quarta-feira, 24 de março de 2010

Erros de ‘casting’

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Por Catarina Fonseca

NÃO, NÃO TEM NADA a ver com o cinema. Ou melhor, tem a ver com o ‘filme’ da nossa vida. Sabe aquelas pessoas que achámos fantásticas e depois percebemos que não eram o que esperávamos? Cá ficam algumas desilusões por que quase todas passámos.

Afinal, as nossas primeiras impressões nem sempre são muito apuradas. Enganámo-nos, por exemplo, nas seguintes:

- A Mulher a Dias Tradicional

Situação: Ao fim de uns meses a jurar que conseguíamos fazer tudo sozinhas, era o que faltava, naquela casa nunca entraria mão alheia, ao fim de sonharmos anos e anos que, no dia em que tivéssemos casa nova, ela ia cheirar a cera e a maçãs, a realidade cai-nos em cima com todo o seu peso de realidade (costuma ser muito). Não só não conseguimos fazer tudo sozinhas como a casa, se cheira a alguma coisa, é aos ténis do Paulinho e a porcaria entranhada, nada que lembre remotamente cera ou maçãs.

Sonho: Ao fim de muitas investigações, decidimos contratar a Odete. A Odete é a mulher da nossa vida. A Odete tem a cara e o aspecto que tinham todas as empregadas dos filmes, e só não anda fardada porque, enfim, já era um bocadinho demais. Mas quando chega a casa e vê a roupa lavada, tem vontade de beijar a Odete na boca.

Realidade: Ao fim de uns dias, a roupa demora um bocado mais a ser lavada. Há bolinhas de cotão por todos os cantos. A Odete deu em fiscalizar a sua vida e torce os cantos da boca de cada vez que você lhe diz. Ó D. Odete, por favor não me arrume os cds que eu gosto de os ter espalhados. No dia seguinte, os CDs estão outra vez empilhadinhos e você já não sabe onde tem nada. A Odete queima-lhe equipamentos de ginástica à velocidade da luz, porque ainda não percebeu que há certas coisas que não gostam de ferro. A Odete acha que você é uma galdéria que não sabe o que a vida custa a ganhar e de certeza que lhe roga pragas pelas costas e põe sal atrás das portas.

- A Vizinha Simpática

Situação: Você acaba de se mudar para uma casa nova onde não conhece ninguém. Não sabe a que porta bater se o telemóvel pifar, o cão tiver um ataque de histeria ou entrar uma barata pelo cano do lava-loiças. Sente-se uma alma desamparada num caixote com muitas gavetas, e amaldiçoa o dia em que decidiu ser independente.

Sonho: Nos filmes a malta tem sempre um vizinho louro e simpático e incompreensivelmente solteiro, apesar de ser louro, simpático e com casa própria. A malta vai-lhe bater à porta porque precisa de um ovo e no episódio seguinte já estão enroladinhos à lareira a escolher o nome dos filhos.

Realidade: Ao fim de um tempo, faz finalmente amizade com a D. Albertina, do 5º esquerdo. Desvantagem: a D. Albertina é como os rotweillers, quando ferra não larga. A D. Albertina faz-lhe esperas para lhe contar a sua vidinha de uma ponta à outra, do filho que casou e foi para a Suíça e partir daí nunca mais ninguém o viu, até ao primo Anacleto que era tão bom rapazinho e coleccionava escaravelhos e veja lá, deu em drogado, ‘então e a menina, tem namorado? Ah não? Porquê? Olhe que essas coisas não se podem arrastar, olhe depois chega aos 40 e não encontra homem que a queira.’ Ainda por cima, arrasta cómodas corredor fora até às 4 da manhã (deve ser promessa, porque ninguém tem assim tanta cómoda para arrastar) ou depois ouve o Frei Hermano da Cãmara até às 4, porque tem insónias e é surda.

- A Companheira de Viagem

Situação: De repente, apeteceu-lhe tirar uns dias só para si. Uns dias para ir a algum sítio onde a mão do Homem nunca pôs o pé. Ou enfim, a qualquer sítio mais exótico que Cascais. Problema: detesta viajar sozinha, e o Paulinho avisou logo que nos meses mais próximos não podia tirar dias nenhuns porque o chefe andava maldisposto e quando o chefe anda maldisposto, não se lhe pode pedir nem um pacote de açúcar.

Sonho: Decide investigar qual das suas amigas terá um chefe mais bem-disposto que a deixe tirar uns dias para vir a algum sítio mais exótico que Cascais. Encontra a Joaninha, que é um amor de pessoa e sempre teve o sonho de ir a Pequim.

Realidade: Percebe imediatamente que a Joaninha não tem a noção de onde fica Pequim. O avião inda vai no ar há 12 minutos e já ela refila que tem pavor de aviões e que um ministro famoso morreu de tromboflebite numa viagem a não sei onde. Depois quer sempre ir à janela. Protesta que a comida nos aviões é de plástico. Chateia a hospedeira porque precisa de uma manta, depois porque a manta tem muito pêlo e depois porque afinal não quer a manta que deve estar atochadinha de ácaros. Quando chegam, fica de trombas porque está a chover, depois porque na China só falam chinês, são uns ignorantes, depois porque o hotel não é nada como nos folhetos, depois porque o guia cheira mal dos pés, os nativos são todos iguais, e a comida não é nada como no ‘Dragão do Oriente’ lá ao pé de casa dela. Quando a viagem chega ao fim, toda a gente jura que nunca irá mais longe que Cascais. Ou pelo menos, na companhia da Joaninha.

- A Instrutora Loura

Situação: Decide finalmente que desta é que é: vai perder aqueles quilos que a impedem de ser a Giselle Bundchen e vai descobrir finalmente onde é que ficam os trícepes. Enche-se de coragem e inscreve-se num ginásio. Compra um top que lhe deixa o umbigo à mostra, uns ténis daqueles com molas no calcanhar e apresenta-se assim fardadinha no primeiro dia de aulas, com a vaga sensação de não ter estudado a lição.

Sonho: Quando bota os olhos na instrutora, fica mais descansada. A rapariga deve ter metade da idade da sua filha, está vestida de cor de rosa dos pés à cabeça como uma bailarina de caixa de música, e também tem ténis com molas nos calcanhares, o que a deixa mais calma. Podia ir numa procissão mascarada de anjinho.

Realidade: O Anjinho avisa logo que não está ali para brincadeiras e quem quiser uma cena calminha pode iniciar-se no ponto cruz. Parece que baixou um Espírito do Mal que a leva a dizer as coisas mais anti-condizentes com alguém vestido de cor de rosa. Os outros têm todos cara de quem nunca fez ponto cruz na vida, nem qualquer outra ‘cena’ pró sossegado. O Anjinho já ligou a turbina, e o resto da turma tem um ar feroz como se fosse para o Afeganistão depois de amanhã. Dez minutos depois, você parece uma torneira humana. Pouco falta para malhar com as ossadas no chão. Só se lembra da Luísa Castel-Branco a dizer ‘Você é o elo mais fraco, adeus’. No dia seguinte, são precisas quatro tentativas para sair da cama. Doem-lhe todos os músculos, inclusive músculos que não sabia que tinha. Continua a não saber qual deles é o trícepes, mas de certeza que também lhe dói.

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CAIXA

Como prevenir desilusões
- Investigar bem se aquela é o tipo de pessoa que você procura.
- Não se deixar levar demasiado pela aparência.
- Conhecer-se a si própria: costuma julgar bem as pessoas à primeira vista ou não?
- Racionar o seu tempo: não gaste demasiado tempo de vida com pessoas de quem não gosta.

´"ACTIVA" - 2009

sábado, 20 de março de 2010

ISTO SÓ LÁ VAI COM UMA REVOLUÇÃO…

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Por Alice Vieira


Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

O MEU PAI anda preocupado.

“Isto só lá vai com uma revolução” — ouvi-o murmurar há dias.

E na livraria, onde entra muita gente que lá fica na conversa com ele, já ouvi muitos dizerem a mesma coisa.
Eu acho que em Portugal nunca houve uma revolução. Na escola falou-se de uma “revolução liberal” em 1820, muito importante porque deu ao país a primeira constituição — mas não é de uma revolução assim que eu falo.
É de uma mesmo a doer, como a francesa — que o meu pai me explicou muito bem depois daquele dia em que descobriu que eu não sabia quem era o Danton.
Ou como a americana, cheia de índios e cowboys e pradarias e desfiladeiros e muitos tiros e muito sangue.
Nem estou a ver, aqui em Lisboa, como é que se fazia uma revolução dessas.
Mas ultimamente não se fala de outra coisa.
Acho mesmo que as únicas pessoas que não devem falar disso são aqueles que moram nas Necessidades.
Porque, nestes últimos tempos, enquanto cá em casa o meu pai se preocupa, por lá tem sido um corrupio de festas e jantares e comemorações: no fim do mês, foi um grande banquete no Palácio com “as mais altas individualidades do Estado” (não sei quem sejam, mas devem ser todos muito importantes. Pelo menos, devem ser todos muito altos.); há três dias, foi uma grande festa desportiva no Quartel de Marinheiros; depois de amanhã entra no Tejo um navio russo e lá vai o rei almoçar a bordo; e ontem houve festa outra vez, porque o infante D. Afonso prestou juramento na Câmara dos Deputados como Príncipe Real.
Quer dizer: se houver outra cena de tiros como há dois anos e D. Manuel morrer, é ele o rei.
Tenho pena do D. Afonso, coitado, que nunca na vida deve ter pensado em ser Príncipe Real. Irmão de D. Carlos, deve ter suspirado de alívio assim que nasceram os sobrinhos: o trono estava garantido.
O atentado de há dois anos é que não estava nos seus projectos…

- Ao Arreda, quem o quiser ver feliz é dar-lhe um automóvel para as mãos…- disse o meu pai ontem ao jantar.

A minha avó ofendeu-se logo:

- Porque é que o senhor meu genro não se refere a Sua Alteza pelo seu nome, em vez de usar essa alcunha ordinária?
- Ordinária porquê? — exclamou o meu pai — Toda a gente sabe que de automóveis é que ele gosta! E todos o vêem por essas ruas de Lisboa, numa velocidade como se estivesse nalguma corrida, a berrar “arreda! arreda!” para as pessoas o deixarem passar! Estava a pedir a alcunha…

Eu não disse nada, mas fiquei cá a pensar que, se eu fosse o D. Afonso, a ter de carregar até ao fim da vida com o nome de (levei dois dias a sabê-lo de cor!) “Afonso Henrique Maria Luís Pedro de Alcântara Carlos Humberto Amadeu Fernando António Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis João Augusto Júlio Valfando Inácio de Saxe-Coburgo-Gota e Bragança” — havia de me sentir muito feliz por ter uma alcunha com uma palavra só.

quarta-feira, 17 de março de 2010

O que ainda falta inventar

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Por Catarina Fonseca

JÁ QUASE TUDO foi inventado, é certo, mas havia tantas coisas que nos fariam infinitamente felizes e nos transformariam a vida para sempre!

Aqui ficam apenas alguns exemplos de engenhocas que nos fariam imenso jeito.

Detector de Sacanas

- Situação: A gente está numa festa/’rave’/missa, de copo/pastilha/missal na mão, e de repente achega-se um qualquer e diz: ó Rita/minha/irmã, dá-me o teu telemóvel que te acho uma mulher inacreditável e nunca conheci ninguém como tu.
- Sem DS: A malta, esteja onde estiver e seja com que capacidades lhe sobrarem na altura, acredita instantaneamente que o tipo viu aquilo que ninguém mais viu: como você é uma pessoa absolutamente genial. Dá-lhe o seu telemóvel e fica três dias à espera que ele ligue. Ele não só não liga como sempre que a vê finge que não a conhece. Encontra-o na próxima festa/rave/missa a dizer a mesma coisa a outra.
- Com DS incorporado no seu, digamos, sutiâ: 1ª versão: Uma Voz que lhe lembra o Brad Pitt/Bob Marley/ Deus sai-lhe do peito e lembra-lhe todas as razões por que aquele não é o homem ideal para si. Infelizmente, a primeira versão do DS revelou-se completamente inútil porque a maioria das ‘informadas’ desligavam imediatamente o sensor e seguiam em frente assim mesmo. A segunda versão é constituída por um engenhoso sistema que liberta gás hilariante. A gente desata a rir na cara do tipo, mesmo que não queira, e depois é obrigada a ir à casa de banho lavar a cara. Quando volta, ele já lá não está, ou está com a autoestima de rastos, o que vai dar no mesmo.

Telecomando para os Miúdos

- Situação – O Manel quer andar de baloiço, a Maria também, o Manel prega uma galheta na Maria, a Maria desata a gritar e para animar a festa chega uma criança alheia que se senta no baloiço, caso em que o Manel e a Maria desatam os dois a gritar em coro.
- Sem TM – A pobre mãe tenta rever mentalmente todos os programas da Oprah com especialistas que ensinavam a lidar com crianças e todos os livros do Brazelton a informar que se deve deixar gritar os filhos. O Brazelton nunca deve ter tido filhos. Ou pelo menos, filhos que gritam.
- Com TM – Aponta-lhes o telecomando no botãozinho que diz ‘Birras’ na setinha do volume, e baixa-lhes o som. Depois carrega na setinha que diz ‘rewind’ até ao sítio onde se aproximou do baloiço, e leva-os rapidamente para o outro lado do parque sem nunca terem passado por baloiço nenhum. Aponta o comando à criança alheia, carrega em setinha que diz ‘Lot’ e transforma-a numa estátua de sal (pronto, está bem, num vendedor de gelados, que estátua de sal já está muito visto. Pensando melhor, é melhor não. Vendedor de gelados, em não se querendo comprar gelados, é ainda pior que um baloiço. É melhor transformá-lo numa amoroso caniche com as vacinas em dia, a que as crianças possam fazer festas). Aponta o comando ao baloiço e carrega na setinha que diz ‘Jorge’. O baloiço transforma-se imediatamente no George Clooney que a leva para o seu chalé no lago Como e se dedica a ser seu escravo sexual e a servir-lhe cafés como nomes de música clássica para o resto da vida.

Sapatos Inteligentes

- Situação – Tenta calçar aqueles sapatos de salto vertiginosamente alto/fino/finíssimo que viu na revista, onde lhe garantiam que lhe acrescentavam mais meio-metro de perna. De facto acrescentam, mas têm como efeito secundário que passa a vida a enterrar os stilettos entre as pedras da calçada portuguesa, que deve ter sido toda feita por calceteiros gay que odiavam profundamente as mulheres.
- Sem SI - No fim do dia, partindo do princípio que consegue chegar ao fim do dia, doem-lhe tanto os dedos dos pés que só se lembra das irmãs da Cinderela que tiveram de cortar os dedinhos para caberem no sapatinho de cristal. Começa a desconfiar que há qualquer coisa que todas as outras mulheres lhe estão a esconder. Quando regressa a casa aos esses pela calçada, esborracha-se nas pedras. Incapaz de se levantar, lá fica a ouvir uma velhota resmungar: “estas raparigas agora metem-se todas nas drogas e andam por aí aos caídos que é uma tristeza, gente tão nova”.
- Com SI - Os sapatos transformam-se automaticamente conforme a situação do dia. Quando sai de casa, são uns sólidos sapatos de caminhada. No local de trabalho, crescem automaticamente para 10 cm de salto se, e só se, se aproximar alguém que valha a pena (é favor não fazer analogias com outras coisas). Em estando a 10 m do ginásio, transformam-se em ténis fluorescentes com molas cor de rosa nos calcanhares e contador de calorias. Os modelos mais recentes incluem GPS e um DS incorporado, que a leva automaticamente para onde deve estar em qualquer momento da sua vida.

Instrutora de Moda

- Situação – A gente acorda verde como a princesa do Shrek, como é que ela se chamava, com vários quilos a mais como a princesa do Shrek, e o problema é que não podemos ir trabalhar com um vestido cor de rosa até aos pés. Queremos recordar a paleta de cores que nos fica bem, segundo lemos num artigo da Activa, e não conseguimos. Por qualquer razão, nada na gaveta/armário/chão nos grita: ‘veste-me e leva-me contigo para o trabalho!’.
- Sem IM – A gente apanha a primeira coisa que encontramos na gaveta/armário/chão, mesmo que não faça parte da nossa paleta, nem da paleta de qualquer outra pessoa, mesmo que nos faça gorda e nos transforme num clone da avó Emília e nos grite que nenhum homem à face da Terra gostaria de ser visto ao nosso lado num semáforo, quanto mais ao nosso lado num altar.
- Com IM – Quando acordamos, ligamos a Instrutora de Moda como ligamos o Esquentador. A Instrutora de Moda aparece no espelho como uma projecção holográfica da nossa melhor amiga, e diz-nos: “Olá, Sofia/Rita/Catarina, estás tão gira hoje! Eis como podes ficar ainda mais gira. Veste aquele top branco que juraste à tua mãezinha que nunca usarias, aquelas calças pretas que achas que nasceram para a mãe da Família Adams mas que fazem um rabo minúscuclo, ah, e onde pára o casaco cor de rosa, está na máquina há três semanas, não faz mal, podes vestir o azul, aquele que o teu ex te deu, ah, queimaste-o/ofereceste aos Emaús/aproveitaste para um esconjuro à luz do luar na Serra de Sintra, não faz mal, pronto, veste o kispo! Sim! O que tens desde o euro 94! 1894! Sim, o preto! Quero lá saber da tua paleta de cores!”

Escravo Holográfico

- Situação - O dia arrasta-se como se a força da gravidade fosse maior para nós do que para o resto do mundo. parece que andamos com botas de chumbo nos pés, como os prisioneiros daquelas prisões de alta segurança nos Estados Unidos. Só nos lembramos das penas para os condenados nos livros do Lucky Luke: 25462849 anos de trabalhos forçados. Carregamos compras. Levantamos pesos no ‘body pump’. Carregamos a criança. E o carrinho da criança. E a mala da infindável tralha de que a criança precisa. E depois, ainda temos que vestir e despir, que dá uma grande trabalheira!
- Sem EH – Desenvolvemos olheiras perpétuas, o Zé Manel começa a fazer olhinhos à Soraya que anda no body-attack de top cor de rosa que lhe acaba acima do esterno (não que ela saiba onde fica o esterno), o Luisinho traz uma mensagem da professora a dizer que é hiperactivo e disléxico e a culpa é nossa, vamos ao médico e ele encosta o estetoscótpio que é frio como as estepes da Ucrânia às nossas costeletas, manda inspirar e expirar, e diz: ‘o que a senhora tem é cansaço’.
- Com EH – Eis que entra em cena o, digamos em homenagem ao Natal, Rodolfo. O Rodolfo, é alto, espadaúdo, de olho azul e nunca diz: olha carrega tu os sacos que eu já levo aqui a grade de cerveja. O Rodolfo lava, aspira, puxa o lustro e pole as pratas sem um queixume, o Rodolfo levanta-se de noite quando o bebé chora e canta-lhe cantigas de embalar do Zeca Afonso, o Rodolfo vai connosco ao supermercado e carrega trinta packs de dez de leite meio-gordo, o Rodolfo programa do gravador de DVDs para todas as ‘Anatomias de Grey’ até ao ano 4000, o Rodolfo vai connosco ao ginásio e carrega a barra por nós, faz ele próprio 600 flexões e 516 abdominais e corre daqui até Cascais sem uma palavra de desespero, o Rodolfo acompanha-nos ao vestiário, veste-nos e despe-nos e maquilha-nos, depois leva-nos a casa e põe o banho a correr com sais cor de rosa e o patinho vibrador, enfia-nos na cama e dá-nos um beijo de boa noite e aconchega os lençóis e deita-se no chão, no tapete, depois de ter dito: ‘Até amanhã, Milady.’

Teletransporte

- Situação – Prometemos à tia Júlia que a íamos visitar ao, digamos, Texas, se ela prometesse votar no Obama. Problema: é preciso mudar de avião a meio, e antes de mudar de avião é preciso entrar nele, que dá uma grande trabalheira e por isso é que ainda não cumprimos a promessa desde que a tia Júlia ajudou a pôr o Obama lá onde ele está.
- Sem TT – Recorda-se demasiado tarde que os aviões que vão para a América nunca são o fofo ‘Pisco’ nem o, como é que ele se chama, ainda mais fofinho ‘Alexandre O’Neil’, são umas coisas gigantescas onde de certeza que vai escaqueirar o Galo de Barcelos gigante que comprou para a tia Júlia, e de certeza que o seu casaco vai acabar atochadinho de ácaros no meio de todos os outros casacos, as hospedeiras têm cara de pau e de certeza que sabem qualquer coisa que você não sabe, e ao seu lado acaba de se sentar um gajo trombudo e de barba preta com um ar muito enervado que tem ‘Atenção! Sou director-geral da Al-Caeda e pretendo fazer explodir todo este avião e respectivo conteúdo dentro de cinco minutos assim que sobrevoarmos o Fórum Picoas porque me prometeram 11 mil virgens!” escrito na testa. Tem vontade de lhe dizer que não há 11 mil virgens em todo o mundo. A não ser no Horóscopo. De certeza que ele não está a pensar no Horóscopo. Pensa se deve prevenir a hospedeira. E se ele será Escorpião.
- Com TT – Lembram-se do ‘Caminho das Estrelas’? Toda a gente teria um Teletransportador em casa, era como ter, sei lá, microondas, a gente casava-se e o sogro oferecia-nos o teletransportador, que se punha a um canto da casa de banho com o desumidificador apontado para não criar bolor. A gente era só pegar na mala e no Galo de Barcelos, abrir a porta do teletransportador, digitar a morada da tia Júlia e a quem queriámos que fosse avisado caso alguma coisa corresse mal na reagregação de moléculas (esoperam lá, isto é melhor não) e pimba. Meio segundo depois, estávamos na cozinha da tia Júlia, ou na lareira, caso fosse um daqueles teletransportadores comprados em saldo no Natal que só funciona de lareira em lareira e por isso foi muito baratinho.
Em resumo: resolvia-se a crise do petróleo, dos transportes, e dos cereais. Era a solução para o mundo! Quais energias renováveis!

´"ACTIVA" - 2009

segunda-feira, 15 de março de 2010

TARDE DE CHUVA

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Por Alice Vieira

EU TINHA PROMETIDO chegar cedo, muito antes da reunião, para podermos beber um café e dar-nos ao luxo de perder alguns minutos em amena, saudável, imprescindível cusquice.
Sempre fui de opinião que nada melhor do que meia hora a falar de coisa nenhuma, para depois se resolver tudo.
O meu contributo para a salvação do planeta é não ter automóvel, e sou feroz adepta de metro e autocarro.
Isto, evidentemente, quando não posso utilizar o meu meio de transporte preferido, a saber: as solas dos sapatos.
Mas convenhamos que não é o meio de transporte mais recomendável entre o Saldanha e Alfragide. (Eu sei que o Cesário Verde ia a pé da Baixa até Linda-a-Velha, mas morreu tuberculoso aos 30 anos, o que prova que nem sempre o exercício físico faz bem à saúde…)
Mas para chegar cedo, decidi enfiar-me num táxi, apanhado milagrosamente naquela tarde de chuva.
Entro, digo boa tarde, o nome da rua para onde vou, e oiço uma voz furiosa:
“Mas o que é que te passou pela cabeça?!”
Mal tenho tempo de me recompor e logo entendo que aquilo não é para mim, o taxista fala freneticamente ao telemóvel, faz-me um aceno de mão e de cabeça para que eu perceba que já sabe para onde eu quero ir—e lá nos pomos a caminho, com a voz dele sempre em música de fundo.
A conversa anima porque entretanto (“passa-lhe aí o telemóvel ”) entra na conversa um Senhor Doutor, a quem o taxista pede muitas desculpas, explicando que “ esse meu colega é meio passado dos carretos, e por isso é preciso a gente dar-lhe um certo desconto”
Mas enquanto ele está nestas explicações, toca outro telemóvel, e a voz dele amacia, oh como amacia!, e passa a dividir as atenções entre o Senhor Doutor (que já percebi tratar-se de um advogado) e o colega passado dos carretos (que já percebi tratar-se de um tonto prestes a embarcar na compra de um carro em 2ª mão) e a Xana ( que já percebi tratar-se da Xana, prometendo-lhe arroz de pato se ele passar lá por casa).
Tento dizer-lhe qual o melhor caminho para se fugir às obras a seguir a Sete Rios, mas o colega passado dos carretos insiste que o carro em 2ªmão está mesmo como novo, e ele volta a mandar passar o telemóvel ao Senhor Doutor, para ver se ele lhe põe alguma ordem nas ideias, “tá-se mesmo a ver que é um negócio da tanga, ele agora paga pouco mas depois é preciso motor, é preciso jantes, é preciso tudo!”.
E a Xana pergunta “mas tu estás a falar com quem?” e ele, ”nada, estou com um cliente”, e o cliente, que devo ser eu, desiste de lhe sugerir outro caminho porque entretanto, e como era de prever, caímos em plenas obras a seguir a Sete Rios.
A Xana cansa-se (“´pera aí, ó Xaninha!”) e desliga, mas logo há outro em linha, a perguntar-lhe se ele se esqueceu do cliente da Ribeira das Naus, “ó caraças, já não vou a tempo! vai lá tu, apanha o gajo e explica-lhe” --e desliga para logo ligar para outro número, “ó Sr. Vítor, vai aí um colega meu buscá-lo, que eu não posso, estou aqui numa encrenca dos diabos, acho que houve um acidente aqui na estrada, nem para trás nem para a frente!”, e do Sr. Vítor passa para o colega anterior, ”já falei com o gajo, dizes que vais da minha parte, que ele está à tua espera”, e desliga, e retoma a questão do Senhor Doutor e do colega passado dos carretos — e eu chego, exausta, ao meu destino.
Aponta-me o taxímetro, faz o troco - sem largar a conversa com o colega e com o Senhor Doutor.
Na empresa estranham o meu atraso e o meu ar cansado, a pedir sofregamente um café e uma aspirina.
E todos pensam que enlouqueci quando lhes digo que venho de um complicado negócio de venda de carros em segunda mão, que pelo caminho passei pela Ribeira das Naus — e que tudo me cheira a arroz de pato.

«ACTIVA» de Mar 10

sábado, 13 de março de 2010

A MÉDICA DA MINHA MÃE

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

REBENTAM bombas quase todos os dias.
Acho mesmo que o som já se tornou tão banal como a voz do homem do pitrolino, do aguadeiro, ou da preta a vender mexilhão.
Há dias ouvi um tiro e disse:

- É o canhão do Arsenal.

O canhão do Arsenal dispara sempre um tiro, a que se segue um apito prolongado - e toda a gente sabe que é meio dia.
Mas desta vez o meio-dia vinha longe e, em vez do apito prolongado, veio uma série de cinco ou seis tiros, uma grande balbúrdia, gente a gritar e a correr pela rua abaixo, e a voz da Rosa:

- Coitadinhos, lá vão mais uns para o Limoeiro.

O Limoeiro deve ser a pior cadeia do país. Lembro-me de ouvir o Professor Buíça dizer que os que para lá entravam eram atirados a monte, espancados todos os dias e, de comida, só tinham direito a uma tigela de um líquido que mais parecia água suja.
A minha avó bem reza a Santo Expedito, mas o santo deve andar muito atarefado pois, pelas conversas que oiço, o país já não tem conserto.
Pelo menos é o que diz o meu pai quando acaba de ler “O Século”, acende uma cigarrilha, e conversa até ser hora de nos recolhermos.
Mas esta noite a minha mãe foi quem mais falou.
Tinha ido à médica.
A minha avó está sempre a dizer que não percebe por que é que a minha mãe há-de ter uma mulher médica, em vez de ter um homem, como toda a gente, e não acredita em nada do que a Dra. Adelaide diz no seu consultório da Baixa.

- Mulheres querem-se na cozinha… murmura.

Quando vai ao consultório da Dra. Adelaide, a minha mãe traz sempre muitas coisas para contar.
Desta vez era sobre um encontro que tinha havido na Dinamarca, com representantes de 17 países, onde tinha sido proposta a criação de um Dia Internacional da Mulher.

- Desvarios republicanos…- murmurou logo a minha avó.

A Dra. Adelaide (Adelaide Cabete, como está escrito na placa) é das poucas mulheres que conseguiram ser médicas mas, apesar de exercer medicina há mais de dez anos, as pessoas ainda torcem o nariz, e dizem que melhor seria se fosse para casa coser meias.
A minha mãe diz que não há como a Dra. Adelaide para defender as mulheres e as crianças, e que por isso é que gosta tanto de lá ir. O meu pai também acha bem que a minha mãe lá vá, porque é na livraria dele que a Dra. Adelaide compra todos os livros de que precisa.
Eu é que estou um bocado preocupado porque, nestas últimas semanas, a minha mãe tem ido muitas vezes ao consultório da Dra. Adelaide.
Mas eu olho para ela e não me parece doente. Anda até com ar feliz, apesar das bombas e dos tiros.
O meu pai há dias olhou para ela, e murmurou:

- Mas que raio de altura é que nós fomos escolher…
- Altura para quê? — perguntei.

Mas ele entrou no escritório e não me respondeu.
Olhei também para a minha mãe. Estava ligeiramente corada.
E até me parece que tem engordado um bocadito.

«JN» de 13 Mar 10

quarta-feira, 10 de março de 2010

Casais que conhecemos

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Por Catarina Fonseca

ENCONTRAMO-LOS todos os dias, no trabalho, na rua, na casa de amigos. Um casal é mais do que a soma de duas pessoas, e algumas duplas podem ser mesmo explosivas.

Dos felizes aos disfuncionais, esta é apenas uma pequena amostra do que podemos encontrar:

- O calado e a matraca – Podem estar juntos há 3 meses ou há 30 anos, que o esquema é sempre o mesmo: ela fala fala fala como se não houvesse amanhã, ele não responde ou responde com uns grunhidos. Prognóstico de duração: depende. Ou já estão casados há tanto tempo que já se acomodaram ao esquema, ou então há um dia em que ele se revolta e dá o salto com a Sãozinha da contabilidade, deixando a ex de rastos porque nunca lhe passou pela cabeça que ele tivesse coragem para roer a corda.

- O intelectual e a bomba – O que ele viu nela é claro, o que ela viu nele nem por isso, o que corresponde ao nosso racismo cultural de achar que a beleza é mais importante que os neurónios. Ela nunca faz nada sem falar com ele. Ele dá-lhe pelo ombro e vai ao dobro das festas desde que anda com ela, com um braço pela cintura da bomba e aquele sorrizinho de ‘vejam lá o que eu consegui’. Prognóstico de duração: Pode resultar, mas geralmente a bomba acaba por cansar-se e partir em busca de novos neurónios. Ou vice-versa…
- Os marretas – Toda a gente os conhece: ela diz mata, ele diz esfola. Têm um único objectivo na vida: fazerem a cabeça em água um ao outro. Qualquer pormenor é pretexto para uma refrescante discussão: a escola do filho, a tigela do cão, quem é que vai pôr o lixo lá fora, se estão a ter um ataque de coração ou um ataque de fúria, em que restaurante é que se janta e se o vestido da Vanda era cor de rosa choque ou cor de rosa escuro. Prognóstico de duração: Geralmente, é prisão perpétua, e aquilo dura até algum deles morrer de exaustão e surdez aos 89 anos.

- Os colas – Não falam com ninguém, nem sequer um com o outro. Andam encolhidinhos como se estivessem sempre cheios de frio, nos restaurantes entretêm-se a observar a mesa do lado, nas festas não descolam um do outro, mal abrem a boca, e não é que sejam antipáticos, partilham é um mal-estar constante perante o mundo. Prognóstico de duração: Se o mal estar é um com o outro, a relação está por um fio, se é timidez partilhada, é para a vida.

- Os pombinhos – Ainda têm aquele ar fresquinho de felizes com a vida e um com o outro. Ela chama-lhe kiducho e ele chama-lhe fofinha e isto por tudo e por nada, ‘ó kiducho passa-me aí o sal’, ‘ó fofinha como é que se chamava aquela tua tia de Alfornelos que fazia muito bem tigelada’, e não saem de cima um do outro, ele ao colo dela, ela ao colo dele, as mãozinhas eternamente dadas e aquele ar babado de quem não sabe que o resto do mundo existe. É muito irritante sair com eles porque, como vivem um para outro, tem-se sempre a sensação de que se está a mais, ou mesmo de que se está sozinha. Prognóstico de duração: Depende dos pombinhos, mas quando a coisa é demasiado melada geralmente dura o tempo que dura um pacote de açúcar.

- O engatatão e a inocente – Ele é um lobo com pele de cordeiro: dorme com todas as outras (a amiga dele, as amigas dela, a melhor amiga de ambos, a menos amiga, a prima, a patroa, a secretária, a colega, a conhecida, a quase desconhecida, a mesmo desconhecida) e trata a mulher nas palminhas. Aparentemente são um casal modelo, não fosse o pormenor de toda a gente saber das traições menos ela. Prognóstico de duração: se ele fizer bem as coisas e ela aprender a fechar os olhos, para sempre.

- Os felizes para sempre – São raros, não porque os casais felizes sejam raros mas porque os casais felizes sem que a gente tenha vontade de lhes furar as almofadas são raros. São felizes mas não alardeiam a sua felicidade, não a atiram à cara dos outros, não a exibem como um troféu. Prognóstico: Há duas hipóteses: a mais provável é que seja mesmo para sempre. Mas também pode acontecer que sejam tão felizes que um dia se possam separar docemente, sem as mágoas e as lutas que afectam os outros casais.

- Os sócios – Lembram-nos que há outros motivos para casar que não o amor e a paixão, o que nos desconcentra ligeiramente, mas vistas bem as coisas, por que não? Geralmente são um casal modelo, que não briga em público, não exige amor eterno um ao outro, e tolera escapadinhas que não ponham em causa o contrato. Prognóstico: É muito civilizado no papel, mas a verdade é que já não estamos na Idade Média e a maioria das pessoas quer mais de um casamento. Aguenta até algum deles se apaixonar de verdade por alguém: ou exigir ao outro mais sentimento do que o contrato estabeleceu.

- Os ‘Que Giros que Nós Somos’ – Escolheram-se mais porque ficavam bem ao lado um do outro do que por qualquer outra coisa. Pertencem a um mundo onde a imagem é parte do sucesso, e ambos sabiam isso quando se escolheram. Prognóstico de duração: Quando se cansarem da cara um do outro, escolhem outro bibelô.

- Os que não assumem – Vão sempre juntos para todo o lado mas não, não há nada entre ambos, juram eles, passam a vida a jurar e a aparecer juntos, andam de mãozinha dada mas são só amigos, ou pior, já vivem juntos há 30 anos e têm dois filhos mas quando se apresentam um ao outro ainda é só ‘A Ana, a minha namorada’. Não se percebe de onde lhes vem o medo do compromisso mas como a vidinha é deles e não chateiam ninguém e os amigos já se habituaram àquilo, ninguém liga. Prognóstico: Dura a vida toda.

- Os que vivem para os filhos – Nem se percebe como é que têm tempo um para o outro. Funcionam em equipa: ambos passam a vida a correr atrás das crianças, ‘Ó Madalena não se bate no Salvador, ó Tomás tire a cadeira de cima da Maria, e alguém viu a Teresinha?” Uma conversa típica com os amigos é: “Olhe, tem por acaso uma fralda nº3?”, “Sim, acho que a Pilar já não precisa delas, largou-as no mês passado”. Curiosamente, são pais despachados e pouco dados ao drama, o que é necessário quando se tem cinco filhos. Não se acham sacrificados, acham que serem pais é uma missão que têm na vida. Prognóstico: Dura até os filhos saírem de casa.

- Os sempre em crise – Nunca se sabe muito bem se estão juntos ou separados. Ora estão apaixonados ora não se podem ver, ela atira-lhe com a panela de massa à cabeça e ele sai de casa, ela pede-lhe desculpa e ele volta, ele diz-lhe que a mãe dela é insuportável e ela sai de casa, e etc. Prognóstico: Parece que podem andar nisto a vida toda, mas chega uma altura em que um deles fica pelos cabelos e a ruptura é de vez. Sai de casa batendo a porta, com a panela da massa debaixo do braço e o estômago cheio de farfalle.

- Os loucos por cães – Aqui não há crianças mas há caniches, cockers, e rafeiros daqueles irritantes com as pernitas curtas e a barriga a rasar o chão, que têm a cara da nossa tia Augusta (também sofrem do coração e têm cataratas e um dente desalinhado como ela) e ladram indignadíssimos pela noite dentro se alguém no último andar do prédio deixa cair uma colher. Quanto mais feinhos, mais digno e terno o nome: São as ‘Ladies’ e as ‘Bonecas’ para as ‘meninas’, ‘Piruças’ ou ‘Bolinha’ para os ‘meninos’. Fazem-lhes festas de anos e vestem-lhes t-shirts para cão e cozinham-lhes carne de borrego com arroz e dão-lhes bolos de chocolate que lhes fazem pessimamente. Raramente se atrevem aos Grand-Danois, quem tem Grand-Danois são os rapazes atléticos que vivem sozinhos. Prognóstico: Depende do Piruças.

- Os casados há 30 anos – Não vivem em estado de paixão mas ainda têm coisas que os unem, a rotina, o filho, os amigos. O tempo encarregou-se de arrefecer a paixão mas não foi o suficiente para arrefecer a amizade. Prognóstico: Pode acontecer que de repente um deles se canse de viver só de amizade, mas geralmente, se aguentou até aqui, aguenta o resto.

- O clandestino – Geralmente são os dois casados com outras pessoas. Deitam-se olhares pelo canto do olho, encontram-se às escondidas, vão às mesmas festas sem que ninguém se aperceba que há ali alguma coisa entre eles, e divertem-se com o jogo do gato e do rato. Prognóstico: Um deles – geralmente ela – cansa-se e encosta o outro à parede. Tudo depende do que acontece depois.

´"ACTIVA" - 2009

sábado, 6 de março de 2010

UMA REVISTA NOVA

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

QUANDO O MEU PAI me chamou à livraria, não foi só para falar do Júlio Verne.
Em cima do balcão, uma revista de capa vermelha.

- Já vai em quatro números…- disse – E isto é mesmo muito importante, Zé Joaquim!

Passou-me para as mãos o último número.
Sobre o vermelho da capa, a imagem de uns braços acorrentados, e o título: “Alma Nacional”.
Por baixo, uma frase que eu reconheci logo, porque o meu pai a tem emoldurada na parede do escritório lá de casa:
“Depois do pão, a educação é a principal necessidade do povo.”
Lembro-me que no dia em que ele a colocou, a minha avó disse:

- Para mim, isso está errado.
- Já calculava…- murmurou o meu pai.

Ela fez que não ouviu e continuou:

- Devia ser “ a principal necessidade dos homens”, porque do que as mulheres necessitam é de saber fazer um bom cozido, e uma barrela a preceito! Muita educação só lhes faz mal. É por isso que eu nem posso ouvir a sua mulher quando se põe com aquela lenga-lenga do voto. Mas onde é que já se viu as mulheres votarem?

Normalmente nem o meu pai nem a minha mãe lhe respondem.
Mas naquele dia a minha mãe irritou-se e disse:

- Então se as mulheres não devem poder votar, se não servem para nada a não ser para tratarem da casa — diga-me lá como é que servem para rainhas?

Foi uma tirada de génio.
A minha avó, como sempre, respondeu que “isso era diferente”, a minha mãe insistiu, “diferente em quê?”, e a minha avó, também como sempre, quando a conversa não lhe agrada, levantou-se da cadeira e disse:

- Vou para o meu oratório rezar a S. Expedito, santo das causas impossíveis.

A minha avó tem uma particular fé em S. Expedito. Mas ainda não descobri que “causas impossíveis” ´
é que ela gostaria de ver “possíveis”, com a ajuda do santo. Mas deve ter a ver com a monarquia.
Mas estava eu a falar da frase que vinha na revista.
O meu pai explicou-me que era de Danton, “um dos heróis da Revolução Francesa!”

- Ainda está vivo? — perguntei.

Parecia-me uma pergunta normal, mas o meu pai ficou muito ofendido, disse que, aos 14 anos, eu já tinha obrigação de saber que a Revolução Francesa tinha acontecido no século 18, e o que é que me ensinavam no colégio.
Ia responder “ensinam-me o “D. Jayme”, mas calei-me. Depois do pão e da educação, o silêncio às vezes também é uma grande necessidade do povo...
O meu pai acalmou, e disse que o director era o dr. António José, e se eu não me lembrava de ter ido há dias com ele a Sintra a um comício, em que o dr. António José tinha anunciado uma revista nova, “dedicada a todos os patriotas, a todos os que lutam sem tréguas…”

- Lembro-me.

Disse eu, para que o meu pai não se imaginasse o Dr. António José, e fizesse um comício republicano em plena livraria.

- Aí a tens — rematou.

O Dr. António José é um homem extraordinário.
Ele fala e entusiasma toda a gente.
Até a mim. Que não me lembro nem de uma palavra do que ele disse no comício de Sintra.

«JN» de 6 Mar 10

quarta-feira, 3 de março de 2010

A que grupo do Facebooker pertence você?

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Por Catarina Fonseca

HÁ QUEM apoie uma causa, quem ande na lavoura o dia todo e quem se dedique a angariar mais amigos. E há quem faça tudo isto. Qual é a sua ‘onda’ preferida?

- Os Apoiantes
São contra várias coisas: as touradas, o bloqueio em Cuba, o apedrejamento das afegãs, a criminalização da homossexualidade, os animais maltratados, o uso de cães como isco para tubarões e de tubarões como isco para cães, a pobreza, o cancro, as birras, ou a prisão de variados mártires à volta do mundo. Querem salvar as criaças dos pedófilos, os touros dos toureiros, as mulheres dos homens, e as empregadas da Carolina Patrocínio. Também são a favor de várias coisas, mas o que lhes faz mesmo bater o coração é ser Contra.

- Os Latifundiários
São IMENSOS! Aliás, quase toda a gente que está no Facebook tem uma quinta, e quem ainda não se converteu à reforma agrária é melgado incessantemente por todos os lados para se tornar no próximo vizinho. Quinta mais pequena ou maior, depende da dedicação e empenho do lavrador, e também da quantidade de ‘vizinhos’ dispostos a oferecer-lhes carneiros, galinhas e porcos. Enquanto os Apoiantes são uma comunidade solta, que nem sempre angariam muitos sócios para as suas causas, os Lavradores são solidários, até porque precisam uns dos outros. Ajudam-se uns aos outros desde a apanha do mirtilo (apostamos que a maioria deles nunca viu um mirtilo no seu estado natural) até à construção de um novo poço. Desunham-se a trabalhar para comprar tractores, flamingos e mega-morangos. Passam a vida a receber medalhas e prémios de ‘Melhor Lavrador à Face da Terra’. Levantam-se às 4 da manhã para regar os tomates. Encarregam os amigos mais próximos de lhes regarem a horta enquanto estão de férias (isto se forem para a floresta Amazónica entre os índios Tupi e for absolutamente impossível levar o portátil). Há esquemas no mercado negro para ganhar mais pontos. Também se fartam de acolher variados animais tresmalhados: “Uma pobre ovelha negra perdida veio parar ao celeiro de José…” Há quem já deva ter em casa exércitos de pobres ovelhas negras perdidas. Qualquer dia faz-se o Starwars 7 sobre exércitos de ovelhas-negras-clones. Não é que não pertençam a outros grupos: até podem ser imensamente dedicados a Cuba, mandar 340 beijinhos à Lindinha e apoiar a causa das geribérias amarelas, mas não há nada como um tractor pronto a estrear. Também há os que têm aquários e os que pertencem à Máfia, mas nada que se compare ao imenso ajuntamento de lavradores.

- Os Alarmistas
Vivem em permanente teoria da conspiração. Postam todos os avisos à comunidade, desde o Manual com as 356 Diferenças entre a Gripe A e a Reles Outra até àqueles avisos que dizem que se formos passear a um centro comercial com a família de um momento para o outro podem-nos chegar clorofórmio ao nariz, arrastam-nos para a casa de banho das senhoras e nunca mais ninguém sabe de nós, ou que entramos numa loja dos chineses, vamos lá ao fundo examinar as chaves de fendas em plástico de Taiwan e acordamos três dias depois em Dubrovnik sem um rim. Frases preferidas: “Sabiam que Andorra só tem um caso de gripe A?” e “Acabam de nos mandar um mail sobre a gripe, parece que em caso de espirro temos de avisar primeiro os Recursos Humanos e depois é que ligamos para a Saúde 24…”, “Ah, e as Seychelles também só tem três”.

- Os Ziriguidunzinhos
Têm um coração de ouro. Aliás, têm corações de várias espécies e feitios: de ouro, de veludo, de chocolate, com apliques, sem apliques, e mandam-nos a amigos e conhecidos sem dó nem piedade. Aliás, não mandam só corações: mandam tudo o que encontram pela frente, acompanhado de mensagens ternas:“Olá amiguinha, bom dia! Olá Luisinho, bom dia para ti também! Ó kiducha, começaste bem o fim de semana? Ó fofinho, tás pprado p mais uma manhã de trabalho? Ora toma lá um coraçãozinho! Um smile! Um vodka-limão! Uma galleta! Um chocolate! Um bombonzinho com mensagem em italiano! Um malmequer! Uma caixa de música! Ai põe-me a tocar, põe! Maria has sent you a warm hug! Sim sim! Mais abracinhos, que hoje acordei muito em baixo! Mais hugs, e kisses, e taças de champanhe, e presente por presente, já que não se paga nada, para que estamos com subtilezas, até há quem ofereça O MUNDO INTEIRO! Depois disto, que mais se pode oferecer? Há quem atire almofadas, há quem acumule beijinho atrás de beijinho como se não houvesse prá semana, há quem (Alice has just achieved 400 hearts!) seja um verdadeiro latifundiário do coração. Uuuuff!

- Os Testes-de-Ferro
Estes são os fanáticos dos testes. Inda não têm um sindicato como os do Farmville, mas para lá caminham. Geralmente, não se sabe bem como, a coisa funciona em cadeia: se alguém decide saber ‘Que tipo de Bolo de Natal seria você’ vai toda a gente atrás. Geralmente também, costuma dar a mesma coisa a toda a gente, ou haver pelo menos dois resultados ‘obtíveis’. Há testes em inglês, em francês, em espanhol, e até em sueco, para quem estiver apostado em apurar a parte direitado cérebro. Graças aos testes, descobrem coisas fantásticas todos os dias: se há fantasmas lá em casa, que tipo de gato são, que tipo de estrela de cinema, de realizador, de maluco, de sociopata, de doença, de difunção social, de série com médicos. Qual é o número que os representa, a invenção portuguesa que mais se lhes assemelha, a diva que levam dentro (pronto, este era em espanhol). A coisa pode ser levada a níveis intensos de esquizofrenia: é possível fazer um teste em sueco para descobrir que tipo de turco se é. Quem começar a ficar preocupado com o imparável galopar do vício, tem à sua disposição testes sobre… os testes! ‘Qu’est-ce qui te pousse à faire tous ces testes débiles ?’ Boa pergunta, de facto…

- Os Fantasmas
Eles estarem inscritos até estão, porque houve um amigo/namorado/marido/mulher/conhecido/desconhecido que lhes mandou uma mensagem a perguntar se queriam ser amiguinhos deles, e eles, coitados, lá disseram que sim só para o amigo/namorado/etc parar de lhes chagar a cabeça com um ‘ai mas é tão divertido! Mas anda lá! Eu depois mando-te um ziriguidunzinho! E recomendo-te a todos os meus amigos! E podes ser meu vizinho na quinta! E também lá está a prima Armindinha! E um gajo que é poeta tunisino!’ E atão pronto, eles renderam-se. Mas na prática, nunca lá põem os, eh, pés? São neuróticos que acham que a net está povoada de hackers prontos a entrarem-lhes no perfil pela calada, como as ovelhas negras da Farmville (‘Hello José, a lonely hacker has just wandered into you barn’) , para lhes destruirem os relatórios, invadirem a vida, e deixarem a conta a zeros. Também têm medo que haja por lá alguma ex-namorada que poste fotos deles com umas cuecas da Hello Kitty e uns tapa-mamilos com lantejoulas cor de rosa e uma bandelete com orelhinhas da Playboy. Mas pronto, apesar de tudo antes a bandelete das orelhinhas que a conta a zero. Resultado: ao fim de três meses no Facebook, continuam com os mesmos quatro amigos (a mãe, a mulher, a prima Armindinha e um desconhecido que achou que tinha ido com ele à Ovibeja em 1998 mas já percebeu que estava enganado). Não que eles saibam, claro…

- Os Deprimidos
Começam logo à segunda feira a postar qualquer coisa como: ai que tristeza de vida, estou para aqui abandonado e ninguém me pergunta o que é que eu tenho e tou com um ataque de tosse cheio de ranho daquele verde, de certeza que é gripe A, e mesmo que não for, estou mesmo mesmo em baixo’. A galheta anuncia-lhes catastroficamente: ‘Choramos ao nascer porque chegamos a este imenso cenário de dementes’. Não era preciso. Ele já tinha chegado lá mesmo sem ajuda. Quando lhe passam a mão pelo pêlo, ataca com citações de Fernando Pessoa do tipo ‘O dia deu em chuvoso’, e não há ziriguidunzinho que lhe anime a existência. Os testes também não ajudam: sem dó nem piedade, a bruxa do Facebook diz-lhe na cara que ele vai morrer /ter um tumor encefálico/ sofrer de artrite reumatóide até aos 97, que o seu tipo de velhinha é a Velhinha Saudosista, que o tipo de chocolate é Amargo, que o tipo de tempo é – adivinhem lá – Chuvoso. Os amigos mandam-lhe sóis, abracinhos e kisses, chocolates com sóis, abracinhos e kisses, mandam-lhe vídeos da rumba cubana, as Boswell Sisters a abanarem os folhitos no swing jazz, mais o ‘Canta Camarada’ do Zeca Afonso e o ‘Blue Sky’ do Sinatra, e nem isso o anima, nada, ‘Blue Skyyyyy, smiling at me’, e ele nada, quando muito responde com o ‘Je suis malade’ da Dalida, ou se estiver mais bem-disposto a Rita Redshoes a chilrear ‘I don’t want/ to die in a sunny day’… Suspiro…

- Os Familiares
“Estes são o Manel, a Mariana, a Madalena e o Martim Maria!, “Aqui a Mariana e o Martim Maria a correrem atrás do gato!”. “Aqui o Manel a amandar uma cadeira para cima da Madalena, que foooooofo!”. “Aqui a Mariana e o Martim Maria a tentarem atirar o gato pela janela.” “Aqui o gato a tentar assassinar a Mariana e o Martim Maria.”
“Agora uma cartinha do Paulinho dedicada à sua querida mãe.” Estes são os pais e mães babados do facebook. Uma vez mãe babada, mãe babada para sempre. Não já foto sem a Constança. Não há dia sem o Bernardo. Às vezes, o perfil deles é uma foto… das crianças. Não há posta sem um relato minucioso das gracinhas do Martim e das covinhas da Carlota. Quem não tem filhos, ataca com os sobrinhos, os enteados, ou mesmo o gato. Nada como uma criatura pequenina, fofinha, novinha em filha. Em folha.

- Os Musicais
Estes não se perdem em divagações líricas sobre o que o futuro pode trazer, que tipo de naperon português é, ou o que as nuvens de tempestade anunciam. Ataca logo de manhã com a ‘Tourada’ do Fernando Tordo, põe uns Mozzarts e uns Vivaldis para aquecer, estampa com um Chopin (mas não o concerto para violino), segue para bingo com o ‘My Funny Valentine’ (mas o do Chet Baker), atira com o ‘Ne Me Quites Pas’, não for dar-se o caso de estar a perder audiência. Depois de vir do ginásio pergunta se uma canção com o título de ‘Everytime I see you Falling’ não será uma escolha estranha para uma aula de trampolins, depois passeia pelos Brasis, que fica sempre bem gostar de Caetano (ai como é que é aquela muito machista em que ele chama cabra à mulher com todos os nomes), depois passa para o Roberto Carlos que lhe lembra uma namorada que teve em Porto Galinhas no verão de 1986 (‘se um outro cabeludo aparecer/ na tua rua) e a propósito lembra-se que a tipa o trocou pelo Válter e dedica-lhe o ‘Fuck You Very Much’ da Lily Allen (embora de facto não tenha nada a ver), e acaba às 4 da madrugada a fazer toda a gente (enfim, toda a gente que por lá pára às 4 da madrugada) chorar baba e ranho com a Audrey Hepburn no parapeito a sussurrar o ‘Moonriver’. Enfim, são vocações…

- Os Intelectuais
Levam a vida a sério: estes não estão aqui para brincar. Aliás, não estão em lado nenhum para brincar. Aliás, já não se lembram da última vez que brincaram. Rechaçam os ziriguidunzinhos, não sabem o que é um jagode, não querem saber onde vão estar daqui a 10 anos nem que personagem das ‘Mulheres Desesperadas’ é a sua, conseguem viver sem descobrir que Princesa Disney lhes corresponde e muito menos que Diva del Cine llevan dentro ou qual é o tempo (em sueco) que faz dentro da sua alma. Nunca saberão o trabalho que dá um mega-morango, nunca terão a alegria de oferecer uma faneca ao aquário de um amigo ou participar na apanha de mirtilos, e escusado será dizer que nenhuma vaca perdida há-de ir parar ao seu celeiro. Estes estão aqui para Educar o Povo e discutir o Estado da Nação. Falam da política do Sócrates, das reformas da Ferreira Leite, da dificuldade que o Obama vai ter em impor a sua visão do que deve ser um sistema nacional de saúde, e quando muito das crianças das favelas brasileiras e dos soterrados no Haiti. É uma chatice porque tem de se lhes explicar todas as graçolas. Petições, só assinam aquelas que forem para libertar mártires políticos ou candidatos ao prémio Nobel daqueles que vivem toda a vida presos e nunca hão-de poder sair nem para receber o guito a Estocolmo. Tambem estão sempre a protestar que o Facebook não é um recreio e que está tudo cada vez mais infantilizado, mas ninguém lhes liga nenhuma a não ser para lhe tentarem explicar que aquilo é suposto ser um recreio. Coisa que eles nunca vão entender porque nunca foram ao recreio em toda a sua vida, eram os que ficavam na sala de aula a rever a matéria. Coitadinhos.

- Os do Contra
São os protestantes de serviço: fartam-se de espernear contra tudo. Se a galheta do dia lhes deu ‘Do not vainly regret what is already past’ protestam, ‘Arependo-me sim senhor! Arrependo-me até ao osso! Volta, Maria José!’. Se o teste de ‘Onde é que vai estar daqui a um ano?’ lhes anunciou alegremente ‘Você vai ter um bebé!’ espanta-se (com uma certa razão) “Um bebé? Mas eu tenho 67 anos!” Os testes tiram-no do sério, o que é ainda mais estranho dado que ele não consegue deixar de os fazer. Já fez um teste em espanhol, ‘Eres adicto a los testes?’ e deu que sim, que era, pois que outra coisa, Eu, a Cinderela? Singing to rodents? A cantar para os ratos? Van Gogh? Não quero ser Van Gogh! Sou muito afeiçoado às minhas duas orelhas! Sou um Bugatti? Mas isso não é um carro um bocado gay? A Padeira de Aljubarrota? Por amor de Deus! Mas quem é que faz estes testes? Não, não devolvo o abracinho! Não quero mais sóis, que me irrita aquela cara deles cos óculos estampados. Não dou o meu coração, que tenho só um e faz-me falta! Não me peguem no braço! Não gosto que me peguem no braço! Não quero mais nada com quintas! Não me mandem mais coelhos, nem bananeiras, nem cabras, nem galinhas, e o que raio é uma ‘avocado tree’, que nunca vi nenhuma? Mas alguém me explica onde é que esta coisa se desactiva?’ Em vez da quinta o que ele queria era uma GulagVille! Uma GulagVille na Sibéria, onde seriam vizinhos de celas e mandariam jagodes uns aos outros, um GulagVille em chique, com check list e dress code, ‘José has just sent you a confinement cell and hopes for a confinement cell in return’! ‘A little lost black slave has just wandered into your prison!’ Exige que salvem as pessoas em vez dos touros, que lhe expliquem como é que se elege o Mr. Facebook que ele quer concorrer, e que a empregada da Carolina Patrocínio seja paga ao caroço.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

QUANDO O MEU PAI VIU O JÚLIO VERNE

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

HOJE fui ter com o meu pai à livraria.
Quando eu era muito pequeno, pensava que o meu pai já tinha lido aqueles livros todos. E que por isso mesmo é que era o dono.
Gosto de passar a mão pelas encadernações dos livros, e folheá-los, e imaginar que histórias contarão.
Gosto sobretudo de folhear os livros do Júlio Verne, e já perdi a conta às vezes que li “A Viagem ao Centro da Terra e “Da Terra à Lua”. (Se o “D. Jayme” fosse como algum destes livros, ao tempo que eu já o sabia de cor…)
E, quando gosto de um livro, tenho sempre vontade de conhecer o seu autor. O que é quase sempre impossível, ou porque já morreu há muito, ou porque vive num estrangeiro que eu nem sei onde fica.
Adorava ter conhecido o Júlio Verne. (Nunca me passou pela cabeça querer conhecer o Tomaz Ribeiro…)
Mas o meu pai conheceu o Júlio Verne!
Quando ele esteve em Portugal, o meu avô tinha acabado de morrer. Ninguém esperava que ele morresse tão cedo e o meu pai, aos 20 anos, viu-se sozinho à frente da livraria.
Como ele está sempre a dizer, “se eu consegui ter pulso para dirigir sozinho o negócio, por que é que este beato meio raquítico, que sabe tanta língua, e tem tanto professor e tanta gente à volta dele não consegue dirigir o país?” (Se a minha avó está presente, o meu pai, para evitar zangas, muda o “beato meio raquítico” para “esta amostra de rei”)
Mas dizia eu que, da última vez que Júlio Verne cá veio, o meu pai tinha 20 anos e já dirigia a livraria. Como era amigo de muita gente dos jornais (amizades herdadas do meu avô), conseguiu ir com eles ao encontro do escritor, no Hotel Bragança.
Estava-se em Maio de 1884
(“nunca esqueças as datas, José Joaquim!”…)
e era a segunda vez que Júlio Verne vinha a Lisboa.
Mas, diz o meu pai, vinha sempre a correr : chegava no seu iate, vinha a terra para comer e encontrar-se com alguns jornalistas e escritores, voltava para o iate, e na manhã seguinte já estava de volta a França.
De tal maneira eram breves as visitas que o meu pai está sempre a contar (e todas as vezes ri à gargalhada, ele que é sempre tão sisudo…) que nesse ano um jornalista de quem o meu avô era muito amigo, chamado Rafael Bordalo Pinheiro, publicou o relato do encontro no seu jornal e, admirado com a rapidez da visita, rematou:
“ só andando com esta pressa toda é que o Sr.Júlio Verne pôde fazer viagens à lua no tempo que qualquer pessoa gasta em ir á Porcalhota comer coelho guisado!”
Mas mesmo só por breves minutos, eu havia de ter gostado de o ver. Olho para a fotografia que o meu pai tem na estante onde estão todos os livros dele, mas não é a mesma coisa.
Acho que era capaz de viver numa livraria!
Garanto: se a livraria do meu pai vendesse o “Texas Jack”, era melhor livraria do mundo! Quem sabe até se o Júlio Verne não teria cá vindo?

«JN» de 27 Fev 10

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O Dia dos Mortos

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Por Catarina Fonseca

DIA 2 DE NOVEMBRO comemoramos os nossos Fiéis Defuntos. Não é lindo, o nome? Mas quem é que é fiel? Eles a nós ou nós a eles?

Adoro aviões. Quando morrer quero encarnar num Spitfire Qualquer Coisa (o meu amor pelos aviões não implica que seja capaz lhes decorar os nomes técnicos, deve ser uma deficiência genética feminina). Nunca fui tão feliz como na Base Aérea de Sintra. Não sei se já lá foram: inclui um museu do ar com aviões de todos os feitios e épocas.
Enquanto a Merche posava, eu pulava entre os aviões afagando-lhes o focinho como quem faz a ronda aos estábulos. Os oficiais respondiam-me às perguntas mais surrealistas com paciência de santo: isto trabalha a quê? Os aviões também têm cavalos? Entra-se por que porta? Se me apetecer fazer xixi, é onde? Se me ejectar, isto ejecta-me em bloco ou por partes? Quais partes é que se me ejectariam primeiro?
Problema: os aviões despertam as minhas fobias mais profundas. Amo-os, sim: mas em terra. Haviam de ver as figuras que faço lá em cima. Assim que entro num pisco da Portugália, transformo-me numa torneira humana. Lamento nunca ter aprendido a rezar. Prometo aprender a rezar imediatamente assim que tocar no solo. Peço retroactivos divinos. Até agora deve ter funcionado, embora eu nunca tenha cumprido a promessa.
Fico a pensar que, no nosso mundo, os aviões são aquilo que mais nos faz pensar na morte.Temos uma péssima relação com a morte. Não pensamos nela. Não levamos as crianças aos cemitérios. Enterramos os mortos dentro de nós e não falamos deles. Não falamos com eles, tal como também não falamos com as plantas, nem com as casas. Nem com as crianças. Nem connosco próprios… Nunca lhes dizemos como nos fazem falta. Nunca lhes dizemos que os amamos, tal como não dizemos aos vivos.
Sempre ouvi a minha avó dizer que com os mortos não se brinca. Curiosamente, era com o que eu brincava, na casa dela. Quase não havia brinquedos. Havia o Joãozinho, um boneco que já tinha sido da minha mãe, também ele quase morto. E havia fotografias. De mortos. Imensas fotografias, de imensa gente, imensamente bem vestida, imensamente morta. Eu adorava, ainda mais que aviões. Tirava-as da caixa, espalhava-as na enorme mesa. Geralmente, eram de casamentos ou baptizados, o que explicava que estivessem todos tão bem vestidos. Eu conhecia-os a todos, aos mortos. A Gracinha, que fugiu com o noivo e deixou o ferro ligado. A D. Edite, a do chapéu que parecia um dinossauro aterrado no Empire State a tentar comer o chapéu da morta do lado, a prima Joaninha, que parecia um ninho de plantas carnívoras em fúria, no casamento da Luisinha que casou porque a mãe mandou (eu não me importava de casar com quem quer que fosse, só para usar o vestido que ela usava) e onde também estava o Dr. Sousa, que dava pelo umbigo da mulher que parece que lhe batia e tinha bigode e luvas.
Eu brincava com os mortos como em casa brincava com os cromos das ‘Maravilhas da Natureza’. Mas preferia os mortos. Tinham fatos mais giros e costumes mais exóticos.
Hoje não sei que é feito dessas fotografias. Há muito tempo que não brinco com os mortos, e tenho saudades deles. Às vezes vejo a minha sobrinha mais nova embrenhada nos álbuns da minha mãe, mas a ela só lhe interessam os vivos com menos de 4 anos. Mas já percebi que, se achamos que não cumprimos o nosso dever com os mortos, o melhor remédio é compensar com os vivos. Coitada da minha mãe, que vai ter de comer o jantar que lhe fizer…

sábado, 20 de fevereiro de 2010

O SR.MATEUS FOI PRESO

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

AINDA nem estou em mim. Eu e a rua toda.
O Sr. Mateus foi preso ontem.
O Sr. Mateus morava no prédio ao lado do nosso, era de poucas falas, mas dava sempre os bons dias e boas tardes quando nos encontrávamos.
Vivia sozinho, mas há dias a Rosa disse:
- Os galegos acartaram ontem com quatro caixotes para casa do Sr. Mateus. Os desgraçados suavam que nem porcos, com perdão da palavra…
- E então? — murmurou a minha mãe – os galegos não fazem outra coisa, que é que isso tem de estranho?
- O que é que tem? Tanto caixote para casa de um homem que vive sozinho?
- Se calhar mandou vir a família para viver com ele e está a arranjar a casa - disse a minha mãe.
- As mulheres é que arranjam as casas, não são os homens! Um homem sabe lá do que uma casa precisa! A senhora pergunte um dia ao Sr.Fernando que coisas é que há numa cozinha e vai ver como ele fica caladinho que nem um rato. A casa é das mulheres, e...
- E se você fechasse essa matraca? — ralhou a minha avó.
A Rosa não gosta que a mandem calar.
E enfiou-se na cozinha a cantar.
É sempre a vingança da Rosa: cantar aquilo que se ouve pelos teatros e pelos cegos das romarias, e que sabe que põe a minha avó fora de si:
- “Já mataram o rei gordo
E o magrinho também
Acabem com o que ficou
Depois liquidem a mãe!”
- Ou você se cala imediatamente ou vai já para o olho da rua! —gritou a minha avó.
A Rosa lá se calou — e também nunca mais se lembrou dos caixotes do Sr. Mateus.
Até ontem.
- Eu é que tinha razão! Tanto caixote para casa de um homem sozinho… Estava-se mesmo a ver que aquilo trazia água no bico…
Água no bico não trazia — mas trazia pólvora, cardas de sapateiro, brochas, rolhas, ferros, barbante, tudo o que era preciso para fazer bombas e granadas.
Ao que parece, não tinha sido só a Rosa a desconfiar: alguém denunciou o caso, e logo de manhã a Secreta entrou pela casa do Sr. Mateus, que nem teve tempo para esconder fosse o que fosse, e foi dali levado para os calabouços da esquadra do Caminho Novo.
- Quem havia de dizer…- murmurou a minha mãe — Numa rua tão pacata como a nossa…Ainda se fosse na Rua do Corrião…
Há muito tempo que se diz que é nessa rua que mais bombas se fabricam em Lisboa. E nestes últimos tempos quase todos os dias rebenta uma bomba na cidade. Mas tem sido sempre longe da minha casa, por isso, para falar verdade, nunca me incomodaram muito.
Mas agora foi ao meu lado.
A minha avó diz que são os republicanos.
O meu pai diz que são os anarquistas.
A minha mãe diz que se as mulheres mandassem, isto era muito diferente.
E eu fico a ouvi-los sem entender o que se passa.
Só sei que às vezes há mortos e feridos, e que as cadeias estão cheias.
Estou quase a concordar com a minha avó: se não é o fim do mundo, anda lá perto.

«JN» de 20 Fev 10

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A avó do Hitler

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Por Catarina Fonseca

ACHAM QUE a História da Humanidade seria diferente se mais avós tivessem feito o que lhes competia?

No Dia dos Avós, tenho por hábito reunir os meus quatro sobrinhos e, pronto, obrigá-los (é triste mas a palavra é essa) a fazer uns cartõezinhos para oferecer às duas avós. Cada um pode fazer o que bem lhe apetecer: desenho, poema, rabisco, texto. Felizmente ainda nenhum deles se lembrou de imitar um amigo meu, mandar um envelope vazio com uma nota a avisar: “Mando-lhe ar de Paris…”
Claro que nem sempre a coisa corre como previsto. Há dois anos, foi particularmente complicado. O Pedro estava na fase do xixi-cocó. Olhei para o desenho dele, rezando para que não lhe desse para explicar à avó Cila o que eram aquelas bolinhas a sair do (“Quem é este?” “É o Afonso Henriques.” “O Afonso Henriques? Mas porquê?”, “Porque ele quis.” “Ah. De facto, é uma boa resposta.” “E olha, ele está a fazer…” “Já sei, já percebi o que é que ele está a fazer, obrigada”, “Pela muralha abaixo!”, “Que giro”). O Diogo, então com 8, trabalhava compenetradamente. De língua de fora, escrevia escrevia. Terminou com um desenho. Uma matrona numa… mota?
“É uma avó, a senhora da mota?”
Ele levantou a cabeça e franziu o sobrolho, com ar ofendido. Suspirou levemente (aquele suspiro com que brindamos os menos inteligentes que nós) e lá explicou: “É a avó do Hitler.”
Engoli em seco. Estava-me a ver a apresentar o cartão a alguma das avós: de um lado, o Afonso Henriques a desfazer-se em diarreia pela muralha abaixo, do outro a avó… do Hitler.
Ele defendeu-se: “Então, até ele havia de ter avó, ou não?”
Meditei por um momento. Os meus conhecimentos de História mundial não se alargavam à avó do Hitler. “E como é que lhe chamaste?”
Ele franziu o sobrolho novamente mas lá respondeu: “Helga.”
Bem, pelo menos não era Conceição. Helga. E tinha uma Harley Davidson, pelos vistos. E duas pistolas. E pelo que pude ler na legenda, estava a mandar o neto para o seu próprio campo de concentração.
Ele estava contente com a obra. “Tá fixe, não tá?”
“Não achas melhor” tentei eu, “fazer agora outro cartão para a outra avó?”
Ele encolheu os ombros. Rezei para que não saísse dali a avó do Mussolini. Do General Franco. Do Estaline ( Estava mesmo a ver. A avó Olga, a mandar o neto para os gulags da Sibéria). E o Salazar, teria avó?
Toda eu me preparava para o AVC quando peguei no segundo cartão. Um pacato cavaleiro de espadinha mais uma pacata dama com saia de balão.
“São os avós de quem?” inda arrisquei (Pedro o Grande? Ivan o Terrível?).
Ele olhou-me como se estivesse a gozar com ele.
“Não são avós de ninguém! São príncipes! Não querias uma coisa mais à avó? Fiz-te uma coisa mais à avó! As avós gostam de princesas!”
Bem, resta acrescentar que a avó Alice acabou a rir até às lágrimas quando se apanhou frente a frente com a avó do Hitler (inda lá está em lugar de honra na prateleira da sala) e a avó Cila adorou os príncipes. Eu fiquei a pensar. De facto, toda a gente teve uma avó. Ou não? Será que o Hitler foi o Hitler porque não teve uma avó? Se tivesse uma avó Helga, teria sido pacatamente Herr Schicklgruber toda a vida? E onde estavam as avós de Mussolini, Franco e Estaline, quando se precisou delas?
Não pensei mais. Para quê? Há coisas que são tão verdade que não servem para nada.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

JÁ VOLTEI AO COLÉGIO

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

JÁ VOLTEI ao colégio.
A minha mãe obrigou-me a vestir todos os casacos que encontrou no roupeiro, e não descansou enquanto não me enfiou pela cabeça abaixo um boné de fazenda aos quadrados castanhos e pretos.
Fico horrível de boné.

Mas a minha mãe diz que aquele é a última moda em bonés, que o meu pai tem um igualzinho, comprado no Old England.
A minha mãe vai à abertura da estação do Old England, na Rua Augusta, como outras pessoas vão à abertura da temporada no São Carlos: enfia um vestido verde que só usa em ocasiões especiais, mitenes, e um chapelinho em cima dos bandós.

A Rosa arranja a mesa da casa de jantar, com pratinhos de bolachas Marselhesa e um bule de chá de tília, para ela se sentir mais reconfortada no regresso — não esquecendo a garrafinha de Anisette, porque não há nada como um cálice de licor para uma pessoa ter alma nova.
Então, quando regressa das compras, senta-se à mesa, com ar de imensa felicidade, e murmura, como se recitasse:

- “Toda a elegância se curva diante do rei da elegância”.

(Acho que é assim que vem nos anúncios dos jornais)
E depois de uns minutos de silêncio, acrescenta:

- A loja merece bem o reclame.

E ataca as bolachinhas. E o licor.
Mas isto não quer dizer que o meu boné não seja horrível.
Então lá fui até ao colégio, subi a Rua das Pedras Negras, sempre com esta chuva miudinha que não há meio de parar.
Lá se passou o tempo, pelo meio das regras-de-3, juros e quebrados, e as declinações do latim, e o “D. Jayme” que é preciso saber de cor e nunca mais me entra na cabeça.
Com o meu antigo professor, tudo era diferente.
Lembro-me que um dia saímos da escola com ele, subimos até à Travessa do Almada e depois ele apontou para uma parede e disse:

- Quem é capaz de ler o que aqui está?

Ficámos a olhar para ele, sem entender, era uma parede como outra qualquer, com umas placas muito velhas lá pelo meio.
Ele fez-nos olhar muito bem para elas e disse que eram lápides, e o que de mais antigo restava em Lisboa do tempo dos romanos.
Depois leu o que lá estava escrito em latim.
Já não me lembro de tudo, claro. Mas lembro-me de o ouvir dizer “Felicitas Júlia”, e de ele nos explicar que era aquele o nome da cidade de Lisboa no tempo de Júlio César.

De cada vez que passo por ali, lembro-me sempre do meu professor.
Chamava-se Manuel Buíça.
Há dois anos, naquele dia em que eu vinha da rua Augusta com a minha avó, ele pegou numa carabina e matou o rei. E logo de seguida alguém o matou a ele.

Mas hoje não quero pensar nisso.
Hoje recordo apenas a sua voz a dizer “Felicitas Júlia”
E volto a correr para casa.
Pode ser que a Rosa me dê bolachas Marselhesa e um copo de água chalada.
Acho que só mesmo com muita água chalada é que consigo engolir o “D. Jayme”.

«JN» de 13 Fev 10

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

OVELHA NEGRA

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Por Catarina Fonseca

DIGAM-ME LÁ: em que é que Marte desalinhado com Vénus pode influenciar a minha vida, a não ser que venha vertiginosamente na direcção da terra, caso em que também já não haveria muito a fazer?

Sabem a que distância está Marte? Pode atingir 378 milhões de quilómetros! Em 2004 atingiu a distância mínima de 56 milhões. Estivemos, em resumo, quase lá. Bastava um dedinho esticado e tocávamos em Marte.

Aconteceu alguma coisa aos Carneiros como eu? Nada. Népia.
Outra coisa que me chateia é que, quando tento desconverter alguém, olham-me com ar pesaroso de quem viu a Luz e rematam sempre:

“É típico dos Carneiros. Não acreditam em nada.”

Chateia-me ser descrente, porque a vida para um descrente é dura. E o que mais me dói é que, sendo descrente, nunca consigo passar um horóscopo sem meter o nariz.
Aliás, mais do que meter o nariz, leio tudo de fio a pavio. Leio os Carneiros, leio outra vez os Carneiros (o meu ascendente também é carneiro, uma desgraça nunca vem só), depois leio os Balanças, porque um bruxo me disse uma vez que fui Balança numa outra vida (também fui lavadeira de caravelas, mas isso agora não interessa nada) , e depois leio Virgens e Escorpiões e Capricórnios a eito, porque mais vale estar preparada para qualquer eventualidade.
Saio sempre desconsolada.
Nunca encontrei um horóscopo que me dissesse preto no branco “Minha Filha! É agora! Levanta esses cornos com orgulho porque vais encontrar o Homem da Tua Vida!”
Ou: “Carneiros de todo o mundo, uni-vos: o Euromilhões vai ser vosso, em vez de ir parar ao velhinho de Odivelas do costume que vai herdar 20 milhões sem dar dois euros à AMI!”
Não.
Dizem-me coisas incompreensíveis, tipo “A sua energia vai estar em alta”, ou “a sua capacidade para entender os outros estará mais apurada”, ou “a sua intuição estará mais desenvolvida”.
Quero lá saber!
Não quero energia em alta, que me pode dar um AVC!
Não quero entender os outros quando eles querem ser inentendíveis!
E que raio quer dizer que a minha intuição vai estar desenvolvida? Algo me diz que não significa “vais encontrar o George Clooney — esperem lá, que tenho a redacção a uivar-me para, por amor de Deus, dar outro exemplo que o Clooney já enjoa, o, sei lá, o Jude Law não, que tem pestanas de menina, o Brad é quase avô, o Daniel Craig está na moda, mas parece que lhe deu uma cólica renal, pronto, o, como é que ele se chama, o “Dr. House”. Nada me diz “vais encontrar o Hugh Laurie no Oeiras Parque e ele vai-te injectar epinefrina até pedires misericórdia de joelhos!”

Não. Tenho de me contentar com a intuição.
Em resumo: não acredito, mas ainda não perdi a esperança de um dia acreditar. De um dia acordar e ver Marte pela janela e de ele me dizer “alevanta-te e anda!”.
Ou coisa do género.

(Activa, Janeiro 2009)

sábado, 6 de fevereiro de 2010

QUANDO MATARAM O REI

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

A GRIPE NÃO HÁ MEIO de passar, já não suporto a canja, já não suporto estar deitado — mesmo que o meu pai me deixe ler o Texas Jack, coisa que ele só admite quando me vê doente.
Confesso que me dá um certo ânimo seguir aquelas aventuras no terrível Desfiladeiro dos Mochos, onde Texas Jack está sempre em risco de ser vítima dos sinistros bandidos que atacavam as mala-postas — mas não chega para baixar a febre.

Cá em casa o ambiente não é dos melhores: a minha avó foi à Sé assistir às exéquias por alma de D. Carlos e D. Luís Filipe, e o meu pai ainda não se recompôs do choque.
No ano passado ela tinha feito a mesma coisa mas, depois de uma conversa no escritório, tinha-lhe prometido não voltar a fazê-lo.
Por isso o meu pai nem queria acreditar quando a viu chegar a casa, partilhando a tipóia da vizinha de baixo — que, tal como eu previa, ainda não tirou as tarjetas negras das molduras dos dois mortos. Só não me importei de ter perdido a aposta com a minha mãe porque, mesmo que a tivesse ganho, não teria podido assistir ao salto mortal no Coliseu por causa da gripe.
Mas o meu pai diz que saltos mortais é o que não vai faltar nos próximos tempos. Às vezes o meu pai tem uma maneira estranha de falar. Deve ser de ler muito.

A verdade é que, mesmo não sendo talassa como a vizinha de baixo, acho que ainda não me recompus daquele dia de Fevereiro em que mataram o rei, fez esta semana dois anos.
A minha avó tinha decidido ir comprar-me um fato na Casa Africana, para a festa de casamento da filha de uma amiga.

Lembro-me de ter barafustado, detestava ir com a minha avó à Baixa, mas não tive outro remédio. Quando eu às vezes digo “eu não quero”, logo toda gente grita:”o menino não tem quereres”.

O meu pai ainda hoje está convencido de que a minha avó só quis ir à Baixa naquele dia porque sabia que os reis iam chegar ao Terreiro do Paço, vindos de Vila Viçosa, e aproveitava para assistir à chegada e ao desfile das carruagens até às Necessidades.
Ela nega, e diz que tudo não passou de um acaso do destino.

Fosse como fosse, tínhamos já descido a Rua Augusta quando rebentou a confusão.
Só me lembro de ouvir tiros, fuzilaria, de ver gente a correr de um lado para o outro, e gritos, muitos gritos, “mataram o rei!”, e ninguém se entendia, e depois alguém disse que o príncipe herdeiro também tinha sido morto, e que o outro ficara ferido, e havia sangue por toda a parte, e lembro-me de ver ao longe um ramo de flores nas mãos da rainha, com que ela batia aos que atacavam a carruagem, e a minha avó puxava-me pelo braço, empurrava-me —e ainda estou para saber como chegámos a casa, com ela sempre a gritar “é o fim do mundo, é o fim do mundo!”
No meio da confusão, perdeu-se o meu fato.
Mas também não houve casamento, que o tempo não vai para festas.

«JN» de 6 Fev 10

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A MINHA INFÂNCIA NA REVOLUÇÃO

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Por Catarina Fonseca

HÁ DIAS ENCONTREI um caderno do tempo em que era artista.
Até aos 4 anos a coisa corria normalmente: havia uma família de aranhiços que era suposto ser a minha, evoluindo depois para umas borboletas, umas casas, umas noivas, uns príncipes e princesas em variadas fazes da sua existência.

Aos 4 anos, tudo acaba: há páginas e páginas de monstros com couves-flores espetadas e uns gajos às manchas com chapéus esquisitos e penas nos bonés.
Segundo me explicaram depois, eram chaimites, cravos e soldados.

O mais estranho é que eu nunca tinha visto uma chaimite, nem um soldado, e cravos só na praça, porque no dia da revolução tinha ficado em casa da minha avó, dentro do armário, a mascarar-me com estolas, diamantes falsos e luvas até ao cotovelo, tudo do tempo em que a família era burguesa e ainda não estava desperta para os amanhãs que cantam.
Uma infância na revolução podia ser divertida, mas na altura eu não sabia. Só sabia que a minha amiga Teresa tinha uma Barbie com fatinhos de noiva, de hospedeira e de dona de casa, e sapatinhos que passávamos a vida a perder e encontrar nos lugares mais estranhos.

Eu tinha a Olga, que não era noiva, nem hospedeira, e muito menos dona de casa, valha-nos São Lenine : era do meu tamanho e loira-nazi, embora tivesse vindo da URSS trancada no porão a deitar hálitos de tundra pelas narinas, e não se podia vesti-la e despi-la porque ela calçava para aí o 43, e quando eu acordava de noite conseguia ouvi-la a dar ordens à KGB no escuro.
Noite sim noite sim havia comício.

Era o equivalente a uma overdose de Festa do Avante arraçada de feira popular, mas não tinha carrosséis de gonzos mal oleados nem teias de aranha sobre esqueletos de plástico verde incandescente nem o Manolito a arriscar a vida no poço da morte na mota a fazer tracatracatraca cada vez mais depressa à volta do poço e à volta da morte, mas tinha uns gajos a gritar coisas incompreensíveis e a esticar o punho.
Um tipo barbudo apareceu-me certa vez e rosnou, visivelmente preocupado:

“Então, camarada, ainda de chucha?!”

De vez em quando também havia catecismo para nós, os pequeninos. Lembro-me de uma peça de teatro com uns pintainhos amorosos, em que vinha um pintainho amoroso e dizia para outro pintaínho amoroso:

“Olá, vens da clandestinidade?”

Para grande desgosto da família, nem eu nem o meu irmão parecíamos devidamente revolucionários. Ainda se falou em irmos para os Pioneiros. Perguntei de que cor era o lenço. Olharam para mim como se eu tivesse perguntado de que cor era o cavalo branco de D. José, e algo me disse que a resposta não ia ser: “cor de rosa”.
O meu pai suspirou, e pôs-me no ballet.
Foi o fim da minha carreira na revolução.
Mas não se perdeu tudo: pelo menos, havia fotos do Bolshoi no meu quarto. Não era o busto do Lenine, mas sempre era um bocado da mãe-Rússia.

(Activa, Abril de 2009)

sábado, 30 de janeiro de 2010

ESTOU COM GRIPE…

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910"

DESDE O PRINCÍPIO do mês que há temporais no país inteiro.
Aqui por Lisboa nem se sente tanto, mas no Porto o rio subiu que parecia o mar, com os barcos rabelos a chocarem uns nos outros, e o vapor “Cintra” a naufragar na barra.

No Ribatejo também as coisas estiveram muito feias — e há dias até fui com a minha mãe ao Salão Central, ver um documentário sobre “As Últimas Inundações do Tejo em Santarém”.
Não sei se foi por causa disso, ou pela chuva que não pára de cair, fiquei de cama com gripe, e com uma dor de garganta que não passa, por mais zaragatoas que me façam. Odeio aquele sabor do mercurocromo embebido no algodão, e estou sempre com medo de engolir o pincel, mas a minha avó diz que ainda não se inventou outro remédio.

O meu pai diz que, se isto não passar, vai ter de chamar o Dr. António José, que é quem nos trata a todos, ou então leva¬-me ao consultório, no Largo de Camões.
Mas parece que o Dr. António José ultimamente tem andado muito ocupado — e não é a ver doentes…

- Se houver justiça neste mundo e esta corja for ao ar …
(“Então, Fernando!, olha o menino!”, exclama a minha mãe, que não gosta de o ouvir usar esta linguagem)
- …o Dr. António José ainda há-de ser Presidente da República.
- Vá de retro Satanás! — grita logo a minha avó-- Não me diga que ainda quer mais mortos!
- Eu não quero mortos, senhora minha sogra — responde o meu pai -- mas há alturas na vida em que até a violência se explica… Se olharmos para este país tão atrasado, para esta miséria, para a exploração nas fábricas, para as prisões que se enchem de dirigentes políticos (como o Dr. António José…) enquanto os ladrões andam cá fora a roubar e a assaltar casas, se pensarmos nos desgraçados obrigados a emigrar, se olharmos para todo este povo que não sabe ler, que…
- Chega, meu genro! O senhor não está num comício da Av. Rainha D. Amélia! – diz ela e acaba-se o discurso.

O meu pai diz que ainda não perdeu a esperança de a converter aos ideais republicanos, mas que é preciso ir com calma.
A Rosa, que é a nossa criada e tem uma secreta paixão pelo Dr. António José (e que se recusa a acreditar que ele vai casar dentro de dias) diz que o meu pai está cheio de razão, ela bem sabe o que ouve na Praça da Figueira quando lá vai às compras.

- Inda agora me disseram que a Giraldinha voltou a atacar — diz ela.

A minha mãe está sempre a dizer à Rosa que tenha muito cuidado ao abrir a porta, e só deixe entrar quem ela conhece. Ao que diz o “Século”, a Giraldinha faz-se passar por amiga da família, e depois rouba tudo a que pode deitar a mão.
A Rosa tem um particular ódio à Giraldinha porque, para lá de em tempos ter sido criada, também se chama Rosa.

- Há coisas muito injustas… - suspira ela, antes de se enfiar pela cozinha para tratar da minha canja.

«JN» de 30 Jan 10

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A INFIDELIDADE SINTÉTICA

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Por Catarina Fonseca

DESCULPEM LÁ: qual é a mulher que tem tempo para ser infiel?
Um homem, pronto, depois de um extenuante dia de trabalho tem duas hipóteses: ou é infiel ou faz um blogue, às vezes as duas coisas ao mesmo tempo.
Agora nós?

Vamos ser infiéis quando? Pomos a criança a dormir abraçadinha ao Ruca e dizemos: ”aguenta aí caladinho que a mamã vai ali ser infiel e já volta”?

Programamos o microondas para dali a meia hora e quando a coisa apita dizemos “ai ó Luis Miguel pára lá com isso que tenho de ir servir o jantar”?

Encaixamos a loiça na máquina e vamos lá acima ter um caso com o Paulinho do 5.º esquerdo enquanto as powerballs superdesengordurantes 3-em-1 tentam ferrar os dentes nos restos da feijoada da prataria?
E se fosse só o tempo, inda se dava um jeitinho.
Mas com quem?

Já dá uma trabalheira tão grande encontrar algum espécime a quem valha a pena ser fiel, quanto mais um sobresselente.
Os homens ainda se percebe, porque mulheres com quem vale a pena trair as outras são ao pontapé.
Mas nós?

Vamos ser infiéis com quem, se ainda por cima eles são todos iguais, mais bigode menos bigode?
Ainda por cima, trair em termos dá uma trabalheira tão grande que às tantas começamos a pensar que, em vez de pôr a peruca loira e irmos para o Íbis dizer que nos chamamos Soraia Marlene, valia mais a pena ficar em casa a ver a “Música no Coração”.

Solução: se os homens não valem a pena, aprendi neste número da revista Activa que ainda nos restam os bonecos.
Claro que há o pormenor desagradável de nos tornarem imediatamente psicopatas, mas o que é isso ao pé das suas vantagens: não refilam se mudamos de canal a meio do jogo, nunca nos dizem que a mãezinha deles é que fazia bem pastéis de bacalhau, e não ressonam.
É verdade que não se levantam se o bebé chora, não têm uma conversa por aí além, e não lavam o chão da casa de banho, mas qual é a diferença entre isso e a vida normal?

Uma vez em que estive entre a vida e a morte, uma amiga minha apareceu-me no hospital com o Joca ao ombro. O Joca é um cavalheiro em tamanho natural, com cabeça de esferovite, olhos pintados como os do Tutankamon, bigode de cabelo verdadeiro, ténis de algum sem-abrigo e boné de beisebol.
Ficou sentado na cama ao lado da minha a fulminar quem entrava.
As enfermeiras faziam visitas guiadas para o verem, e enganavam-se a espetar-me a agulha na veia porque os olhos aterrados escorregavam-lhes sempre para o Joca.
Inda esperei que funcionasse como remédio anti-carjacking e andei com ele uns tempos ao meu lado no carro. Mas acabei por tirá-lo, porque só vinham turistas tirar-me fotografias para provar como Portugal estava povoado de cromos e, além disso, ninguém quer “jackar” um calhambeque que já assistiu ao Euro 94.
Hoje o Joca está sentado a um canto, como um avô caquético.
A minha sobrinha mais nova tem um medo dele que se pela. Passa de lado e olha-o de revés, como se esperasse que ele lhe saltasse para a espinha a qualquer momento.
Às vezes diz-me:
“O Joca tem o boné nos olhos”
Com ar reprovador, como se eu não tratasse bem o meu marido.
Pode estar descansada. Não me passa pela cabeça trair o Joca.
Psicopata inda vá; infiel é que não.

(Activa, Setembro 2008)

sábado, 23 de janeiro de 2010

O MEU SONHO ERA VER O COURAÇADO

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910"

A PRIMEIRA COISA que o meu pai me disse, depois de ter lido o que aqui escrevi, foi:

- Nunca te esqueças da data. Sem ela, nunca saberás quando as coisas aconteceram. E temos de saber situar tudo no seu tempo.

Eu pensava que o meu pai não ia ler este diário. Sempre achei que um diário era uma espécie de caixa dos nossos segredos.
Mas ontem ele passou-me para as mãos um livro, e disse:

- Lê isto. Gostava que um dia, ao terminares o teu caderno, ele tivesse uma história parecida com esta.

Nunca tinha visto este livro. Não era de Camilo, nem de Alexandre Herculano, nem de nenhum nome que eu conhecesse. Também não era de Júlio Verne, de quem eu gosto quase tanto como do Texas Jack.

Chama-se “CORAÇÃO”.

Pensei: o meu pai quer que eu seja médico, e já está a preparar-me.
Mas não era nada disso.
É um diário, escrito por um rapaz italiano da minha idade, chamado Henrique. Fala da família, da escola, dos colegas, dos mestres. E aqui, se não fosse o meu pai estar sempre a repetir que um homem não chora, eu teria chorado. Leio: ”lembro-me tanto do meu antigo mestre e do seu sorriso bom”.Eu também me lembro muito do meu antigo mestre, e do colégio na Rua das Pedras Negras, aonde nunca mais voltei.
E pelo meio do que Henrique escreve, há anotações do pai dele. Por isso não vou estranhar que o meu faça o mesmo.

Mas hoje, confesso que não me apetecem grandes leituras : acaba de entrar no Tejo uma esquadra francesa, e o meu sonho era visitar o couraçado “Saint Louis”! Tem quatro canhões grandes e dez mais pequenos.
Parece que o rei vai lá amanhã, e o almirante até lhe oferece um almoço.
O meu pai diz que o rei não faz outra coisa senão viajar, e visitar primos por essa Europa, e passar revista a quartéis, e entrar em barcos, e ir a almoços, e que não é assim que isto lá vai.
Quando o meu pai não a ouve, a minha mãe sai em defesa de D. Manuel:

- Não passa de uma criança…
- Tem 20 anos! Catorze tenho eu e já fico ofendido quando me chamam criança! — digo eu.
- Mas tu não és rei — diz ela.

E com essa é que ela me mata.
A minha mãe diz muitas vezes que a culpa é mais dos que rodeiam os reis do que propriamente dos reis.

- Desculpas…- resmunga o meu pai.

Apesar de tudo, a minha mãe não é talassa furiosa, como a vizinha de baixo, que ainda não retirou as tarjas negras das molduras com as fotografias de D. Carlos e de D. Luis Filipe. A minha mãe apostou comigo uma ida ao Coliseu em como elas as vão retirar daqui a 15 dias, quando fizer dois anos que eles foram mortos. Eu cá apostei que não as vão retirar nunca.
Mas Deus queira que o luto cá em baixo acabe - porque me está mesmo a apetecer ir ver o salto mortal que dizem que o Levy Jenochio vai fazer lá do alto da cúpula!

Razão tem a minha avó quando diz que isto só pode ser o fim do mundo…

«JN» de 23 Jan 10

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

“ EU NÃO SABIA QUEM ERA…”

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910"
.
CHAMO-ME José Joaquim, e fiz ontem 14 anos.
O meu pai chamou-me ao escritório e ofereceu-me um livro de capa de couro castanha.
Folheei-o.
Todas as páginas estavam em branco.
- E a história? — perguntei.
Ele sorriu, diante do meu olhar de espanto, e disse:
- A história és tu que a vais escrever. E tenho a certeza de que vai ser uma grande história…
Na capa, em letras douradas, lia-se:

“O MEU DIÁRIO”

O meu pai disse então que eu devia assentar nele tudo o que fosse importante na minha vida.
E depois, com aquele ar grave que ele põe sempre quando me chama ao escritório, abriu um livro e leu:
- “Era eu um rapaz de 14 anos, e não sabia quem era”…
Olhou para mim e acrescentou:
- É assim que Camilo Castelo Branco começa o seu folhetim “Mistérios de Lisboa”.

O meu pai gosta muito dos livros de Camilo Castelo Branco.
Eu cá, para falar verdade, gostar, o que se chama gostar, gosto das aventuras do Texas Jack, que se compram a 60 reis no quiosque da esquina.
Mas não disse nada.
Olhei para o meu pai e esperei.
- Também tu tens 14 anos. Também tu ainda não saberás quem és. Escrever este diário vai ajudar-te.
Abriu a caixa das mortalhas, e começou a enrolar um cigarro--sinal de que a conversa acabara ali.
Agradeci – e agora aqui estou, debruçado sobre o meu diário, tentando escrever o melhor que posso, nesta letra inglesa ,inclinada e certa, que o meu mestre me ensinou no colégio.
Escrevo devagar, cuidadosamente, não apenas para que o aparo não deixe cair nenhum borrão que inutilize a página, mas também porque assim tenho tempo de pôr as ideias em ordem.
“Tudo o que for importante na tua vida” — tinha dito o meu pai.
Mas tenho medo que a palavra “importante” tenha um significado para mim, e outro, muito diferente, para ele.

Claro que me lembro de coisas muito importantes: do dia em que mataram El-Rei e o Príncipe, da confusão por toda a parte, da fuzilaria, dos mortos, da multidão desorientada, da minha mãe só a perguntar “mas por onde andará o teu pai?”, da minha avó aos gritos “é o fim do mundo! eu sempre disse que vinha aí o fim do mundo!”, dos boatos que se ouviam de janela para janela, do quiosque a cerrar os taipais antes da hora, e eu só a pensar “nunca mais vou ler o Texas Jack!”
Hoje tenho muita vergonha de ter pensado nisso. Sobretudo quando me lembro dos mortos todos, dos presos, do meu mestre desaparecido para sempre, do ar cada vez mais sério do meu pai, do medo da minha mãe de cada vez que se ouve um tiro na rua.
O “fim do mundo” — e eu a pensar no Texas Jack.
Só posso encontrar uma desculpa: nessa altura eu tinha 12 anos, ainda não sabia quem era.

O meu pai tem razão: escrever aqui vai ensinar-me a descobrir muita coisa.
Vai ser melhor que os folhetins do Camilo.

«JN» de 16 Jan 10