sábado, 6 de março de 2010

UMA REVISTA NOVA

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

QUANDO O MEU PAI me chamou à livraria, não foi só para falar do Júlio Verne.
Em cima do balcão, uma revista de capa vermelha.

- Já vai em quatro números…- disse – E isto é mesmo muito importante, Zé Joaquim!

Passou-me para as mãos o último número.
Sobre o vermelho da capa, a imagem de uns braços acorrentados, e o título: “Alma Nacional”.
Por baixo, uma frase que eu reconheci logo, porque o meu pai a tem emoldurada na parede do escritório lá de casa:
“Depois do pão, a educação é a principal necessidade do povo.”
Lembro-me que no dia em que ele a colocou, a minha avó disse:

- Para mim, isso está errado.
- Já calculava…- murmurou o meu pai.

Ela fez que não ouviu e continuou:

- Devia ser “ a principal necessidade dos homens”, porque do que as mulheres necessitam é de saber fazer um bom cozido, e uma barrela a preceito! Muita educação só lhes faz mal. É por isso que eu nem posso ouvir a sua mulher quando se põe com aquela lenga-lenga do voto. Mas onde é que já se viu as mulheres votarem?

Normalmente nem o meu pai nem a minha mãe lhe respondem.
Mas naquele dia a minha mãe irritou-se e disse:

- Então se as mulheres não devem poder votar, se não servem para nada a não ser para tratarem da casa — diga-me lá como é que servem para rainhas?

Foi uma tirada de génio.
A minha avó, como sempre, respondeu que “isso era diferente”, a minha mãe insistiu, “diferente em quê?”, e a minha avó, também como sempre, quando a conversa não lhe agrada, levantou-se da cadeira e disse:

- Vou para o meu oratório rezar a S. Expedito, santo das causas impossíveis.

A minha avó tem uma particular fé em S. Expedito. Mas ainda não descobri que “causas impossíveis” ´
é que ela gostaria de ver “possíveis”, com a ajuda do santo. Mas deve ter a ver com a monarquia.
Mas estava eu a falar da frase que vinha na revista.
O meu pai explicou-me que era de Danton, “um dos heróis da Revolução Francesa!”

- Ainda está vivo? — perguntei.

Parecia-me uma pergunta normal, mas o meu pai ficou muito ofendido, disse que, aos 14 anos, eu já tinha obrigação de saber que a Revolução Francesa tinha acontecido no século 18, e o que é que me ensinavam no colégio.
Ia responder “ensinam-me o “D. Jayme”, mas calei-me. Depois do pão e da educação, o silêncio às vezes também é uma grande necessidade do povo...
O meu pai acalmou, e disse que o director era o dr. António José, e se eu não me lembrava de ter ido há dias com ele a Sintra a um comício, em que o dr. António José tinha anunciado uma revista nova, “dedicada a todos os patriotas, a todos os que lutam sem tréguas…”

- Lembro-me.

Disse eu, para que o meu pai não se imaginasse o Dr. António José, e fizesse um comício republicano em plena livraria.

- Aí a tens — rematou.

O Dr. António José é um homem extraordinário.
Ele fala e entusiasma toda a gente.
Até a mim. Que não me lembro nem de uma palavra do que ele disse no comício de Sintra.

«JN» de 6 Mar 10

quarta-feira, 3 de março de 2010

A que grupo do Facebooker pertence você?

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Por Catarina Fonseca

HÁ QUEM apoie uma causa, quem ande na lavoura o dia todo e quem se dedique a angariar mais amigos. E há quem faça tudo isto. Qual é a sua ‘onda’ preferida?

- Os Apoiantes
São contra várias coisas: as touradas, o bloqueio em Cuba, o apedrejamento das afegãs, a criminalização da homossexualidade, os animais maltratados, o uso de cães como isco para tubarões e de tubarões como isco para cães, a pobreza, o cancro, as birras, ou a prisão de variados mártires à volta do mundo. Querem salvar as criaças dos pedófilos, os touros dos toureiros, as mulheres dos homens, e as empregadas da Carolina Patrocínio. Também são a favor de várias coisas, mas o que lhes faz mesmo bater o coração é ser Contra.

- Os Latifundiários
São IMENSOS! Aliás, quase toda a gente que está no Facebook tem uma quinta, e quem ainda não se converteu à reforma agrária é melgado incessantemente por todos os lados para se tornar no próximo vizinho. Quinta mais pequena ou maior, depende da dedicação e empenho do lavrador, e também da quantidade de ‘vizinhos’ dispostos a oferecer-lhes carneiros, galinhas e porcos. Enquanto os Apoiantes são uma comunidade solta, que nem sempre angariam muitos sócios para as suas causas, os Lavradores são solidários, até porque precisam uns dos outros. Ajudam-se uns aos outros desde a apanha do mirtilo (apostamos que a maioria deles nunca viu um mirtilo no seu estado natural) até à construção de um novo poço. Desunham-se a trabalhar para comprar tractores, flamingos e mega-morangos. Passam a vida a receber medalhas e prémios de ‘Melhor Lavrador à Face da Terra’. Levantam-se às 4 da manhã para regar os tomates. Encarregam os amigos mais próximos de lhes regarem a horta enquanto estão de férias (isto se forem para a floresta Amazónica entre os índios Tupi e for absolutamente impossível levar o portátil). Há esquemas no mercado negro para ganhar mais pontos. Também se fartam de acolher variados animais tresmalhados: “Uma pobre ovelha negra perdida veio parar ao celeiro de José…” Há quem já deva ter em casa exércitos de pobres ovelhas negras perdidas. Qualquer dia faz-se o Starwars 7 sobre exércitos de ovelhas-negras-clones. Não é que não pertençam a outros grupos: até podem ser imensamente dedicados a Cuba, mandar 340 beijinhos à Lindinha e apoiar a causa das geribérias amarelas, mas não há nada como um tractor pronto a estrear. Também há os que têm aquários e os que pertencem à Máfia, mas nada que se compare ao imenso ajuntamento de lavradores.

- Os Alarmistas
Vivem em permanente teoria da conspiração. Postam todos os avisos à comunidade, desde o Manual com as 356 Diferenças entre a Gripe A e a Reles Outra até àqueles avisos que dizem que se formos passear a um centro comercial com a família de um momento para o outro podem-nos chegar clorofórmio ao nariz, arrastam-nos para a casa de banho das senhoras e nunca mais ninguém sabe de nós, ou que entramos numa loja dos chineses, vamos lá ao fundo examinar as chaves de fendas em plástico de Taiwan e acordamos três dias depois em Dubrovnik sem um rim. Frases preferidas: “Sabiam que Andorra só tem um caso de gripe A?” e “Acabam de nos mandar um mail sobre a gripe, parece que em caso de espirro temos de avisar primeiro os Recursos Humanos e depois é que ligamos para a Saúde 24…”, “Ah, e as Seychelles também só tem três”.

- Os Ziriguidunzinhos
Têm um coração de ouro. Aliás, têm corações de várias espécies e feitios: de ouro, de veludo, de chocolate, com apliques, sem apliques, e mandam-nos a amigos e conhecidos sem dó nem piedade. Aliás, não mandam só corações: mandam tudo o que encontram pela frente, acompanhado de mensagens ternas:“Olá amiguinha, bom dia! Olá Luisinho, bom dia para ti também! Ó kiducha, começaste bem o fim de semana? Ó fofinho, tás pprado p mais uma manhã de trabalho? Ora toma lá um coraçãozinho! Um smile! Um vodka-limão! Uma galleta! Um chocolate! Um bombonzinho com mensagem em italiano! Um malmequer! Uma caixa de música! Ai põe-me a tocar, põe! Maria has sent you a warm hug! Sim sim! Mais abracinhos, que hoje acordei muito em baixo! Mais hugs, e kisses, e taças de champanhe, e presente por presente, já que não se paga nada, para que estamos com subtilezas, até há quem ofereça O MUNDO INTEIRO! Depois disto, que mais se pode oferecer? Há quem atire almofadas, há quem acumule beijinho atrás de beijinho como se não houvesse prá semana, há quem (Alice has just achieved 400 hearts!) seja um verdadeiro latifundiário do coração. Uuuuff!

- Os Testes-de-Ferro
Estes são os fanáticos dos testes. Inda não têm um sindicato como os do Farmville, mas para lá caminham. Geralmente, não se sabe bem como, a coisa funciona em cadeia: se alguém decide saber ‘Que tipo de Bolo de Natal seria você’ vai toda a gente atrás. Geralmente também, costuma dar a mesma coisa a toda a gente, ou haver pelo menos dois resultados ‘obtíveis’. Há testes em inglês, em francês, em espanhol, e até em sueco, para quem estiver apostado em apurar a parte direitado cérebro. Graças aos testes, descobrem coisas fantásticas todos os dias: se há fantasmas lá em casa, que tipo de gato são, que tipo de estrela de cinema, de realizador, de maluco, de sociopata, de doença, de difunção social, de série com médicos. Qual é o número que os representa, a invenção portuguesa que mais se lhes assemelha, a diva que levam dentro (pronto, este era em espanhol). A coisa pode ser levada a níveis intensos de esquizofrenia: é possível fazer um teste em sueco para descobrir que tipo de turco se é. Quem começar a ficar preocupado com o imparável galopar do vício, tem à sua disposição testes sobre… os testes! ‘Qu’est-ce qui te pousse à faire tous ces testes débiles ?’ Boa pergunta, de facto…

- Os Fantasmas
Eles estarem inscritos até estão, porque houve um amigo/namorado/marido/mulher/conhecido/desconhecido que lhes mandou uma mensagem a perguntar se queriam ser amiguinhos deles, e eles, coitados, lá disseram que sim só para o amigo/namorado/etc parar de lhes chagar a cabeça com um ‘ai mas é tão divertido! Mas anda lá! Eu depois mando-te um ziriguidunzinho! E recomendo-te a todos os meus amigos! E podes ser meu vizinho na quinta! E também lá está a prima Armindinha! E um gajo que é poeta tunisino!’ E atão pronto, eles renderam-se. Mas na prática, nunca lá põem os, eh, pés? São neuróticos que acham que a net está povoada de hackers prontos a entrarem-lhes no perfil pela calada, como as ovelhas negras da Farmville (‘Hello José, a lonely hacker has just wandered into you barn’) , para lhes destruirem os relatórios, invadirem a vida, e deixarem a conta a zeros. Também têm medo que haja por lá alguma ex-namorada que poste fotos deles com umas cuecas da Hello Kitty e uns tapa-mamilos com lantejoulas cor de rosa e uma bandelete com orelhinhas da Playboy. Mas pronto, apesar de tudo antes a bandelete das orelhinhas que a conta a zero. Resultado: ao fim de três meses no Facebook, continuam com os mesmos quatro amigos (a mãe, a mulher, a prima Armindinha e um desconhecido que achou que tinha ido com ele à Ovibeja em 1998 mas já percebeu que estava enganado). Não que eles saibam, claro…

- Os Deprimidos
Começam logo à segunda feira a postar qualquer coisa como: ai que tristeza de vida, estou para aqui abandonado e ninguém me pergunta o que é que eu tenho e tou com um ataque de tosse cheio de ranho daquele verde, de certeza que é gripe A, e mesmo que não for, estou mesmo mesmo em baixo’. A galheta anuncia-lhes catastroficamente: ‘Choramos ao nascer porque chegamos a este imenso cenário de dementes’. Não era preciso. Ele já tinha chegado lá mesmo sem ajuda. Quando lhe passam a mão pelo pêlo, ataca com citações de Fernando Pessoa do tipo ‘O dia deu em chuvoso’, e não há ziriguidunzinho que lhe anime a existência. Os testes também não ajudam: sem dó nem piedade, a bruxa do Facebook diz-lhe na cara que ele vai morrer /ter um tumor encefálico/ sofrer de artrite reumatóide até aos 97, que o seu tipo de velhinha é a Velhinha Saudosista, que o tipo de chocolate é Amargo, que o tipo de tempo é – adivinhem lá – Chuvoso. Os amigos mandam-lhe sóis, abracinhos e kisses, chocolates com sóis, abracinhos e kisses, mandam-lhe vídeos da rumba cubana, as Boswell Sisters a abanarem os folhitos no swing jazz, mais o ‘Canta Camarada’ do Zeca Afonso e o ‘Blue Sky’ do Sinatra, e nem isso o anima, nada, ‘Blue Skyyyyy, smiling at me’, e ele nada, quando muito responde com o ‘Je suis malade’ da Dalida, ou se estiver mais bem-disposto a Rita Redshoes a chilrear ‘I don’t want/ to die in a sunny day’… Suspiro…

- Os Familiares
“Estes são o Manel, a Mariana, a Madalena e o Martim Maria!, “Aqui a Mariana e o Martim Maria a correrem atrás do gato!”. “Aqui o Manel a amandar uma cadeira para cima da Madalena, que foooooofo!”. “Aqui a Mariana e o Martim Maria a tentarem atirar o gato pela janela.” “Aqui o gato a tentar assassinar a Mariana e o Martim Maria.”
“Agora uma cartinha do Paulinho dedicada à sua querida mãe.” Estes são os pais e mães babados do facebook. Uma vez mãe babada, mãe babada para sempre. Não já foto sem a Constança. Não há dia sem o Bernardo. Às vezes, o perfil deles é uma foto… das crianças. Não há posta sem um relato minucioso das gracinhas do Martim e das covinhas da Carlota. Quem não tem filhos, ataca com os sobrinhos, os enteados, ou mesmo o gato. Nada como uma criatura pequenina, fofinha, novinha em filha. Em folha.

- Os Musicais
Estes não se perdem em divagações líricas sobre o que o futuro pode trazer, que tipo de naperon português é, ou o que as nuvens de tempestade anunciam. Ataca logo de manhã com a ‘Tourada’ do Fernando Tordo, põe uns Mozzarts e uns Vivaldis para aquecer, estampa com um Chopin (mas não o concerto para violino), segue para bingo com o ‘My Funny Valentine’ (mas o do Chet Baker), atira com o ‘Ne Me Quites Pas’, não for dar-se o caso de estar a perder audiência. Depois de vir do ginásio pergunta se uma canção com o título de ‘Everytime I see you Falling’ não será uma escolha estranha para uma aula de trampolins, depois passeia pelos Brasis, que fica sempre bem gostar de Caetano (ai como é que é aquela muito machista em que ele chama cabra à mulher com todos os nomes), depois passa para o Roberto Carlos que lhe lembra uma namorada que teve em Porto Galinhas no verão de 1986 (‘se um outro cabeludo aparecer/ na tua rua) e a propósito lembra-se que a tipa o trocou pelo Válter e dedica-lhe o ‘Fuck You Very Much’ da Lily Allen (embora de facto não tenha nada a ver), e acaba às 4 da madrugada a fazer toda a gente (enfim, toda a gente que por lá pára às 4 da madrugada) chorar baba e ranho com a Audrey Hepburn no parapeito a sussurrar o ‘Moonriver’. Enfim, são vocações…

- Os Intelectuais
Levam a vida a sério: estes não estão aqui para brincar. Aliás, não estão em lado nenhum para brincar. Aliás, já não se lembram da última vez que brincaram. Rechaçam os ziriguidunzinhos, não sabem o que é um jagode, não querem saber onde vão estar daqui a 10 anos nem que personagem das ‘Mulheres Desesperadas’ é a sua, conseguem viver sem descobrir que Princesa Disney lhes corresponde e muito menos que Diva del Cine llevan dentro ou qual é o tempo (em sueco) que faz dentro da sua alma. Nunca saberão o trabalho que dá um mega-morango, nunca terão a alegria de oferecer uma faneca ao aquário de um amigo ou participar na apanha de mirtilos, e escusado será dizer que nenhuma vaca perdida há-de ir parar ao seu celeiro. Estes estão aqui para Educar o Povo e discutir o Estado da Nação. Falam da política do Sócrates, das reformas da Ferreira Leite, da dificuldade que o Obama vai ter em impor a sua visão do que deve ser um sistema nacional de saúde, e quando muito das crianças das favelas brasileiras e dos soterrados no Haiti. É uma chatice porque tem de se lhes explicar todas as graçolas. Petições, só assinam aquelas que forem para libertar mártires políticos ou candidatos ao prémio Nobel daqueles que vivem toda a vida presos e nunca hão-de poder sair nem para receber o guito a Estocolmo. Tambem estão sempre a protestar que o Facebook não é um recreio e que está tudo cada vez mais infantilizado, mas ninguém lhes liga nenhuma a não ser para lhe tentarem explicar que aquilo é suposto ser um recreio. Coisa que eles nunca vão entender porque nunca foram ao recreio em toda a sua vida, eram os que ficavam na sala de aula a rever a matéria. Coitadinhos.

- Os do Contra
São os protestantes de serviço: fartam-se de espernear contra tudo. Se a galheta do dia lhes deu ‘Do not vainly regret what is already past’ protestam, ‘Arependo-me sim senhor! Arrependo-me até ao osso! Volta, Maria José!’. Se o teste de ‘Onde é que vai estar daqui a um ano?’ lhes anunciou alegremente ‘Você vai ter um bebé!’ espanta-se (com uma certa razão) “Um bebé? Mas eu tenho 67 anos!” Os testes tiram-no do sério, o que é ainda mais estranho dado que ele não consegue deixar de os fazer. Já fez um teste em espanhol, ‘Eres adicto a los testes?’ e deu que sim, que era, pois que outra coisa, Eu, a Cinderela? Singing to rodents? A cantar para os ratos? Van Gogh? Não quero ser Van Gogh! Sou muito afeiçoado às minhas duas orelhas! Sou um Bugatti? Mas isso não é um carro um bocado gay? A Padeira de Aljubarrota? Por amor de Deus! Mas quem é que faz estes testes? Não, não devolvo o abracinho! Não quero mais sóis, que me irrita aquela cara deles cos óculos estampados. Não dou o meu coração, que tenho só um e faz-me falta! Não me peguem no braço! Não gosto que me peguem no braço! Não quero mais nada com quintas! Não me mandem mais coelhos, nem bananeiras, nem cabras, nem galinhas, e o que raio é uma ‘avocado tree’, que nunca vi nenhuma? Mas alguém me explica onde é que esta coisa se desactiva?’ Em vez da quinta o que ele queria era uma GulagVille! Uma GulagVille na Sibéria, onde seriam vizinhos de celas e mandariam jagodes uns aos outros, um GulagVille em chique, com check list e dress code, ‘José has just sent you a confinement cell and hopes for a confinement cell in return’! ‘A little lost black slave has just wandered into your prison!’ Exige que salvem as pessoas em vez dos touros, que lhe expliquem como é que se elege o Mr. Facebook que ele quer concorrer, e que a empregada da Carolina Patrocínio seja paga ao caroço.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

QUANDO O MEU PAI VIU O JÚLIO VERNE

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

HOJE fui ter com o meu pai à livraria.
Quando eu era muito pequeno, pensava que o meu pai já tinha lido aqueles livros todos. E que por isso mesmo é que era o dono.
Gosto de passar a mão pelas encadernações dos livros, e folheá-los, e imaginar que histórias contarão.
Gosto sobretudo de folhear os livros do Júlio Verne, e já perdi a conta às vezes que li “A Viagem ao Centro da Terra e “Da Terra à Lua”. (Se o “D. Jayme” fosse como algum destes livros, ao tempo que eu já o sabia de cor…)
E, quando gosto de um livro, tenho sempre vontade de conhecer o seu autor. O que é quase sempre impossível, ou porque já morreu há muito, ou porque vive num estrangeiro que eu nem sei onde fica.
Adorava ter conhecido o Júlio Verne. (Nunca me passou pela cabeça querer conhecer o Tomaz Ribeiro…)
Mas o meu pai conheceu o Júlio Verne!
Quando ele esteve em Portugal, o meu avô tinha acabado de morrer. Ninguém esperava que ele morresse tão cedo e o meu pai, aos 20 anos, viu-se sozinho à frente da livraria.
Como ele está sempre a dizer, “se eu consegui ter pulso para dirigir sozinho o negócio, por que é que este beato meio raquítico, que sabe tanta língua, e tem tanto professor e tanta gente à volta dele não consegue dirigir o país?” (Se a minha avó está presente, o meu pai, para evitar zangas, muda o “beato meio raquítico” para “esta amostra de rei”)
Mas dizia eu que, da última vez que Júlio Verne cá veio, o meu pai tinha 20 anos e já dirigia a livraria. Como era amigo de muita gente dos jornais (amizades herdadas do meu avô), conseguiu ir com eles ao encontro do escritor, no Hotel Bragança.
Estava-se em Maio de 1884
(“nunca esqueças as datas, José Joaquim!”…)
e era a segunda vez que Júlio Verne vinha a Lisboa.
Mas, diz o meu pai, vinha sempre a correr : chegava no seu iate, vinha a terra para comer e encontrar-se com alguns jornalistas e escritores, voltava para o iate, e na manhã seguinte já estava de volta a França.
De tal maneira eram breves as visitas que o meu pai está sempre a contar (e todas as vezes ri à gargalhada, ele que é sempre tão sisudo…) que nesse ano um jornalista de quem o meu avô era muito amigo, chamado Rafael Bordalo Pinheiro, publicou o relato do encontro no seu jornal e, admirado com a rapidez da visita, rematou:
“ só andando com esta pressa toda é que o Sr.Júlio Verne pôde fazer viagens à lua no tempo que qualquer pessoa gasta em ir á Porcalhota comer coelho guisado!”
Mas mesmo só por breves minutos, eu havia de ter gostado de o ver. Olho para a fotografia que o meu pai tem na estante onde estão todos os livros dele, mas não é a mesma coisa.
Acho que era capaz de viver numa livraria!
Garanto: se a livraria do meu pai vendesse o “Texas Jack”, era melhor livraria do mundo! Quem sabe até se o Júlio Verne não teria cá vindo?

«JN» de 27 Fev 10

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O Dia dos Mortos

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Por Catarina Fonseca

DIA 2 DE NOVEMBRO comemoramos os nossos Fiéis Defuntos. Não é lindo, o nome? Mas quem é que é fiel? Eles a nós ou nós a eles?

Adoro aviões. Quando morrer quero encarnar num Spitfire Qualquer Coisa (o meu amor pelos aviões não implica que seja capaz lhes decorar os nomes técnicos, deve ser uma deficiência genética feminina). Nunca fui tão feliz como na Base Aérea de Sintra. Não sei se já lá foram: inclui um museu do ar com aviões de todos os feitios e épocas.
Enquanto a Merche posava, eu pulava entre os aviões afagando-lhes o focinho como quem faz a ronda aos estábulos. Os oficiais respondiam-me às perguntas mais surrealistas com paciência de santo: isto trabalha a quê? Os aviões também têm cavalos? Entra-se por que porta? Se me apetecer fazer xixi, é onde? Se me ejectar, isto ejecta-me em bloco ou por partes? Quais partes é que se me ejectariam primeiro?
Problema: os aviões despertam as minhas fobias mais profundas. Amo-os, sim: mas em terra. Haviam de ver as figuras que faço lá em cima. Assim que entro num pisco da Portugália, transformo-me numa torneira humana. Lamento nunca ter aprendido a rezar. Prometo aprender a rezar imediatamente assim que tocar no solo. Peço retroactivos divinos. Até agora deve ter funcionado, embora eu nunca tenha cumprido a promessa.
Fico a pensar que, no nosso mundo, os aviões são aquilo que mais nos faz pensar na morte.Temos uma péssima relação com a morte. Não pensamos nela. Não levamos as crianças aos cemitérios. Enterramos os mortos dentro de nós e não falamos deles. Não falamos com eles, tal como também não falamos com as plantas, nem com as casas. Nem com as crianças. Nem connosco próprios… Nunca lhes dizemos como nos fazem falta. Nunca lhes dizemos que os amamos, tal como não dizemos aos vivos.
Sempre ouvi a minha avó dizer que com os mortos não se brinca. Curiosamente, era com o que eu brincava, na casa dela. Quase não havia brinquedos. Havia o Joãozinho, um boneco que já tinha sido da minha mãe, também ele quase morto. E havia fotografias. De mortos. Imensas fotografias, de imensa gente, imensamente bem vestida, imensamente morta. Eu adorava, ainda mais que aviões. Tirava-as da caixa, espalhava-as na enorme mesa. Geralmente, eram de casamentos ou baptizados, o que explicava que estivessem todos tão bem vestidos. Eu conhecia-os a todos, aos mortos. A Gracinha, que fugiu com o noivo e deixou o ferro ligado. A D. Edite, a do chapéu que parecia um dinossauro aterrado no Empire State a tentar comer o chapéu da morta do lado, a prima Joaninha, que parecia um ninho de plantas carnívoras em fúria, no casamento da Luisinha que casou porque a mãe mandou (eu não me importava de casar com quem quer que fosse, só para usar o vestido que ela usava) e onde também estava o Dr. Sousa, que dava pelo umbigo da mulher que parece que lhe batia e tinha bigode e luvas.
Eu brincava com os mortos como em casa brincava com os cromos das ‘Maravilhas da Natureza’. Mas preferia os mortos. Tinham fatos mais giros e costumes mais exóticos.
Hoje não sei que é feito dessas fotografias. Há muito tempo que não brinco com os mortos, e tenho saudades deles. Às vezes vejo a minha sobrinha mais nova embrenhada nos álbuns da minha mãe, mas a ela só lhe interessam os vivos com menos de 4 anos. Mas já percebi que, se achamos que não cumprimos o nosso dever com os mortos, o melhor remédio é compensar com os vivos. Coitada da minha mãe, que vai ter de comer o jantar que lhe fizer…

sábado, 20 de fevereiro de 2010

O SR.MATEUS FOI PRESO

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

AINDA nem estou em mim. Eu e a rua toda.
O Sr. Mateus foi preso ontem.
O Sr. Mateus morava no prédio ao lado do nosso, era de poucas falas, mas dava sempre os bons dias e boas tardes quando nos encontrávamos.
Vivia sozinho, mas há dias a Rosa disse:
- Os galegos acartaram ontem com quatro caixotes para casa do Sr. Mateus. Os desgraçados suavam que nem porcos, com perdão da palavra…
- E então? — murmurou a minha mãe – os galegos não fazem outra coisa, que é que isso tem de estranho?
- O que é que tem? Tanto caixote para casa de um homem que vive sozinho?
- Se calhar mandou vir a família para viver com ele e está a arranjar a casa - disse a minha mãe.
- As mulheres é que arranjam as casas, não são os homens! Um homem sabe lá do que uma casa precisa! A senhora pergunte um dia ao Sr.Fernando que coisas é que há numa cozinha e vai ver como ele fica caladinho que nem um rato. A casa é das mulheres, e...
- E se você fechasse essa matraca? — ralhou a minha avó.
A Rosa não gosta que a mandem calar.
E enfiou-se na cozinha a cantar.
É sempre a vingança da Rosa: cantar aquilo que se ouve pelos teatros e pelos cegos das romarias, e que sabe que põe a minha avó fora de si:
- “Já mataram o rei gordo
E o magrinho também
Acabem com o que ficou
Depois liquidem a mãe!”
- Ou você se cala imediatamente ou vai já para o olho da rua! —gritou a minha avó.
A Rosa lá se calou — e também nunca mais se lembrou dos caixotes do Sr. Mateus.
Até ontem.
- Eu é que tinha razão! Tanto caixote para casa de um homem sozinho… Estava-se mesmo a ver que aquilo trazia água no bico…
Água no bico não trazia — mas trazia pólvora, cardas de sapateiro, brochas, rolhas, ferros, barbante, tudo o que era preciso para fazer bombas e granadas.
Ao que parece, não tinha sido só a Rosa a desconfiar: alguém denunciou o caso, e logo de manhã a Secreta entrou pela casa do Sr. Mateus, que nem teve tempo para esconder fosse o que fosse, e foi dali levado para os calabouços da esquadra do Caminho Novo.
- Quem havia de dizer…- murmurou a minha mãe — Numa rua tão pacata como a nossa…Ainda se fosse na Rua do Corrião…
Há muito tempo que se diz que é nessa rua que mais bombas se fabricam em Lisboa. E nestes últimos tempos quase todos os dias rebenta uma bomba na cidade. Mas tem sido sempre longe da minha casa, por isso, para falar verdade, nunca me incomodaram muito.
Mas agora foi ao meu lado.
A minha avó diz que são os republicanos.
O meu pai diz que são os anarquistas.
A minha mãe diz que se as mulheres mandassem, isto era muito diferente.
E eu fico a ouvi-los sem entender o que se passa.
Só sei que às vezes há mortos e feridos, e que as cadeias estão cheias.
Estou quase a concordar com a minha avó: se não é o fim do mundo, anda lá perto.

«JN» de 20 Fev 10

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A avó do Hitler

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Por Catarina Fonseca

ACHAM QUE a História da Humanidade seria diferente se mais avós tivessem feito o que lhes competia?

No Dia dos Avós, tenho por hábito reunir os meus quatro sobrinhos e, pronto, obrigá-los (é triste mas a palavra é essa) a fazer uns cartõezinhos para oferecer às duas avós. Cada um pode fazer o que bem lhe apetecer: desenho, poema, rabisco, texto. Felizmente ainda nenhum deles se lembrou de imitar um amigo meu, mandar um envelope vazio com uma nota a avisar: “Mando-lhe ar de Paris…”
Claro que nem sempre a coisa corre como previsto. Há dois anos, foi particularmente complicado. O Pedro estava na fase do xixi-cocó. Olhei para o desenho dele, rezando para que não lhe desse para explicar à avó Cila o que eram aquelas bolinhas a sair do (“Quem é este?” “É o Afonso Henriques.” “O Afonso Henriques? Mas porquê?”, “Porque ele quis.” “Ah. De facto, é uma boa resposta.” “E olha, ele está a fazer…” “Já sei, já percebi o que é que ele está a fazer, obrigada”, “Pela muralha abaixo!”, “Que giro”). O Diogo, então com 8, trabalhava compenetradamente. De língua de fora, escrevia escrevia. Terminou com um desenho. Uma matrona numa… mota?
“É uma avó, a senhora da mota?”
Ele levantou a cabeça e franziu o sobrolho, com ar ofendido. Suspirou levemente (aquele suspiro com que brindamos os menos inteligentes que nós) e lá explicou: “É a avó do Hitler.”
Engoli em seco. Estava-me a ver a apresentar o cartão a alguma das avós: de um lado, o Afonso Henriques a desfazer-se em diarreia pela muralha abaixo, do outro a avó… do Hitler.
Ele defendeu-se: “Então, até ele havia de ter avó, ou não?”
Meditei por um momento. Os meus conhecimentos de História mundial não se alargavam à avó do Hitler. “E como é que lhe chamaste?”
Ele franziu o sobrolho novamente mas lá respondeu: “Helga.”
Bem, pelo menos não era Conceição. Helga. E tinha uma Harley Davidson, pelos vistos. E duas pistolas. E pelo que pude ler na legenda, estava a mandar o neto para o seu próprio campo de concentração.
Ele estava contente com a obra. “Tá fixe, não tá?”
“Não achas melhor” tentei eu, “fazer agora outro cartão para a outra avó?”
Ele encolheu os ombros. Rezei para que não saísse dali a avó do Mussolini. Do General Franco. Do Estaline ( Estava mesmo a ver. A avó Olga, a mandar o neto para os gulags da Sibéria). E o Salazar, teria avó?
Toda eu me preparava para o AVC quando peguei no segundo cartão. Um pacato cavaleiro de espadinha mais uma pacata dama com saia de balão.
“São os avós de quem?” inda arrisquei (Pedro o Grande? Ivan o Terrível?).
Ele olhou-me como se estivesse a gozar com ele.
“Não são avós de ninguém! São príncipes! Não querias uma coisa mais à avó? Fiz-te uma coisa mais à avó! As avós gostam de princesas!”
Bem, resta acrescentar que a avó Alice acabou a rir até às lágrimas quando se apanhou frente a frente com a avó do Hitler (inda lá está em lugar de honra na prateleira da sala) e a avó Cila adorou os príncipes. Eu fiquei a pensar. De facto, toda a gente teve uma avó. Ou não? Será que o Hitler foi o Hitler porque não teve uma avó? Se tivesse uma avó Helga, teria sido pacatamente Herr Schicklgruber toda a vida? E onde estavam as avós de Mussolini, Franco e Estaline, quando se precisou delas?
Não pensei mais. Para quê? Há coisas que são tão verdade que não servem para nada.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

JÁ VOLTEI AO COLÉGIO

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

JÁ VOLTEI ao colégio.
A minha mãe obrigou-me a vestir todos os casacos que encontrou no roupeiro, e não descansou enquanto não me enfiou pela cabeça abaixo um boné de fazenda aos quadrados castanhos e pretos.
Fico horrível de boné.

Mas a minha mãe diz que aquele é a última moda em bonés, que o meu pai tem um igualzinho, comprado no Old England.
A minha mãe vai à abertura da estação do Old England, na Rua Augusta, como outras pessoas vão à abertura da temporada no São Carlos: enfia um vestido verde que só usa em ocasiões especiais, mitenes, e um chapelinho em cima dos bandós.

A Rosa arranja a mesa da casa de jantar, com pratinhos de bolachas Marselhesa e um bule de chá de tília, para ela se sentir mais reconfortada no regresso — não esquecendo a garrafinha de Anisette, porque não há nada como um cálice de licor para uma pessoa ter alma nova.
Então, quando regressa das compras, senta-se à mesa, com ar de imensa felicidade, e murmura, como se recitasse:

- “Toda a elegância se curva diante do rei da elegância”.

(Acho que é assim que vem nos anúncios dos jornais)
E depois de uns minutos de silêncio, acrescenta:

- A loja merece bem o reclame.

E ataca as bolachinhas. E o licor.
Mas isto não quer dizer que o meu boné não seja horrível.
Então lá fui até ao colégio, subi a Rua das Pedras Negras, sempre com esta chuva miudinha que não há meio de parar.
Lá se passou o tempo, pelo meio das regras-de-3, juros e quebrados, e as declinações do latim, e o “D. Jayme” que é preciso saber de cor e nunca mais me entra na cabeça.
Com o meu antigo professor, tudo era diferente.
Lembro-me que um dia saímos da escola com ele, subimos até à Travessa do Almada e depois ele apontou para uma parede e disse:

- Quem é capaz de ler o que aqui está?

Ficámos a olhar para ele, sem entender, era uma parede como outra qualquer, com umas placas muito velhas lá pelo meio.
Ele fez-nos olhar muito bem para elas e disse que eram lápides, e o que de mais antigo restava em Lisboa do tempo dos romanos.
Depois leu o que lá estava escrito em latim.
Já não me lembro de tudo, claro. Mas lembro-me de o ouvir dizer “Felicitas Júlia”, e de ele nos explicar que era aquele o nome da cidade de Lisboa no tempo de Júlio César.

De cada vez que passo por ali, lembro-me sempre do meu professor.
Chamava-se Manuel Buíça.
Há dois anos, naquele dia em que eu vinha da rua Augusta com a minha avó, ele pegou numa carabina e matou o rei. E logo de seguida alguém o matou a ele.

Mas hoje não quero pensar nisso.
Hoje recordo apenas a sua voz a dizer “Felicitas Júlia”
E volto a correr para casa.
Pode ser que a Rosa me dê bolachas Marselhesa e um copo de água chalada.
Acho que só mesmo com muita água chalada é que consigo engolir o “D. Jayme”.

«JN» de 13 Fev 10

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

OVELHA NEGRA

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Por Catarina Fonseca

DIGAM-ME LÁ: em que é que Marte desalinhado com Vénus pode influenciar a minha vida, a não ser que venha vertiginosamente na direcção da terra, caso em que também já não haveria muito a fazer?

Sabem a que distância está Marte? Pode atingir 378 milhões de quilómetros! Em 2004 atingiu a distância mínima de 56 milhões. Estivemos, em resumo, quase lá. Bastava um dedinho esticado e tocávamos em Marte.

Aconteceu alguma coisa aos Carneiros como eu? Nada. Népia.
Outra coisa que me chateia é que, quando tento desconverter alguém, olham-me com ar pesaroso de quem viu a Luz e rematam sempre:

“É típico dos Carneiros. Não acreditam em nada.”

Chateia-me ser descrente, porque a vida para um descrente é dura. E o que mais me dói é que, sendo descrente, nunca consigo passar um horóscopo sem meter o nariz.
Aliás, mais do que meter o nariz, leio tudo de fio a pavio. Leio os Carneiros, leio outra vez os Carneiros (o meu ascendente também é carneiro, uma desgraça nunca vem só), depois leio os Balanças, porque um bruxo me disse uma vez que fui Balança numa outra vida (também fui lavadeira de caravelas, mas isso agora não interessa nada) , e depois leio Virgens e Escorpiões e Capricórnios a eito, porque mais vale estar preparada para qualquer eventualidade.
Saio sempre desconsolada.
Nunca encontrei um horóscopo que me dissesse preto no branco “Minha Filha! É agora! Levanta esses cornos com orgulho porque vais encontrar o Homem da Tua Vida!”
Ou: “Carneiros de todo o mundo, uni-vos: o Euromilhões vai ser vosso, em vez de ir parar ao velhinho de Odivelas do costume que vai herdar 20 milhões sem dar dois euros à AMI!”
Não.
Dizem-me coisas incompreensíveis, tipo “A sua energia vai estar em alta”, ou “a sua capacidade para entender os outros estará mais apurada”, ou “a sua intuição estará mais desenvolvida”.
Quero lá saber!
Não quero energia em alta, que me pode dar um AVC!
Não quero entender os outros quando eles querem ser inentendíveis!
E que raio quer dizer que a minha intuição vai estar desenvolvida? Algo me diz que não significa “vais encontrar o George Clooney — esperem lá, que tenho a redacção a uivar-me para, por amor de Deus, dar outro exemplo que o Clooney já enjoa, o, sei lá, o Jude Law não, que tem pestanas de menina, o Brad é quase avô, o Daniel Craig está na moda, mas parece que lhe deu uma cólica renal, pronto, o, como é que ele se chama, o “Dr. House”. Nada me diz “vais encontrar o Hugh Laurie no Oeiras Parque e ele vai-te injectar epinefrina até pedires misericórdia de joelhos!”

Não. Tenho de me contentar com a intuição.
Em resumo: não acredito, mas ainda não perdi a esperança de um dia acreditar. De um dia acordar e ver Marte pela janela e de ele me dizer “alevanta-te e anda!”.
Ou coisa do género.

(Activa, Janeiro 2009)

sábado, 6 de fevereiro de 2010

QUANDO MATARAM O REI

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

A GRIPE NÃO HÁ MEIO de passar, já não suporto a canja, já não suporto estar deitado — mesmo que o meu pai me deixe ler o Texas Jack, coisa que ele só admite quando me vê doente.
Confesso que me dá um certo ânimo seguir aquelas aventuras no terrível Desfiladeiro dos Mochos, onde Texas Jack está sempre em risco de ser vítima dos sinistros bandidos que atacavam as mala-postas — mas não chega para baixar a febre.

Cá em casa o ambiente não é dos melhores: a minha avó foi à Sé assistir às exéquias por alma de D. Carlos e D. Luís Filipe, e o meu pai ainda não se recompôs do choque.
No ano passado ela tinha feito a mesma coisa mas, depois de uma conversa no escritório, tinha-lhe prometido não voltar a fazê-lo.
Por isso o meu pai nem queria acreditar quando a viu chegar a casa, partilhando a tipóia da vizinha de baixo — que, tal como eu previa, ainda não tirou as tarjetas negras das molduras dos dois mortos. Só não me importei de ter perdido a aposta com a minha mãe porque, mesmo que a tivesse ganho, não teria podido assistir ao salto mortal no Coliseu por causa da gripe.
Mas o meu pai diz que saltos mortais é o que não vai faltar nos próximos tempos. Às vezes o meu pai tem uma maneira estranha de falar. Deve ser de ler muito.

A verdade é que, mesmo não sendo talassa como a vizinha de baixo, acho que ainda não me recompus daquele dia de Fevereiro em que mataram o rei, fez esta semana dois anos.
A minha avó tinha decidido ir comprar-me um fato na Casa Africana, para a festa de casamento da filha de uma amiga.

Lembro-me de ter barafustado, detestava ir com a minha avó à Baixa, mas não tive outro remédio. Quando eu às vezes digo “eu não quero”, logo toda gente grita:”o menino não tem quereres”.

O meu pai ainda hoje está convencido de que a minha avó só quis ir à Baixa naquele dia porque sabia que os reis iam chegar ao Terreiro do Paço, vindos de Vila Viçosa, e aproveitava para assistir à chegada e ao desfile das carruagens até às Necessidades.
Ela nega, e diz que tudo não passou de um acaso do destino.

Fosse como fosse, tínhamos já descido a Rua Augusta quando rebentou a confusão.
Só me lembro de ouvir tiros, fuzilaria, de ver gente a correr de um lado para o outro, e gritos, muitos gritos, “mataram o rei!”, e ninguém se entendia, e depois alguém disse que o príncipe herdeiro também tinha sido morto, e que o outro ficara ferido, e havia sangue por toda a parte, e lembro-me de ver ao longe um ramo de flores nas mãos da rainha, com que ela batia aos que atacavam a carruagem, e a minha avó puxava-me pelo braço, empurrava-me —e ainda estou para saber como chegámos a casa, com ela sempre a gritar “é o fim do mundo, é o fim do mundo!”
No meio da confusão, perdeu-se o meu fato.
Mas também não houve casamento, que o tempo não vai para festas.

«JN» de 6 Fev 10

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A MINHA INFÂNCIA NA REVOLUÇÃO

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Por Catarina Fonseca

HÁ DIAS ENCONTREI um caderno do tempo em que era artista.
Até aos 4 anos a coisa corria normalmente: havia uma família de aranhiços que era suposto ser a minha, evoluindo depois para umas borboletas, umas casas, umas noivas, uns príncipes e princesas em variadas fazes da sua existência.

Aos 4 anos, tudo acaba: há páginas e páginas de monstros com couves-flores espetadas e uns gajos às manchas com chapéus esquisitos e penas nos bonés.
Segundo me explicaram depois, eram chaimites, cravos e soldados.

O mais estranho é que eu nunca tinha visto uma chaimite, nem um soldado, e cravos só na praça, porque no dia da revolução tinha ficado em casa da minha avó, dentro do armário, a mascarar-me com estolas, diamantes falsos e luvas até ao cotovelo, tudo do tempo em que a família era burguesa e ainda não estava desperta para os amanhãs que cantam.
Uma infância na revolução podia ser divertida, mas na altura eu não sabia. Só sabia que a minha amiga Teresa tinha uma Barbie com fatinhos de noiva, de hospedeira e de dona de casa, e sapatinhos que passávamos a vida a perder e encontrar nos lugares mais estranhos.

Eu tinha a Olga, que não era noiva, nem hospedeira, e muito menos dona de casa, valha-nos São Lenine : era do meu tamanho e loira-nazi, embora tivesse vindo da URSS trancada no porão a deitar hálitos de tundra pelas narinas, e não se podia vesti-la e despi-la porque ela calçava para aí o 43, e quando eu acordava de noite conseguia ouvi-la a dar ordens à KGB no escuro.
Noite sim noite sim havia comício.

Era o equivalente a uma overdose de Festa do Avante arraçada de feira popular, mas não tinha carrosséis de gonzos mal oleados nem teias de aranha sobre esqueletos de plástico verde incandescente nem o Manolito a arriscar a vida no poço da morte na mota a fazer tracatracatraca cada vez mais depressa à volta do poço e à volta da morte, mas tinha uns gajos a gritar coisas incompreensíveis e a esticar o punho.
Um tipo barbudo apareceu-me certa vez e rosnou, visivelmente preocupado:

“Então, camarada, ainda de chucha?!”

De vez em quando também havia catecismo para nós, os pequeninos. Lembro-me de uma peça de teatro com uns pintainhos amorosos, em que vinha um pintainho amoroso e dizia para outro pintaínho amoroso:

“Olá, vens da clandestinidade?”

Para grande desgosto da família, nem eu nem o meu irmão parecíamos devidamente revolucionários. Ainda se falou em irmos para os Pioneiros. Perguntei de que cor era o lenço. Olharam para mim como se eu tivesse perguntado de que cor era o cavalo branco de D. José, e algo me disse que a resposta não ia ser: “cor de rosa”.
O meu pai suspirou, e pôs-me no ballet.
Foi o fim da minha carreira na revolução.
Mas não se perdeu tudo: pelo menos, havia fotos do Bolshoi no meu quarto. Não era o busto do Lenine, mas sempre era um bocado da mãe-Rússia.

(Activa, Abril de 2009)

sábado, 30 de janeiro de 2010

ESTOU COM GRIPE…

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910"

DESDE O PRINCÍPIO do mês que há temporais no país inteiro.
Aqui por Lisboa nem se sente tanto, mas no Porto o rio subiu que parecia o mar, com os barcos rabelos a chocarem uns nos outros, e o vapor “Cintra” a naufragar na barra.

No Ribatejo também as coisas estiveram muito feias — e há dias até fui com a minha mãe ao Salão Central, ver um documentário sobre “As Últimas Inundações do Tejo em Santarém”.
Não sei se foi por causa disso, ou pela chuva que não pára de cair, fiquei de cama com gripe, e com uma dor de garganta que não passa, por mais zaragatoas que me façam. Odeio aquele sabor do mercurocromo embebido no algodão, e estou sempre com medo de engolir o pincel, mas a minha avó diz que ainda não se inventou outro remédio.

O meu pai diz que, se isto não passar, vai ter de chamar o Dr. António José, que é quem nos trata a todos, ou então leva¬-me ao consultório, no Largo de Camões.
Mas parece que o Dr. António José ultimamente tem andado muito ocupado — e não é a ver doentes…

- Se houver justiça neste mundo e esta corja for ao ar …
(“Então, Fernando!, olha o menino!”, exclama a minha mãe, que não gosta de o ouvir usar esta linguagem)
- …o Dr. António José ainda há-de ser Presidente da República.
- Vá de retro Satanás! — grita logo a minha avó-- Não me diga que ainda quer mais mortos!
- Eu não quero mortos, senhora minha sogra — responde o meu pai -- mas há alturas na vida em que até a violência se explica… Se olharmos para este país tão atrasado, para esta miséria, para a exploração nas fábricas, para as prisões que se enchem de dirigentes políticos (como o Dr. António José…) enquanto os ladrões andam cá fora a roubar e a assaltar casas, se pensarmos nos desgraçados obrigados a emigrar, se olharmos para todo este povo que não sabe ler, que…
- Chega, meu genro! O senhor não está num comício da Av. Rainha D. Amélia! – diz ela e acaba-se o discurso.

O meu pai diz que ainda não perdeu a esperança de a converter aos ideais republicanos, mas que é preciso ir com calma.
A Rosa, que é a nossa criada e tem uma secreta paixão pelo Dr. António José (e que se recusa a acreditar que ele vai casar dentro de dias) diz que o meu pai está cheio de razão, ela bem sabe o que ouve na Praça da Figueira quando lá vai às compras.

- Inda agora me disseram que a Giraldinha voltou a atacar — diz ela.

A minha mãe está sempre a dizer à Rosa que tenha muito cuidado ao abrir a porta, e só deixe entrar quem ela conhece. Ao que diz o “Século”, a Giraldinha faz-se passar por amiga da família, e depois rouba tudo a que pode deitar a mão.
A Rosa tem um particular ódio à Giraldinha porque, para lá de em tempos ter sido criada, também se chama Rosa.

- Há coisas muito injustas… - suspira ela, antes de se enfiar pela cozinha para tratar da minha canja.

«JN» de 30 Jan 10

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A INFIDELIDADE SINTÉTICA

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Por Catarina Fonseca

DESCULPEM LÁ: qual é a mulher que tem tempo para ser infiel?
Um homem, pronto, depois de um extenuante dia de trabalho tem duas hipóteses: ou é infiel ou faz um blogue, às vezes as duas coisas ao mesmo tempo.
Agora nós?

Vamos ser infiéis quando? Pomos a criança a dormir abraçadinha ao Ruca e dizemos: ”aguenta aí caladinho que a mamã vai ali ser infiel e já volta”?

Programamos o microondas para dali a meia hora e quando a coisa apita dizemos “ai ó Luis Miguel pára lá com isso que tenho de ir servir o jantar”?

Encaixamos a loiça na máquina e vamos lá acima ter um caso com o Paulinho do 5.º esquerdo enquanto as powerballs superdesengordurantes 3-em-1 tentam ferrar os dentes nos restos da feijoada da prataria?
E se fosse só o tempo, inda se dava um jeitinho.
Mas com quem?

Já dá uma trabalheira tão grande encontrar algum espécime a quem valha a pena ser fiel, quanto mais um sobresselente.
Os homens ainda se percebe, porque mulheres com quem vale a pena trair as outras são ao pontapé.
Mas nós?

Vamos ser infiéis com quem, se ainda por cima eles são todos iguais, mais bigode menos bigode?
Ainda por cima, trair em termos dá uma trabalheira tão grande que às tantas começamos a pensar que, em vez de pôr a peruca loira e irmos para o Íbis dizer que nos chamamos Soraia Marlene, valia mais a pena ficar em casa a ver a “Música no Coração”.

Solução: se os homens não valem a pena, aprendi neste número da revista Activa que ainda nos restam os bonecos.
Claro que há o pormenor desagradável de nos tornarem imediatamente psicopatas, mas o que é isso ao pé das suas vantagens: não refilam se mudamos de canal a meio do jogo, nunca nos dizem que a mãezinha deles é que fazia bem pastéis de bacalhau, e não ressonam.
É verdade que não se levantam se o bebé chora, não têm uma conversa por aí além, e não lavam o chão da casa de banho, mas qual é a diferença entre isso e a vida normal?

Uma vez em que estive entre a vida e a morte, uma amiga minha apareceu-me no hospital com o Joca ao ombro. O Joca é um cavalheiro em tamanho natural, com cabeça de esferovite, olhos pintados como os do Tutankamon, bigode de cabelo verdadeiro, ténis de algum sem-abrigo e boné de beisebol.
Ficou sentado na cama ao lado da minha a fulminar quem entrava.
As enfermeiras faziam visitas guiadas para o verem, e enganavam-se a espetar-me a agulha na veia porque os olhos aterrados escorregavam-lhes sempre para o Joca.
Inda esperei que funcionasse como remédio anti-carjacking e andei com ele uns tempos ao meu lado no carro. Mas acabei por tirá-lo, porque só vinham turistas tirar-me fotografias para provar como Portugal estava povoado de cromos e, além disso, ninguém quer “jackar” um calhambeque que já assistiu ao Euro 94.
Hoje o Joca está sentado a um canto, como um avô caquético.
A minha sobrinha mais nova tem um medo dele que se pela. Passa de lado e olha-o de revés, como se esperasse que ele lhe saltasse para a espinha a qualquer momento.
Às vezes diz-me:
“O Joca tem o boné nos olhos”
Com ar reprovador, como se eu não tratasse bem o meu marido.
Pode estar descansada. Não me passa pela cabeça trair o Joca.
Psicopata inda vá; infiel é que não.

(Activa, Setembro 2008)

sábado, 23 de janeiro de 2010

O MEU SONHO ERA VER O COURAÇADO

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910"

A PRIMEIRA COISA que o meu pai me disse, depois de ter lido o que aqui escrevi, foi:

- Nunca te esqueças da data. Sem ela, nunca saberás quando as coisas aconteceram. E temos de saber situar tudo no seu tempo.

Eu pensava que o meu pai não ia ler este diário. Sempre achei que um diário era uma espécie de caixa dos nossos segredos.
Mas ontem ele passou-me para as mãos um livro, e disse:

- Lê isto. Gostava que um dia, ao terminares o teu caderno, ele tivesse uma história parecida com esta.

Nunca tinha visto este livro. Não era de Camilo, nem de Alexandre Herculano, nem de nenhum nome que eu conhecesse. Também não era de Júlio Verne, de quem eu gosto quase tanto como do Texas Jack.

Chama-se “CORAÇÃO”.

Pensei: o meu pai quer que eu seja médico, e já está a preparar-me.
Mas não era nada disso.
É um diário, escrito por um rapaz italiano da minha idade, chamado Henrique. Fala da família, da escola, dos colegas, dos mestres. E aqui, se não fosse o meu pai estar sempre a repetir que um homem não chora, eu teria chorado. Leio: ”lembro-me tanto do meu antigo mestre e do seu sorriso bom”.Eu também me lembro muito do meu antigo mestre, e do colégio na Rua das Pedras Negras, aonde nunca mais voltei.
E pelo meio do que Henrique escreve, há anotações do pai dele. Por isso não vou estranhar que o meu faça o mesmo.

Mas hoje, confesso que não me apetecem grandes leituras : acaba de entrar no Tejo uma esquadra francesa, e o meu sonho era visitar o couraçado “Saint Louis”! Tem quatro canhões grandes e dez mais pequenos.
Parece que o rei vai lá amanhã, e o almirante até lhe oferece um almoço.
O meu pai diz que o rei não faz outra coisa senão viajar, e visitar primos por essa Europa, e passar revista a quartéis, e entrar em barcos, e ir a almoços, e que não é assim que isto lá vai.
Quando o meu pai não a ouve, a minha mãe sai em defesa de D. Manuel:

- Não passa de uma criança…
- Tem 20 anos! Catorze tenho eu e já fico ofendido quando me chamam criança! — digo eu.
- Mas tu não és rei — diz ela.

E com essa é que ela me mata.
A minha mãe diz muitas vezes que a culpa é mais dos que rodeiam os reis do que propriamente dos reis.

- Desculpas…- resmunga o meu pai.

Apesar de tudo, a minha mãe não é talassa furiosa, como a vizinha de baixo, que ainda não retirou as tarjas negras das molduras com as fotografias de D. Carlos e de D. Luis Filipe. A minha mãe apostou comigo uma ida ao Coliseu em como elas as vão retirar daqui a 15 dias, quando fizer dois anos que eles foram mortos. Eu cá apostei que não as vão retirar nunca.
Mas Deus queira que o luto cá em baixo acabe - porque me está mesmo a apetecer ir ver o salto mortal que dizem que o Levy Jenochio vai fazer lá do alto da cúpula!

Razão tem a minha avó quando diz que isto só pode ser o fim do mundo…

«JN» de 23 Jan 10

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

“ EU NÃO SABIA QUEM ERA…”

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910"
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CHAMO-ME José Joaquim, e fiz ontem 14 anos.
O meu pai chamou-me ao escritório e ofereceu-me um livro de capa de couro castanha.
Folheei-o.
Todas as páginas estavam em branco.
- E a história? — perguntei.
Ele sorriu, diante do meu olhar de espanto, e disse:
- A história és tu que a vais escrever. E tenho a certeza de que vai ser uma grande história…
Na capa, em letras douradas, lia-se:

“O MEU DIÁRIO”

O meu pai disse então que eu devia assentar nele tudo o que fosse importante na minha vida.
E depois, com aquele ar grave que ele põe sempre quando me chama ao escritório, abriu um livro e leu:
- “Era eu um rapaz de 14 anos, e não sabia quem era”…
Olhou para mim e acrescentou:
- É assim que Camilo Castelo Branco começa o seu folhetim “Mistérios de Lisboa”.

O meu pai gosta muito dos livros de Camilo Castelo Branco.
Eu cá, para falar verdade, gostar, o que se chama gostar, gosto das aventuras do Texas Jack, que se compram a 60 reis no quiosque da esquina.
Mas não disse nada.
Olhei para o meu pai e esperei.
- Também tu tens 14 anos. Também tu ainda não saberás quem és. Escrever este diário vai ajudar-te.
Abriu a caixa das mortalhas, e começou a enrolar um cigarro--sinal de que a conversa acabara ali.
Agradeci – e agora aqui estou, debruçado sobre o meu diário, tentando escrever o melhor que posso, nesta letra inglesa ,inclinada e certa, que o meu mestre me ensinou no colégio.
Escrevo devagar, cuidadosamente, não apenas para que o aparo não deixe cair nenhum borrão que inutilize a página, mas também porque assim tenho tempo de pôr as ideias em ordem.
“Tudo o que for importante na tua vida” — tinha dito o meu pai.
Mas tenho medo que a palavra “importante” tenha um significado para mim, e outro, muito diferente, para ele.

Claro que me lembro de coisas muito importantes: do dia em que mataram El-Rei e o Príncipe, da confusão por toda a parte, da fuzilaria, dos mortos, da multidão desorientada, da minha mãe só a perguntar “mas por onde andará o teu pai?”, da minha avó aos gritos “é o fim do mundo! eu sempre disse que vinha aí o fim do mundo!”, dos boatos que se ouviam de janela para janela, do quiosque a cerrar os taipais antes da hora, e eu só a pensar “nunca mais vou ler o Texas Jack!”
Hoje tenho muita vergonha de ter pensado nisso. Sobretudo quando me lembro dos mortos todos, dos presos, do meu mestre desaparecido para sempre, do ar cada vez mais sério do meu pai, do medo da minha mãe de cada vez que se ouve um tiro na rua.
O “fim do mundo” — e eu a pensar no Texas Jack.
Só posso encontrar uma desculpa: nessa altura eu tinha 12 anos, ainda não sabia quem era.

O meu pai tem razão: escrever aqui vai ensinar-me a descobrir muita coisa.
Vai ser melhor que os folhetins do Camilo.

«JN» de 16 Jan 10

domingo, 10 de janeiro de 2010

A PRIMEIRA MALA

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UM AMIGO há dias disse-me:
- Nunca percebi por que andas sempre com malas tão pesadas… De resto, é estranho que só vocês é que usam esses alforges, carregadíssimos, como se transportassem o mundo aos ombros… Nós… tudo nos cabe dentro dos bolsos.
Claro que isto daria para um tratado sociológico, as malas das mulheres, as malas dos homens, o mundo aos nossos ombros, etc, etc, mas não é este o lugar nem esta a hora.
De qualquer modo, fiquei a olhar para a minha (para mim) normalíssima carteira— e a pensar nas malas.
Malas mesmo.
Das que se levam quando se vai para longe.
E as coisas que cabem nas nossas malas!...
Objectos, lembranças, recordações de gente que fomos encontrando ao longo desta (mais ou menos) longa viagem que é a nossa vida, colecções que às vezes os outros consideram meio tontas e que vamos fazendo ao longo dos tempos: a minha amiga Margarida, por exemplo, quando vem a Portugal, traz a mala cheia de folhas secas do Outono de Oxford, onde vive, para me dar. E donde quer que eu vá, trago sempre pedras dentro da mala para a minha enorme colecção…
(Quando vim de Timor ia-me dando mal, porque as pedras lindíssimas que eu tinha apanhado nas areias da praia de Liquiçá - eram fósseis, ninguém as podia trazer… Mas pronto, eu trouxe, muito escondidas, e garanto que estão em lugar de honra cá em casa…)
Mas voltando às malas, nunca me esqueço da primeira vez que fiz uma mala.
Uma mala verdadeira.
Uma mala só minha.
Não aquelas malas que são apenas sacos ou mochilas e que os miúdos fazem quando acompanham os pais para férias, e eles berram:
- Vai fazer a tua mala! Se estás à espera que eu a faça, bem podes esperar…
E eles têm de pensar se levam o pijama e mais a escova de dentes, e mais a t-shirt cheia de caveiras, e mais a outra a escorrer sangue de vampiro…
Não.
Nada disso.
Aquela era uma mala a sério.
Uma mala de quem ia partir e não sabia quando voltava.
Nem se voltava.
Havia muito pouca coisa realmente importante que eu quisesse levar.
A vida, e a casa, e as pessoas que eu ia deixar não me tinham dado motivos para saudades, e eu não queria levar comigo nada que não fosse realmente essencial.
Sobretudo não queria nada que as recordasse — como se eu quisesse renascer, num lugar diferente, entre gente diferente.
Claro, as coisas do dia a dia, o que se veste, o que se calça, mas essas coisas, ainda hoje, não ocupam muito espaço nas minhas malas.
Eu tinha nessa altura pouco mais de 20 anos.
Quer dizer: estávamos, praticamente, na pré-história…
Era um tempo em que não havia telemóveis, nem iPOD, nem MP3, nem computador, nem sequer ainda — pasmem bem! — CD´s… Os discos eram uma coisa redonda de vinil, era preciso maquinetas grandes para os tocar.
Hoje leva-se no bolso toda a música que se quiser.
Hoje teclamos uns algarismos e falamos com o mundo inteiro.
Naquele tempo, quando se viajava, ficava-se mesmo separado do mundo.
Por isso eu queria levar comigo, dentro da mala, qualquer coisa que me permitisse matar as saudades que acabariam por chegar.
Qualquer coisa que levasse consigo um bocadinho do meu país.
E enfiei na mala um livro de poesia do Herberto Hélder.
“A Colher na Boca”.
Era um volume de capa branca, apenas com as letras do título ao meio — ou assim eu o recordo, à distância destes anos todos. Não me lembro, confesso, do nome da editora.
E posso dizer que aqueles poemas foram a minha salvação.
Aí eu entendi como a língua cria laços que muito dificilmente se apagam.
E como as palavras nos prendem, e nos ajudam a sobreviver.
Sozinha, no meu minúsculo quarto da Rue Cujas, em Paris, nem sempre os dias eram fáceis.
As chamadas de telefone eram caras, tinha de ir ao correio para as fazer — e convinha marcar com antecedência, dava o número e o nome da pessoa com quem queria falar, pois , se não o fizesse, a pessoa podia não estar em casa, e gastava-se uma chamada em vão.
Era mesmo, mesmo a pré-história…
Eu, que nunca fui de decorar muita coisa, (a não ser o nome das serras, e dos rios, e das linhas de caminho de ferro que na escola nos obrigavam a recitar, com mais unção do que se se tratasse do Pai Nosso…) sabia naquela altura – e ainda sei hoje - muitas estrofes de cor.
Lembro-me de repetir
“toda a juventude é vingativa
deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura”
Ou então
“não sei como dizer-te
que a minha voz te procura”

Assim, versos desgarrados, porque os poemas eram muito longos, falavam muito de mulheres, e de água, e de sangue, e de peixes, e eu lia-os e relia-os porque aquela era a minha língua, e enquanto eu a pudesse falar, o país estava dentro de mim e não me abandonava.
Lembro-me que nos dias em que eu chegava ao quarto sem ter pronunciado uma única palavra de português naquelas horas todas — eu corria a abrir o livro, e a ler o primeiro poema que aparecia, em voz alta, sempre em voz alta — para ter a ilusão de companhia, e para me sentir em território meu.
Só nessa altura entendi como se podia ter dolorosas saudades de falar a nossa língua.
Só nessa altura percebi o significado verdadeiro de “língua-mãe”.
Depois o tempo passou, a vida deu muitas voltas, e eu fiz a mala e regressei.
Mas não trouxe o livro: alguém, que ia lá ficar, precisava dele muito mais do que eu.

in "AUDÁCIA" Janeiro 2010

O TRICOT

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ABRIU A JANELA na manhã daquele domingo de Janeiro, suspirou fundo e murmurou:
“Desta vez é que vai ser”
A filha tinha acabado de se arranjar, pronta para o ritual dos almoços de domingo, quando ela lhe descobriu um piercing na língua e uma tatuagem a meio do pescoço.
Engoliu em seco e repetiu:
“Desta vez é que vai ser”
Desde miúda que sente sempre que os primeiros dias de Janeiro são mágicos, porque tudo pode acontecer.
A irmã ria-se dela.
A irmã ria de tudo, parecia viver noutro mundo.
Mesmo as coisas difíceis de suportar (os ralhos do pai, agora a morte da mãe, a deixá-la sozinha; os namorados que apareciam e desapareciam da sua vida) era como se não lhe tocassem: sentava-se no sofá, e tricotava o dia inteiro.
Desde muito nova que era assim.
A mãe ralhava, o pai ralhava, os namorados ralhavam — e ela corria a enfiar-se no sofá a fazer malha.
Ela fora sempre muito diferente da irmã, se gritavam ela gritava também, respondia sempre, não se ficava.
Mas ainda continuava a pensar em Janeiro como num tempo de promessas cumpridas, de novos planos postos em prática.
Por isso logo nos primeiros dias do ano limpava a casa com um vigor renovado, deitava fora baldes e baldes de lixo acumulado, respirava outro ar.
Mas havia rituais a que não podia fugir.
Quando há dois meses a mãe morrera, pensou que o ritual dos almoços de domingo morrera com ela. Os silenciosos almoços de domingo que acabavam, inevitavelmente, com o marido aos berros assim que entravam em casa, e a filha a berrar ainda mais.
Mas logo a irmã avisara que tudo ia ser como dantes, e que ninguém se lembrasse de faltar.
A irmã tinha uma maneira subtil de os fazer rebentar de remorsos, quando murmurava, entre dois sorrisos, “ a mãe não ia gostar nada…”
Então lá iam todos, cada um sonhando estar noutro lugar, com outras pessoas, falando de outras coisas.
À uma hora em ponto a terrina da sopa vinha para a mesa e o silêncio era geral.
“À mesa não se conversa”, tinha sido sempre a filosofia dos pais. Por isso os silenciosos almoços de domingo eram um suplício, que só terminava quando a irmã se levantava da mesa e começava a tricotar — e cada um podia ir à sua vida.
“Que seca…”murmurava a filha, vestida de preto dos pés à cabeça, a viver o seu período gótico.
(No primeiro domingo a seguir ao enterro, a irmã olhara para a miúda e ficara imenso tempo abraçada a ela a fazer-lhe festas no emaranhado do cabelo, pensando que o preto era a expressão do seu desgosto pela morte da avó, e ninguém teve coragem de a desiludir)
“Estou a ficar sem pachorra nenhuma para estas fantochadas”, murmurava o marido, desfazendo finalmente o nó da gravata.
“Tu nunca tiveste pachorra para nada…”, respondia ela.
Era o rastilho. E logo começava a zaragata, ela a dizer coisas que até nem queria, ele a dizer coisas que até nem pensava, a filha a ameaçar tipo bazar dali rapidamente, se aquela cena tipo não acabasse.
Hoje lá vão todos de novo, em romaria.
E ela tem a certeza de que o regresso a casa vai ser complicado, porque o marido ainda não descobriu o piercing nem a tatuagem da miúda e, quando descobrir, a discussão vai ser das valentes. Discussão em casa, evidentemente, porque a irmã não permite coisas dessas lá em casa, “a mãe não ia gostar nada”.
Suspira fundo mais uma vez, antes de fechar a janela.
“Desta vez é que vai ser…”, murmura.
Desta vez é que se vai encher de coragem e pedir à irmã que a ensine a fazer malha.

in "ACTIVA" Janeiro 2010

O COPO DE VIDRO AZUL

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AINDA NEM ESTAVA em mim, palavra! , e o pior era as pessoas pensarem que eu devia ter enlouquecido.
“Mas o que é que lhe passou pela cabeça para fazer um chinfrim destes?”— eu olhava para a cara da Laurinda e estava a frase lá estampada.
Mas olhava sobretudo para a cara dele, sobrolho franzido e exclamando “era só um traste velho!”
O copo de vidro azul em cacos.
O copo de vidro azul, onde ninguém a não ser eu mexia – em cacos.
Perguntei-lhe por que é que tinha mexido no copo e ele riu e disse que eu só podia estar maluca, que aquele copo devia ser a coisa mais velha que havia lá em casa, e além disso era o que estava à mão, qual o mal ?
Pronto, tinha-lhe escorregado dos dedos e tinha-se partido, mas em qualquer loja dos chineses havia montes de copos iguais àquele, com cinco euros eu comprava para aí meia dúzia. E de certeza melhores.
Olhei para ele e não acreditei.
O meu homem, o homem pelo qual há 30 anos eu tinha fugido de casa, o homem com quem partilhara as melhores horas da minha vida, o homem que era meu marido e me devia conhecer por dentro e por fora — o meu homem olhava para aquele copo e dizia “era um traste!”
O copo de vidro azul tinha 30 anos.
É raro um copo de vidro barato durar tanto—mas eu tinha-o colocado numa prateleira alta, onde ninguém facilmente chegava.
Era um copo para se olhar para ele, não para se beber nele. E ia durar—pensava eu—para sempre.
Apanhei os bocados de vidro enquanto aos meus ouvidos chegava, lá de muito, muito longe, a voz dele num dia em que olhara para mim e perguntara:
-E agora?
Tínhamos rido muito, na despreocupação dos 20 anos, “alguma coisa se há-de arranjar, trabalhamos ambos, à fome não morremos”
“A minha casa é um cubículo”, disse ele, e eu respondi que era magra, em qualquer lado me encaixava, e rimos outra vez, e outra vez ele disse “nem sequer há pratos ou copos para dois”, e mais uma gargalhada, “lojas é que não faltam”.
E no dia seguinte ele chegou a casa e disse “já não falta tudo”, e entregou-me um embrulho atamancado em papel de jornal, daquele que ainda sujava muito as mãos.
“Foi o que se pôde arranjar, “ disse, “o dinheiro é pouco”.
Era um copo barato de vidro azul.
A primeira prenda, no primeiro dia de uma vida a dois.
O copo de vidro azul — trinta anos depois, em cacos no chão da cozinha.
Estou a pensar nisso tudo quando a Laurinda me avisa que vieram entregar uma encomenda para mim, e que é preciso assinar um papel.
Digo-lhe que deve ser engano, não estou à espera de encomenda nenhuma, mas ela quase me empurra até à entrada, e diz que o homem está à porta, com um caixote que diz “frágil” e com um envelope com o meu nome escrito e a morada certa.
Faço um rabisco qualquer e abro o envelope:
“Ao menos estes são de cristal…Espero que cheguem para pagar essa porcaria que parti…”
Durante muito tempo fiquei a olhar para o caixote, sem o abrir.
Durante muito tempo fiquei a pensar no que verdadeiramente se tinha partido para sempre no exacto momento em que se partira o copo de vidro azul.
E chorei a tarde inteira.

in "ACTIVA" Dezembro 2009

QUINZE ANOS

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SENTA-SE NO CADEIRÃO da sala e estende as pernas para que o sol que vem da janela as cubra.
Está na praia, tem 15 anos e espera que chegue o homem da vida dela, que também tem 15 anos, e passa o verão de calções e chinelas, e ri muito, e promete que nunca há-de pôr uma gravata, e há-de amá-la até ao fim da vida, e hão-de ter muitos filhos, e ao jantar há-de vir para a mesa uma grande terrina de sopa, e ela há-de distribuí-la por todos, sorridente e a cheirar a alfazema.
Tem 15 anos, e a certeza absoluta de que há-de ter sempre 15 anos, e que nunca há-de ser igual à mãe, que cheira a óleo de fritar batatas e anda sempre de avental.
Tem 15 anos, está de férias e acabou de ler “Brigitte Solteira, Brigitte Casada”, onde as mulheres amam muito os maridos, e os maridos amam muito as mulheres, e os pais amam muito os filhos, e os filhos amam muito os pais, e os amigos amam muito os amigos, e todos juntos amam muito Deus e a pátria.
E ela sonha em ter uma vida assim, sobretudo quando o pai chega a casa e grita com a mãe, e a mãe grita com o pai, e depois chamam-na e fazem dela intermediária de brigas que ela não conhece, “ó Teresa, diz aí à tua mãe”, “ó Teresa diz aí ao teu pai” e é então que ela jura que nunca há-de ser assim.
As pessoas não entendem por que é que os pais não se separam, sempre em brigas, mas quando ouve isso a mãe põe ar grave e diz que, na família dela, casamento é para sempre.
Mas agora ela não quer pensar nisso, agora quer apenas ter 15 anos, apanhar todo o sol do mundo, e sonhar com o dia em que o homem da vida dela, que também nunca há-de ter mais de 15 anos, entre em casa a cheirar a “Cuir de Russie”, que ela não sabe o que é mas que no livro é aquilo a que cheira Olivier, o namorado da Brigitte, que há-de ser seu marido e amá-la (e também aos filhos, aos amigos, a Deus e à Pátria) até à morte.
E jura, com toda a força, que nunca há-se ser igual à mãe, que há-de ter sempre todo o tempo do mundo para os filhos, e há-de compreendê-los, e eles vão crescer e amá-la sempre muito, como a Brigitte e o Olivier amam as respectivas mães, e todos os domingos virão a sua casa almoçar, e a terrina com a sopa há-de estar no meio da mesa, e ela a cheirar a alfazema
Estende as pernas e repete, sorrindo, “ tenho 15 anos, hei-de ter sempre 15 anos, e nunca serei igual a ela, nunca, nunca”
De repente estremece com o som da porta da rua que se abre.
“Fartei-me de ligar mas não atendeste, por isso tive de cá vir”.
Ela olha para o telemóvel que regista 5 chamadas não atendidas. É o que dá sonhar ao sol.
“O meu advogado quer saber quando pode falar com o teu”, diz ele.
“Quando quiser”, diz ela e, de repente, sorri porque, com aquele calor, ele vem de blazer e gravata, deve ter tido uma reunião importante.
“Disse alguma graça?”, pergunta ele, mal-humorado, num tom que o Olivier nunca usaria
Ela encolhe os ombros e não responde
Ele larga as chaves em cima da mesa, “aproveito para as devolver, não faz sentido nenhum ficar com elas”, e sai.
Ela volta a estender as pernas para apanhar o sol que ainda resta.
Tem 15 anos, há-de ter sempre, sempre 15 anos.
O mal é que o homem da vida dela afinal andou sempre mascarado, e já devia ter nascido com 50.
E, evidentemente, nunca leu “Brigitte Solteira, Brigitte Casada”.

in "ACTIVA" Setembro 2009

O CHEIRO DA ÁGUA

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EVA DETESTA o verão.
Só por isso aceitou o convite do filho para passar com eles o mês de Agosto. A casa tem paredes grossas que protegem do calor, e às vezes corre uma brisa no pátio.
Mas hoje nem isso.
“Quando era pequena, Agosto cheirava a água quente”, diz, e todos riem, e a neta exclama “ó avó, mas a água não tem cheiro”, e o neto, que é o génio da família, começa a papaguear o que lhe ensinaram na escola, “a água é inodora, incolor” e mais outra coisa de que ele já não se lembra.
E ela sorri porque eles são todos muito novos e ainda não viveram tempo suficiente para saberem que tudo, absolutamente tudo, tem cheiro. Sobretudo a água quente.
Normalmente todos se riem sempre que ela fala de quando era nova, e de como só reconhece as coisas pelo cheiro, e logo o neto volta a atacar, porque também já lhe ensinaram na escola que a isso se chama faro, e só os cães é que têm, e todos voltam a rir e a gabar a sabedoria da criança.
Não tem posição na cadeira, a lona cola-se-lhe às pernas, precisa urgentemente de vento e aspirina.
E mais uma vez a cabeça lhe rebenta com lembranças de um tempo que ela prometeu apagar da sua vida - o vapor da água espalhando-se pela casa inteira, escorrendo das paredes, abafando o ar, misturando-se na voz da tia, insistindo em que o banho devia ser de imersão, senão não era banho não era nada.
O cheiro da água a cair na banheira quando elas voltavam da praia é a recordação mais forte dos verões da sua infância – e a velha Emília a queixar-se sempre das correrias , das gritarias , “ai minha senhora, as meninas cada vez dão mais trabalho, e eu já estou velha para aguentar isto!”
O banho, de água tão quente que às vezes a pele ardia por causa do sal. Primeiro ela, a mais velha; depois as irmãs – e sempre a presença da tia, que superintendia tudo, como um general a dar ordens aos seus homens.
Em Agosto, a mãe e o pai viajavam. O calor atacava, a tia instalava-se lá em casa--e, durante um mês, era como se vivessem numa casa desconhecida.
“Onde é que já se viu pôr os remédios na cozinha!”, berrava a tia, diante das aspirinas e dos benurons e dos xaropes espalhados pelas prateleiras do armário, “isto é um perigo! “, exclamava, enquanto levava tudo para o armário da casa de banho, cheio de champôs e lacas e sabonetes que, por sua vez, por suas mãos passavam para o roupeiro do corredor, donde era retirada a loiça dos domingos (“loiça num roupeiro, oh meu Deus!”) que iria misturar-se no armário da casa de jantar com a que servia nos dias de semana.
Emília não dizia nada, não se desobedece à tia dos patrões, mas abanava a cabeça e suspirava fundo, porque sabia que ia sobrar para ela: assim que eles voltassem, todos os objectos regressavam aos lugares habituais, donde o mês de Agosto os exilara, como se também eles tivessem direito a férias.
Eva precisa mesmo de aspirina.
A nora diz-lhe que há uma caixa no armário da cozinha e, de repente, ela vai mesmo a exclamar “mas onde é que já se viu…”, mas trava a tempo, o calor está a dar-lhe cabo da cabeça, sacode todos esses pensamentos para muito, muito longe, com medo de um dia destes, sem querer, começar a chamar por Emília, ou a falar com voz de general a dar ordens aos seus homens.

in "ACTIVA" Agosto 2009

CONTA CORRENTE

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ANA OLHA PARA O ÉCRAN e a imagem dele enche a casa.
Quer desviar os olhos mas não consegue.
Pega no comando para desligar, mas é como se a mão estivesse presa e ela no meio de uma daquelas séries de bruxas e génios do mal que abundam na programação.
Nem ouve as perguntas que lhe fazem. Vê-o só a ele, o cheiro a colónia que deve pairar naquele estúdio, a pose decerto encenada em casa, a voz que os muitos maços de cigarros ao longo dos anos foram enrouquecendo.
A jornalista sorri, reverente, é sempre bom mostrar respeito diante de uma figura pública, mesmo que o programa seja de futilidades e a figura pública, que sempre se recusou falar da sua vida privada, agora olhe para as câmaras numa operação de charme que Ana não entende.
E depois passam uma reportagem feita na casa nova, a casa escolhida pela Bé, como ele não se cansa de repetir, e a Bé a aparecer ao fundo do corredor, e ele pendurando-se no braço dela, e a mostrar a mesa onde escreve os livros,” todos dedicados à Bé, evidentemente”, os quadros da parede, “escolhidos pela Bé, que percebe imenso de pintura”, a música que ouve, “em conjunto com a Bé, que está muito mais a par destas coisas ”, o cão que lhe salta para o colo, “trazido pela Bé, que o encontrou à nossa porta”.
Ana sorri.
Ele sempre fora alérgico a cães.
Uma tarde um rafeiro atravessara-se no seu caminho—e ele esteve a espirrar a tarde inteira.
Entretanto a reportagem acabara e estava-se de novo no estúdio. “Toda a minha vida esperei pela Bé”, murmura ele.
E Ana não percebe como um homem tão inteligente pode fazer figuras tão tristes diante de milhares de pessoas, e ouve-o dizer que só com a Bé encontrou um sentido para a vida, que antes da Bé nada teve importância.
-Devo-lhe tudo, absolutamente tudo - repete ele.
É então que Ana tem uma fúria.
Não pelo facto de ele ter apagado 25 anos da sua vida; não pelo facto de a Bé ter idade para ser sua neta e ele se ter casado com ela de papel passado e tudo, coisa que nunca julgou importante fazer com ela; não por ele ter saído de casa uma tarde sem a avisar de que não iria voltar. Por nada disso.
Aquele “devo-lhe tudo” é que a fez rebentar.
Pega num papel e numa esferográfica (ele deve ter levado a máquina de calcular, há muito tempo ela não a encontra), e enquanto ele se desfaz em sorrisos e baboseiras diante das câmaras, Ana vai somando parcelas e mais parcelas, de rendas de casa, de água, gás, luz, electricidade, eTv Cabo, das compras ao fim do mês, dos cinemas ao sábado, das resmas de papel e depois do portátil e da impressora e dos tinteiros, e das termas nas férias por causa das alergias, e da assinatura do “Magazine Littéraire”-- porque durante anos ele só viveu para a sua escrita, mas a fama e o dinheiro tardavam a chegar, e foi Ana que andou com a vida para a frente.
E as parcelas vão surgindo de todos os recantos da memória, e Ana vai somando tudo, e multiplicando tudo por muitos meses, e por muitos anos, e começa a rir, a fazer contas e a rir, com aquele riso que só a muita raiva dá.
Quando as contas ficarem prontas, Ana vai mandar tudo para casa dele.
Para que ele veja que afinal nem tudo deve à Bé.
Pelo menos alguma coisa ainda lhe deve a ela.

in "ACTIVA" Julho 2009