é a mulher que tem tempo para ser infiel?
Um homem, pronto, depois de um extenuante dia de trabalho tem duas hipóteses: ou é infiel ou faz um blogue, às vezes as duas coisas ao mesmo tempo.
Agora nós?

Vamos ser infiéis quando? Pomos a criança a dormir abraçadinha ao Ruca e dizemos: ”aguenta aí caladinho que a mamã vai ali ser infiel e já volta”?

Programamos o microondas para dali a meia hora e quando a coisa apita dizemos “ai ó Luis Miguel pára lá com isso que tenho de ir servir o jantar”?

Encaixamos a loiça na máquina e vamos lá acima ter um caso com o Paulinho do 5.º esquerdo enquanto as powerballs superdesengordurantes 3-em-1 tentam ferrar os dentes nos restos da feijoada da prataria?
E se fosse só o tempo, inda se dava um jeitinho.
Mas com quem?

Já dá uma trabalheira tão grande encontrar algum espécime a quem valha a pena ser fiel, quanto mais um sobresselente.
Os homens ainda se percebe, porque mulheres com quem vale a pena trair as outras são ao pontapé.
Mas nós?

Vamos ser infiéis com quem, se ainda por cima eles são todos iguais, mais bigode menos bigode?
Ainda por cima, trair em termos dá uma trabalheira tão grande que às tantas começamos a pensar que, em vez de pôr a peruca loira e irmos para o Íbis dizer que nos chamamos Soraia Marlene, valia mais a pena ficar em casa a ver a “Música no Coração”.

Solução: se os homens não valem a pena, aprendi neste número da revista Activa que ainda nos restam os bonecos.
Claro que há o pormenor desagradável de nos tornarem imediatamente psicopatas, mas o que é isso ao pé das suas vantagens: não refilam se mudamos de canal a meio do jogo, nunca nos dizem que a mãezinha deles é que fazia bem pastéis de bacalhau, e não ressonam.
É verdade que não se levantam se o bebé chora, não têm uma conversa por aí além, e não lavam o chão da casa de banho, mas qual é a diferença entre isso e a vida normal?

Uma vez em que estive entre a vida e a morte, uma amiga minha apareceu-me no hospital com o Joca ao ombro. O Joca é um cavalheiro em tamanho natural, com cabeça de esferovite, olhos pintados como os do Tutankamon, bigode de cabelo verdadeiro, ténis de algum sem-abrigo e boné de beisebol.
Ficou sentado na cama ao lado da minha a fulminar quem entrava.
As enfermeiras faziam visitas guiadas para o verem, e enganavam-se a espetar-me a agulha na veia porque os olhos aterrados escorregavam-lhes sempre para o Joca.
Inda esperei que funcionasse como remédio anti-carjacking e andei com ele uns tempos ao meu lado no carro. Mas acabei por tirá-lo, porque só vinham turistas tirar-me fotografias para provar como Portugal estava povoado de cromos e, além disso, ninguém quer “jackar” um calhambeque que já assistiu ao Euro 94.
Hoje o Joca está sentado a um canto, como um avô caquético.
A minha sobrinha mais nova tem um medo dele que se pela. Passa de lado e olha-o de revés, como se esperasse que ele lhe saltasse para a espinha a qualquer momento.
Às vezes diz-me:
“O Joca tem o boné nos olhos”
Com ar reprovador, como se eu não tratasse bem o meu marido.
Pode estar descansada. Não me passa pela cabeça trair o Joca.
Psicopata inda vá; infiel é que não.

(Activa, Setembro 2008)

sábado, 23 de janeiro de 2010

O MEU SONHO ERA VER O COURAÇADO

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910"

A PRIMEIRA COISA que o meu pai me disse, depois de ter lido o que aqui escrevi, foi:

- Nunca te esqueças da data. Sem ela, nunca saberás quando as coisas aconteceram. E temos de saber situar tudo no seu tempo.

Eu pensava que o meu pai não ia ler este diário. Sempre achei que um diário era uma espécie de caixa dos nossos segredos.
Mas ontem ele passou-me para as mãos um livro, e disse:

- Lê isto. Gostava que um dia, ao terminares o teu caderno, ele tivesse uma história parecida com esta.

Nunca tinha visto este livro. Não era de Camilo, nem de Alexandre Herculano, nem de nenhum nome que eu conhecesse. Também não era de Júlio Verne, de quem eu gosto quase tanto como do Texas Jack.

Chama-se “CORAÇÃO”.

Pensei: o meu pai quer que eu seja médico, e já está a preparar-me.
Mas não era nada disso.
É um diário, escrito por um rapaz italiano da minha idade, chamado Henrique. Fala da família, da escola, dos colegas, dos mestres. E aqui, se não fosse o meu pai estar sempre a repetir que um homem não chora, eu teria chorado. Leio: ”lembro-me tanto do meu antigo mestre e do seu sorriso bom”.Eu também me lembro muito do meu antigo mestre, e do colégio na Rua das Pedras Negras, aonde nunca mais voltei.
E pelo meio do que Henrique escreve, há anotações do pai dele. Por isso não vou estranhar que o meu faça o mesmo.

Mas hoje, confesso que não me apetecem grandes leituras : acaba de entrar no Tejo uma esquadra francesa, e o meu sonho era visitar o couraçado “Saint Louis”! Tem quatro canhões grandes e dez mais pequenos.
Parece que o rei vai lá amanhã, e o almirante até lhe oferece um almoço.
O meu pai diz que o rei não faz outra coisa senão viajar, e visitar primos por essa Europa, e passar revista a quartéis, e entrar em barcos, e ir a almoços, e que não é assim que isto lá vai.
Quando o meu pai não a ouve, a minha mãe sai em defesa de D. Manuel:

- Não passa de uma criança…
- Tem 20 anos! Catorze tenho eu e já fico ofendido quando me chamam criança! — digo eu.
- Mas tu não és rei — diz ela.

E com essa é que ela me mata.
A minha mãe diz muitas vezes que a culpa é mais dos que rodeiam os reis do que propriamente dos reis.

- Desculpas…- resmunga o meu pai.

Apesar de tudo, a minha mãe não é talassa furiosa, como a vizinha de baixo, que ainda não retirou as tarjas negras das molduras com as fotografias de D. Carlos e de D. Luis Filipe. A minha mãe apostou comigo uma ida ao Coliseu em como elas as vão retirar daqui a 15 dias, quando fizer dois anos que eles foram mortos. Eu cá apostei que não as vão retirar nunca.
Mas Deus queira que o luto cá em baixo acabe - porque me está mesmo a apetecer ir ver o salto mortal que dizem que o Levy Jenochio vai fazer lá do alto da cúpula!

Razão tem a minha avó quando diz que isto só pode ser o fim do mundo…

«JN» de 23 Jan 10

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

“ EU NÃO SABIA QUEM ERA…”

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910"
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CHAMO-ME José Joaquim, e fiz ontem 14 anos.
O meu pai chamou-me ao escritório e ofereceu-me um livro de capa de couro castanha.
Folheei-o.
Todas as páginas estavam em branco.
- E a história? — perguntei.
Ele sorriu, diante do meu olhar de espanto, e disse:
- A história és tu que a vais escrever. E tenho a certeza de que vai ser uma grande história…
Na capa, em letras douradas, lia-se:

“O MEU DIÁRIO”

O meu pai disse então que eu devia assentar nele tudo o que fosse importante na minha vida.
E depois, com aquele ar grave que ele põe sempre quando me chama ao escritório, abriu um livro e leu:
- “Era eu um rapaz de 14 anos, e não sabia quem era”…
Olhou para mim e acrescentou:
- É assim que Camilo Castelo Branco começa o seu folhetim “Mistérios de Lisboa”.

O meu pai gosta muito dos livros de Camilo Castelo Branco.
Eu cá, para falar verdade, gostar, o que se chama gostar, gosto das aventuras do Texas Jack, que se compram a 60 reis no quiosque da esquina.
Mas não disse nada.
Olhei para o meu pai e esperei.
- Também tu tens 14 anos. Também tu ainda não saberás quem és. Escrever este diário vai ajudar-te.
Abriu a caixa das mortalhas, e começou a enrolar um cigarro--sinal de que a conversa acabara ali.
Agradeci – e agora aqui estou, debruçado sobre o meu diário, tentando escrever o melhor que posso, nesta letra inglesa ,inclinada e certa, que o meu mestre me ensinou no colégio.
Escrevo devagar, cuidadosamente, não apenas para que o aparo não deixe cair nenhum borrão que inutilize a página, mas também porque assim tenho tempo de pôr as ideias em ordem.
“Tudo o que for importante na tua vida” — tinha dito o meu pai.
Mas tenho medo que a palavra “importante” tenha um significado para mim, e outro, muito diferente, para ele.

Claro que me lembro de coisas muito importantes: do dia em que mataram El-Rei e o Príncipe, da confusão por toda a parte, da fuzilaria, dos mortos, da multidão desorientada, da minha mãe só a perguntar “mas por onde andará o teu pai?”, da minha avó aos gritos “é o fim do mundo! eu sempre disse que vinha aí o fim do mundo!”, dos boatos que se ouviam de janela para janela, do quiosque a cerrar os taipais antes da hora, e eu só a pensar “nunca mais vou ler o Texas Jack!”
Hoje tenho muita vergonha de ter pensado nisso. Sobretudo quando me lembro dos mortos todos, dos presos, do meu mestre desaparecido para sempre, do ar cada vez mais sério do meu pai, do medo da minha mãe de cada vez que se ouve um tiro na rua.
O “fim do mundo” — e eu a pensar no Texas Jack.
Só posso encontrar uma desculpa: nessa altura eu tinha 12 anos, ainda não sabia quem era.

O meu pai tem razão: escrever aqui vai ensinar-me a descobrir muita coisa.
Vai ser melhor que os folhetins do Camilo.

«JN» de 16 Jan 10

domingo, 10 de janeiro de 2010

A PRIMEIRA MALA

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UM AMIGO há dias disse-me:
- Nunca percebi por que andas sempre com malas tão pesadas… De resto, é estranho que só vocês é que usam esses alforges, carregadíssimos, como se transportassem o mundo aos ombros… Nós… tudo nos cabe dentro dos bolsos.
Claro que isto daria para um tratado sociológico, as malas das mulheres, as malas dos homens, o mundo aos nossos ombros, etc, etc, mas não é este o lugar nem esta a hora.
De qualquer modo, fiquei a olhar para a minha (para mim) normalíssima carteira— e a pensar nas malas.
Malas mesmo.
Das que se levam quando se vai para longe.
E as coisas que cabem nas nossas malas!...
Objectos, lembranças, recordações de gente que fomos encontrando ao longo desta (mais ou menos) longa viagem que é a nossa vida, colecções que às vezes os outros consideram meio tontas e que vamos fazendo ao longo dos tempos: a minha amiga Margarida, por exemplo, quando vem a Portugal, traz a mala cheia de folhas secas do Outono de Oxford, onde vive, para me dar. E donde quer que eu vá, trago sempre pedras dentro da mala para a minha enorme colecção…
(Quando vim de Timor ia-me dando mal, porque as pedras lindíssimas que eu tinha apanhado nas areias da praia de Liquiçá - eram fósseis, ninguém as podia trazer… Mas pronto, eu trouxe, muito escondidas, e garanto que estão em lugar de honra cá em casa…)
Mas voltando às malas, nunca me esqueço da primeira vez que fiz uma mala.
Uma mala verdadeira.
Uma mala só minha.
Não aquelas malas que são apenas sacos ou mochilas e que os miúdos fazem quando acompanham os pais para férias, e eles berram:
- Vai fazer a tua mala! Se estás à espera que eu a faça, bem podes esperar…
E eles têm de pensar se levam o pijama e mais a escova de dentes, e mais a t-shirt cheia de caveiras, e mais a outra a escorrer sangue de vampiro…
Não.
Nada disso.
Aquela era uma mala a sério.
Uma mala de quem ia partir e não sabia quando voltava.
Nem se voltava.
Havia muito pouca coisa realmente importante que eu quisesse levar.
A vida, e a casa, e as pessoas que eu ia deixar não me tinham dado motivos para saudades, e eu não queria levar comigo nada que não fosse realmente essencial.
Sobretudo não queria nada que as recordasse — como se eu quisesse renascer, num lugar diferente, entre gente diferente.
Claro, as coisas do dia a dia, o que se veste, o que se calça, mas essas coisas, ainda hoje, não ocupam muito espaço nas minhas malas.
Eu tinha nessa altura pouco mais de 20 anos.
Quer dizer: estávamos, praticamente, na pré-história…
Era um tempo em que não havia telemóveis, nem iPOD, nem MP3, nem computador, nem sequer ainda — pasmem bem! — CD´s… Os discos eram uma coisa redonda de vinil, era preciso maquinetas grandes para os tocar.
Hoje leva-se no bolso toda a música que se quiser.
Hoje teclamos uns algarismos e falamos com o mundo inteiro.
Naquele tempo, quando se viajava, ficava-se mesmo separado do mundo.
Por isso eu queria levar comigo, dentro da mala, qualquer coisa que me permitisse matar as saudades que acabariam por chegar.
Qualquer coisa que levasse consigo um bocadinho do meu país.
E enfiei na mala um livro de poesia do Herberto Hélder.
“A Colher na Boca”.
Era um volume de capa branca, apenas com as letras do título ao meio — ou assim eu o recordo, à distância destes anos todos. Não me lembro, confesso, do nome da editora.
E posso dizer que aqueles poemas foram a minha salvação.
Aí eu entendi como a língua cria laços que muito dificilmente se apagam.
E como as palavras nos prendem, e nos ajudam a sobreviver.
Sozinha, no meu minúsculo quarto da Rue Cujas, em Paris, nem sempre os dias eram fáceis.
As chamadas de telefone eram caras, tinha de ir ao correio para as fazer — e convinha marcar com antecedência, dava o número e o nome da pessoa com quem queria falar, pois , se não o fizesse, a pessoa podia não estar em casa, e gastava-se uma chamada em vão.
Era mesmo, mesmo a pré-história…
Eu, que nunca fui de decorar muita coisa, (a não ser o nome das serras, e dos rios, e das linhas de caminho de ferro que na escola nos obrigavam a recitar, com mais unção do que se se tratasse do Pai Nosso…) sabia naquela altura – e ainda sei hoje - muitas estrofes de cor.
Lembro-me de repetir
“toda a juventude é vingativa
deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura”
Ou então
“não sei como dizer-te
que a minha voz te procura”

Assim, versos desgarrados, porque os poemas eram muito longos, falavam muito de mulheres, e de água, e de sangue, e de peixes, e eu lia-os e relia-os porque aquela era a minha língua, e enquanto eu a pudesse falar, o país estava dentro de mim e não me abandonava.
Lembro-me que nos dias em que eu chegava ao quarto sem ter pronunciado uma única palavra de português naquelas horas todas — eu corria a abrir o livro, e a ler o primeiro poema que aparecia, em voz alta, sempre em voz alta — para ter a ilusão de companhia, e para me sentir em território meu.
Só nessa altura entendi como se podia ter dolorosas saudades de falar a nossa língua.
Só nessa altura percebi o significado verdadeiro de “língua-mãe”.
Depois o tempo passou, a vida deu muitas voltas, e eu fiz a mala e regressei.
Mas não trouxe o livro: alguém, que ia lá ficar, precisava dele muito mais do que eu.

in "AUDÁCIA" Janeiro 2010

O TRICOT

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ABRIU A JANELA na manhã daquele domingo de Janeiro, suspirou fundo e murmurou:
“Desta vez é que vai ser”
A filha tinha acabado de se arranjar, pronta para o ritual dos almoços de domingo, quando ela lhe descobriu um piercing na língua e uma tatuagem a meio do pescoço.
Engoliu em seco e repetiu:
“Desta vez é que vai ser”
Desde miúda que sente sempre que os primeiros dias de Janeiro são mágicos, porque tudo pode acontecer.
A irmã ria-se dela.
A irmã ria de tudo, parecia viver noutro mundo.
Mesmo as coisas difíceis de suportar (os ralhos do pai, agora a morte da mãe, a deixá-la sozinha; os namorados que apareciam e desapareciam da sua vida) era como se não lhe tocassem: sentava-se no sofá, e tricotava o dia inteiro.
Desde muito nova que era assim.
A mãe ralhava, o pai ralhava, os namorados ralhavam — e ela corria a enfiar-se no sofá a fazer malha.
Ela fora sempre muito diferente da irmã, se gritavam ela gritava também, respondia sempre, não se ficava.
Mas ainda continuava a pensar em Janeiro como num tempo de promessas cumpridas, de novos planos postos em prática.
Por isso logo nos primeiros dias do ano limpava a casa com um vigor renovado, deitava fora baldes e baldes de lixo acumulado, respirava outro ar.
Mas havia rituais a que não podia fugir.
Quando há dois meses a mãe morrera, pensou que o ritual dos almoços de domingo morrera com ela. Os silenciosos almoços de domingo que acabavam, inevitavelmente, com o marido aos berros assim que entravam em casa, e a filha a berrar ainda mais.
Mas logo a irmã avisara que tudo ia ser como dantes, e que ninguém se lembrasse de faltar.
A irmã tinha uma maneira subtil de os fazer rebentar de remorsos, quando murmurava, entre dois sorrisos, “ a mãe não ia gostar nada…”
Então lá iam todos, cada um sonhando estar noutro lugar, com outras pessoas, falando de outras coisas.
À uma hora em ponto a terrina da sopa vinha para a mesa e o silêncio era geral.
“À mesa não se conversa”, tinha sido sempre a filosofia dos pais. Por isso os silenciosos almoços de domingo eram um suplício, que só terminava quando a irmã se levantava da mesa e começava a tricotar — e cada um podia ir à sua vida.
“Que seca…”murmurava a filha, vestida de preto dos pés à cabeça, a viver o seu período gótico.
(No primeiro domingo a seguir ao enterro, a irmã olhara para a miúda e ficara imenso tempo abraçada a ela a fazer-lhe festas no emaranhado do cabelo, pensando que o preto era a expressão do seu desgosto pela morte da avó, e ninguém teve coragem de a desiludir)
“Estou a ficar sem pachorra nenhuma para estas fantochadas”, murmurava o marido, desfazendo finalmente o nó da gravata.
“Tu nunca tiveste pachorra para nada…”, respondia ela.
Era o rastilho. E logo começava a zaragata, ela a dizer coisas que até nem queria, ele a dizer coisas que até nem pensava, a filha a ameaçar tipo bazar dali rapidamente, se aquela cena tipo não acabasse.
Hoje lá vão todos de novo, em romaria.
E ela tem a certeza de que o regresso a casa vai ser complicado, porque o marido ainda não descobriu o piercing nem a tatuagem da miúda e, quando descobrir, a discussão vai ser das valentes. Discussão em casa, evidentemente, porque a irmã não permite coisas dessas lá em casa, “a mãe não ia gostar nada”.
Suspira fundo mais uma vez, antes de fechar a janela.
“Desta vez é que vai ser…”, murmura.
Desta vez é que se vai encher de coragem e pedir à irmã que a ensine a fazer malha.

in "ACTIVA" Janeiro 2010

O COPO DE VIDRO AZUL

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AINDA NEM ESTAVA em mim, palavra! , e o pior era as pessoas pensarem que eu devia ter enlouquecido.
“Mas o que é que lhe passou pela cabeça para fazer um chinfrim destes?”— eu olhava para a cara da Laurinda e estava a frase lá estampada.
Mas olhava sobretudo para a cara dele, sobrolho franzido e exclamando “era só um traste velho!”
O copo de vidro azul em cacos.
O copo de vidro azul, onde ninguém a não ser eu mexia – em cacos.
Perguntei-lhe por que é que tinha mexido no copo e ele riu e disse que eu só podia estar maluca, que aquele copo devia ser a coisa mais velha que havia lá em casa, e além disso era o que estava à mão, qual o mal ?
Pronto, tinha-lhe escorregado dos dedos e tinha-se partido, mas em qualquer loja dos chineses havia montes de copos iguais àquele, com cinco euros eu comprava para aí meia dúzia. E de certeza melhores.
Olhei para ele e não acreditei.
O meu homem, o homem pelo qual há 30 anos eu tinha fugido de casa, o homem com quem partilhara as melhores horas da minha vida, o homem que era meu marido e me devia conhecer por dentro e por fora — o meu homem olhava para aquele copo e dizia “era um traste!”
O copo de vidro azul tinha 30 anos.
É raro um copo de vidro barato durar tanto—mas eu tinha-o colocado numa prateleira alta, onde ninguém facilmente chegava.
Era um copo para se olhar para ele, não para se beber nele. E ia durar—pensava eu—para sempre.
Apanhei os bocados de vidro enquanto aos meus ouvidos chegava, lá de muito, muito longe, a voz dele num dia em que olhara para mim e perguntara:
-E agora?
Tínhamos rido muito, na despreocupação dos 20 anos, “alguma coisa se há-de arranjar, trabalhamos ambos, à fome não morremos”
“A minha casa é um cubículo”, disse ele, e eu respondi que era magra, em qualquer lado me encaixava, e rimos outra vez, e outra vez ele disse “nem sequer há pratos ou copos para dois”, e mais uma gargalhada, “lojas é que não faltam”.
E no dia seguinte ele chegou a casa e disse “já não falta tudo”, e entregou-me um embrulho atamancado em papel de jornal, daquele que ainda sujava muito as mãos.
“Foi o que se pôde arranjar, “ disse, “o dinheiro é pouco”.
Era um copo barato de vidro azul.
A primeira prenda, no primeiro dia de uma vida a dois.
O copo de vidro azul — trinta anos depois, em cacos no chão da cozinha.
Estou a pensar nisso tudo quando a Laurinda me avisa que vieram entregar uma encomenda para mim, e que é preciso assinar um papel.
Digo-lhe que deve ser engano, não estou à espera de encomenda nenhuma, mas ela quase me empurra até à entrada, e diz que o homem está à porta, com um caixote que diz “frágil” e com um envelope com o meu nome escrito e a morada certa.
Faço um rabisco qualquer e abro o envelope:
“Ao menos estes são de cristal…Espero que cheguem para pagar essa porcaria que parti…”
Durante muito tempo fiquei a olhar para o caixote, sem o abrir.
Durante muito tempo fiquei a pensar no que verdadeiramente se tinha partido para sempre no exacto momento em que se partira o copo de vidro azul.
E chorei a tarde inteira.

in "ACTIVA" Dezembro 2009

QUINZE ANOS

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SENTA-SE NO CADEIRÃO da sala e estende as pernas para que o sol que vem da janela as cubra.
Está na praia, tem 15 anos e espera que chegue o homem da vida dela, que também tem 15 anos, e passa o verão de calções e chinelas, e ri muito, e promete que nunca há-de pôr uma gravata, e há-de amá-la até ao fim da vida, e hão-de ter muitos filhos, e ao jantar há-de vir para a mesa uma grande terrina de sopa, e ela há-de distribuí-la por todos, sorridente e a cheirar a alfazema.
Tem 15 anos, e a certeza absoluta de que há-de ter sempre 15 anos, e que nunca há-de ser igual à mãe, que cheira a óleo de fritar batatas e anda sempre de avental.
Tem 15 anos, está de férias e acabou de ler “Brigitte Solteira, Brigitte Casada”, onde as mulheres amam muito os maridos, e os maridos amam muito as mulheres, e os pais amam muito os filhos, e os filhos amam muito os pais, e os amigos amam muito os amigos, e todos juntos amam muito Deus e a pátria.
E ela sonha em ter uma vida assim, sobretudo quando o pai chega a casa e grita com a mãe, e a mãe grita com o pai, e depois chamam-na e fazem dela intermediária de brigas que ela não conhece, “ó Teresa, diz aí à tua mãe”, “ó Teresa diz aí ao teu pai” e é então que ela jura que nunca há-de ser assim.
As pessoas não entendem por que é que os pais não se separam, sempre em brigas, mas quando ouve isso a mãe põe ar grave e diz que, na família dela, casamento é para sempre.
Mas agora ela não quer pensar nisso, agora quer apenas ter 15 anos, apanhar todo o sol do mundo, e sonhar com o dia em que o homem da vida dela, que também nunca há-de ter mais de 15 anos, entre em casa a cheirar a “Cuir de Russie”, que ela não sabe o que é mas que no livro é aquilo a que cheira Olivier, o namorado da Brigitte, que há-de ser seu marido e amá-la (e também aos filhos, aos amigos, a Deus e à Pátria) até à morte.
E jura, com toda a força, que nunca há-se ser igual à mãe, que há-de ter sempre todo o tempo do mundo para os filhos, e há-de compreendê-los, e eles vão crescer e amá-la sempre muito, como a Brigitte e o Olivier amam as respectivas mães, e todos os domingos virão a sua casa almoçar, e a terrina com a sopa há-de estar no meio da mesa, e ela a cheirar a alfazema
Estende as pernas e repete, sorrindo, “ tenho 15 anos, hei-de ter sempre 15 anos, e nunca serei igual a ela, nunca, nunca”
De repente estremece com o som da porta da rua que se abre.
“Fartei-me de ligar mas não atendeste, por isso tive de cá vir”.
Ela olha para o telemóvel que regista 5 chamadas não atendidas. É o que dá sonhar ao sol.
“O meu advogado quer saber quando pode falar com o teu”, diz ele.
“Quando quiser”, diz ela e, de repente, sorri porque, com aquele calor, ele vem de blazer e gravata, deve ter tido uma reunião importante.
“Disse alguma graça?”, pergunta ele, mal-humorado, num tom que o Olivier nunca usaria
Ela encolhe os ombros e não responde
Ele larga as chaves em cima da mesa, “aproveito para as devolver, não faz sentido nenhum ficar com elas”, e sai.
Ela volta a estender as pernas para apanhar o sol que ainda resta.
Tem 15 anos, há-de ter sempre, sempre 15 anos.
O mal é que o homem da vida dela afinal andou sempre mascarado, e já devia ter nascido com 50.
E, evidentemente, nunca leu “Brigitte Solteira, Brigitte Casada”.

in "ACTIVA" Setembro 2009

O CHEIRO DA ÁGUA

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EVA DETESTA o verão.
Só por isso aceitou o convite do filho para passar com eles o mês de Agosto. A casa tem paredes grossas que protegem do calor, e às vezes corre uma brisa no pátio.
Mas hoje nem isso.
“Quando era pequena, Agosto cheirava a água quente”, diz, e todos riem, e a neta exclama “ó avó, mas a água não tem cheiro”, e o neto, que é o génio da família, começa a papaguear o que lhe ensinaram na escola, “a água é inodora, incolor” e mais outra coisa de que ele já não se lembra.
E ela sorri porque eles são todos muito novos e ainda não viveram tempo suficiente para saberem que tudo, absolutamente tudo, tem cheiro. Sobretudo a água quente.
Normalmente todos se riem sempre que ela fala de quando era nova, e de como só reconhece as coisas pelo cheiro, e logo o neto volta a atacar, porque também já lhe ensinaram na escola que a isso se chama faro, e só os cães é que têm, e todos voltam a rir e a gabar a sabedoria da criança.
Não tem posição na cadeira, a lona cola-se-lhe às pernas, precisa urgentemente de vento e aspirina.
E mais uma vez a cabeça lhe rebenta com lembranças de um tempo que ela prometeu apagar da sua vida - o vapor da água espalhando-se pela casa inteira, escorrendo das paredes, abafando o ar, misturando-se na voz da tia, insistindo em que o banho devia ser de imersão, senão não era banho não era nada.
O cheiro da água a cair na banheira quando elas voltavam da praia é a recordação mais forte dos verões da sua infância – e a velha Emília a queixar-se sempre das correrias , das gritarias , “ai minha senhora, as meninas cada vez dão mais trabalho, e eu já estou velha para aguentar isto!”
O banho, de água tão quente que às vezes a pele ardia por causa do sal. Primeiro ela, a mais velha; depois as irmãs – e sempre a presença da tia, que superintendia tudo, como um general a dar ordens aos seus homens.
Em Agosto, a mãe e o pai viajavam. O calor atacava, a tia instalava-se lá em casa--e, durante um mês, era como se vivessem numa casa desconhecida.
“Onde é que já se viu pôr os remédios na cozinha!”, berrava a tia, diante das aspirinas e dos benurons e dos xaropes espalhados pelas prateleiras do armário, “isto é um perigo! “, exclamava, enquanto levava tudo para o armário da casa de banho, cheio de champôs e lacas e sabonetes que, por sua vez, por suas mãos passavam para o roupeiro do corredor, donde era retirada a loiça dos domingos (“loiça num roupeiro, oh meu Deus!”) que iria misturar-se no armário da casa de jantar com a que servia nos dias de semana.
Emília não dizia nada, não se desobedece à tia dos patrões, mas abanava a cabeça e suspirava fundo, porque sabia que ia sobrar para ela: assim que eles voltassem, todos os objectos regressavam aos lugares habituais, donde o mês de Agosto os exilara, como se também eles tivessem direito a férias.
Eva precisa mesmo de aspirina.
A nora diz-lhe que há uma caixa no armário da cozinha e, de repente, ela vai mesmo a exclamar “mas onde é que já se viu…”, mas trava a tempo, o calor está a dar-lhe cabo da cabeça, sacode todos esses pensamentos para muito, muito longe, com medo de um dia destes, sem querer, começar a chamar por Emília, ou a falar com voz de general a dar ordens aos seus homens.

in "ACTIVA" Agosto 2009

CONTA CORRENTE

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ANA OLHA PARA O ÉCRAN e a imagem dele enche a casa.
Quer desviar os olhos mas não consegue.
Pega no comando para desligar, mas é como se a mão estivesse presa e ela no meio de uma daquelas séries de bruxas e génios do mal que abundam na programação.
Nem ouve as perguntas que lhe fazem. Vê-o só a ele, o cheiro a colónia que deve pairar naquele estúdio, a pose decerto encenada em casa, a voz que os muitos maços de cigarros ao longo dos anos foram enrouquecendo.
A jornalista sorri, reverente, é sempre bom mostrar respeito diante de uma figura pública, mesmo que o programa seja de futilidades e a figura pública, que sempre se recusou falar da sua vida privada, agora olhe para as câmaras numa operação de charme que Ana não entende.
E depois passam uma reportagem feita na casa nova, a casa escolhida pela Bé, como ele não se cansa de repetir, e a Bé a aparecer ao fundo do corredor, e ele pendurando-se no braço dela, e a mostrar a mesa onde escreve os livros,” todos dedicados à Bé, evidentemente”, os quadros da parede, “escolhidos pela Bé, que percebe imenso de pintura”, a música que ouve, “em conjunto com a Bé, que está muito mais a par destas coisas ”, o cão que lhe salta para o colo, “trazido pela Bé, que o encontrou à nossa porta”.
Ana sorri.
Ele sempre fora alérgico a cães.
Uma tarde um rafeiro atravessara-se no seu caminho—e ele esteve a espirrar a tarde inteira.
Entretanto a reportagem acabara e estava-se de novo no estúdio. “Toda a minha vida esperei pela Bé”, murmura ele.
E Ana não percebe como um homem tão inteligente pode fazer figuras tão tristes diante de milhares de pessoas, e ouve-o dizer que só com a Bé encontrou um sentido para a vida, que antes da Bé nada teve importância.
-Devo-lhe tudo, absolutamente tudo - repete ele.
É então que Ana tem uma fúria.
Não pelo facto de ele ter apagado 25 anos da sua vida; não pelo facto de a Bé ter idade para ser sua neta e ele se ter casado com ela de papel passado e tudo, coisa que nunca julgou importante fazer com ela; não por ele ter saído de casa uma tarde sem a avisar de que não iria voltar. Por nada disso.
Aquele “devo-lhe tudo” é que a fez rebentar.
Pega num papel e numa esferográfica (ele deve ter levado a máquina de calcular, há muito tempo ela não a encontra), e enquanto ele se desfaz em sorrisos e baboseiras diante das câmaras, Ana vai somando parcelas e mais parcelas, de rendas de casa, de água, gás, luz, electricidade, eTv Cabo, das compras ao fim do mês, dos cinemas ao sábado, das resmas de papel e depois do portátil e da impressora e dos tinteiros, e das termas nas férias por causa das alergias, e da assinatura do “Magazine Littéraire”-- porque durante anos ele só viveu para a sua escrita, mas a fama e o dinheiro tardavam a chegar, e foi Ana que andou com a vida para a frente.
E as parcelas vão surgindo de todos os recantos da memória, e Ana vai somando tudo, e multiplicando tudo por muitos meses, e por muitos anos, e começa a rir, a fazer contas e a rir, com aquele riso que só a muita raiva dá.
Quando as contas ficarem prontas, Ana vai mandar tudo para casa dele.
Para que ele veja que afinal nem tudo deve à Bé.
Pelo menos alguma coisa ainda lhe deve a ela.

in "ACTIVA" Julho 2009

TREZE TERÇAS-FEIRAS

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SE NÃO FOSSE a insistência de Cláudia, nunca Helena se teria metido naquela aventura das terças-feiras.
Mas Cláudia garantira que o santo, depois daquele sacrifício, nunca falhava.
Ao princípio até se divertiu, Helena gostava de ir à Baixa, de meter o nariz naquelas lojas de balcão de madeira, todas a cheirarem a sabonete Nally e a benzovac, que era aquilo com que se tiravam as nódoas em casa da avó.
- Vais ver como resulta. É tiro e queda — repetia Cláudia.
Cláudia era muito devota de Santo António e, embora já tivesse desistido do casamento (“já não tenho paciência para aturar homens”) não desistia de interceder pelas amigas, assegurando que a novena, feita em 13 terças-feiras seguidas, era remédio infalível. Quer dizer: era marido garantido.
Então, todas as terças feiras Helena saia de casa e encontrava-se com Cláudia numa pastelaria que servia croissants espectaculares.
- Será que não estamos a cometer o pecado da gula? – perguntou na primeira terça feira.
Cláudia riu e disse que não era preciso exagerar, já não se estava nos jejuns da Idade Média.
Depois de engolidas as últimas migalhas, e de Cláudia acenar a um senhor de fato escuro sentado junto à janela (“é um verdadeiro cavalheiro, há dias eu não tinha troco e pagou-me a bica”) entravam na Igreja e faziam a novena.
Nas primeiras terças-feiras Helena ainda achou graça, sobretudo à convicção de Cláudia:
- Podes ter a certeza, depois destas treze semanas em honra de Santo António, o homem da tua vida bate-te à porta.
Mas depois chegou a uma altura em que já começou a baralhar as semanas, teriam passado sete?, ou seriam já dez?, ou não passariam de cinco? Devia ter tomado nota, mas fiara-se em Cláudia e agora tem a impressão de que já há muito ultrapassou o tempo previsto, e que Cláudia está a fazer render o peixe, que é como quem diz, o santo.
Mas Cláudia não desiste: as terças feiras são sagradas, os croissants na pastelaria, o senhor de fato castanho a sorrir, a pequena igreja onde o santo morava, o responso que tinha de ser repetido para que tudo resultasse, e Helena, mesmo meio baralhada, a pôr naquelas palavras toda a fé que tinha e sobretudo a que não tinha.
E agora está ali na pastelaria, porque Cláudia lhe pediu que chegasse mais cedo, tinha uma coisa para lhe contar.
Mas pelos vistos Cláudia atrasou-se, e se calhar vão chegar tarde à novena, e se calhar depois o efeito perde-se. Para dizer a verdade, ao fim destas semanas todas Helena ainda não sentiu efeito nenhum, mas Cláudia garante que o santo não falha.
Está a acabar o croissant quando Cláudia entra, afogueada.
-Hoje não dá para ir contigo!
Helena nem acredita. Cláudia vai faltar à novena? Vai trair o santo? Ou será que as treze semanas já acabaram? E, se acabaram, que é do marido que lhe prometeram, prontinho a usar?
-O Henrique quer ir comigo ver uma casa e…
Helena não sabe quem é o Henrique, Helena não está a perceber nada, até que, olhando pela janela, descobre, no passeio da rua, o senhor de fato castanho, acenando-lhe.
-Olha, aconteceu…- murmurou Cláudia, rindo--Ainda nem percebi como…Depois conto com mais pormenores.
Cláudia sai, o senhor de fato castanho dá-lhe o braço (“é um verdadeiro cavalheiro”) e volta a acenar a Helena.
Que fica com ar de parva a olhar para a porta, a saia cheia de migalhas de croissant, e a estúpida sensação de ter entrado na anedota errada.

in "ACTIVA" Junho de 2009

A VIDA NO SEU AUGE

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- SE TU soubesses o que é a minha vida…
Abraça-me e tira o casaco, porque faz muito calor, e eu procuro abafar uma vontade irresistível de rir, até porque sei que nunca nos devemos rir de conversas que começam desta maneira — e sobretudo porque também sei que ela tem razão…
- Se tu soubesses como é bom estar aqui sozinha contigo, e eles todos no futebol!
Sozinha, enfim, era uma força de expressão, só com enorme boa vontade (ou num qualquer exercício literário…) é que uma pessoa se pode considerar sozinha num sábado à tarde no Colombo.
Ela tinha-os largado no estádio e, com um toque de telemóvel, conseguira comover-me, e arrastar-me da tranquilidade de minha casa para um local de que não sou, confesso, grande frequentadora.
E agora ali estamos as duas.
- Largaste-os no estádio? - admiro-me.
- Claro. Não suporto futebol, mas se isso os faz felizes a eles, ainda bem. È da maneira que tenho uns minutos de sossego…
E lá me vai explicando o que são as correrias das suas manhãs, levantar às sete, acordar toda a gente, tornar a acordar toda a gente porque há sempre um que resiste a sair da cama, e ela sabe que basta um atraso de cinco minutos para a manhã ficar toda engatada .E depois o pequeno-almoço.
E depois as mochilas, que nunca estão prontas.
E depois os casacos, que nunca estão no sítio.
E depois os sapatos, cada um para seu lado.
Sorrio e, em toda a minha inocência, proponho apanharmos o metro, são só três estações até minha casa, que tal passarmos uma tarde tranquila, na conversa, víamos um filme, o jogo ainda agora começou, temos mais que tempo, e…
Ela nem me deixa continuar. Sacode a cabeleira loira e exclama:

- Para casa? Estás a gozar comigo, com certeza... Vamos mas é para as compras!”
E arrasta-me vertiginosamente pelo meio daqueles corredores circulares por onde me perco sempre mas ela não, e vai falando em marcas que eu não conheço mas ela sim.
E entra e escolhe calças e tops e t-shirts e blusões, e enfia-se pelos gabinetes de provas das lojas, e despe-se e veste-se, e torna a despir-se e torna a vestir-se, e chama-me para uma opinião, às vezes só para me dizer “olha como fico gira!” — porque, no meio daquela vertigem toda, ela não perde a cabeça, sabe muito bem gerir o seu dinheiro, não faz compras inúteis ou extravagantes, mesmo que os saldos a possam provocar.
- O que eu quero é experimentar a roupa! - diz-me - adoro entrar nos gabinetes para experimentar roupa!
E depois da roupa é a vez das perfumarias, e abre todos os “testers”, e cheira, e chocalha, aqui não dá para provar mais do que isso.
De repente abranda.
Fico aliviada, porque, para dizer a verdade, já sinto a cabeça ligeiramente a andar à roda, deve ser daqueles corredores concêntricos, e ela também parece cansada.
- Estou cheia de fome! — exclama - as compras fazem-me sempre muita fome!
Enquanto eu estou a pensar onde é que se pode ir lanchar, já ela me arrasta pelas escadas rolantes, “anda que eu sei um sítio óptimo!” , e em menos de um minuto estamos abancadas a uma mesa.
Eu - com o meu café curto.
Ela — com três enormes bolas de gelado, de nomes estranhíssimos, que tentam equilibrar-se num cone gigantesco.
Atira-se depois para uma cadeira ao meu lado, olha para a cadeira em frente e suspira:
- Três sacos de compras e um gelado…A isto chamo eu a vida no seu auge!
Tenho muita vontade de rir, confesso, mas limito-me a olhar para ela.
Acho que nunca na minha vida vi tamanha expressão de bem-aventurança na cara de uma miúda de 13 anos.

In “ACTIVA”, Março 2009

VINTE AMIGOS

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FOI AO CHEGAR A CASA que encontrou os bilhetes para o concerto.
Sempre a mesma coisa: compra dois, na esperança de poder cravar alguém para ir com ela, mas acaba sempre por ir sozinha, e não tem graça nenhuma ouvir música sozinha, sem poder bichanar para o lado “acho que o fagote está meio desafinado“, ou “ a tuba já precisava de ser limpa”…
Abre o computador, para ver se há correio — mas fica logo maldisposta, sempre a mesma coisa, “se não reencaminhar isto dentro de 15 segundos…”
Suspira fundo e carrega no botão para apagar aquela série de imagens que a ameaçam de terríveis fatalidades se ela não as passar para pelo menos vinte amigos.
Se não o fizer — avisam-na — há-de acontecer-lhe o mesmo que ao presidente da Argentina, a quem morreu um filho por ter quebrado a corrente.
Ela murmura “que tolice”, mas não é isso que a aborrece, até porque ela não tem filho nenhum, e tem a vaga ideia de que, na Argentina, não há UM presidente mas UMA presidente, e é suficientemente racional para saber que, se não reenviar aquela treta, não lhe vai acontecer desgraça de maior, nem ao filho que não tem, nem ao presidente da Argentina.
O que verdadeiramente a deprime, o que a põe virada do avesso, é aquela lenga-lenga do “reenviar a 20 amigos”.
Mas alguém tem 20 amigos?
Amigos mesmo, daqueles a quem se pode ligar às cinco da manhã e eles, assim que atendem, perguntam logo “precisas que vá aí?”, já com o braço a agarrar o capacete da mota?
Uma vez, ligou num fim de semana a um namorado que acabara de a deixar por outra dez anos mais velha e, apesar da voz anasalada que fabricou, e do rol de doenças que inventou para o encher de remorsos, o mais que conseguiu ouvir-lhe foi: “toma uma aspirina que eu na 2ª, se puder, telefono”.
Vinte amigos—quando a ela lhe bastava apenas um, que a acompanhasse ao CCB.
Procura na agenda, podia ser que nos últimos dias a lista tivesse aumentado sem ela ter dado por isso. Mas, do A ao Z (incluindo aquelas letras que dantes eram ilegítimas na nossa língua mas que o acordo ortográfico, como bom pai, decidira perfilhar) os resultados não foram brilhantes.
Começa a chegar-lhe a vontade de ligar para o Sr.Valdemar, que é o técnico de computadores que a salva das desgraças electrónicas, ou para o menino do call-center que lhe atura as reclamações da netcabo, ou para o atendimento da CP, “muito bom dia, fala Pedro, em que posso ajudá-la?”, e explicar que não quer ajuda nenhuma, quer só saber onde encontrar um amigo que a ature, um único, nada daquele exagero dos 20, que a corrente dos azares exige.
Toca o telefone e reconhece logo a voz aguda da mãe, a contar as habituais desgraças, a osteoporose da avó Carlota, a anemia da prima Albertina, ali não há possibilidade de fugir, nem mesmo arranjando 20 amigos para travar os perigos, e é então que de repente se ouve a dizer-lhe “quer vir comigo a um concerto?”, e a mãe espantada, porque nunca ela se lembrou de a convidar fosse para que fosse, e ela já arrependida, porque vai ser a noite inteira a ouvir recriminações, e relatos de zangas, e queixas da família, mas antes isso que ficar sentada sozinha, e será a sua boa acção de princípio de ano.
Combina a hora a que a vai buscar, e desliga o telefone. E dá consigo a olhar para o espelho e a sorrir, com a sensação estúpida de ter salvo o filho do Presidente da Argentina.

in "ACTIVA" Janeiro 2009

O QUE SE LEVA DESTA VIDA

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QUANDO NO AR COMEÇA a cheirar a Carnaval, lembro-me sempre do tio Guilherme.
Lá em casa ninguém podia falar nele.
A minha mãe tinha esse método asséptico e eficaz de matar quem a aborrecia. Não se pronunciava o nome e pronto.
Há muitos anos que não vejo o tio Guilherme, coitadinho, que sempre foi um paz de alma. A vida dá muitas voltas e vamos esquecendo as pessoas.
Mas no Carnaval lembro-me sempre dele.
- O meu irmão Guilherme morreu.
Ainda oiço a voz da minha mãe a anunciá-lo, depois de um sábado de Carnaval, exactamente no mesmo tom com que em tempos anteriores anunciara
- A prima Henriqueta morreu
ou
- A vizinha Idalina morreu
E por aí fora.
Embora miúdos, já distinguíamos que, para a minha mãe, havia mortos de primeira (com direito a flores nas jarras diante do retrato) e mortos de segunda (com direito apenas ao silêncio e a olímpicos olhares de desprezo se, por um acaso do destino, se tropeçasse neles no meio da rua)
A tia Vera, por exemplo.
Depois de muitos anos de “morta”, começámos a poder nomeá-la à vontade a partir do momento em que a minha mãe viu o seu retrato na necrologia do jornal.
- Coitada, nem era má pessoa… - murmurou.
Estando efectivamente morta, a tia Vera tinha ressuscitado para a minha mãe.
E não havia gente que a minha mãe mais amasse do que os mortos que só ressuscitavam porque ela deixava.
Mas naquele distante sábado de Carnaval, as coisas começaram logo a correr mal, quando o tio Guilherme se atrasou a chegar ao assalto.
Os “assaltos de Carnaval” em casa de amigos, conhecidos, conhecidos-de-amigos-ou-nem-isso eram a única diversão da época. As portas das casas ficavam abertas pela madrugada fora e entrava quem quisesse.
Mas é claro que tinha de haver alguém, ainda que discretamente, a ter olho no pessoal, e esse era o trabalho do tio Guilherme.
Animava os mascarados, ordenava as pessoas em fila como num comboio, e lá iam percorrendo as divisões da casa, bamboleando-se todos ao ritmo das marchas brasileiras
“o que se leva desta vida/
é o que se come, o que se bebe/
e o que se brinca, ai,ai…”
Mas naquele sábado de Carnaval o tio Guilherme não só chegara atrasado como, ainda por cima, levava a Aida a tiracolo.
Crime sem perdão: com a falta de homens que já então havia, todas as casas que abriam as suas portas para um assalto tinham por dever garantir que nenhuma menina de boas famílias (regra geral cheias de dinheiro e cheias de pelos na cara) ficaria sem par.
Atrelado à namorada, o tio Guilherme era uma baixa de peso.
Mas o pior veio no fim da festa.
Com os vapores do álcool, os ritmos brasileiros, as voltinhas pelas salas, o tio Guilherme baralhou-se e, em vez de sair com a Aida, saiu com a Vera, que estava prometida ao primo Ricardo, emigrado em França.
Nunca mais soubemos dele até ao dia em que recebemos um cartão a anunciar o casamento.
Foi nesse dia que ele morreu para a minha mãe.
E a tia Vera também.
Só que essa teve a sorte de morrer mesmo, o que, para a minha mãe equivalia a ressuscitar e a ganhar direito ao nome.
Acho que há dias vi o tio Guilherme a sair de um café. Velho e a arrastar os pés, mas sobrevivente da minha mãe e da tia Vera.
E quase jurava que o tinha ouvido cantar “o que se leva desta vida, é o que se come, é o que se bebe, é o que se brinca, ai,ai!”
Ai, ai.

in "ACTIVA" Fevereiro 2009