sábado, 10 de abril de 2010

FALHOU A REVOLUÇÃO E A TOURADA

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

DESDE QUE NESTA CASA só se pensa em revoluções, andamos todos muito apoquentados. Como diz a minha avó, “só tenho coisas que me ralem”.
Desconfiamos de toda a gente.
Qualquer barulho é uma bomba a rebentar.
Se um rato de madrugada se lembra de atravessar o soalho, é logo uma vozearia (“ai minha Nossa Senhora que está um ladrão a arrombar a porta!”) e o prédio inteiro acorda.
Aqui há dias a Rosa ia já de vassoura em punho para dar em cima de quem não parava de bater à porta da cozinha — quando lhe apareceu pela frente a Senhora Felismina, trouxa à cabeça, aos berros:

- Ó santinha, dá-me lá uma ajuda, senão ainda a roupa se me rebola toda pelas escadas!

A Senhora Felismina é quem lava a nossa roupa. Todas as semanas a vem buscar, todas as semanas a vem trazer.
Vive em Caneças, e aproveita a carroça que vem distribuir as bilhas de água a Lisboa.
Caneças fica longe, não há estrada, e por isso as carroças têm de sair de madrugada para se meterem naqueles caminhos de cabras e chegarem cá de manhã. Muitas lavadeiras aproveitam a viagem, e chegam cá doridas de tanto solavanco.
Atrás da Senhora Felismina vem o aguadeiro entregar as bilhas.
Cá em casa só bebemos água de Caneças. A minha mãe diz que ela cura anemias e males de estômago. Se cura ou não, não sei, nunca me lembro de ouvir o Dr. António José receitá-la no consultório.
A Rosa pediu desculpa, escondeu a vassoura, e conferiu com o rol se todas as peças de roupa que tinham ido para lavar tinham voltado lavadas. A Senhora Felismina é mulher séria, mas nunca fiando.
E por causa da revolução, o meu pai até se esqueceu de me levar ao Campo Pequeno.
Todos os anos, no domingo de Páscoa, começa a temporada das touradas na Praça do Campo Pequeno.
Desde miúdo que não falho uma — apesar dos protestos da minha avó, que tem sempre muita pena dos touros e diz que só um ateu é que pode festejar o domingo de Páscoa daquela maneira.
O meu pai, como sempre, faz que não é nada com ele.
Às vezes, quando vou à livraria, oiço-o discutir o assunto com alguns amigos que passam por lá para dois dedos de conversa. E há os que o censuram e lhe dizem que as touradas são próprias de talassas e que ele, como bom republicano, devia lutar pela sua abolição, ao que o meu pai responde que tourada é arte, e arte não tem nada a ver com monárquicos ou republicanos, ao que eles dizem que tem-- e nunca mais dali saímos.
Este ano veio a Páscoa, e o meu pai desculpou-se com o mau tempo.

- Mas tu queres apanhar uma pneumonia? Não vês como chove?

Chovia torrencialmente, é verdade — basta ver as fotografias que vieram há dias na “Ilustração Portuguesa”.
Mas o motivo não foi esse.
O que acontece é que o meu pai no domingo de Páscoa já andava muito apoquentado: uma semana depois, foi o tal dia da revolução que era para ser, mas falhou.
Falhou-lhe a revolução, falhou-me a tourada.
Só tenho coisas que me ralem.

«JN» de 10 Abr 10

quinta-feira, 8 de abril de 2010

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A Lei das Compatibilidades: Descubra o Homem que Nasceu para Si

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Por Catarina Fonseca

AO CONTRÁRIO
do que nos ensinaram, não há almas gémeas absolutas. Às vezes, as almas gémeas dependem da altura da vida em que se está. Saiba quais podem ser as suas melhores escolhas em termos de… romance.

Diga-nos em que situação está, e nós dizemos-lhe para onde dirigir as suas energias:

A Principiante
- Situação: Tem 17 anos, é estudante, mora em casa dos pais. Tem quem lhe lave a roupa e lhe faça a cama, o que não é necessariamente mau. É da geração que já sabe que o Príncipe Encantado não existe, mas nunca comeu morangos sem açúcar, e portanto ainda não sabe até que ponto a inexistência de um príncipe é dramática.

- Par incompatível: Sabe aquele amigo do seu pai? O que tem nome de Rei Mago, o Baltazar, o que aparece ao fim da tarde e lá fica a um canto da sala a fumar e a beber um resto de conhaque dourado num copo de borda metálica, tão metálica como os olhos dele que a apanham de vez em quando lá do fundo, muito de vez em quando como quem não quer a coisa, e de vez em quando vem ter umas conversinhas para o seu lado, ronronando como um gato, assim umas coisas de adultos sobre jazz pós-moderno e Kafka, coisas que se viessem de uma pessoa normal lhe entravam a si por um ouvido e saíam pelo outro, que também é o que acontece agora mas também não interessa nada o que ele está a dizer. Sabe quem é? Esqueça. Saia da sala quando ele entrar. Vá ao cinema com o João Filipe. Vá ouvir jazz pós-moderno fechada no seu quarto.

- Par compatível: O João Filipe, seu colega de carteira (ou enfim. De mesa pré-fabricada) pode parecer absolutamente inviável: partilham o mesmo autocarro (ele a cair de sono e a cheirar a ténis velhos, você a tentar ter um ar digno apesar de àquela hora nem sequer saber como é que se chama a sua mãezinha), ele dá-lhe graxa para que você lhe empreste os apontamentos de química, e o mais romântico de que se consegue lembrar é passar-lhe uma rasteira e dar-lhe um carolo como prova do seu amor e da sua dedicação. Más notícias: nesta altura do campeonato, é a sua melhor hipótese.

A Desalentada
- Situação: Tem 25 anos, acabou com o seu último namorado e acha que a vida acabou. Entre a sua vida e o deserto de Góbi, parece-lhe que a única diferença é que o deserto ainda vai tendo uns oásis. A sua vida é isto: o emprego de sonho custa a chegar, um amigo do seu pai (não o Gato Baltazar, que fisgou uma sueca e montou uma empresa de produção de eventos em Estocolmo) arranjou-lhe um lugarito de ‘assistente’ num escritório de contabilidade onde você baralha os números e navega pela net com toda a fúria do cargueiro do ‘Speed 2’, apesar de toda a gente dizer que é ‘muito aplicada’.

- Par Incompatível: O Vasco, que é primo da sua amiga Constança e que conheceu numas férias em Vilamoura. O Vasco também é aplicadinho, tirou Economia e Gestão na Católica e não pára de lhe falar em casamento. Ao princípio até parece um Par Compatível, mas cuidado antes de comprar o vestido de noiva: o Vasco há-de desatar a comprar lençóis de linho biológico pela net, depois amua porque a loja não tem o serviço Vista Alegre que ele queria, depois há-de querer convidar 600 pessoas, depois a mãezinha dele há-de dizer que o seu vestido é pindérico e corre o risco de se achar daqui a um ano grávida de gémeos sem saber muito bem como é que se meteu naquilo.

- Par Compatível: O irmão mais velho do João Filipe, que você quase nunca via porque sempre que lá ia a casa ele estava nos treinos de horseball de alta competição ou enfiado no quarto a bater com o lápis da mesa e a estudar engenharia genética de ‘headphones’ postos com os Pixies a berrar muito, e as guitarradas dos Placebo que ele acha que lhe dá um ar cool, ou os ronronanços do Leonard Cohen, que lhe dá um ar ainda mais cool mas de que ele se envergonha secretamente porque acha que é música para meninas. Voltou a encontrá-lo numa festa de amigos e descobriu que ele não só tinha um ar cool como era a sua alma gémea. Quando perceber que não existem almas gémeas, já estará casada com ele. Mas não se preocupe com isso agora.

A Desesperada
- Situação: Tem 35 anos, e das duas uma: ou está desesperada porque acabou de se separar do Paulo Jorge que a deixou sozinha com os gatos nos braços, ou está desesperada porque depois de passar anos em festas de amigos, passeios temáticos, cruzeiros no Douro (sozinha) e chats onde só lhe apareciam criançolas inconscientes à procura de noites escaldantes, percebeu finalmente que o Príncipe Encantado só existia na ‘Bela Adormecida’ e mesmo aí, uma aposta em como era gay.

- Par Incompatível – Com separação ou sem ela, muito cuidado com os ‘homens do desespero’: não se meta em nada a achar que é só ‘para animar’. Os homens que adoram as desesperadas geralmente só querem é copos e curtes. Os que querem qualquer coisa mais séria, nunca a querem com uma desesperada. Portanto, arrisca-se a dar com uma alma que só quer é curtes e copos. Problema: você também diz que o que quer é curtes e copos, mas as mulheres NUNCA querem só curtes e copos, portanto arrisca-se a entrar numa relação em que as duas partes querem coisas diferentes.

- Par Compatível – Como dizia o Luís Fernando Veríssimo, ‘o amor é como a tesourinha das unhas, nunca está onde a gente espera’. Por isso, refreie o desespero. Volte a frequentar as festas de amigos. Com um bocado de sorte, o irmão do João Filipe, que você deixou escapar aos 25, também se há-de estar a divorciar. Com ainda mais sorte, o Baltazar já voltou de Estocolmo (pormenor irritante: tem três filhos suecos, o Lars, a Ingrid, e qual é o outro, o Sven? Todos a falarem como se estivessem num filme do Ingmar Bergman mas pronto). Azar: continua a não querer mais nada do que ronronar-lhe ao ouvido. É capaz de continuar a não ser boa ideia.

A Carente
- Situação: Tem 43 anos e um divórcio traumático aos ombros. Teve de dividir filhos, pratas e DVDs. Foi chato. Principalmente o Sebastião. Teve de lutar pelo Sebastião, porque o seu ex também o queria. Mas ficou com o vinil do álbum ‘Revolver’ dos Beatles. Isso calou-o. O Sebastião agora dorme com a cabeça na sua almofada e passa as noites a ladrar por tudo e por nada, deve achar que é o homem da casa.

- Par Incompatível – Qualquer pessoa com um divórcio igualmente traumático. Quem está recentemente divorciado não tem alma para andar a construir novas relações, eles nem têm alma para lavar a louça quando chegam a casa, quanto mais para se apaixonarem. Só têm alma para desabafarem os seus desgostos, e como você também precisa de colo, vão-se chocar dois divórcios, duas carências, e quatro pessoas. Ah, e esqueça os romances com rapazes de 20 só para fazer ciúmes ao seu ex (ele não está nem aí) ou se sentir 20 anos mais nova. Correm sempre mal, principalmente porque os rapazes de 20 nunca ouviram falar da ‘África Minha’ e não se pode ter romance decente com alguém que nunca viu a ‘África Minha’. Se ele se chama Fábio e o filme preferido dele é ‘O Maneta de Ferro contra a Guilhotina Voadora’, parta para outro.

- Par Compatível – Temos pena, mas não é o Sebastião. O homem certo é aquele que a ama em segredo há anos, à espera que você finalmente visse a Luz e desse um chuto no Luís Miguel. Tristemente, você despreza-o, acha-o um choninhas, e nem sequer sabe que ele existe. Investigue bem. Não se esqueça de olhar por baixo da secretária.

A Impaciente
- Situação: Tem 52 anos. Está sozinha há mais tempo do que leva a aprender mandarim. Mil caracteres de solidão por dia. Há tanto tempo que até já nem liga. Parece que já nada de interessante vai acontecer. Passa o serão no sofá a ler ‘600 Receitas Para Quem Gosta de Cozinhar mas Não Tem Tempo’. Só fala com velhinhos chatos a querem desabafar consigo as suas mazelas, colegas de trabalho que a vêem como uma colega de trabalho, rapazolas que não lhe ligam porque afinal já é uma cota (aliás, se tivesse vinte anos a menos já era uma cota), e a sua filha a querer que você ature as crianças no fim de semana enquanto ela vai em segunda lua-de-mel com o marido para o Choupana Hill, e em resumo, ninguém percebe a mulher fantástica que ali está. Parvos.

- Par Incompatível: A sua filha, que só quer o seu bem, a sua felicidade, e mais um par de braços para manietar o Salvador, o Tomás e o Sebastião (o filho, não o cão) arranjou um jantar a quatro com ela e o marido e mais um amigo do marido. Problema: não tem gracinha nenhuma. Só lhe pergunta se já foi ver a exposição do Berardo. Diz que as lulas lhe dão azia. Os dentes dele gritam por um aparelho desde que ele tinha 14 anos (que já foi há mais ou menos 120). Os abdominais dele gritam por um ginásio desde que ele tinha 18 (que já foi há 116). Ele continua surdo. Metafórica e verdadeiramente falando. E ainda há quem ache que podia ser o homem da sua vida.

- Par Compatível: Como dizem no Canal Odisseia, ‘Abra Sua Mente’. Se Sua Mente não está definitivamente virada para os encantos dos velhinhos nem dos rapazolas nem dos tipos com divórcios traumáticos às costas, pode ser que um dia destes tenha uma surpresa e descubra que aquele seu colega que se oferece para lhe tirar fotocópias para que você não perca o seu rico tempo pode ser o homem da sua vida. Ah, e é verdade: o Baltazar agora é que deve estar no ponto, quando nenhum de vocês está interessado em nada mais sério (é verdade que já fez 75, mas continua charmoso e a beber conhaque com ar de gato se os gatos bebessem conhaque).

sábado, 3 de abril de 2010

AINDA NÃO FOI DESTA…

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".


O MEU PAI NÃO PAROU em casa este fim-de-semana e, no domingo à noite, entrou no escritório com a minha mãe e, passados alguns minutos, chamou-me.

- José Joaquim – disse-me com a voz das horas graves — lembra-te que, se um dia eu faltar, és o homem desta casa.

Fez uma pausa, enquanto a minha mãe se estendia na chaise-longue.

- Entre hoje e amanhã, alguma coisa de muito importante vai acontecer. E seja o que for que oiças, quero que saibas que tudo foi feito para bem do povo, para que mais ninguém viva na miséria, para que toda a gente tenha pão, instrução, liberdade…

De repente lembrei-me do comício do Dr. António José em Sintra e quase sorri. Mas o momento era sério.
Mas acho que só percebi que era mesmo sério quando o meu pai nessa noite não veio dormir, e na segunda-feira o nosso professor nos mandou para casa:

- Está para rebentar um trinta-e-um e eu não quero responsabilidades.

Quando cheguei a casa a minha mãe não parava de chorar, a minha avó não parava de fazer novenas, a Rosa não parava de dar água chalada a toda a gente — incluindo ao Alfredo, que não parava de bater à porta “a contar as últimas”.

- É hoje!
- É hoje o quê? — perguntou a Rosa.
- Mas então o que há-de ser? A revolução, rapariga!

Ela deu um grito:

- A revolução é hoje? Ai minha Nossa Senhora! E o patrão que não está em casa
- Claro que não está! Há-de lá estar com eles…
- Com eles, quem?
- Ora…com os que fazem a revolução! Com os que têm tudo combinado…O meu patrão nem abriu a loja. Também lá deve estar.
- Mas lá…onde?
- E eu sei? Lá…Onde se fazem as revoluções... Se calhar a esta hora já mataram o reizito…
- Tu nem me digas isso!
- Se não for hoje…é um dia destes! Aquele, coitado, não me parece que vá ter longa vida.

Também, segundo diz o meu patrão, a única coisa para que tem jeito é para ouvir missa e namorar francesas…
Foi nessa altura que a minha avó chamou a Rosa, e o Alfredo lá se foi escada abaixo.
Estes têm sido uns dias estranhos.
Quando vou na rua, só se ouve falar de bombas e atentados e greves.
Dizem-se as coisas mais loucas.
Dizem que as ciganas roubam as crianças para lhes tirarem os santos óleos
Dizem que há revoltas entre os marinheiros.
Dizem que a Rainha-Velha endoideceu de vez, e anda a regar as alcatifas do palácio como se estivesse no jardim.
Felizmente o meu pai chegou a casa na segunda-feira à noite.
Não disse nada, sentou-se à mesa de cabeça baixa e de colarinho aberto, e todos entendemos que as coisas tinham corrido mal.

- Deixa lá… - murmurou a minha mãe — não foi desta, será da próxima.

Ele deu-lhe um beijo na testa e, olhando para mim, disse:

- E o menino amanhã vai à escola, ouviu? A revolução precisa de homens instruídos!

E a vida voltou ao normal: o rei (que se calhar até nem deu por nada…) já hoje foi a uma festa no quartel de engenharia – e eu voltei aos juros, aos quebrados e ao “D. Jayme”.
Ainda gostava de saber para que é que a revolução precisa disto.

«JN» de 3 Abr 10

quarta-feira, 31 de março de 2010

7 coisas parvas que fazemos por eles

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Por Catarina Fonseca

POIS, O DIFÍCIL é encontrar só sete, mas elegemos algumas das mais parvas. São isso algumas de que nos lembrámos. Mas havia tantas outras…

1 – Deixar as amigas

E já nem falamos dos amigos… Só porque ele tem uns ciúmes loucos da Aninhas, da Marta e da Joana, isso não quer dizer que lhes faça a vontade. Todos os homens acham que a gente fala mal deles nas costas deles (regra geral temos mais em que pensar) principalmente com as amigas. Que todo o tempo que estamos com elas é para lhes contarmos que ele se baba na almofada, arrota depois do hamburguer e é sexualmente mais incompetente que, sei lá, que um pepino. Para todos os homens, todas as mulheres são potencialmente a Nereida do Ronaldo. Também é verdade que às vezes quem deixa as amigas é ela: porque a Joana tem um lindo sorriso e a Marta tem uma linda conta bancária, a Ana Isabel não pode ver um homem à frente nem que seja padre, estrábico ou casado com a sua melhor amiga (nem as três coisas ao mesmo tempo), a Ritinha é uma sonsa que você bem a conhece e a Vanessa, quer dizer, nem é bom pensar na Vanessa à solta com o seu Zé Manel, e portanto afasta-se delas e leva o seu Zé Manel para qualquer sítio muito longe, onde não existam amigas. É um erro: até porque ninguém sabe o dia de amanhã e se arrisca a ver-se um dia sem ele e, o que é pior, sem elas.

2 - Deixar de usar minissaia

A frase que ele mais diz é: ‘Vais sair nessa figura?’. ‘Nessa figura’ geralmente resume-se a uns centímetros a menos do que ele acha que devia ser. Todos os homens são potenciais chefes de harém: por eles, sairíamos à rua de burqa. Por eles, nem sairíamos à rua. Problema: se ceder na primeira minissaia, vai passar a ter de mudar de roupa sempre que o senhor achar que há um potencial chefe de harém rival à solta, que é o que eles acham que são todos os outros homens.

3 - Fingir

A partir do momento em que queremos agradar a alguém, damos por nós a fingir as coisas mais disparatadas, e não são só orgasmos. Começa com uns fingimentozinhos inocentes (achamos nós), ai sim, querido, perco-me por bolo de chocolate, e a tua mãezinha é tão simpática e acolhedora, e eu também adoro dias de sol para ir dar 30 voltas ao estádio da Cidade Universitária. Quando dá por si, mente-lhe tantas vezes que começa a achar que tem um desvio de personalidade. Diz-lhe que é fanática por futebol desde que ia aos jogos na Catedral da Luz com o seu paizinho; que acha o Paulo Jorge (o melhor amigo dele que nunca trabalhou um dia na vida e vive às custas da avó trancado em casa a jogar póquer ilegal pela internet) um excelente rapaz; que as piadas dele têm mesmo graça; que o Pavlov (o pastor alemão que lhe dá lambidelas nojentas na boca sempre que a vê pela frente e passa a noite com insónias a ladrar ao gato da vizinha e larga pêlos pretos espetados e com pepitas de carraças no seu sofá branco) não nos põe a cabeça em água; que não, quer lá agora casar de papel passado, que ideia, você é pela união de facto…

4 - Passar a comer 8 mil calorias por refeição

Até ao Zé Manel, você era um exemplo para qualquer nutricionista. Depois do Zé Manel, a única vez em que volta a ver a cor verde na sua vida é quando o Benfica joga com o Sporting. Nos primeiros dias até tentou convertê-lo aos bróculos, depois tentou comer bróculos enquanto ele se encharcava de esparguete à bolonhesa com tiramissu e ainda lhe mandava bocas do estilo: - Só comes isso? Depois ficas sem defesas e apanhas gripe A e eu tenho de ficar uma semana sem te ver - O Zé Manel acha que vegetais é para coelhos, muesli é para piriquitos, iogurte é para bebés, coitadinhos, e tofu é para professores de ioga gay sentados em cima de tapetes com os olhos fechados a meditar em imenso sexo tântrico que podiam fazer e não fazem porque não se alimentam convenientemente.Em resumo, quando dá por si, com todo o esparguete à bolonhesa à luz das velas e todo os jantarinhos românticos, já engordou cinco quilos.

5 - Perdoar-lhe tudo

Se ele anda maldiposto é porque o chefe é um bruto e não lhe reconhece a genialidade, se ninguém o ensinou a abrir a porta às senhoras é porque é um espírito livre e acredita na igualdade dos sexos, se não pára de falar é porque é uma pessoa super-interessante e com imenso assunto, se não ouve o que lhe dizem é porque, coitadinho, é um bocadinho aluado como todos os Aquários, e se é um egoista de primeira apanha e só pensa nele próprio é porque teve um trauma de infância quando o pai dele saiu de casa tinha ele 7 anos. Ou seja, você corre o risco de acordar um dia com o efeito do elixir de amor já expirado, e pensar de repente: - Mas que palhaço! Onde é que eu tinha a cabeça?

6 - Dar o nome da mãezinha dele à primeira filha

Assim que soube que era menina, ele bateu o pé. Que tinha de ser Odete Emília, porque a mãezinha dele ia ficar tão contente! E pior ainda é se a mãezinha dele já cá nem estiver para ficar contente. Você, pronto, que lhe queria chamar qualquer coisa mais, enfim, moderna, inda torceu o nariz, mas não adianta nada, é Odete Emília ou ele sai de casa com a Odete Emília às cavalitas… Acorde! Não deixe! Telefone à Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, peça asilo político, fuja de casa numa noite escura e tempestuosa, mas não deixe a criança arcar com um nome que não nasceu ara ela.

7 – Adiar as suas férias

Tirou uns dias para depois do verão ainda antes de o conhecer, mas ele agora protesta que ninguém vai de férias em Novembro, que não vai aguentar ficar sete dias sem si, que podiam ir ao dois em Abril para um hotel de charme e fazer massagem tailandesa com óleos de orquídea silvestre… Não adie. Sabe lá se vai cá estar em Abril. Sabe lá se vai estar com ele em Abril. Sabe lá se não vai haver um golpe de estado de extraterrestres que vai rebentar com a Terra! Hehehe. (Isto é da BD de ficção científica dele. Já a contagiou. Que você já lhe disse milhares de vezes que adora, apesar de achar mais infantilóide que a Ovelha Xoné).

´"ACTIVA" - 2009

segunda-feira, 29 de março de 2010

PASSEIO DE DOMINGO

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Por Alice Vieira

OLHOU para o espelho.
Às vezes pensava no que lhe aconteceria se fosse a outra, a do tempo da infância, a que se metia pelo espelho dentro, a que se deixava cair pelo poço, a que seguia lebres e chapeleiros malucos, a que pedia “dêem-me histórias com muita loucura por dentro” .

Ela sempre gostara de histórias e de pessoas com muita loucura por dentro.
Pessoas iguais a ela.
Pessoas iguais a ele.

O risco sobre a pálpebra direita está meio esborratado, foi da pressa, claro, mas está no céu quem inventou os cottonettes, pensa, enquanto rapidamente tudo se recompõe.
Escolhe os brincos, tem quatro caixas cheias deles, diferentes para cada estação do ano, mais compridos para quando é verão e tem o cabelo curto, mais curtos para quando é inverno, e não dá jeito andar a correr à chuva com aquela coisa toda a chocalhar e a prender-se no cachecol ou nas golas altas das camisolas.

Ele deve estar a chegar.

De repente lembra-se que lhe devia ter pedido que não trouxesse a mota.
Por uma vez na vida, que viesse de carro.
Claro que ela também gosta da mota, não há melhor sensação do que apanhar o vento pela cara, agarrada a ele pelas estradas a não sei quantos à hora, mas o seu espírito motard não é tão furioso como o dele e, de vez em quando, sabe-lhe bem vestir saia rodada, daquelas até aos pés, daquele linho indiano enrugado que não é preciso engomar e se torce todo na secagem.

Mas saias e mota é que não jogam mesmo nada.
Por isso se calhar o melhor é jogar pelo seguro e optar pelas calças, jeans desbotados que já viram melhores dias, mas agora são todos assim, nem se nota quando são novos ou velhos.
Ainda não chegou ao cúmulo de pegar numas tesouras e fazer cortes pelas pernas abaixo, e deixar aquilo a desfiar-se, apesar de tudo ainda lhe faz alguma confusão pagar uma pipa de massa para ficar com ar de sem-abrigo.

Escolhe a t-shirt apropriada, de manga comprida porque ainda não faz muito calor, e em cima da mota a não sei quantos à hora, o frio é sempre de acautelar.
Esteve para vestir a que diz “Aleluia! Encontrei Jesus! Estava no balneário do Benfica!”, que encomendou pela net num dia em que o Sporting levara uma goleada — mas desiste, sabe lá quem vão encontrar pelo caminho, e as pessoas agora ofendem-se por tudo.
“Andam muito chocadiças”, como lhe diz a empregada.
Opta por uma que não desperta paixões clubísticas, “Não sou grega mas também estou falida”, e que até mostra o seu interesse pela actual conjuntura política. Motards, mas a par do que se passa.
Ouve o ronco do motor a aproximar-se. Ainda bem que se decidira pelas calças.
Pela janela acena-lhe, vê que ele traz o pendura do costume, e fica contente a pensar que sempre é uma boa companhia.
Também fica contente por ele trazer o lenço de riscado vermelho atado à cabeça, uma vez que a sua t-shirt é de fundo vermelho e assim sempre vão ambos a condizer.
Abre a porta ao miúdo, que resmunga uma coisa parecida com bom dia e se enfia pelo corredor.
Deita as chaves de casa para dentro de um bolso das calças, o telemóvel e o cartão multibanco para o outro, de nada mais precisa para a sua liberdade absoluta.
Ele ri-se a ler a t-shirt, ela enfia o capacete, e num momento desaparecem ao fundo da rua.
Em casa, os dois netos só têm um pouco de receio do que os vizinhos possam comentar.

In ‘ACTIVA’ de Abril 2010

sábado, 27 de março de 2010

BOMBAS NO TEJO, BISPOS EM LISBOA

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

ISTO não anda bem.

A Rosa que, nos intervalos da paixão impossível pelo Dr. António José, namora com o Alfredo, que é marçano e todos os dias carrega com as compras da mercearia até nossa casa, contou que ele lhe disse que tinham sido deitadas ao Tejo uma data de cestos cheios de bombas, daquelas que as pessoas fazem em casa.

- Se calhar alguém os avisou que tinham sido denunciados à polícia e resolveram desfazer-se delas--disse a minha mãe.

- E o Alfredo também disse que há cestos cheios delas enterrados nas hortas…
- Que perigo! – murmurou a minha mãe.
- É por isso que aos domingos nunca mais fomos passear às hortas — disse a Rosa.

A Rosa tem a tarde de domingo livre, de quinze em quinze dias, e sempre na condição de voltar para nossa casa a tempo de fazer o jantar.
A minha avó até acha que é descanso a mais, e que há muitas casas que nem isso dão às criadas.

- Coitada…- diz sempre a minha mãe — farta-se de trabalhar!
- Farta-se é de mandriar! — diz a minha avó, para quem os outros nunca trabalham o suficiente.

Ontem ao jantar, o meu pai deixou escapar:

- Isto está por pouco.

A minha mãe ficou muito pálida:

- Pelo amor de Deus, Fernando!, diga-me que não está metido em nada!

A Rosa foi a correr fazer chá de tília, enquanto o meu pai tentava sossegá-la:

- Tenha calma! Já sabe que, no seu estado, não se pode enervar!

Eu ia perguntar em que estado é que a minha mãe se encontrava (no colégio ensinavam-nos o estado sólido, o líquido e o gasoso, mas parecia-me que não era desses estados que o meu pai falava) quando a minha avó desatou a gritar, que eu até saltei na cadeira:

- Não se pode enervar, não se pode enervar, isso é tudo muito bonito, mas como é que uma pessoa não se há-de enervar, quando andam para aí esses maçónicos, e mais esses anarquistas, que devem ter feito pacto com o diabo, por isso é que todos os bispos do país se reuniram há dias aqui em Lisboa, o de Braga, o de Évora, o do Coimbra, o do Porto, o da Guarda, todos, senhor meu genro, olhe que não faltou nem um!, nunca me lembro de uma coisa assim ter acontecido! Ora para os bispos se juntarem aqui todos, eles que devem ter tanto trabalho, coitadinhos, é porque temem pela salvação das nossas almas, é porque a coisa é mesmo séria!
Ninguém lhe respondeu, e ela acabou por se levantar da mesa e ir para o quarto.
- Mais umas rezas a São Expedito, a ver se ajuda os bispos a salvarem as nossas almas…- disse o meu pai, tentando sorrir.

Nestes últimos tempos, a minha mãe repetia muito essa frase: “diga-me que não está metido em nada”. Mas o meu pai desviava sempre a conversa e nunca respondia.
Mas, desta vez, deu-lhe um beijo na testa e disse:

- Quanto menos souberem, melhor para todos!

Se a Rosa não tem chegado nesse instante com o chá de tília, acho que a minha mãe tinha desmaiado logo ali.

- Ao menos prometa que tem muito cuidado!
- Prometo — disse o meu pai – Sabe bem que os republicanos não são loucos!

E ficaram em silêncio.
Só espero que S. Expedito, para além de ajudar os bispos, também dê uma ajudinha aos republicanos.

«JN» de 27 Mar 10

quarta-feira, 24 de março de 2010

Erros de ‘casting’

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Por Catarina Fonseca

NÃO, NÃO TEM NADA a ver com o cinema. Ou melhor, tem a ver com o ‘filme’ da nossa vida. Sabe aquelas pessoas que achámos fantásticas e depois percebemos que não eram o que esperávamos? Cá ficam algumas desilusões por que quase todas passámos.

Afinal, as nossas primeiras impressões nem sempre são muito apuradas. Enganámo-nos, por exemplo, nas seguintes:

- A Mulher a Dias Tradicional

Situação: Ao fim de uns meses a jurar que conseguíamos fazer tudo sozinhas, era o que faltava, naquela casa nunca entraria mão alheia, ao fim de sonharmos anos e anos que, no dia em que tivéssemos casa nova, ela ia cheirar a cera e a maçãs, a realidade cai-nos em cima com todo o seu peso de realidade (costuma ser muito). Não só não conseguimos fazer tudo sozinhas como a casa, se cheira a alguma coisa, é aos ténis do Paulinho e a porcaria entranhada, nada que lembre remotamente cera ou maçãs.

Sonho: Ao fim de muitas investigações, decidimos contratar a Odete. A Odete é a mulher da nossa vida. A Odete tem a cara e o aspecto que tinham todas as empregadas dos filmes, e só não anda fardada porque, enfim, já era um bocadinho demais. Mas quando chega a casa e vê a roupa lavada, tem vontade de beijar a Odete na boca.

Realidade: Ao fim de uns dias, a roupa demora um bocado mais a ser lavada. Há bolinhas de cotão por todos os cantos. A Odete deu em fiscalizar a sua vida e torce os cantos da boca de cada vez que você lhe diz. Ó D. Odete, por favor não me arrume os cds que eu gosto de os ter espalhados. No dia seguinte, os CDs estão outra vez empilhadinhos e você já não sabe onde tem nada. A Odete queima-lhe equipamentos de ginástica à velocidade da luz, porque ainda não percebeu que há certas coisas que não gostam de ferro. A Odete acha que você é uma galdéria que não sabe o que a vida custa a ganhar e de certeza que lhe roga pragas pelas costas e põe sal atrás das portas.

- A Vizinha Simpática

Situação: Você acaba de se mudar para uma casa nova onde não conhece ninguém. Não sabe a que porta bater se o telemóvel pifar, o cão tiver um ataque de histeria ou entrar uma barata pelo cano do lava-loiças. Sente-se uma alma desamparada num caixote com muitas gavetas, e amaldiçoa o dia em que decidiu ser independente.

Sonho: Nos filmes a malta tem sempre um vizinho louro e simpático e incompreensivelmente solteiro, apesar de ser louro, simpático e com casa própria. A malta vai-lhe bater à porta porque precisa de um ovo e no episódio seguinte já estão enroladinhos à lareira a escolher o nome dos filhos.

Realidade: Ao fim de um tempo, faz finalmente amizade com a D. Albertina, do 5º esquerdo. Desvantagem: a D. Albertina é como os rotweillers, quando ferra não larga. A D. Albertina faz-lhe esperas para lhe contar a sua vidinha de uma ponta à outra, do filho que casou e foi para a Suíça e partir daí nunca mais ninguém o viu, até ao primo Anacleto que era tão bom rapazinho e coleccionava escaravelhos e veja lá, deu em drogado, ‘então e a menina, tem namorado? Ah não? Porquê? Olhe que essas coisas não se podem arrastar, olhe depois chega aos 40 e não encontra homem que a queira.’ Ainda por cima, arrasta cómodas corredor fora até às 4 da manhã (deve ser promessa, porque ninguém tem assim tanta cómoda para arrastar) ou depois ouve o Frei Hermano da Cãmara até às 4, porque tem insónias e é surda.

- A Companheira de Viagem

Situação: De repente, apeteceu-lhe tirar uns dias só para si. Uns dias para ir a algum sítio onde a mão do Homem nunca pôs o pé. Ou enfim, a qualquer sítio mais exótico que Cascais. Problema: detesta viajar sozinha, e o Paulinho avisou logo que nos meses mais próximos não podia tirar dias nenhuns porque o chefe andava maldisposto e quando o chefe anda maldisposto, não se lhe pode pedir nem um pacote de açúcar.

Sonho: Decide investigar qual das suas amigas terá um chefe mais bem-disposto que a deixe tirar uns dias para vir a algum sítio mais exótico que Cascais. Encontra a Joaninha, que é um amor de pessoa e sempre teve o sonho de ir a Pequim.

Realidade: Percebe imediatamente que a Joaninha não tem a noção de onde fica Pequim. O avião inda vai no ar há 12 minutos e já ela refila que tem pavor de aviões e que um ministro famoso morreu de tromboflebite numa viagem a não sei onde. Depois quer sempre ir à janela. Protesta que a comida nos aviões é de plástico. Chateia a hospedeira porque precisa de uma manta, depois porque a manta tem muito pêlo e depois porque afinal não quer a manta que deve estar atochadinha de ácaros. Quando chegam, fica de trombas porque está a chover, depois porque na China só falam chinês, são uns ignorantes, depois porque o hotel não é nada como nos folhetos, depois porque o guia cheira mal dos pés, os nativos são todos iguais, e a comida não é nada como no ‘Dragão do Oriente’ lá ao pé de casa dela. Quando a viagem chega ao fim, toda a gente jura que nunca irá mais longe que Cascais. Ou pelo menos, na companhia da Joaninha.

- A Instrutora Loura

Situação: Decide finalmente que desta é que é: vai perder aqueles quilos que a impedem de ser a Giselle Bundchen e vai descobrir finalmente onde é que ficam os trícepes. Enche-se de coragem e inscreve-se num ginásio. Compra um top que lhe deixa o umbigo à mostra, uns ténis daqueles com molas no calcanhar e apresenta-se assim fardadinha no primeiro dia de aulas, com a vaga sensação de não ter estudado a lição.

Sonho: Quando bota os olhos na instrutora, fica mais descansada. A rapariga deve ter metade da idade da sua filha, está vestida de cor de rosa dos pés à cabeça como uma bailarina de caixa de música, e também tem ténis com molas nos calcanhares, o que a deixa mais calma. Podia ir numa procissão mascarada de anjinho.

Realidade: O Anjinho avisa logo que não está ali para brincadeiras e quem quiser uma cena calminha pode iniciar-se no ponto cruz. Parece que baixou um Espírito do Mal que a leva a dizer as coisas mais anti-condizentes com alguém vestido de cor de rosa. Os outros têm todos cara de quem nunca fez ponto cruz na vida, nem qualquer outra ‘cena’ pró sossegado. O Anjinho já ligou a turbina, e o resto da turma tem um ar feroz como se fosse para o Afeganistão depois de amanhã. Dez minutos depois, você parece uma torneira humana. Pouco falta para malhar com as ossadas no chão. Só se lembra da Luísa Castel-Branco a dizer ‘Você é o elo mais fraco, adeus’. No dia seguinte, são precisas quatro tentativas para sair da cama. Doem-lhe todos os músculos, inclusive músculos que não sabia que tinha. Continua a não saber qual deles é o trícepes, mas de certeza que também lhe dói.

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CAIXA

Como prevenir desilusões
- Investigar bem se aquela é o tipo de pessoa que você procura.
- Não se deixar levar demasiado pela aparência.
- Conhecer-se a si própria: costuma julgar bem as pessoas à primeira vista ou não?
- Racionar o seu tempo: não gaste demasiado tempo de vida com pessoas de quem não gosta.

´"ACTIVA" - 2009

sábado, 20 de março de 2010

ISTO SÓ LÁ VAI COM UMA REVOLUÇÃO…

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Por Alice Vieira


Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

O MEU PAI anda preocupado.

“Isto só lá vai com uma revolução” — ouvi-o murmurar há dias.

E na livraria, onde entra muita gente que lá fica na conversa com ele, já ouvi muitos dizerem a mesma coisa.
Eu acho que em Portugal nunca houve uma revolução. Na escola falou-se de uma “revolução liberal” em 1820, muito importante porque deu ao país a primeira constituição — mas não é de uma revolução assim que eu falo.
É de uma mesmo a doer, como a francesa — que o meu pai me explicou muito bem depois daquele dia em que descobriu que eu não sabia quem era o Danton.
Ou como a americana, cheia de índios e cowboys e pradarias e desfiladeiros e muitos tiros e muito sangue.
Nem estou a ver, aqui em Lisboa, como é que se fazia uma revolução dessas.
Mas ultimamente não se fala de outra coisa.
Acho mesmo que as únicas pessoas que não devem falar disso são aqueles que moram nas Necessidades.
Porque, nestes últimos tempos, enquanto cá em casa o meu pai se preocupa, por lá tem sido um corrupio de festas e jantares e comemorações: no fim do mês, foi um grande banquete no Palácio com “as mais altas individualidades do Estado” (não sei quem sejam, mas devem ser todos muito importantes. Pelo menos, devem ser todos muito altos.); há três dias, foi uma grande festa desportiva no Quartel de Marinheiros; depois de amanhã entra no Tejo um navio russo e lá vai o rei almoçar a bordo; e ontem houve festa outra vez, porque o infante D. Afonso prestou juramento na Câmara dos Deputados como Príncipe Real.
Quer dizer: se houver outra cena de tiros como há dois anos e D. Manuel morrer, é ele o rei.
Tenho pena do D. Afonso, coitado, que nunca na vida deve ter pensado em ser Príncipe Real. Irmão de D. Carlos, deve ter suspirado de alívio assim que nasceram os sobrinhos: o trono estava garantido.
O atentado de há dois anos é que não estava nos seus projectos…

- Ao Arreda, quem o quiser ver feliz é dar-lhe um automóvel para as mãos…- disse o meu pai ontem ao jantar.

A minha avó ofendeu-se logo:

- Porque é que o senhor meu genro não se refere a Sua Alteza pelo seu nome, em vez de usar essa alcunha ordinária?
- Ordinária porquê? — exclamou o meu pai — Toda a gente sabe que de automóveis é que ele gosta! E todos o vêem por essas ruas de Lisboa, numa velocidade como se estivesse nalguma corrida, a berrar “arreda! arreda!” para as pessoas o deixarem passar! Estava a pedir a alcunha…

Eu não disse nada, mas fiquei cá a pensar que, se eu fosse o D. Afonso, a ter de carregar até ao fim da vida com o nome de (levei dois dias a sabê-lo de cor!) “Afonso Henrique Maria Luís Pedro de Alcântara Carlos Humberto Amadeu Fernando António Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis João Augusto Júlio Valfando Inácio de Saxe-Coburgo-Gota e Bragança” — havia de me sentir muito feliz por ter uma alcunha com uma palavra só.

quarta-feira, 17 de março de 2010

O que ainda falta inventar

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Por Catarina Fonseca

JÁ QUASE TUDO foi inventado, é certo, mas havia tantas coisas que nos fariam infinitamente felizes e nos transformariam a vida para sempre!

Aqui ficam apenas alguns exemplos de engenhocas que nos fariam imenso jeito.

Detector de Sacanas

- Situação: A gente está numa festa/’rave’/missa, de copo/pastilha/missal na mão, e de repente achega-se um qualquer e diz: ó Rita/minha/irmã, dá-me o teu telemóvel que te acho uma mulher inacreditável e nunca conheci ninguém como tu.
- Sem DS: A malta, esteja onde estiver e seja com que capacidades lhe sobrarem na altura, acredita instantaneamente que o tipo viu aquilo que ninguém mais viu: como você é uma pessoa absolutamente genial. Dá-lhe o seu telemóvel e fica três dias à espera que ele ligue. Ele não só não liga como sempre que a vê finge que não a conhece. Encontra-o na próxima festa/rave/missa a dizer a mesma coisa a outra.
- Com DS incorporado no seu, digamos, sutiâ: 1ª versão: Uma Voz que lhe lembra o Brad Pitt/Bob Marley/ Deus sai-lhe do peito e lembra-lhe todas as razões por que aquele não é o homem ideal para si. Infelizmente, a primeira versão do DS revelou-se completamente inútil porque a maioria das ‘informadas’ desligavam imediatamente o sensor e seguiam em frente assim mesmo. A segunda versão é constituída por um engenhoso sistema que liberta gás hilariante. A gente desata a rir na cara do tipo, mesmo que não queira, e depois é obrigada a ir à casa de banho lavar a cara. Quando volta, ele já lá não está, ou está com a autoestima de rastos, o que vai dar no mesmo.

Telecomando para os Miúdos

- Situação – O Manel quer andar de baloiço, a Maria também, o Manel prega uma galheta na Maria, a Maria desata a gritar e para animar a festa chega uma criança alheia que se senta no baloiço, caso em que o Manel e a Maria desatam os dois a gritar em coro.
- Sem TM – A pobre mãe tenta rever mentalmente todos os programas da Oprah com especialistas que ensinavam a lidar com crianças e todos os livros do Brazelton a informar que se deve deixar gritar os filhos. O Brazelton nunca deve ter tido filhos. Ou pelo menos, filhos que gritam.
- Com TM – Aponta-lhes o telecomando no botãozinho que diz ‘Birras’ na setinha do volume, e baixa-lhes o som. Depois carrega na setinha que diz ‘rewind’ até ao sítio onde se aproximou do baloiço, e leva-os rapidamente para o outro lado do parque sem nunca terem passado por baloiço nenhum. Aponta o comando à criança alheia, carrega em setinha que diz ‘Lot’ e transforma-a numa estátua de sal (pronto, está bem, num vendedor de gelados, que estátua de sal já está muito visto. Pensando melhor, é melhor não. Vendedor de gelados, em não se querendo comprar gelados, é ainda pior que um baloiço. É melhor transformá-lo numa amoroso caniche com as vacinas em dia, a que as crianças possam fazer festas). Aponta o comando ao baloiço e carrega na setinha que diz ‘Jorge’. O baloiço transforma-se imediatamente no George Clooney que a leva para o seu chalé no lago Como e se dedica a ser seu escravo sexual e a servir-lhe cafés como nomes de música clássica para o resto da vida.

Sapatos Inteligentes

- Situação – Tenta calçar aqueles sapatos de salto vertiginosamente alto/fino/finíssimo que viu na revista, onde lhe garantiam que lhe acrescentavam mais meio-metro de perna. De facto acrescentam, mas têm como efeito secundário que passa a vida a enterrar os stilettos entre as pedras da calçada portuguesa, que deve ter sido toda feita por calceteiros gay que odiavam profundamente as mulheres.
- Sem SI - No fim do dia, partindo do princípio que consegue chegar ao fim do dia, doem-lhe tanto os dedos dos pés que só se lembra das irmãs da Cinderela que tiveram de cortar os dedinhos para caberem no sapatinho de cristal. Começa a desconfiar que há qualquer coisa que todas as outras mulheres lhe estão a esconder. Quando regressa a casa aos esses pela calçada, esborracha-se nas pedras. Incapaz de se levantar, lá fica a ouvir uma velhota resmungar: “estas raparigas agora metem-se todas nas drogas e andam por aí aos caídos que é uma tristeza, gente tão nova”.
- Com SI - Os sapatos transformam-se automaticamente conforme a situação do dia. Quando sai de casa, são uns sólidos sapatos de caminhada. No local de trabalho, crescem automaticamente para 10 cm de salto se, e só se, se aproximar alguém que valha a pena (é favor não fazer analogias com outras coisas). Em estando a 10 m do ginásio, transformam-se em ténis fluorescentes com molas cor de rosa nos calcanhares e contador de calorias. Os modelos mais recentes incluem GPS e um DS incorporado, que a leva automaticamente para onde deve estar em qualquer momento da sua vida.

Instrutora de Moda

- Situação – A gente acorda verde como a princesa do Shrek, como é que ela se chamava, com vários quilos a mais como a princesa do Shrek, e o problema é que não podemos ir trabalhar com um vestido cor de rosa até aos pés. Queremos recordar a paleta de cores que nos fica bem, segundo lemos num artigo da Activa, e não conseguimos. Por qualquer razão, nada na gaveta/armário/chão nos grita: ‘veste-me e leva-me contigo para o trabalho!’.
- Sem IM – A gente apanha a primeira coisa que encontramos na gaveta/armário/chão, mesmo que não faça parte da nossa paleta, nem da paleta de qualquer outra pessoa, mesmo que nos faça gorda e nos transforme num clone da avó Emília e nos grite que nenhum homem à face da Terra gostaria de ser visto ao nosso lado num semáforo, quanto mais ao nosso lado num altar.
- Com IM – Quando acordamos, ligamos a Instrutora de Moda como ligamos o Esquentador. A Instrutora de Moda aparece no espelho como uma projecção holográfica da nossa melhor amiga, e diz-nos: “Olá, Sofia/Rita/Catarina, estás tão gira hoje! Eis como podes ficar ainda mais gira. Veste aquele top branco que juraste à tua mãezinha que nunca usarias, aquelas calças pretas que achas que nasceram para a mãe da Família Adams mas que fazem um rabo minúscuclo, ah, e onde pára o casaco cor de rosa, está na máquina há três semanas, não faz mal, podes vestir o azul, aquele que o teu ex te deu, ah, queimaste-o/ofereceste aos Emaús/aproveitaste para um esconjuro à luz do luar na Serra de Sintra, não faz mal, pronto, veste o kispo! Sim! O que tens desde o euro 94! 1894! Sim, o preto! Quero lá saber da tua paleta de cores!”

Escravo Holográfico

- Situação - O dia arrasta-se como se a força da gravidade fosse maior para nós do que para o resto do mundo. parece que andamos com botas de chumbo nos pés, como os prisioneiros daquelas prisões de alta segurança nos Estados Unidos. Só nos lembramos das penas para os condenados nos livros do Lucky Luke: 25462849 anos de trabalhos forçados. Carregamos compras. Levantamos pesos no ‘body pump’. Carregamos a criança. E o carrinho da criança. E a mala da infindável tralha de que a criança precisa. E depois, ainda temos que vestir e despir, que dá uma grande trabalheira!
- Sem EH – Desenvolvemos olheiras perpétuas, o Zé Manel começa a fazer olhinhos à Soraya que anda no body-attack de top cor de rosa que lhe acaba acima do esterno (não que ela saiba onde fica o esterno), o Luisinho traz uma mensagem da professora a dizer que é hiperactivo e disléxico e a culpa é nossa, vamos ao médico e ele encosta o estetoscótpio que é frio como as estepes da Ucrânia às nossas costeletas, manda inspirar e expirar, e diz: ‘o que a senhora tem é cansaço’.
- Com EH – Eis que entra em cena o, digamos em homenagem ao Natal, Rodolfo. O Rodolfo, é alto, espadaúdo, de olho azul e nunca diz: olha carrega tu os sacos que eu já levo aqui a grade de cerveja. O Rodolfo lava, aspira, puxa o lustro e pole as pratas sem um queixume, o Rodolfo levanta-se de noite quando o bebé chora e canta-lhe cantigas de embalar do Zeca Afonso, o Rodolfo vai connosco ao supermercado e carrega trinta packs de dez de leite meio-gordo, o Rodolfo programa do gravador de DVDs para todas as ‘Anatomias de Grey’ até ao ano 4000, o Rodolfo vai connosco ao ginásio e carrega a barra por nós, faz ele próprio 600 flexões e 516 abdominais e corre daqui até Cascais sem uma palavra de desespero, o Rodolfo acompanha-nos ao vestiário, veste-nos e despe-nos e maquilha-nos, depois leva-nos a casa e põe o banho a correr com sais cor de rosa e o patinho vibrador, enfia-nos na cama e dá-nos um beijo de boa noite e aconchega os lençóis e deita-se no chão, no tapete, depois de ter dito: ‘Até amanhã, Milady.’

Teletransporte

- Situação – Prometemos à tia Júlia que a íamos visitar ao, digamos, Texas, se ela prometesse votar no Obama. Problema: é preciso mudar de avião a meio, e antes de mudar de avião é preciso entrar nele, que dá uma grande trabalheira e por isso é que ainda não cumprimos a promessa desde que a tia Júlia ajudou a pôr o Obama lá onde ele está.
- Sem TT – Recorda-se demasiado tarde que os aviões que vão para a América nunca são o fofo ‘Pisco’ nem o, como é que ele se chama, ainda mais fofinho ‘Alexandre O’Neil’, são umas coisas gigantescas onde de certeza que vai escaqueirar o Galo de Barcelos gigante que comprou para a tia Júlia, e de certeza que o seu casaco vai acabar atochadinho de ácaros no meio de todos os outros casacos, as hospedeiras têm cara de pau e de certeza que sabem qualquer coisa que você não sabe, e ao seu lado acaba de se sentar um gajo trombudo e de barba preta com um ar muito enervado que tem ‘Atenção! Sou director-geral da Al-Caeda e pretendo fazer explodir todo este avião e respectivo conteúdo dentro de cinco minutos assim que sobrevoarmos o Fórum Picoas porque me prometeram 11 mil virgens!” escrito na testa. Tem vontade de lhe dizer que não há 11 mil virgens em todo o mundo. A não ser no Horóscopo. De certeza que ele não está a pensar no Horóscopo. Pensa se deve prevenir a hospedeira. E se ele será Escorpião.
- Com TT – Lembram-se do ‘Caminho das Estrelas’? Toda a gente teria um Teletransportador em casa, era como ter, sei lá, microondas, a gente casava-se e o sogro oferecia-nos o teletransportador, que se punha a um canto da casa de banho com o desumidificador apontado para não criar bolor. A gente era só pegar na mala e no Galo de Barcelos, abrir a porta do teletransportador, digitar a morada da tia Júlia e a quem queriámos que fosse avisado caso alguma coisa corresse mal na reagregação de moléculas (esoperam lá, isto é melhor não) e pimba. Meio segundo depois, estávamos na cozinha da tia Júlia, ou na lareira, caso fosse um daqueles teletransportadores comprados em saldo no Natal que só funciona de lareira em lareira e por isso foi muito baratinho.
Em resumo: resolvia-se a crise do petróleo, dos transportes, e dos cereais. Era a solução para o mundo! Quais energias renováveis!

´"ACTIVA" - 2009

segunda-feira, 15 de março de 2010

TARDE DE CHUVA

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Por Alice Vieira

EU TINHA PROMETIDO chegar cedo, muito antes da reunião, para podermos beber um café e dar-nos ao luxo de perder alguns minutos em amena, saudável, imprescindível cusquice.
Sempre fui de opinião que nada melhor do que meia hora a falar de coisa nenhuma, para depois se resolver tudo.
O meu contributo para a salvação do planeta é não ter automóvel, e sou feroz adepta de metro e autocarro.
Isto, evidentemente, quando não posso utilizar o meu meio de transporte preferido, a saber: as solas dos sapatos.
Mas convenhamos que não é o meio de transporte mais recomendável entre o Saldanha e Alfragide. (Eu sei que o Cesário Verde ia a pé da Baixa até Linda-a-Velha, mas morreu tuberculoso aos 30 anos, o que prova que nem sempre o exercício físico faz bem à saúde…)
Mas para chegar cedo, decidi enfiar-me num táxi, apanhado milagrosamente naquela tarde de chuva.
Entro, digo boa tarde, o nome da rua para onde vou, e oiço uma voz furiosa:
“Mas o que é que te passou pela cabeça?!”
Mal tenho tempo de me recompor e logo entendo que aquilo não é para mim, o taxista fala freneticamente ao telemóvel, faz-me um aceno de mão e de cabeça para que eu perceba que já sabe para onde eu quero ir—e lá nos pomos a caminho, com a voz dele sempre em música de fundo.
A conversa anima porque entretanto (“passa-lhe aí o telemóvel ”) entra na conversa um Senhor Doutor, a quem o taxista pede muitas desculpas, explicando que “ esse meu colega é meio passado dos carretos, e por isso é preciso a gente dar-lhe um certo desconto”
Mas enquanto ele está nestas explicações, toca outro telemóvel, e a voz dele amacia, oh como amacia!, e passa a dividir as atenções entre o Senhor Doutor (que já percebi tratar-se de um advogado) e o colega passado dos carretos (que já percebi tratar-se de um tonto prestes a embarcar na compra de um carro em 2ª mão) e a Xana ( que já percebi tratar-se da Xana, prometendo-lhe arroz de pato se ele passar lá por casa).
Tento dizer-lhe qual o melhor caminho para se fugir às obras a seguir a Sete Rios, mas o colega passado dos carretos insiste que o carro em 2ªmão está mesmo como novo, e ele volta a mandar passar o telemóvel ao Senhor Doutor, para ver se ele lhe põe alguma ordem nas ideias, “tá-se mesmo a ver que é um negócio da tanga, ele agora paga pouco mas depois é preciso motor, é preciso jantes, é preciso tudo!”.
E a Xana pergunta “mas tu estás a falar com quem?” e ele, ”nada, estou com um cliente”, e o cliente, que devo ser eu, desiste de lhe sugerir outro caminho porque entretanto, e como era de prever, caímos em plenas obras a seguir a Sete Rios.
A Xana cansa-se (“´pera aí, ó Xaninha!”) e desliga, mas logo há outro em linha, a perguntar-lhe se ele se esqueceu do cliente da Ribeira das Naus, “ó caraças, já não vou a tempo! vai lá tu, apanha o gajo e explica-lhe” --e desliga para logo ligar para outro número, “ó Sr. Vítor, vai aí um colega meu buscá-lo, que eu não posso, estou aqui numa encrenca dos diabos, acho que houve um acidente aqui na estrada, nem para trás nem para a frente!”, e do Sr. Vítor passa para o colega anterior, ”já falei com o gajo, dizes que vais da minha parte, que ele está à tua espera”, e desliga, e retoma a questão do Senhor Doutor e do colega passado dos carretos — e eu chego, exausta, ao meu destino.
Aponta-me o taxímetro, faz o troco - sem largar a conversa com o colega e com o Senhor Doutor.
Na empresa estranham o meu atraso e o meu ar cansado, a pedir sofregamente um café e uma aspirina.
E todos pensam que enlouqueci quando lhes digo que venho de um complicado negócio de venda de carros em segunda mão, que pelo caminho passei pela Ribeira das Naus — e que tudo me cheira a arroz de pato.

«ACTIVA» de Mar 10

sábado, 13 de março de 2010

A MÉDICA DA MINHA MÃE

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

REBENTAM bombas quase todos os dias.
Acho mesmo que o som já se tornou tão banal como a voz do homem do pitrolino, do aguadeiro, ou da preta a vender mexilhão.
Há dias ouvi um tiro e disse:

- É o canhão do Arsenal.

O canhão do Arsenal dispara sempre um tiro, a que se segue um apito prolongado - e toda a gente sabe que é meio dia.
Mas desta vez o meio-dia vinha longe e, em vez do apito prolongado, veio uma série de cinco ou seis tiros, uma grande balbúrdia, gente a gritar e a correr pela rua abaixo, e a voz da Rosa:

- Coitadinhos, lá vão mais uns para o Limoeiro.

O Limoeiro deve ser a pior cadeia do país. Lembro-me de ouvir o Professor Buíça dizer que os que para lá entravam eram atirados a monte, espancados todos os dias e, de comida, só tinham direito a uma tigela de um líquido que mais parecia água suja.
A minha avó bem reza a Santo Expedito, mas o santo deve andar muito atarefado pois, pelas conversas que oiço, o país já não tem conserto.
Pelo menos é o que diz o meu pai quando acaba de ler “O Século”, acende uma cigarrilha, e conversa até ser hora de nos recolhermos.
Mas esta noite a minha mãe foi quem mais falou.
Tinha ido à médica.
A minha avó está sempre a dizer que não percebe por que é que a minha mãe há-de ter uma mulher médica, em vez de ter um homem, como toda a gente, e não acredita em nada do que a Dra. Adelaide diz no seu consultório da Baixa.

- Mulheres querem-se na cozinha… murmura.

Quando vai ao consultório da Dra. Adelaide, a minha mãe traz sempre muitas coisas para contar.
Desta vez era sobre um encontro que tinha havido na Dinamarca, com representantes de 17 países, onde tinha sido proposta a criação de um Dia Internacional da Mulher.

- Desvarios republicanos…- murmurou logo a minha avó.

A Dra. Adelaide (Adelaide Cabete, como está escrito na placa) é das poucas mulheres que conseguiram ser médicas mas, apesar de exercer medicina há mais de dez anos, as pessoas ainda torcem o nariz, e dizem que melhor seria se fosse para casa coser meias.
A minha mãe diz que não há como a Dra. Adelaide para defender as mulheres e as crianças, e que por isso é que gosta tanto de lá ir. O meu pai também acha bem que a minha mãe lá vá, porque é na livraria dele que a Dra. Adelaide compra todos os livros de que precisa.
Eu é que estou um bocado preocupado porque, nestas últimas semanas, a minha mãe tem ido muitas vezes ao consultório da Dra. Adelaide.
Mas eu olho para ela e não me parece doente. Anda até com ar feliz, apesar das bombas e dos tiros.
O meu pai há dias olhou para ela, e murmurou:

- Mas que raio de altura é que nós fomos escolher…
- Altura para quê? — perguntei.

Mas ele entrou no escritório e não me respondeu.
Olhei também para a minha mãe. Estava ligeiramente corada.
E até me parece que tem engordado um bocadito.

«JN» de 13 Mar 10

quarta-feira, 10 de março de 2010

Casais que conhecemos

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Por Catarina Fonseca

ENCONTRAMO-LOS todos os dias, no trabalho, na rua, na casa de amigos. Um casal é mais do que a soma de duas pessoas, e algumas duplas podem ser mesmo explosivas.

Dos felizes aos disfuncionais, esta é apenas uma pequena amostra do que podemos encontrar:

- O calado e a matraca – Podem estar juntos há 3 meses ou há 30 anos, que o esquema é sempre o mesmo: ela fala fala fala como se não houvesse amanhã, ele não responde ou responde com uns grunhidos. Prognóstico de duração: depende. Ou já estão casados há tanto tempo que já se acomodaram ao esquema, ou então há um dia em que ele se revolta e dá o salto com a Sãozinha da contabilidade, deixando a ex de rastos porque nunca lhe passou pela cabeça que ele tivesse coragem para roer a corda.

- O intelectual e a bomba – O que ele viu nela é claro, o que ela viu nele nem por isso, o que corresponde ao nosso racismo cultural de achar que a beleza é mais importante que os neurónios. Ela nunca faz nada sem falar com ele. Ele dá-lhe pelo ombro e vai ao dobro das festas desde que anda com ela, com um braço pela cintura da bomba e aquele sorrizinho de ‘vejam lá o que eu consegui’. Prognóstico de duração: Pode resultar, mas geralmente a bomba acaba por cansar-se e partir em busca de novos neurónios. Ou vice-versa…
- Os marretas – Toda a gente os conhece: ela diz mata, ele diz esfola. Têm um único objectivo na vida: fazerem a cabeça em água um ao outro. Qualquer pormenor é pretexto para uma refrescante discussão: a escola do filho, a tigela do cão, quem é que vai pôr o lixo lá fora, se estão a ter um ataque de coração ou um ataque de fúria, em que restaurante é que se janta e se o vestido da Vanda era cor de rosa choque ou cor de rosa escuro. Prognóstico de duração: Geralmente, é prisão perpétua, e aquilo dura até algum deles morrer de exaustão e surdez aos 89 anos.

- Os colas – Não falam com ninguém, nem sequer um com o outro. Andam encolhidinhos como se estivessem sempre cheios de frio, nos restaurantes entretêm-se a observar a mesa do lado, nas festas não descolam um do outro, mal abrem a boca, e não é que sejam antipáticos, partilham é um mal-estar constante perante o mundo. Prognóstico de duração: Se o mal estar é um com o outro, a relação está por um fio, se é timidez partilhada, é para a vida.

- Os pombinhos – Ainda têm aquele ar fresquinho de felizes com a vida e um com o outro. Ela chama-lhe kiducho e ele chama-lhe fofinha e isto por tudo e por nada, ‘ó kiducho passa-me aí o sal’, ‘ó fofinha como é que se chamava aquela tua tia de Alfornelos que fazia muito bem tigelada’, e não saem de cima um do outro, ele ao colo dela, ela ao colo dele, as mãozinhas eternamente dadas e aquele ar babado de quem não sabe que o resto do mundo existe. É muito irritante sair com eles porque, como vivem um para outro, tem-se sempre a sensação de que se está a mais, ou mesmo de que se está sozinha. Prognóstico de duração: Depende dos pombinhos, mas quando a coisa é demasiado melada geralmente dura o tempo que dura um pacote de açúcar.

- O engatatão e a inocente – Ele é um lobo com pele de cordeiro: dorme com todas as outras (a amiga dele, as amigas dela, a melhor amiga de ambos, a menos amiga, a prima, a patroa, a secretária, a colega, a conhecida, a quase desconhecida, a mesmo desconhecida) e trata a mulher nas palminhas. Aparentemente são um casal modelo, não fosse o pormenor de toda a gente saber das traições menos ela. Prognóstico de duração: se ele fizer bem as coisas e ela aprender a fechar os olhos, para sempre.

- Os felizes para sempre – São raros, não porque os casais felizes sejam raros mas porque os casais felizes sem que a gente tenha vontade de lhes furar as almofadas são raros. São felizes mas não alardeiam a sua felicidade, não a atiram à cara dos outros, não a exibem como um troféu. Prognóstico: Há duas hipóteses: a mais provável é que seja mesmo para sempre. Mas também pode acontecer que sejam tão felizes que um dia se possam separar docemente, sem as mágoas e as lutas que afectam os outros casais.

- Os sócios – Lembram-nos que há outros motivos para casar que não o amor e a paixão, o que nos desconcentra ligeiramente, mas vistas bem as coisas, por que não? Geralmente são um casal modelo, que não briga em público, não exige amor eterno um ao outro, e tolera escapadinhas que não ponham em causa o contrato. Prognóstico: É muito civilizado no papel, mas a verdade é que já não estamos na Idade Média e a maioria das pessoas quer mais de um casamento. Aguenta até algum deles se apaixonar de verdade por alguém: ou exigir ao outro mais sentimento do que o contrato estabeleceu.

- Os ‘Que Giros que Nós Somos’ – Escolheram-se mais porque ficavam bem ao lado um do outro do que por qualquer outra coisa. Pertencem a um mundo onde a imagem é parte do sucesso, e ambos sabiam isso quando se escolheram. Prognóstico de duração: Quando se cansarem da cara um do outro, escolhem outro bibelô.

- Os que não assumem – Vão sempre juntos para todo o lado mas não, não há nada entre ambos, juram eles, passam a vida a jurar e a aparecer juntos, andam de mãozinha dada mas são só amigos, ou pior, já vivem juntos há 30 anos e têm dois filhos mas quando se apresentam um ao outro ainda é só ‘A Ana, a minha namorada’. Não se percebe de onde lhes vem o medo do compromisso mas como a vidinha é deles e não chateiam ninguém e os amigos já se habituaram àquilo, ninguém liga. Prognóstico: Dura a vida toda.

- Os que vivem para os filhos – Nem se percebe como é que têm tempo um para o outro. Funcionam em equipa: ambos passam a vida a correr atrás das crianças, ‘Ó Madalena não se bate no Salvador, ó Tomás tire a cadeira de cima da Maria, e alguém viu a Teresinha?” Uma conversa típica com os amigos é: “Olhe, tem por acaso uma fralda nº3?”, “Sim, acho que a Pilar já não precisa delas, largou-as no mês passado”. Curiosamente, são pais despachados e pouco dados ao drama, o que é necessário quando se tem cinco filhos. Não se acham sacrificados, acham que serem pais é uma missão que têm na vida. Prognóstico: Dura até os filhos saírem de casa.

- Os sempre em crise – Nunca se sabe muito bem se estão juntos ou separados. Ora estão apaixonados ora não se podem ver, ela atira-lhe com a panela de massa à cabeça e ele sai de casa, ela pede-lhe desculpa e ele volta, ele diz-lhe que a mãe dela é insuportável e ela sai de casa, e etc. Prognóstico: Parece que podem andar nisto a vida toda, mas chega uma altura em que um deles fica pelos cabelos e a ruptura é de vez. Sai de casa batendo a porta, com a panela da massa debaixo do braço e o estômago cheio de farfalle.

- Os loucos por cães – Aqui não há crianças mas há caniches, cockers, e rafeiros daqueles irritantes com as pernitas curtas e a barriga a rasar o chão, que têm a cara da nossa tia Augusta (também sofrem do coração e têm cataratas e um dente desalinhado como ela) e ladram indignadíssimos pela noite dentro se alguém no último andar do prédio deixa cair uma colher. Quanto mais feinhos, mais digno e terno o nome: São as ‘Ladies’ e as ‘Bonecas’ para as ‘meninas’, ‘Piruças’ ou ‘Bolinha’ para os ‘meninos’. Fazem-lhes festas de anos e vestem-lhes t-shirts para cão e cozinham-lhes carne de borrego com arroz e dão-lhes bolos de chocolate que lhes fazem pessimamente. Raramente se atrevem aos Grand-Danois, quem tem Grand-Danois são os rapazes atléticos que vivem sozinhos. Prognóstico: Depende do Piruças.

- Os casados há 30 anos – Não vivem em estado de paixão mas ainda têm coisas que os unem, a rotina, o filho, os amigos. O tempo encarregou-se de arrefecer a paixão mas não foi o suficiente para arrefecer a amizade. Prognóstico: Pode acontecer que de repente um deles se canse de viver só de amizade, mas geralmente, se aguentou até aqui, aguenta o resto.

- O clandestino – Geralmente são os dois casados com outras pessoas. Deitam-se olhares pelo canto do olho, encontram-se às escondidas, vão às mesmas festas sem que ninguém se aperceba que há ali alguma coisa entre eles, e divertem-se com o jogo do gato e do rato. Prognóstico: Um deles – geralmente ela – cansa-se e encosta o outro à parede. Tudo depende do que acontece depois.

´"ACTIVA" - 2009

sábado, 6 de março de 2010

UMA REVISTA NOVA

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

QUANDO O MEU PAI me chamou à livraria, não foi só para falar do Júlio Verne.
Em cima do balcão, uma revista de capa vermelha.

- Já vai em quatro números…- disse – E isto é mesmo muito importante, Zé Joaquim!

Passou-me para as mãos o último número.
Sobre o vermelho da capa, a imagem de uns braços acorrentados, e o título: “Alma Nacional”.
Por baixo, uma frase que eu reconheci logo, porque o meu pai a tem emoldurada na parede do escritório lá de casa:
“Depois do pão, a educação é a principal necessidade do povo.”
Lembro-me que no dia em que ele a colocou, a minha avó disse:

- Para mim, isso está errado.
- Já calculava…- murmurou o meu pai.

Ela fez que não ouviu e continuou:

- Devia ser “ a principal necessidade dos homens”, porque do que as mulheres necessitam é de saber fazer um bom cozido, e uma barrela a preceito! Muita educação só lhes faz mal. É por isso que eu nem posso ouvir a sua mulher quando se põe com aquela lenga-lenga do voto. Mas onde é que já se viu as mulheres votarem?

Normalmente nem o meu pai nem a minha mãe lhe respondem.
Mas naquele dia a minha mãe irritou-se e disse:

- Então se as mulheres não devem poder votar, se não servem para nada a não ser para tratarem da casa — diga-me lá como é que servem para rainhas?

Foi uma tirada de génio.
A minha avó, como sempre, respondeu que “isso era diferente”, a minha mãe insistiu, “diferente em quê?”, e a minha avó, também como sempre, quando a conversa não lhe agrada, levantou-se da cadeira e disse:

- Vou para o meu oratório rezar a S. Expedito, santo das causas impossíveis.

A minha avó tem uma particular fé em S. Expedito. Mas ainda não descobri que “causas impossíveis” ´
é que ela gostaria de ver “possíveis”, com a ajuda do santo. Mas deve ter a ver com a monarquia.
Mas estava eu a falar da frase que vinha na revista.
O meu pai explicou-me que era de Danton, “um dos heróis da Revolução Francesa!”

- Ainda está vivo? — perguntei.

Parecia-me uma pergunta normal, mas o meu pai ficou muito ofendido, disse que, aos 14 anos, eu já tinha obrigação de saber que a Revolução Francesa tinha acontecido no século 18, e o que é que me ensinavam no colégio.
Ia responder “ensinam-me o “D. Jayme”, mas calei-me. Depois do pão e da educação, o silêncio às vezes também é uma grande necessidade do povo...
O meu pai acalmou, e disse que o director era o dr. António José, e se eu não me lembrava de ter ido há dias com ele a Sintra a um comício, em que o dr. António José tinha anunciado uma revista nova, “dedicada a todos os patriotas, a todos os que lutam sem tréguas…”

- Lembro-me.

Disse eu, para que o meu pai não se imaginasse o Dr. António José, e fizesse um comício republicano em plena livraria.

- Aí a tens — rematou.

O Dr. António José é um homem extraordinário.
Ele fala e entusiasma toda a gente.
Até a mim. Que não me lembro nem de uma palavra do que ele disse no comício de Sintra.

«JN» de 6 Mar 10

quarta-feira, 3 de março de 2010

A que grupo do Facebooker pertence você?

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Por Catarina Fonseca

HÁ QUEM apoie uma causa, quem ande na lavoura o dia todo e quem se dedique a angariar mais amigos. E há quem faça tudo isto. Qual é a sua ‘onda’ preferida?

- Os Apoiantes
São contra várias coisas: as touradas, o bloqueio em Cuba, o apedrejamento das afegãs, a criminalização da homossexualidade, os animais maltratados, o uso de cães como isco para tubarões e de tubarões como isco para cães, a pobreza, o cancro, as birras, ou a prisão de variados mártires à volta do mundo. Querem salvar as criaças dos pedófilos, os touros dos toureiros, as mulheres dos homens, e as empregadas da Carolina Patrocínio. Também são a favor de várias coisas, mas o que lhes faz mesmo bater o coração é ser Contra.

- Os Latifundiários
São IMENSOS! Aliás, quase toda a gente que está no Facebook tem uma quinta, e quem ainda não se converteu à reforma agrária é melgado incessantemente por todos os lados para se tornar no próximo vizinho. Quinta mais pequena ou maior, depende da dedicação e empenho do lavrador, e também da quantidade de ‘vizinhos’ dispostos a oferecer-lhes carneiros, galinhas e porcos. Enquanto os Apoiantes são uma comunidade solta, que nem sempre angariam muitos sócios para as suas causas, os Lavradores são solidários, até porque precisam uns dos outros. Ajudam-se uns aos outros desde a apanha do mirtilo (apostamos que a maioria deles nunca viu um mirtilo no seu estado natural) até à construção de um novo poço. Desunham-se a trabalhar para comprar tractores, flamingos e mega-morangos. Passam a vida a receber medalhas e prémios de ‘Melhor Lavrador à Face da Terra’. Levantam-se às 4 da manhã para regar os tomates. Encarregam os amigos mais próximos de lhes regarem a horta enquanto estão de férias (isto se forem para a floresta Amazónica entre os índios Tupi e for absolutamente impossível levar o portátil). Há esquemas no mercado negro para ganhar mais pontos. Também se fartam de acolher variados animais tresmalhados: “Uma pobre ovelha negra perdida veio parar ao celeiro de José…” Há quem já deva ter em casa exércitos de pobres ovelhas negras perdidas. Qualquer dia faz-se o Starwars 7 sobre exércitos de ovelhas-negras-clones. Não é que não pertençam a outros grupos: até podem ser imensamente dedicados a Cuba, mandar 340 beijinhos à Lindinha e apoiar a causa das geribérias amarelas, mas não há nada como um tractor pronto a estrear. Também há os que têm aquários e os que pertencem à Máfia, mas nada que se compare ao imenso ajuntamento de lavradores.

- Os Alarmistas
Vivem em permanente teoria da conspiração. Postam todos os avisos à comunidade, desde o Manual com as 356 Diferenças entre a Gripe A e a Reles Outra até àqueles avisos que dizem que se formos passear a um centro comercial com a família de um momento para o outro podem-nos chegar clorofórmio ao nariz, arrastam-nos para a casa de banho das senhoras e nunca mais ninguém sabe de nós, ou que entramos numa loja dos chineses, vamos lá ao fundo examinar as chaves de fendas em plástico de Taiwan e acordamos três dias depois em Dubrovnik sem um rim. Frases preferidas: “Sabiam que Andorra só tem um caso de gripe A?” e “Acabam de nos mandar um mail sobre a gripe, parece que em caso de espirro temos de avisar primeiro os Recursos Humanos e depois é que ligamos para a Saúde 24…”, “Ah, e as Seychelles também só tem três”.

- Os Ziriguidunzinhos
Têm um coração de ouro. Aliás, têm corações de várias espécies e feitios: de ouro, de veludo, de chocolate, com apliques, sem apliques, e mandam-nos a amigos e conhecidos sem dó nem piedade. Aliás, não mandam só corações: mandam tudo o que encontram pela frente, acompanhado de mensagens ternas:“Olá amiguinha, bom dia! Olá Luisinho, bom dia para ti também! Ó kiducha, começaste bem o fim de semana? Ó fofinho, tás pprado p mais uma manhã de trabalho? Ora toma lá um coraçãozinho! Um smile! Um vodka-limão! Uma galleta! Um chocolate! Um bombonzinho com mensagem em italiano! Um malmequer! Uma caixa de música! Ai põe-me a tocar, põe! Maria has sent you a warm hug! Sim sim! Mais abracinhos, que hoje acordei muito em baixo! Mais hugs, e kisses, e taças de champanhe, e presente por presente, já que não se paga nada, para que estamos com subtilezas, até há quem ofereça O MUNDO INTEIRO! Depois disto, que mais se pode oferecer? Há quem atire almofadas, há quem acumule beijinho atrás de beijinho como se não houvesse prá semana, há quem (Alice has just achieved 400 hearts!) seja um verdadeiro latifundiário do coração. Uuuuff!

- Os Testes-de-Ferro
Estes são os fanáticos dos testes. Inda não têm um sindicato como os do Farmville, mas para lá caminham. Geralmente, não se sabe bem como, a coisa funciona em cadeia: se alguém decide saber ‘Que tipo de Bolo de Natal seria você’ vai toda a gente atrás. Geralmente também, costuma dar a mesma coisa a toda a gente, ou haver pelo menos dois resultados ‘obtíveis’. Há testes em inglês, em francês, em espanhol, e até em sueco, para quem estiver apostado em apurar a parte direitado cérebro. Graças aos testes, descobrem coisas fantásticas todos os dias: se há fantasmas lá em casa, que tipo de gato são, que tipo de estrela de cinema, de realizador, de maluco, de sociopata, de doença, de difunção social, de série com médicos. Qual é o número que os representa, a invenção portuguesa que mais se lhes assemelha, a diva que levam dentro (pronto, este era em espanhol). A coisa pode ser levada a níveis intensos de esquizofrenia: é possível fazer um teste em sueco para descobrir que tipo de turco se é. Quem começar a ficar preocupado com o imparável galopar do vício, tem à sua disposição testes sobre… os testes! ‘Qu’est-ce qui te pousse à faire tous ces testes débiles ?’ Boa pergunta, de facto…

- Os Fantasmas
Eles estarem inscritos até estão, porque houve um amigo/namorado/marido/mulher/conhecido/desconhecido que lhes mandou uma mensagem a perguntar se queriam ser amiguinhos deles, e eles, coitados, lá disseram que sim só para o amigo/namorado/etc parar de lhes chagar a cabeça com um ‘ai mas é tão divertido! Mas anda lá! Eu depois mando-te um ziriguidunzinho! E recomendo-te a todos os meus amigos! E podes ser meu vizinho na quinta! E também lá está a prima Armindinha! E um gajo que é poeta tunisino!’ E atão pronto, eles renderam-se. Mas na prática, nunca lá põem os, eh, pés? São neuróticos que acham que a net está povoada de hackers prontos a entrarem-lhes no perfil pela calada, como as ovelhas negras da Farmville (‘Hello José, a lonely hacker has just wandered into you barn’) , para lhes destruirem os relatórios, invadirem a vida, e deixarem a conta a zeros. Também têm medo que haja por lá alguma ex-namorada que poste fotos deles com umas cuecas da Hello Kitty e uns tapa-mamilos com lantejoulas cor de rosa e uma bandelete com orelhinhas da Playboy. Mas pronto, apesar de tudo antes a bandelete das orelhinhas que a conta a zero. Resultado: ao fim de três meses no Facebook, continuam com os mesmos quatro amigos (a mãe, a mulher, a prima Armindinha e um desconhecido que achou que tinha ido com ele à Ovibeja em 1998 mas já percebeu que estava enganado). Não que eles saibam, claro…

- Os Deprimidos
Começam logo à segunda feira a postar qualquer coisa como: ai que tristeza de vida, estou para aqui abandonado e ninguém me pergunta o que é que eu tenho e tou com um ataque de tosse cheio de ranho daquele verde, de certeza que é gripe A, e mesmo que não for, estou mesmo mesmo em baixo’. A galheta anuncia-lhes catastroficamente: ‘Choramos ao nascer porque chegamos a este imenso cenário de dementes’. Não era preciso. Ele já tinha chegado lá mesmo sem ajuda. Quando lhe passam a mão pelo pêlo, ataca com citações de Fernando Pessoa do tipo ‘O dia deu em chuvoso’, e não há ziriguidunzinho que lhe anime a existência. Os testes também não ajudam: sem dó nem piedade, a bruxa do Facebook diz-lhe na cara que ele vai morrer /ter um tumor encefálico/ sofrer de artrite reumatóide até aos 97, que o seu tipo de velhinha é a Velhinha Saudosista, que o tipo de chocolate é Amargo, que o tipo de tempo é – adivinhem lá – Chuvoso. Os amigos mandam-lhe sóis, abracinhos e kisses, chocolates com sóis, abracinhos e kisses, mandam-lhe vídeos da rumba cubana, as Boswell Sisters a abanarem os folhitos no swing jazz, mais o ‘Canta Camarada’ do Zeca Afonso e o ‘Blue Sky’ do Sinatra, e nem isso o anima, nada, ‘Blue Skyyyyy, smiling at me’, e ele nada, quando muito responde com o ‘Je suis malade’ da Dalida, ou se estiver mais bem-disposto a Rita Redshoes a chilrear ‘I don’t want/ to die in a sunny day’… Suspiro…

- Os Familiares
“Estes são o Manel, a Mariana, a Madalena e o Martim Maria!, “Aqui a Mariana e o Martim Maria a correrem atrás do gato!”. “Aqui o Manel a amandar uma cadeira para cima da Madalena, que foooooofo!”. “Aqui a Mariana e o Martim Maria a tentarem atirar o gato pela janela.” “Aqui o gato a tentar assassinar a Mariana e o Martim Maria.”
“Agora uma cartinha do Paulinho dedicada à sua querida mãe.” Estes são os pais e mães babados do facebook. Uma vez mãe babada, mãe babada para sempre. Não já foto sem a Constança. Não há dia sem o Bernardo. Às vezes, o perfil deles é uma foto… das crianças. Não há posta sem um relato minucioso das gracinhas do Martim e das covinhas da Carlota. Quem não tem filhos, ataca com os sobrinhos, os enteados, ou mesmo o gato. Nada como uma criatura pequenina, fofinha, novinha em filha. Em folha.

- Os Musicais
Estes não se perdem em divagações líricas sobre o que o futuro pode trazer, que tipo de naperon português é, ou o que as nuvens de tempestade anunciam. Ataca logo de manhã com a ‘Tourada’ do Fernando Tordo, põe uns Mozzarts e uns Vivaldis para aquecer, estampa com um Chopin (mas não o concerto para violino), segue para bingo com o ‘My Funny Valentine’ (mas o do Chet Baker), atira com o ‘Ne Me Quites Pas’, não for dar-se o caso de estar a perder audiência. Depois de vir do ginásio pergunta se uma canção com o título de ‘Everytime I see you Falling’ não será uma escolha estranha para uma aula de trampolins, depois passeia pelos Brasis, que fica sempre bem gostar de Caetano (ai como é que é aquela muito machista em que ele chama cabra à mulher com todos os nomes), depois passa para o Roberto Carlos que lhe lembra uma namorada que teve em Porto Galinhas no verão de 1986 (‘se um outro cabeludo aparecer/ na tua rua) e a propósito lembra-se que a tipa o trocou pelo Válter e dedica-lhe o ‘Fuck You Very Much’ da Lily Allen (embora de facto não tenha nada a ver), e acaba às 4 da madrugada a fazer toda a gente (enfim, toda a gente que por lá pára às 4 da madrugada) chorar baba e ranho com a Audrey Hepburn no parapeito a sussurrar o ‘Moonriver’. Enfim, são vocações…

- Os Intelectuais
Levam a vida a sério: estes não estão aqui para brincar. Aliás, não estão em lado nenhum para brincar. Aliás, já não se lembram da última vez que brincaram. Rechaçam os ziriguidunzinhos, não sabem o que é um jagode, não querem saber onde vão estar daqui a 10 anos nem que personagem das ‘Mulheres Desesperadas’ é a sua, conseguem viver sem descobrir que Princesa Disney lhes corresponde e muito menos que Diva del Cine llevan dentro ou qual é o tempo (em sueco) que faz dentro da sua alma. Nunca saberão o trabalho que dá um mega-morango, nunca terão a alegria de oferecer uma faneca ao aquário de um amigo ou participar na apanha de mirtilos, e escusado será dizer que nenhuma vaca perdida há-de ir parar ao seu celeiro. Estes estão aqui para Educar o Povo e discutir o Estado da Nação. Falam da política do Sócrates, das reformas da Ferreira Leite, da dificuldade que o Obama vai ter em impor a sua visão do que deve ser um sistema nacional de saúde, e quando muito das crianças das favelas brasileiras e dos soterrados no Haiti. É uma chatice porque tem de se lhes explicar todas as graçolas. Petições, só assinam aquelas que forem para libertar mártires políticos ou candidatos ao prémio Nobel daqueles que vivem toda a vida presos e nunca hão-de poder sair nem para receber o guito a Estocolmo. Tambem estão sempre a protestar que o Facebook não é um recreio e que está tudo cada vez mais infantilizado, mas ninguém lhes liga nenhuma a não ser para lhe tentarem explicar que aquilo é suposto ser um recreio. Coisa que eles nunca vão entender porque nunca foram ao recreio em toda a sua vida, eram os que ficavam na sala de aula a rever a matéria. Coitadinhos.

- Os do Contra
São os protestantes de serviço: fartam-se de espernear contra tudo. Se a galheta do dia lhes deu ‘Do not vainly regret what is already past’ protestam, ‘Arependo-me sim senhor! Arrependo-me até ao osso! Volta, Maria José!’. Se o teste de ‘Onde é que vai estar daqui a um ano?’ lhes anunciou alegremente ‘Você vai ter um bebé!’ espanta-se (com uma certa razão) “Um bebé? Mas eu tenho 67 anos!” Os testes tiram-no do sério, o que é ainda mais estranho dado que ele não consegue deixar de os fazer. Já fez um teste em espanhol, ‘Eres adicto a los testes?’ e deu que sim, que era, pois que outra coisa, Eu, a Cinderela? Singing to rodents? A cantar para os ratos? Van Gogh? Não quero ser Van Gogh! Sou muito afeiçoado às minhas duas orelhas! Sou um Bugatti? Mas isso não é um carro um bocado gay? A Padeira de Aljubarrota? Por amor de Deus! Mas quem é que faz estes testes? Não, não devolvo o abracinho! Não quero mais sóis, que me irrita aquela cara deles cos óculos estampados. Não dou o meu coração, que tenho só um e faz-me falta! Não me peguem no braço! Não gosto que me peguem no braço! Não quero mais nada com quintas! Não me mandem mais coelhos, nem bananeiras, nem cabras, nem galinhas, e o que raio é uma ‘avocado tree’, que nunca vi nenhuma? Mas alguém me explica onde é que esta coisa se desactiva?’ Em vez da quinta o que ele queria era uma GulagVille! Uma GulagVille na Sibéria, onde seriam vizinhos de celas e mandariam jagodes uns aos outros, um GulagVille em chique, com check list e dress code, ‘José has just sent you a confinement cell and hopes for a confinement cell in return’! ‘A little lost black slave has just wandered into your prison!’ Exige que salvem as pessoas em vez dos touros, que lhe expliquem como é que se elege o Mr. Facebook que ele quer concorrer, e que a empregada da Carolina Patrocínio seja paga ao caroço.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

QUANDO O MEU PAI VIU O JÚLIO VERNE

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

HOJE fui ter com o meu pai à livraria.
Quando eu era muito pequeno, pensava que o meu pai já tinha lido aqueles livros todos. E que por isso mesmo é que era o dono.
Gosto de passar a mão pelas encadernações dos livros, e folheá-los, e imaginar que histórias contarão.
Gosto sobretudo de folhear os livros do Júlio Verne, e já perdi a conta às vezes que li “A Viagem ao Centro da Terra e “Da Terra à Lua”. (Se o “D. Jayme” fosse como algum destes livros, ao tempo que eu já o sabia de cor…)
E, quando gosto de um livro, tenho sempre vontade de conhecer o seu autor. O que é quase sempre impossível, ou porque já morreu há muito, ou porque vive num estrangeiro que eu nem sei onde fica.
Adorava ter conhecido o Júlio Verne. (Nunca me passou pela cabeça querer conhecer o Tomaz Ribeiro…)
Mas o meu pai conheceu o Júlio Verne!
Quando ele esteve em Portugal, o meu avô tinha acabado de morrer. Ninguém esperava que ele morresse tão cedo e o meu pai, aos 20 anos, viu-se sozinho à frente da livraria.
Como ele está sempre a dizer, “se eu consegui ter pulso para dirigir sozinho o negócio, por que é que este beato meio raquítico, que sabe tanta língua, e tem tanto professor e tanta gente à volta dele não consegue dirigir o país?” (Se a minha avó está presente, o meu pai, para evitar zangas, muda o “beato meio raquítico” para “esta amostra de rei”)
Mas dizia eu que, da última vez que Júlio Verne cá veio, o meu pai tinha 20 anos e já dirigia a livraria. Como era amigo de muita gente dos jornais (amizades herdadas do meu avô), conseguiu ir com eles ao encontro do escritor, no Hotel Bragança.
Estava-se em Maio de 1884
(“nunca esqueças as datas, José Joaquim!”…)
e era a segunda vez que Júlio Verne vinha a Lisboa.
Mas, diz o meu pai, vinha sempre a correr : chegava no seu iate, vinha a terra para comer e encontrar-se com alguns jornalistas e escritores, voltava para o iate, e na manhã seguinte já estava de volta a França.
De tal maneira eram breves as visitas que o meu pai está sempre a contar (e todas as vezes ri à gargalhada, ele que é sempre tão sisudo…) que nesse ano um jornalista de quem o meu avô era muito amigo, chamado Rafael Bordalo Pinheiro, publicou o relato do encontro no seu jornal e, admirado com a rapidez da visita, rematou:
“ só andando com esta pressa toda é que o Sr.Júlio Verne pôde fazer viagens à lua no tempo que qualquer pessoa gasta em ir á Porcalhota comer coelho guisado!”
Mas mesmo só por breves minutos, eu havia de ter gostado de o ver. Olho para a fotografia que o meu pai tem na estante onde estão todos os livros dele, mas não é a mesma coisa.
Acho que era capaz de viver numa livraria!
Garanto: se a livraria do meu pai vendesse o “Texas Jack”, era melhor livraria do mundo! Quem sabe até se o Júlio Verne não teria cá vindo?

«JN» de 27 Fev 10

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O Dia dos Mortos

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Por Catarina Fonseca

DIA 2 DE NOVEMBRO comemoramos os nossos Fiéis Defuntos. Não é lindo, o nome? Mas quem é que é fiel? Eles a nós ou nós a eles?

Adoro aviões. Quando morrer quero encarnar num Spitfire Qualquer Coisa (o meu amor pelos aviões não implica que seja capaz lhes decorar os nomes técnicos, deve ser uma deficiência genética feminina). Nunca fui tão feliz como na Base Aérea de Sintra. Não sei se já lá foram: inclui um museu do ar com aviões de todos os feitios e épocas.
Enquanto a Merche posava, eu pulava entre os aviões afagando-lhes o focinho como quem faz a ronda aos estábulos. Os oficiais respondiam-me às perguntas mais surrealistas com paciência de santo: isto trabalha a quê? Os aviões também têm cavalos? Entra-se por que porta? Se me apetecer fazer xixi, é onde? Se me ejectar, isto ejecta-me em bloco ou por partes? Quais partes é que se me ejectariam primeiro?
Problema: os aviões despertam as minhas fobias mais profundas. Amo-os, sim: mas em terra. Haviam de ver as figuras que faço lá em cima. Assim que entro num pisco da Portugália, transformo-me numa torneira humana. Lamento nunca ter aprendido a rezar. Prometo aprender a rezar imediatamente assim que tocar no solo. Peço retroactivos divinos. Até agora deve ter funcionado, embora eu nunca tenha cumprido a promessa.
Fico a pensar que, no nosso mundo, os aviões são aquilo que mais nos faz pensar na morte.Temos uma péssima relação com a morte. Não pensamos nela. Não levamos as crianças aos cemitérios. Enterramos os mortos dentro de nós e não falamos deles. Não falamos com eles, tal como também não falamos com as plantas, nem com as casas. Nem com as crianças. Nem connosco próprios… Nunca lhes dizemos como nos fazem falta. Nunca lhes dizemos que os amamos, tal como não dizemos aos vivos.
Sempre ouvi a minha avó dizer que com os mortos não se brinca. Curiosamente, era com o que eu brincava, na casa dela. Quase não havia brinquedos. Havia o Joãozinho, um boneco que já tinha sido da minha mãe, também ele quase morto. E havia fotografias. De mortos. Imensas fotografias, de imensa gente, imensamente bem vestida, imensamente morta. Eu adorava, ainda mais que aviões. Tirava-as da caixa, espalhava-as na enorme mesa. Geralmente, eram de casamentos ou baptizados, o que explicava que estivessem todos tão bem vestidos. Eu conhecia-os a todos, aos mortos. A Gracinha, que fugiu com o noivo e deixou o ferro ligado. A D. Edite, a do chapéu que parecia um dinossauro aterrado no Empire State a tentar comer o chapéu da morta do lado, a prima Joaninha, que parecia um ninho de plantas carnívoras em fúria, no casamento da Luisinha que casou porque a mãe mandou (eu não me importava de casar com quem quer que fosse, só para usar o vestido que ela usava) e onde também estava o Dr. Sousa, que dava pelo umbigo da mulher que parece que lhe batia e tinha bigode e luvas.
Eu brincava com os mortos como em casa brincava com os cromos das ‘Maravilhas da Natureza’. Mas preferia os mortos. Tinham fatos mais giros e costumes mais exóticos.
Hoje não sei que é feito dessas fotografias. Há muito tempo que não brinco com os mortos, e tenho saudades deles. Às vezes vejo a minha sobrinha mais nova embrenhada nos álbuns da minha mãe, mas a ela só lhe interessam os vivos com menos de 4 anos. Mas já percebi que, se achamos que não cumprimos o nosso dever com os mortos, o melhor remédio é compensar com os vivos. Coitada da minha mãe, que vai ter de comer o jantar que lhe fizer…

sábado, 20 de fevereiro de 2010

O SR.MATEUS FOI PRESO

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

AINDA nem estou em mim. Eu e a rua toda.
O Sr. Mateus foi preso ontem.
O Sr. Mateus morava no prédio ao lado do nosso, era de poucas falas, mas dava sempre os bons dias e boas tardes quando nos encontrávamos.
Vivia sozinho, mas há dias a Rosa disse:
- Os galegos acartaram ontem com quatro caixotes para casa do Sr. Mateus. Os desgraçados suavam que nem porcos, com perdão da palavra…
- E então? — murmurou a minha mãe – os galegos não fazem outra coisa, que é que isso tem de estranho?
- O que é que tem? Tanto caixote para casa de um homem que vive sozinho?
- Se calhar mandou vir a família para viver com ele e está a arranjar a casa - disse a minha mãe.
- As mulheres é que arranjam as casas, não são os homens! Um homem sabe lá do que uma casa precisa! A senhora pergunte um dia ao Sr.Fernando que coisas é que há numa cozinha e vai ver como ele fica caladinho que nem um rato. A casa é das mulheres, e...
- E se você fechasse essa matraca? — ralhou a minha avó.
A Rosa não gosta que a mandem calar.
E enfiou-se na cozinha a cantar.
É sempre a vingança da Rosa: cantar aquilo que se ouve pelos teatros e pelos cegos das romarias, e que sabe que põe a minha avó fora de si:
- “Já mataram o rei gordo
E o magrinho também
Acabem com o que ficou
Depois liquidem a mãe!”
- Ou você se cala imediatamente ou vai já para o olho da rua! —gritou a minha avó.
A Rosa lá se calou — e também nunca mais se lembrou dos caixotes do Sr. Mateus.
Até ontem.
- Eu é que tinha razão! Tanto caixote para casa de um homem sozinho… Estava-se mesmo a ver que aquilo trazia água no bico…
Água no bico não trazia — mas trazia pólvora, cardas de sapateiro, brochas, rolhas, ferros, barbante, tudo o que era preciso para fazer bombas e granadas.
Ao que parece, não tinha sido só a Rosa a desconfiar: alguém denunciou o caso, e logo de manhã a Secreta entrou pela casa do Sr. Mateus, que nem teve tempo para esconder fosse o que fosse, e foi dali levado para os calabouços da esquadra do Caminho Novo.
- Quem havia de dizer…- murmurou a minha mãe — Numa rua tão pacata como a nossa…Ainda se fosse na Rua do Corrião…
Há muito tempo que se diz que é nessa rua que mais bombas se fabricam em Lisboa. E nestes últimos tempos quase todos os dias rebenta uma bomba na cidade. Mas tem sido sempre longe da minha casa, por isso, para falar verdade, nunca me incomodaram muito.
Mas agora foi ao meu lado.
A minha avó diz que são os republicanos.
O meu pai diz que são os anarquistas.
A minha mãe diz que se as mulheres mandassem, isto era muito diferente.
E eu fico a ouvi-los sem entender o que se passa.
Só sei que às vezes há mortos e feridos, e que as cadeias estão cheias.
Estou quase a concordar com a minha avó: se não é o fim do mundo, anda lá perto.

«JN» de 20 Fev 10