quarta-feira, 19 de maio de 2010

A SENHORA DO PAI

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Por Alice Vieira

A PRINCÍPIO
nem ligou. Sempre que voltava do pai ele não se calava, naquele seu linguajar de bebé, a querer meter o mundo todo nas poucas palavras que o seu vocabulário permitia. Ela sorria, enquanto ia desfazendo a mala de fim de semana, com o Rato Mickey de enormes orelhas estampado bem a meio.
Foi a insistência dele que lhe chamou a atenção. E foi então que, nitidamente, percebeu o que ele dizia: “a senhora do pai.”
Sentou-o ao colo, fez-lhe uma festa no cabelo, tudo com muita calma, e foi murmurando:

- A senhora do pai?
Ele acenou com a cabeça.

- O pai tem uma senhora?
Ele acenou com a cabeça.

- Miguel, olha para a mãe…
Ele fixou nela os seus olhos esverdeados.

- Diz à mãe, Miguel… O pai tem uma senhora?
Ele voltou a acenar e acrescentou:

- No carro.
Ela ia perdendo a cabeça. Ainda nem estavam divorciados e já ele andava a enfiar mulheres dentro do carro, e logo no fim de semana em que ela o deixara ficar com o filho. Podia-se pensar que, pelo menos nesses dias, ele se portasse como um pai a sério, até porque podia estar em causa a futura regulamentação do poder paternal, mas não, se calhar “a senhora” até já ficava lá em casa…
Tentou acalmar-se:

- E quando o pai veio trazer o Miguel, a senhora estava no carro?
Ele voltou a acenar com a cabeça mas, farto do interrogatório, deslizou-lhe do colo e foi brincar.
Ela ainda pensou em ligar à mãe a contar, mas desistiu.

- Vamos ter uma conversa, meu menino…- murmurou, discando o número dele no telemóvel.
Combinaram encontrar-se no café, dali a minutos.
- Estás com uma voz! — disse ele — É grave?
- Daqui a dez minutos – repetiu ela.
- Não pode ser aí em casa? — estranhou ele.
- No café — disse ela, desligando.

Não queria correr o risco de o Miguel entrar na sala e ouvir a conversa, café era sítio neutro.
Assim que ele chegou, nem o deixou fazer qualquer pergunta:

- Não me podias ter dito que já tinhas arranjado uma namorada?
Ele olhou-a, espantado.

- Que eu o quê?
- Não te faças de tolo. O Miguel contou-me.

Ele parecia cada vez mais espantado:

- Mas contou-te o quê?
- Que tinhas uma namorada.
- O Miguel disse isso? Uma namorada?
- Não disse uma namorada. Mas disse que o pai tinha uma senhora no carro… Sabes que o vocabulário dele ainda…

Uma enorme gargalhada dele interrompeu-lhe o discurso, e surpreendeu-a, aquele não era propriamente um motivo para risadas.

- Uma senhora… no carro... — repetia ele, rindo cada vez mais. Depois recompôs-se, e disse:
- E claro que pensaste logo no pior. Que eu tinha metido o meu filho no carro com uma galdéria qualquer… Nunca te passou pela cabeça que fosse… A voz do GPS a ensinar o caminho?

Ela olhou-o sem saber se devia ficar furiosa consigo própria, se rir à gargalhada.

- O Miguel ouviu, ficou muito admirado, eu entrei na brincadeira e disse-lhe : “o carro novo do pai tem uma senhora!”

Acabaram por rir os dois, ela a censurar-se intimamente por aqueles ciúmes doentios, que nem com a separação tinham passado, e voltou para casa, contente por não ter falado com a mãe, o que ela não lhe diria agora, quando ela lhe contasse.
E ele entrou no carro, sorrindo. Tirou o telemóvel do bolso, discou um número e, em voz mansa disse:

- Pronto, já arranjei tudo. Veio-me à cabeça uma desculpa verdadeiramente genial! Depois eu conto-te. Mas para a próxima temos de ter mais cuidado.
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ACTIVA de Maio 2010

sábado, 15 de maio de 2010

VEM AÍ O COMETA

Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

D. MANUEL LÁ PARTE AMANHÃ para Londres, para assistir à coroação do novo rei de Inglaterra.

- Agora é que lhe arranjam casamento com a tal princesa inglesa…- diz a minha avó.
- Não me parece…- diz a minha mãe — Não estou a ver a Rainha a deixar casar o filho com uma princesa que não é católica…

A Rosa, que até ganhou novas cores desde que o Alfredo lhe voltou a aparecer ao domingo (“ai homem de Deus, que já te fazia na choça!”), garante que o rei vai mas é encontrar-se com uma actriz francesa que conheceu há uns tempos…Pelo menos é o que o Alfredo conta, e ele anda sempre muito bem informado.
Mas nestes últimos dias, cá em casa - e ao contrário do que é costume…- nem se tem ouvido falar em monarquia ou república.
Agora, anda toda a gente aflita por causa do cometa.
Até eu não me sinto lá muito seguro, sobretudo depois de ver a capa da última “Ilustração Portuguesa”, que traz o monstro que dentro de dias pode atacar a Terra e dar cabo de nós.
O Cometa Halley está a chegar — é o que se ouve em toda a parte. Dizem que vai passar tão perto da Terra, que o mais certo é esbarrar nela e ninguém pode prever o que vai acontecer. Dizem que até há gente que já se suicidou por causa disso.

- É o fim do mundo — murmura a minha avó.

(Quando mataram D. Carlos e D. Luís Filipe, a minha avó também disse que era o fim do mundo.
Quando foi do terramoto de Benavente, a minha avó também disse que era o fim do mundo.
De cada vez que rebentam bombas, a minha avó também diz que é o fim do mundo.
Digamos que o fim do mundo já se vai tornando um hábito cá em casa.)
Ontem a Rosa chegou da Praça da Figueira e disse:

- Andam a vender garrafas de oxigénio por causa do cometa. Eu já comprei uma.

O meu pai até deu um berro.
E deu mais outro quando ela acrescentou que, para lá das garrafas de oxigénio, também estavam a vender máscaras de gás e comprimidos milagrosos. O dinheiro dela é que só tinha dado para a garrafa.
Indignado, o meu pai fez logo ali um comício republicano, a protestar contra a ignorância em que queriam manter o povo, para assim o poderem explorar melhor.

- Se as pessoas tivessem instrução, saberiam que isso é tudo obra de vigaristas, e que desde o ano passado os cientistas observam o cometa, e estão preparados para a sua chegada.
- Dizem que a cauda é enorme e que, com o embate, se vão espalhar gases desconhecidos que podem devastar o planeta! — disse a minha avó.
- Mas quais gases…Aquilo é tudo vapor de água!.... — o meu pai estava mesmo muito ofendido com a nossa ignorância.
- Não quero ouvir cá em casa mais disparates destes! — disse ele.

E, virando-se para a minha mãe, acrescentou:

- Preocupa-te com o enxoval do rapaz, que já tens bastante com que te ocupar!

E saiu.
Estive mesmo para perguntar:

- E se for uma rapariga?

Mas não perguntei: com as desgraças do cometa, a ignorância do povo, e o rei a viajar para Inglaterra, não quis agravar a situação.
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«JN» de 15 Mai 10

sábado, 8 de maio de 2010

MORREU O REI DE INGLATERRA

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

MORREU O REI de Inglaterra, e cá em casa não se fala noutra coisa.
Não é que a morte do rei me interesse muito: só estou ligeiramente preocupado porque D. Manuel vai ficar uma data de dias em Londres e, com tanto tempo sem rei, se calhar agora é que vem a república.
A minha avó está muito ofendida comigo por eu não me lembrar do dia em que o rei de Inglaterra veio a Lisboa, mas nessa altura eu tinha sete anos, e confesso que, até hoje, as únicas coisas que me lembro de ouvir contar sobre o rei de Inglaterra é que ele tinha subido ao trono muito velho porque a mãe nunca mais morria; e que por causa dele é que o Parque da Liberdade se tinha ficado a chamar Parque Eduardo VII.
O meu pai diz que é muito má altura para D. Manuel ir ao estrangeiro porque por cá as coisas andam mal: acho que rebentou um grande escândalo num banco chamado Crédito Predial, e a gente já sabe que quando se mete dinheiro pelo meio, fica tudo de cabeça perdida.

- Pode ser que ele não fique por lá muito tempo…- disse o meu pai.
- Lembra-te da coroação…- disse a minha mãe e, de repente, ela e o meu pai desataram a rir. A minha avó franziu as sobrancelhas, murmurou “mais respeito!”, e eles calaram-se.

Então o meu pai contou-me que há sete anos, quando a rainha finalmente morreu e o filho subiu ao trono, estava já tudo preparado para a coroação, com representantes de todos os países, (incluindo o nosso, que mandou o príncipe herdeiro, que então era D. Luís Filipe, porque ainda não tinha sido morto…) - mas na véspera, ao fumar o seu cigarrito, o rei tinha-se sentido muito mal e lá veio o médico a correr que diagnosticou uma apendicite!.
Eu não sei que doença é essa, mas o meu pai disse que era uma coisa muito grave e que foi preciso operar, e que foi a primeira vez que foi usada a “anestesiologia”, que é uma ciência que ensina os médicos a darem uns remédios ás pessoas que elas parece que estão mortas mas não estão, e depois acordam e não sentiram nada.
E por causa da apendicite, a coroação do rei, marcada para Junho, teve de ser em Agosto. E lá voltaram os reis todos para casa.
Mas é claro que agora, com o rei já morto, essas coisas não vão acontecer.
O meu pai também parece ofendido por eu não me lembrar nada do que aconteceu há sete anos. Republicano como ele é, nunca pensei que a minha ignorância dos reis de Inglaterra o incomodasse tanto.

- Nem te lembras de quando D. Carlos foi a Inglaterra assinar o segundo Tratado de Windsor?

Foi quase logo a seguir…
Estive para lhe dizer que não me lembrava do primeiro, quanto mais do segundo, mas calei-me.

- Esse ano de 1902 foi mesmo muito importante — murmura ele.

Dou voltas à cabeça, a tentar recordar em que republicano é que ele estará a pensar, em que conspiração falhada, comício, greves, bombas…
Nada.
Para mim, o ano de 1902 é um deserto.
Até que o meu pai respira fundo e diz:

- Foi o ano em que foi fundado o Sport Lisboa e Benfica.

E sai de casa, para ir abrir a livraria.
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«JN» de 8 Mai 10

sábado, 1 de maio de 2010

EM ESTADO DE CHOQUE…

Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

ESTOU em estado de choque.
O meu pai chegou hoje à tarde do Porto, onde foi ao congresso do Partido Republicano.
Ao jantar, pelo meio dos pastéis de bacalhau, começou a contar o que se tinha passado:

- Os preparativos para a revolução já estão em marcha! Isto agora vai! Mas temos de ser cuidadosos se não queremos que…

A voz da minha avó:

- Ó Rosa, você acha que isto é uma travessa que se apresente ? Ora vá arranjar tudo como deve ser!

A minha mãe olhou para a minha avó, o meu pai suspirou e continuou:

- …se não queremos novo falhanço como no dia 1 de Abril. Falou-se sobre as investidas policiais contra os anarquistas e…

A minha avó:

- Ó Rosa, o jantar é para hoje ou para amanhã?

E a Rosa, afogueada, a voltar com a travessa, e o meu pai:

- …e contra a Carbonária…

E a Rosa:

- Ai minha Nossa Senhora, por isso é que ele não me apareceu hoje… Se calhar já está na choça!

E a largar a travessa no meio da mesa.
A Rosa anda muito transtornada desde que descobriu que o Alfredo é da Carbonária.
Ela já andava desconfiada de que ele estava metido nalguma, sempre tão bem informado, sempre com tanta gente à volta dele, “ quando saímos ao domingo, aquilo são primos que nunca mais acabam!, olá primo!, como vai o primo!”
Até ao dia em que o galego da esquina lhe contou que é assim que os membros da Carbonária se tratam uns aos outros.
O meu pai respirou fundo e continuou:

- E é preciso também pensar que temos de ter apoio internacional! Por isso o congresso elegeu uma comissão…

E a minha avó:

- Ó Rosa, então larga-se assim a travessa em cima da mesa?

A Rosa lá veio da cozinha, lavada em lágrimas, o meu pai voltou a respirar fundo e continuou:

- Uma comissão composta pelo Alves da Veiga, pelo Magalhães de Lima e pelo José Relvas…
- Esse fazia bem melhor se ficasse a tratar das vinhas lá em Alpiarça…- resmungou a minha avó.
- …para ir pela Europa pedir apoio para a nossa causa.

O meu pai parou, finalmente.
Por momentos só se ouvia o bater dos talheres nos pratos e a Rosa a fungar.

- A monarquia está a morrer — murmurou o meu pai, fazendo uma festa na mão da minha mãe – Esse aí já vai viver num tempo diferente.

Foi então que eu perguntei:

- Esse… quem?

De repente todos olharam para mim, como se eu tivesse dito alguma inconveniência.
A Rosa correu para a cozinha, (“ai valha-me Deus!”), a minha avó levantou-se e foi para o quarto (“está na hora da novena a Sto. Expedito”), o meu pai descobriu que estava atrasado para uma reunião, e a minha mãe decidiu ir dar uma ajuda a lavar a loiça.
Já quase a sair da sala de jantar voltou-se para mim e disse:

- Vais ter um irmão.

Assim.
Como se me dissesse “os pastéis estavam salgados”, ou “lava os dentes antes de te deitares”
E aqui estou eu, sentado à mesa do jantar, sem me conseguir mexer, ainda sem perceber o que me aconteceu.
A monarquia a morrer, e um irmão a nascer — é muito para quem tem só 14 anos.

«JN de 1 Mai 10

quarta-feira, 28 de abril de 2010

TODOS PARA A COZINHA

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Por Catarina Fonseca

HÁ OS QUE FAZEM tudo, os que não fazem nada, e os que funcionam só com o frigorífico. E o seu, como é?

- O Desinteressado – Acham que a cozinha é o Reino da Mulher, ou quando muito da Mulher a Dias, ou de outra pessoa qualquer que não eles. Moram na mesma casa há 30 anos e ainda não sabem onde está o açucareiro. A relação de máxima proximidade que têm com a cozinha é gritarem do sofá: ‘Ó Maria Teresa, traz-me aí uma cerveja”.

- O Especialista – Há o especialista em bolos, que faz imensa porcaria. Quando ele sai, há chantili desde o tecto aos imans do frigorífico, quatro tigelas por lavar, a super-centrifugadora com cascas de ananás nas sete divisórias, e a bancada coberta de farinha, pão ralado e açúcar. O especialista em salgados passa o tempo entre a cozinha e o telefone, ou tem o telemóvel no bolso do avental, porque se farta de telefonar para a prima Elvira a perguntar em que parte do refogado é que entra o colorau. Em comum, os dois especialistas têm o facto de nunca incluírem no pacote de especialista a parte de lavar a loiça, arrumar a cozinha e consertar os estragos.

- O Criado – Faz tudo, mas com um ar muito deprimido. Já percebeu que dá mais trabalho refilar do que despachar serviço, e portanto despacha serviço. Geralmente é dos que têm uma mulher paranóica que não suporta um copo em cima da mesa. Geralmente também, são daqueles que saem de casa um dia para comprar cigarros e não voltam.

- O Cozinheiro – Este é a sério. Até sabe fazer Bôla, daquelas com queijo e fiambre e uma mistura que ele começa a explicar que leva alho, pimenta, carne de porco, banha, cebolinho, e a meio já toda a gente desligou com um ar muito deprimido como se ele estivesse a ensinar uma equação de terceiro grau, isto depois de ele ter assegurado que era a coisa mais simples do mundo e que tinha aprendido com a mãezinha dele antes de fazer 4 anos. Podia montar sozinho um pronto-a-comer na Lapa, mas prefere cozinhar para os amigos e ouvir os elogios como se não fosse nada com ele.

- O Aplicado – Coitado, ele bem tenta, mas na maioria das vezes quando quer fazer Frango na Púcara sai-lhe empadão de arroz, e quando tenta as almôndegas sai-lhe uma espécie de Brigadeiros de cimento. Ninguém lhe dá tempo para aprender, ele convence-se que um Homem não nasceu para aquilo e pronto, aqui temos mais um candidato ao sofá e ao ‘Maria Teresa traz-me aí uma cerveja”.

- O Esporádico – Até se esforça, mas é só às vezes. Ao Sábado acorda de madrugada particularmente decidido, vai à praça com um grande cesto, e chega com um ar tão importante como se estivesse na Pré-História e chegasse à caverna a arrastar um dinossauro. A única parte da cozinha digna de um homem é o ‘barbecue’. Durante o dia faz carne assada, porco no espeto, sardinhas e camarão frito, e depois fica três meses de rastos sem sequer lavar um copo.

- O Gourmet – São os que falam do mundo macho do touro e do vinho tinto, e ainda incluem a cozinha. Acham que a verdadeira culinária pertence aos homens, e que as mulheres só sabem fazer arroz de tomate e puré de legumes para os bebés, que coitadinhos inda não se sabem queixar. São os das ervinhas e dos enchidos, dos charutos e das garrafeiras, os que assinam a revista do azeite, os que dizem que têm uma relação ‘sensual’ com a culinária, o que quer dizer que só cozinham quando lhes apetece e sempre só para eles próprios ou para um rancho de amigos homens. Mais uma vez, escusado será dizer que quem lava a loiça e arruma a cozinha é a mulher a dias.

- O Distraído – Tem uma relação quase fetichista com o frigorífico. Ficam eternidades de pé com a porta aberta a olhar lá para dentro como uma vidente para uma bola de cristal. Ninguém sabe porquê, deixam a porta do frigorífico aberta todo o tempo que passam na cozinha, mesmo que lá fiquem duas horas à espera que o arroz coza. Para eles, nunca nada leva menos de duas horas a cozer.

- O Perfeito – Nem é que queira ser moderno, mas já percebeu que as coisas funcionam melhor se de facto houver um trabalho de equipa. Até já aprendeu a fazer açorda. Geralmente, como todos os recém-convertidos, faz muito bem açorda.

sábado, 24 de abril de 2010

Coitado do Rei...

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

A MINHA avó nem conseguia falar.
Deixou-se cair na chaise-longue enquanto a Rosa foi preparar um chá de tília.
A minha mãe abanava-a com o leque, e ela só repetia, “eu vi-o! eu vi-o! tão novo e tão triste, coitadinho!”
O meu pai chegou nessa altura e foi então que a minha mãe explicou tudo:

- Vimos o rei.
- E então? Ainda o vimos há dias, na exposição do Silva Porto.
- Mas aqui foi diferente. Parecia uma pessoa normal, a descer o Chiado, a entrar na “Ferrari”…
- Não me digas que vos ofereceu um capilé!

O meu pai anda sempre muito sério e não costuma dizer coisas destas, de maneira que desatei a rir e a Rosa, que levava a bandeja de prata com o bule do chá, até ia entornando tudo.

- Fique o senhor meu genro sabendo — exclamou a minha avó-- que o povo de Lisboa estava todo ali a aplaudi-lo!
- Que exagero! - exclamou o meu pai…- O povo do Chiado…e, mesmo assim, se calhar nem todo…

A minha mãe contou então o que se tinha passado: estavam elas a tomar chá na Ferrari quando de repente vêem entrar D. Manuel.

- Mas olha que lá fora eram palmas que nunca mais acabavam…

A minha avó tentou endireitar-se, o que é coisa complicada por causa das barbas do espartilho.

- Claro! O povo ama o seu rei! Só os republicanos e os excomungados da Maçonaria e da Carbonária é que o querem matar!

O meu pai levantou-se e saiu da sala, que é sempre o que faz para evitar discussões.
Mas voltou logo a seguir, com um livro nas mãos.

- Se a senhora minha sogra, em vez de ler aqueles romances de cordel que lhe vêm vender à porta, lesse aquilo que interessa, saberia que não se trata de matar o rei. A monarquia é que está velha, é um ninho de corruptos, e a república vai chegar, mais dia menos dia. Não foi no dia 1 de Abril? Noutro dia será, mas é uma fatalidade, quer a senhora queira quer não, e …

A minha mãe tossiu levemente, que é o sinal que ela dá ao meu pai quando ele se deixa embalar em discursos intermináveis.
Ele ajustou os óculos e disse:

- Esta é uma carta dirigida ao rei. Não a vou ler toda, mas se a senhora minha sogra quiser, fica com o livro.

Aclarou a voz :

- “O trono de Vossa Majestade está perdido e nada o salvará da sua perda. É lastimável que Vossa Majestade herdasse um trono a cair mas a verdade é esta: ele está a cair.
Vossa Majestade é muito novo mas para o mundo que veio encontrar é velhíssimo. Veio tarde. Vossa Majestade é um novo rei, mas não é uma monarquia nova. Vossa Majestade teve verdadeiramente pouca sorte. Nasceu rei quando já não era preciso".

O meu pai calou-se e fez-se um grande silêncio.

- Quem escreveu isso? – perguntou a minha avó.
- João Chagas – respondeu o meu pai.
- Claro, tinha de ser um da sua laia… Os republicanos são todos iguais!

E saiu da sala.
Mas até eu percebi que aquelas palavras a tinham tocado.
Como me tocaram a mim que, sem querer, já estava a murmurar “coitado do rei”.
(Que o meu pai nem sonhe!...)

«JN» de 24 Abr 10

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O que eles (não) mudam por amor

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Por Catarina Fonseca

É O SONHO de qualquer mulher – a seguir a conhecer o George Clooney e ter dinheiro para não ter de pensar na vida: conseguir que um homem mude por amor. Ao que parece, é desejo inútil: eles não mudam mesmo. Ou será que sim? Fomos investigar, afinal, o que é que pode esperar em termos de mudança.

O que queríamos que mudassem

Queríamos, pois queríamos, mas podemos esperar sentadas: nunca vai acontecer. Mas seria assim tão difícil que eles mudassem…

- A toalha no chão – Não apanham. É escusado. Podem estar quatro toalhas em ‘cúmulo’ como nuvens de Primavera, que eles continuam a alçar a perna e passar por cima na maior das descontracções. Também não fazem ideia de onde nos vem a mania de andar sempre a puxar tampa da sanita para cima, por que é que uns pelitos no lavatório nos põem apopléticas ou por que raio é que uma tampa de pasta de dentes fora do sítio pode arruinar um casamento.

- O copo na mesa da sala – Altos ou baixos, gestores ou trolhas, atinadinhos ou destrambelhados, há uma coisa em são todos todos todos iguais, ainda mais iguais que no Estranho Caso da Toalha no Chão: acham que tudo o que deixaram desarrumado se arruma sozinho. Aliás, arrumar pertence ao tipo de coisa que eles nem notam que precisa de ser feita. Afinal, daqui a nada já está tudo desarrumado outra vez...

- A ‘dislexia’ para datas - “Ó Ricardinho, o dia de hoje não te diz nada?”, e ele franze o sobrolho e todos os seus neurónios (o Tico e o Teco) franzem os neurónios um para o outro e pensam, “Espera lá, Ricardo Manuel, será dia de levar o cão ao veterinário? De pagar à mulher a dias? Do Benfica-Estrela da Amadora?” e depois pensa “Bem, o Benfica-Estrela da Amadora não deve ser com certeza” e fica a remoer nas outras duas hipóteses. Depois estranha que ela faça greve de sexo durante três dias por causa do cão, acha que deve ser do período, depois lembra-se que ou ela teve nesse mês três períodos ou não deve ser do período, e só muito mais tarde é que descobre que faziam anos de namoro. Mas continua sem perceber por que isso tem assim tanta importância. Afinal, continuam juntos, ou não?

O que eles não mudam mesmo

Há coisas sagradas, fincadas com todas as forças na personalidade deles. Ele pode estar disposto a morrer por si mas nunca estará disposto a abandonar...

- O Clube – Quem nasceu Benfiquista (ou Sportinguista ou Boavisteiro) morre Benfiquista, seja o que for que lhe aconteça entre nascer e morrer, e pode vir a Giselle Bundchen que o Benfica há-de sempre estar em primeiro lugar no seu coração.
A Mãezinha – Bem, em segundo. Em primeiro, vem sempre a mãezinha. Quem tenha mãezinha, claro. Com os homens, não há meio termo: ou são orfãos (há os que não são verdadeiramente mas são tecnicamente orfãos, que costumam ser ainda piores que os que têm Mãezinha) ou a Mãezinha é que manda. Desiluda-se: a mãezinha é que faz os melhores pastéis de bacalhau, com a mãezinha é que se almoça ao Domingo, ao sábado à tarde é preciso ir passear a mãezinha mais o Lúcifer (é o caniche da mãezinha), e a mãezinha pode dizer coisas do estilo ‘ó Zezinho estás mesmo magrinho, é essa lambisgóia que não trata de ti’, a mãezinha pode mandar bitaites sobre tudo, do nome dos filhos às tortas de laranja, a mãezinha pode dizer que acha que Carlota é nome de cadela e que Sebastião só houve um e deu mau resultado, a mãezinha pode dizer que as crianças estão malcriadas e o chão está sujo, e a mãezinha é a única pessoa à face da Terra que poderá pronunciar as palavras “o Makukula falhou lamentavelmente aquele penalti”. Palavras que, aliás, nunca ninguém ouviu nem ouvirá na boca da mãezinha…

- Os Amigos – Há sempre um Zé Pedro, que andou com ele no secundário. O Pimpão, que tocava baixo na banda. O Tozinho, que deu em gestor e agora é o Dr. Ataíde e tem uma secretária loura com quem toda a gente acha que ele engana a mulher mas não engana porque é gay mas só o melhor amigo é que sabe. E depois há os adventícios: os da cerveja ao sábado, os do futebol ao Domingo, os do trabalho, dos copos, das farras, do body-pump e do congresso de máquinas agrícolas onde ele foi há 6 anos. Não interessa. São todos para a vida. E para a morte, evidentemente.

Também nunca aceitarão mudar de…

Até podiam mudar, com um bocadinho de boa vontade, mas se pensarmos bem, será assim tão importante começar uma guerra por causa da…

- Música – É na música que se revela toda a sua alma de guerreiro: tudo o que não tenha batuques, é para meninas. Tudo o que tenha cheirinho de melodia, é para meninas. Tudo o que seja cantado, é para meninas. Há os executivos que gostam da Diana Krall, mas só porque ela é loura e não se despenteia enquanto canta e têm uma secreta fantasia de levar a Diana Krall à festa da empresa (levar a Diana Krall para a cama não lhes interessa nem metade que levá-la à festa da empresa). Os outros, quem lhes tira She Wants Revenge, Rammstein, ou Rage Against the Machine, tira-lhes tudo. Se estiver muito muito muito apaixonado (para aí na primeira semana) até pode ser que vá arrastado a um concerto do Roberto Carlos, mas de óculos escuros e sempre a olhar para todos os lados, não vá alguém reconhecê-lo. Se quiser ir de t-shirt com a cara do ídolo e uma tira azul-fosforescente na testa a dizer ‘Roberto É o Rei’, leve um grupo de amigas e esqueça os homens.

- Carro – Para nós, um carro é um carro. Para os homens, um carro é um amigo. E nada se interpõe entre um homem e os seus amigos. E então se tiver mota, pior. Há-de acordar a meio da noite e vir contemplá-la da janela, há-de passar a tarde de sábado a polir as jantes com um paninho de camurça e a ssusurrar-lhe ao, enfim ouvido?, há-de dar mais passeios com ela do que consigo. Habitue-se.

- Playstation – Há-de aproveitar o facto de a mulher estar a tomar banho para jogar Fifa 2008 às escondidas como os miúdos, há-de dizer ‘vai para a caminha, querida, vai que estás com ar cansado’ só para ficar rodando entre galáxias on-line num jogo tipo Guerra das estrelas com up-grade que joga com mais quatro internautas por esse mundo fora, um americano, um japonês, um polaco e um de Odivelas, e é o homem mais feliz do mundo.

O que, com um bocadinho de esforço, até conseguem

Aleluia! Nem tudo são más notícias! Chegámos à parte boa. É agora que ele vai ser um Príncipe! Enfim, alguém que se possa apresentar à avó.

- Roupa – Dá um bocado de trabalho, mas como para eles, geralmente, tanto faz vestir uma t-shirt como outra, a gente dá-lhes outra (desde que não seja cor de rosa) e eles nem percebem que ficam muito melhor, até porque acham que é daquelas áreas em que nós percebemos mais do que eles (e têm razão, o que não é dizer muito). Também se pode pedir-lhes que mudem de corte de cabelo, e alguns até mudam. Até se pode pedir que cortem o bigode (isto é um favor à Humanidade) e até se pode oferecer-lhes uma água de colónia que não cheire a insecticida. Bem envernizadinhos, ninguém diria que têm idade mental de dez anos e meio.

- O Controlo da televisão –Dêem-lhes um sofá e um écran, e estão no paraíso. Não são esquisitos, e papam tudo o que nós vemos na maior das boas-vontades, desde os CSIs de todas partes da América até aos Drs. House, correm todas as urgências dos hospitais de Chicago (costumam adorar isto, porque são todos hipocondríacos) e choram baba e ranho com os hospitais de animais. E cuidado: habituam-se a ver telenovelas com mais facilidade que uma adolescente. Claro que nunca admitiriam aos amigos que vão ficar em casa a ver ‘Desejo Proibido’, mas prepare-se, porque lá chegará o dia em que vai querer sair com ele e ele há-de atirar ofendido: “Nem penses. Hoje é o dia em que a Maria Paula vai dizer ao Reginaldo que o filho não é dele.”

- A Barriga – Com um bocado de sorte, passam a ir ao ginásio connosco, principalmente se lá andarmos, não tanto para perder a barriga como para fiscalizar a concorrência. Geralmente, acontece uma de duas coisas: ou desistem ao fim de duas semanas, ou ficam daqueles ‘freaks’ do Body-Attack que fazem a aula com dois relógios de calorias um em cada pulso e vão à net ver as coreografias novas e se correspondem com outros ‘freaks’ de todo o mundo e quando você diz que aquilo até está fácil franzem as sobrancelhas e respondem: “Deixa-me decorar os passos e aprender a coreografia e tu já vais ver o que é que é fácil’. Acham todos que dois passos à frente e um atrás é uma coreografia.

- A Ajuda – Pronto, é verdade: eles acham que ‘ajudar em casa’ é levar o cão à rua e pôr o lixo lá fora. Mas com muita persistência, até se pode treiná-los para qualquer coisa. Claro que a iniciativa é sempre nossa, por eles dormiam nos mesmos lençois até ao Euro 2012, mas enfim…

- A Comida – Com os amigos continuam a comer feijoada e perceves, mas em casa nós é que mandamos porque somos nós que vamos ao supermercado, quando eles só se lembram de ir ao Clube del Gourmet comprar patê de texugo turco e ostras congeladas.

- A Decoração – Há uns muito picuinhas que vão connosco às lojas e fazem finca-pé porque sempre sonharam ter cortinados roxos na sala como a família Adams, mas homem que é homem nem vê onde é que está sentado, e se for um sofá aos coraçõezinhos com a cara da Betty Boop tudo bem, desde que seja um sofá.

sábado, 17 de abril de 2010

A ELECTRICIDADE VAI DOMINAR O MUNDO

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

AO QUE PARECE, depois da revolta falhada do dia 1, as pessoas resolveram descansar um bocadinho.
Pelo menos o meu pai.
Hoje até fechou a livraria mais cedo para ir à Academia Real das Belas Artes, à inauguração de uma exposição de um pintor chamado Silva Porto, que já morreu há anos mas de quem ele gosta muito.
Diz-se que o Rei também lá vai estar.

- Quero ver a recepção que vai ter — disse o meu pai.
Como a inauguração prometia ser calma, a minha mãe também foi, muito contra a vontade da minha avó:
- A menina sabe muito bem que, no seu estado, não deve sair de casa!

(Lá vinha outra vez aquela coisa do “estado”, um dia destes tenho mesmo de saber do que é que se trata)
Mas a minha mãe disse que isso eram ideias antigas, sentia-se bem, e não ia perder a inauguração por nada.
Antes de saírem, o meu pai perguntou-me:

- Já leste o novo Salgari que te trouxe da livraria?
- Está quase…- murmurei, sabendo que ainda não tinha passado do princípio.
- Depois falamos — disse ele.

O Emílio Salgari é dos meus autores preferidos, mesmo ao lado do Júlio Verne.
O meu pai até nem gosta muito, porque diz que aquilo é pirataria a mais, e nem o facto de um dos heróis ser português o consegue comover.
Mas desta vez o novo livro de Salgari não trata de Sandokan, nem de Gastão de Sequeira, nem da ilha de Mompracém.
Desta vez o livro passa-se…imaginem! — no ano 2000!
Eu nem consigo imaginar o que seja o ano 2000. Para já, a minha avó garante que é nesse ano que o mundo vai acabar.
E então nesse ano 2000, conta o Salgari, a electricidade vai dominar o planeta, e acontecem coisas extraordinárias: as paredes da nossa casa transmitem imagens do mundo inteiro, e a electricidade é tanta que as pessoas andam sempre a correr e em choque permanente.
E como há muitas máquinas para substituir as pessoas, há muitos trabalhadores desempregados. E quando eu estava à espera de greves e bombas e estas coisas que agora acontecem por causa do desemprego - não!: os trabalhadores transformam-se todos em agricultores e pescadores!
E não há revoluções, nem ditaduras, nem guerras. E, em vez de exércitos, só há um destacamento de bombeiros, para acudir a alguma catástrofe natural – ou, enfim, a um ou outro anarquista que tenha sobrado do passado…E quais os castigos para esses? Apanham com um jacto de água electrificada, e depois são conduzidos num trem eléctrico até ao Pólo Norte, para trabalharem, até ao fim das suas vidas, pelo bem do planeta.
E se por acaso nesse tempo ainda houver criminosos, daqueles que roubam e assaltam casas, então esses são enfiados em prisões flutuantes e, ao mais leve sinal de revolta, umas bombas, estrategicamente colocadas, mandam todos para o fundo do mar.
Tudo por causa da electricidade que vai dominar o mundo no ano 2000.
Mas como ainda estamos em 1910, espero que a república, quando vier, não venha carregada de electricidade.

«JN» de 17 Abr 10

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Todas acreditamos no amor romântico

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Por Catarina Fonseca


EMBORA nos estejam sempre a dizer que ‘isso só acontece aos outros’, a verdade é que todas acreditamos em milagres… amorosos. Quer a prova? A gente apresenta uma data delas. Atreva-se a dizer que consigo é diferente.

Mesmo o mais racionalista, o duro dos duros, o que sabe perfeitamente que o amor romântico é um mito, poucos resistem aos seguintes gestos:

- Abrir um mail com o título ‘encontre a sua alma gémea’ – Mesmo que esteja farta de dizer a si própria que não existem almas gémeas, quando muito existem almas ligeiramente irmãs, ou enfim, primas, quem é que não resiste a saber se por acaso, do outro lado do mar ou aqui mesmo à porta, não está o verdadeiro amor da nossa vida?

- Fazer um teste de compatibilidades entre signos – Mesmo quem não acredita em signos, mesmo quem está farta de dizer a toda a gente que não tem nada a ver com o Escorpião que as estrelas lhe destinaram, a verdade é que fazemos sempre aqueles testes que dizem que, se lhe calhou um Aquário na rifa, esqueça, porque o Aquário não atura um Escorpião. A gente lê e fica tristíssima, embora continue a não acreditar em nada disso, e até chegamos a pôr a hipótese de nos concubinarmos com um Touro qualquer, que pelo menos astralmente é mais dado a escorpiões.

- Achar que ele nos lê a mente – É um dos mitos mais perigosos do amor romântico, e no entanto toda a gente parte do princípio de que é verdade. Achamos que, só porque ele nos ama de paixão, sabe exactamente o que nos vai na alma em cada minuto da nossa existência, e se isso não acontece é porque afinal não nasceu para nós.

- Acreditar no amor à primeira vista – Mesmo que nunca tenha acontecido connosco, sabemos que há-de haver um dia em que vamos bater os olhos nele e cair um raio do céu e ouvir vozes, muitas vozes, que nos dizem que sim, que finalmente aconteceu.

- Acreditar nos anúncios – A gente sabe que aquelas cenas do rapaz a correr pela rua fora à chuva e à neve atrás da rapariga, ou dos namorados a atirarem-se do prédio, ou o clássico dos clássicos do desconhecido que nos oferece flores (que saudades!) são só para vender carros, ou telemóveis, ou desodorizantes, mas no fundo no fundo achamos que mais telemóvel menos telemóvel aquilo ainda vai acontecer connosco, qualquer dia.

- Acreditar que a Barbie anda mesmo com o Ken - Embora toda a gente saiba que ela tem um caso com o Action Man.

- Acreditar que o amor existe mesmo, nós é que não procuramos direito – Como diria o Luis Fernando Veríssimo. Aliás, na maioria das vezes nem procuramos, deixamo-nos estar sentadinhas à espera que ele nos desça pela chaminé, como o Pai Natal, mesmo que nem sequer se tenha chaminé…

- Acreditar que o Hugh Grant existe mesmo, nós é que nunca fomos a Hollywood – Mas quando lá formos vai acontecer o mesmo que com a Júlia Roberts em ‘Notting Hill’, a gente vai entrar numa livraria e ele vai lá estar. Que o Hugh Grant não trabalha em livrarias é um pormenor sem a mínima importância.

sábado, 10 de abril de 2010

FALHOU A REVOLUÇÃO E A TOURADA

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

DESDE QUE NESTA CASA só se pensa em revoluções, andamos todos muito apoquentados. Como diz a minha avó, “só tenho coisas que me ralem”.
Desconfiamos de toda a gente.
Qualquer barulho é uma bomba a rebentar.
Se um rato de madrugada se lembra de atravessar o soalho, é logo uma vozearia (“ai minha Nossa Senhora que está um ladrão a arrombar a porta!”) e o prédio inteiro acorda.
Aqui há dias a Rosa ia já de vassoura em punho para dar em cima de quem não parava de bater à porta da cozinha — quando lhe apareceu pela frente a Senhora Felismina, trouxa à cabeça, aos berros:

- Ó santinha, dá-me lá uma ajuda, senão ainda a roupa se me rebola toda pelas escadas!

A Senhora Felismina é quem lava a nossa roupa. Todas as semanas a vem buscar, todas as semanas a vem trazer.
Vive em Caneças, e aproveita a carroça que vem distribuir as bilhas de água a Lisboa.
Caneças fica longe, não há estrada, e por isso as carroças têm de sair de madrugada para se meterem naqueles caminhos de cabras e chegarem cá de manhã. Muitas lavadeiras aproveitam a viagem, e chegam cá doridas de tanto solavanco.
Atrás da Senhora Felismina vem o aguadeiro entregar as bilhas.
Cá em casa só bebemos água de Caneças. A minha mãe diz que ela cura anemias e males de estômago. Se cura ou não, não sei, nunca me lembro de ouvir o Dr. António José receitá-la no consultório.
A Rosa pediu desculpa, escondeu a vassoura, e conferiu com o rol se todas as peças de roupa que tinham ido para lavar tinham voltado lavadas. A Senhora Felismina é mulher séria, mas nunca fiando.
E por causa da revolução, o meu pai até se esqueceu de me levar ao Campo Pequeno.
Todos os anos, no domingo de Páscoa, começa a temporada das touradas na Praça do Campo Pequeno.
Desde miúdo que não falho uma — apesar dos protestos da minha avó, que tem sempre muita pena dos touros e diz que só um ateu é que pode festejar o domingo de Páscoa daquela maneira.
O meu pai, como sempre, faz que não é nada com ele.
Às vezes, quando vou à livraria, oiço-o discutir o assunto com alguns amigos que passam por lá para dois dedos de conversa. E há os que o censuram e lhe dizem que as touradas são próprias de talassas e que ele, como bom republicano, devia lutar pela sua abolição, ao que o meu pai responde que tourada é arte, e arte não tem nada a ver com monárquicos ou republicanos, ao que eles dizem que tem-- e nunca mais dali saímos.
Este ano veio a Páscoa, e o meu pai desculpou-se com o mau tempo.

- Mas tu queres apanhar uma pneumonia? Não vês como chove?

Chovia torrencialmente, é verdade — basta ver as fotografias que vieram há dias na “Ilustração Portuguesa”.
Mas o motivo não foi esse.
O que acontece é que o meu pai no domingo de Páscoa já andava muito apoquentado: uma semana depois, foi o tal dia da revolução que era para ser, mas falhou.
Falhou-lhe a revolução, falhou-me a tourada.
Só tenho coisas que me ralem.

«JN» de 10 Abr 10

quinta-feira, 8 de abril de 2010

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A Lei das Compatibilidades: Descubra o Homem que Nasceu para Si

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Por Catarina Fonseca

AO CONTRÁRIO
do que nos ensinaram, não há almas gémeas absolutas. Às vezes, as almas gémeas dependem da altura da vida em que se está. Saiba quais podem ser as suas melhores escolhas em termos de… romance.

Diga-nos em que situação está, e nós dizemos-lhe para onde dirigir as suas energias:

A Principiante
- Situação: Tem 17 anos, é estudante, mora em casa dos pais. Tem quem lhe lave a roupa e lhe faça a cama, o que não é necessariamente mau. É da geração que já sabe que o Príncipe Encantado não existe, mas nunca comeu morangos sem açúcar, e portanto ainda não sabe até que ponto a inexistência de um príncipe é dramática.

- Par incompatível: Sabe aquele amigo do seu pai? O que tem nome de Rei Mago, o Baltazar, o que aparece ao fim da tarde e lá fica a um canto da sala a fumar e a beber um resto de conhaque dourado num copo de borda metálica, tão metálica como os olhos dele que a apanham de vez em quando lá do fundo, muito de vez em quando como quem não quer a coisa, e de vez em quando vem ter umas conversinhas para o seu lado, ronronando como um gato, assim umas coisas de adultos sobre jazz pós-moderno e Kafka, coisas que se viessem de uma pessoa normal lhe entravam a si por um ouvido e saíam pelo outro, que também é o que acontece agora mas também não interessa nada o que ele está a dizer. Sabe quem é? Esqueça. Saia da sala quando ele entrar. Vá ao cinema com o João Filipe. Vá ouvir jazz pós-moderno fechada no seu quarto.

- Par compatível: O João Filipe, seu colega de carteira (ou enfim. De mesa pré-fabricada) pode parecer absolutamente inviável: partilham o mesmo autocarro (ele a cair de sono e a cheirar a ténis velhos, você a tentar ter um ar digno apesar de àquela hora nem sequer saber como é que se chama a sua mãezinha), ele dá-lhe graxa para que você lhe empreste os apontamentos de química, e o mais romântico de que se consegue lembrar é passar-lhe uma rasteira e dar-lhe um carolo como prova do seu amor e da sua dedicação. Más notícias: nesta altura do campeonato, é a sua melhor hipótese.

A Desalentada
- Situação: Tem 25 anos, acabou com o seu último namorado e acha que a vida acabou. Entre a sua vida e o deserto de Góbi, parece-lhe que a única diferença é que o deserto ainda vai tendo uns oásis. A sua vida é isto: o emprego de sonho custa a chegar, um amigo do seu pai (não o Gato Baltazar, que fisgou uma sueca e montou uma empresa de produção de eventos em Estocolmo) arranjou-lhe um lugarito de ‘assistente’ num escritório de contabilidade onde você baralha os números e navega pela net com toda a fúria do cargueiro do ‘Speed 2’, apesar de toda a gente dizer que é ‘muito aplicada’.

- Par Incompatível: O Vasco, que é primo da sua amiga Constança e que conheceu numas férias em Vilamoura. O Vasco também é aplicadinho, tirou Economia e Gestão na Católica e não pára de lhe falar em casamento. Ao princípio até parece um Par Compatível, mas cuidado antes de comprar o vestido de noiva: o Vasco há-de desatar a comprar lençóis de linho biológico pela net, depois amua porque a loja não tem o serviço Vista Alegre que ele queria, depois há-de querer convidar 600 pessoas, depois a mãezinha dele há-de dizer que o seu vestido é pindérico e corre o risco de se achar daqui a um ano grávida de gémeos sem saber muito bem como é que se meteu naquilo.

- Par Compatível: O irmão mais velho do João Filipe, que você quase nunca via porque sempre que lá ia a casa ele estava nos treinos de horseball de alta competição ou enfiado no quarto a bater com o lápis da mesa e a estudar engenharia genética de ‘headphones’ postos com os Pixies a berrar muito, e as guitarradas dos Placebo que ele acha que lhe dá um ar cool, ou os ronronanços do Leonard Cohen, que lhe dá um ar ainda mais cool mas de que ele se envergonha secretamente porque acha que é música para meninas. Voltou a encontrá-lo numa festa de amigos e descobriu que ele não só tinha um ar cool como era a sua alma gémea. Quando perceber que não existem almas gémeas, já estará casada com ele. Mas não se preocupe com isso agora.

A Desesperada
- Situação: Tem 35 anos, e das duas uma: ou está desesperada porque acabou de se separar do Paulo Jorge que a deixou sozinha com os gatos nos braços, ou está desesperada porque depois de passar anos em festas de amigos, passeios temáticos, cruzeiros no Douro (sozinha) e chats onde só lhe apareciam criançolas inconscientes à procura de noites escaldantes, percebeu finalmente que o Príncipe Encantado só existia na ‘Bela Adormecida’ e mesmo aí, uma aposta em como era gay.

- Par Incompatível – Com separação ou sem ela, muito cuidado com os ‘homens do desespero’: não se meta em nada a achar que é só ‘para animar’. Os homens que adoram as desesperadas geralmente só querem é copos e curtes. Os que querem qualquer coisa mais séria, nunca a querem com uma desesperada. Portanto, arrisca-se a dar com uma alma que só quer é curtes e copos. Problema: você também diz que o que quer é curtes e copos, mas as mulheres NUNCA querem só curtes e copos, portanto arrisca-se a entrar numa relação em que as duas partes querem coisas diferentes.

- Par Compatível – Como dizia o Luís Fernando Veríssimo, ‘o amor é como a tesourinha das unhas, nunca está onde a gente espera’. Por isso, refreie o desespero. Volte a frequentar as festas de amigos. Com um bocado de sorte, o irmão do João Filipe, que você deixou escapar aos 25, também se há-de estar a divorciar. Com ainda mais sorte, o Baltazar já voltou de Estocolmo (pormenor irritante: tem três filhos suecos, o Lars, a Ingrid, e qual é o outro, o Sven? Todos a falarem como se estivessem num filme do Ingmar Bergman mas pronto). Azar: continua a não querer mais nada do que ronronar-lhe ao ouvido. É capaz de continuar a não ser boa ideia.

A Carente
- Situação: Tem 43 anos e um divórcio traumático aos ombros. Teve de dividir filhos, pratas e DVDs. Foi chato. Principalmente o Sebastião. Teve de lutar pelo Sebastião, porque o seu ex também o queria. Mas ficou com o vinil do álbum ‘Revolver’ dos Beatles. Isso calou-o. O Sebastião agora dorme com a cabeça na sua almofada e passa as noites a ladrar por tudo e por nada, deve achar que é o homem da casa.

- Par Incompatível – Qualquer pessoa com um divórcio igualmente traumático. Quem está recentemente divorciado não tem alma para andar a construir novas relações, eles nem têm alma para lavar a louça quando chegam a casa, quanto mais para se apaixonarem. Só têm alma para desabafarem os seus desgostos, e como você também precisa de colo, vão-se chocar dois divórcios, duas carências, e quatro pessoas. Ah, e esqueça os romances com rapazes de 20 só para fazer ciúmes ao seu ex (ele não está nem aí) ou se sentir 20 anos mais nova. Correm sempre mal, principalmente porque os rapazes de 20 nunca ouviram falar da ‘África Minha’ e não se pode ter romance decente com alguém que nunca viu a ‘África Minha’. Se ele se chama Fábio e o filme preferido dele é ‘O Maneta de Ferro contra a Guilhotina Voadora’, parta para outro.

- Par Compatível – Temos pena, mas não é o Sebastião. O homem certo é aquele que a ama em segredo há anos, à espera que você finalmente visse a Luz e desse um chuto no Luís Miguel. Tristemente, você despreza-o, acha-o um choninhas, e nem sequer sabe que ele existe. Investigue bem. Não se esqueça de olhar por baixo da secretária.

A Impaciente
- Situação: Tem 52 anos. Está sozinha há mais tempo do que leva a aprender mandarim. Mil caracteres de solidão por dia. Há tanto tempo que até já nem liga. Parece que já nada de interessante vai acontecer. Passa o serão no sofá a ler ‘600 Receitas Para Quem Gosta de Cozinhar mas Não Tem Tempo’. Só fala com velhinhos chatos a querem desabafar consigo as suas mazelas, colegas de trabalho que a vêem como uma colega de trabalho, rapazolas que não lhe ligam porque afinal já é uma cota (aliás, se tivesse vinte anos a menos já era uma cota), e a sua filha a querer que você ature as crianças no fim de semana enquanto ela vai em segunda lua-de-mel com o marido para o Choupana Hill, e em resumo, ninguém percebe a mulher fantástica que ali está. Parvos.

- Par Incompatível: A sua filha, que só quer o seu bem, a sua felicidade, e mais um par de braços para manietar o Salvador, o Tomás e o Sebastião (o filho, não o cão) arranjou um jantar a quatro com ela e o marido e mais um amigo do marido. Problema: não tem gracinha nenhuma. Só lhe pergunta se já foi ver a exposição do Berardo. Diz que as lulas lhe dão azia. Os dentes dele gritam por um aparelho desde que ele tinha 14 anos (que já foi há mais ou menos 120). Os abdominais dele gritam por um ginásio desde que ele tinha 18 (que já foi há 116). Ele continua surdo. Metafórica e verdadeiramente falando. E ainda há quem ache que podia ser o homem da sua vida.

- Par Compatível: Como dizem no Canal Odisseia, ‘Abra Sua Mente’. Se Sua Mente não está definitivamente virada para os encantos dos velhinhos nem dos rapazolas nem dos tipos com divórcios traumáticos às costas, pode ser que um dia destes tenha uma surpresa e descubra que aquele seu colega que se oferece para lhe tirar fotocópias para que você não perca o seu rico tempo pode ser o homem da sua vida. Ah, e é verdade: o Baltazar agora é que deve estar no ponto, quando nenhum de vocês está interessado em nada mais sério (é verdade que já fez 75, mas continua charmoso e a beber conhaque com ar de gato se os gatos bebessem conhaque).

sábado, 3 de abril de 2010

AINDA NÃO FOI DESTA…

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".


O MEU PAI NÃO PAROU em casa este fim-de-semana e, no domingo à noite, entrou no escritório com a minha mãe e, passados alguns minutos, chamou-me.

- José Joaquim – disse-me com a voz das horas graves — lembra-te que, se um dia eu faltar, és o homem desta casa.

Fez uma pausa, enquanto a minha mãe se estendia na chaise-longue.

- Entre hoje e amanhã, alguma coisa de muito importante vai acontecer. E seja o que for que oiças, quero que saibas que tudo foi feito para bem do povo, para que mais ninguém viva na miséria, para que toda a gente tenha pão, instrução, liberdade…

De repente lembrei-me do comício do Dr. António José em Sintra e quase sorri. Mas o momento era sério.
Mas acho que só percebi que era mesmo sério quando o meu pai nessa noite não veio dormir, e na segunda-feira o nosso professor nos mandou para casa:

- Está para rebentar um trinta-e-um e eu não quero responsabilidades.

Quando cheguei a casa a minha mãe não parava de chorar, a minha avó não parava de fazer novenas, a Rosa não parava de dar água chalada a toda a gente — incluindo ao Alfredo, que não parava de bater à porta “a contar as últimas”.

- É hoje!
- É hoje o quê? — perguntou a Rosa.
- Mas então o que há-de ser? A revolução, rapariga!

Ela deu um grito:

- A revolução é hoje? Ai minha Nossa Senhora! E o patrão que não está em casa
- Claro que não está! Há-de lá estar com eles…
- Com eles, quem?
- Ora…com os que fazem a revolução! Com os que têm tudo combinado…O meu patrão nem abriu a loja. Também lá deve estar.
- Mas lá…onde?
- E eu sei? Lá…Onde se fazem as revoluções... Se calhar a esta hora já mataram o reizito…
- Tu nem me digas isso!
- Se não for hoje…é um dia destes! Aquele, coitado, não me parece que vá ter longa vida.

Também, segundo diz o meu patrão, a única coisa para que tem jeito é para ouvir missa e namorar francesas…
Foi nessa altura que a minha avó chamou a Rosa, e o Alfredo lá se foi escada abaixo.
Estes têm sido uns dias estranhos.
Quando vou na rua, só se ouve falar de bombas e atentados e greves.
Dizem-se as coisas mais loucas.
Dizem que as ciganas roubam as crianças para lhes tirarem os santos óleos
Dizem que há revoltas entre os marinheiros.
Dizem que a Rainha-Velha endoideceu de vez, e anda a regar as alcatifas do palácio como se estivesse no jardim.
Felizmente o meu pai chegou a casa na segunda-feira à noite.
Não disse nada, sentou-se à mesa de cabeça baixa e de colarinho aberto, e todos entendemos que as coisas tinham corrido mal.

- Deixa lá… - murmurou a minha mãe — não foi desta, será da próxima.

Ele deu-lhe um beijo na testa e, olhando para mim, disse:

- E o menino amanhã vai à escola, ouviu? A revolução precisa de homens instruídos!

E a vida voltou ao normal: o rei (que se calhar até nem deu por nada…) já hoje foi a uma festa no quartel de engenharia – e eu voltei aos juros, aos quebrados e ao “D. Jayme”.
Ainda gostava de saber para que é que a revolução precisa disto.

«JN» de 3 Abr 10

quarta-feira, 31 de março de 2010

7 coisas parvas que fazemos por eles

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Por Catarina Fonseca

POIS, O DIFÍCIL é encontrar só sete, mas elegemos algumas das mais parvas. São isso algumas de que nos lembrámos. Mas havia tantas outras…

1 – Deixar as amigas

E já nem falamos dos amigos… Só porque ele tem uns ciúmes loucos da Aninhas, da Marta e da Joana, isso não quer dizer que lhes faça a vontade. Todos os homens acham que a gente fala mal deles nas costas deles (regra geral temos mais em que pensar) principalmente com as amigas. Que todo o tempo que estamos com elas é para lhes contarmos que ele se baba na almofada, arrota depois do hamburguer e é sexualmente mais incompetente que, sei lá, que um pepino. Para todos os homens, todas as mulheres são potencialmente a Nereida do Ronaldo. Também é verdade que às vezes quem deixa as amigas é ela: porque a Joana tem um lindo sorriso e a Marta tem uma linda conta bancária, a Ana Isabel não pode ver um homem à frente nem que seja padre, estrábico ou casado com a sua melhor amiga (nem as três coisas ao mesmo tempo), a Ritinha é uma sonsa que você bem a conhece e a Vanessa, quer dizer, nem é bom pensar na Vanessa à solta com o seu Zé Manel, e portanto afasta-se delas e leva o seu Zé Manel para qualquer sítio muito longe, onde não existam amigas. É um erro: até porque ninguém sabe o dia de amanhã e se arrisca a ver-se um dia sem ele e, o que é pior, sem elas.

2 - Deixar de usar minissaia

A frase que ele mais diz é: ‘Vais sair nessa figura?’. ‘Nessa figura’ geralmente resume-se a uns centímetros a menos do que ele acha que devia ser. Todos os homens são potenciais chefes de harém: por eles, sairíamos à rua de burqa. Por eles, nem sairíamos à rua. Problema: se ceder na primeira minissaia, vai passar a ter de mudar de roupa sempre que o senhor achar que há um potencial chefe de harém rival à solta, que é o que eles acham que são todos os outros homens.

3 - Fingir

A partir do momento em que queremos agradar a alguém, damos por nós a fingir as coisas mais disparatadas, e não são só orgasmos. Começa com uns fingimentozinhos inocentes (achamos nós), ai sim, querido, perco-me por bolo de chocolate, e a tua mãezinha é tão simpática e acolhedora, e eu também adoro dias de sol para ir dar 30 voltas ao estádio da Cidade Universitária. Quando dá por si, mente-lhe tantas vezes que começa a achar que tem um desvio de personalidade. Diz-lhe que é fanática por futebol desde que ia aos jogos na Catedral da Luz com o seu paizinho; que acha o Paulo Jorge (o melhor amigo dele que nunca trabalhou um dia na vida e vive às custas da avó trancado em casa a jogar póquer ilegal pela internet) um excelente rapaz; que as piadas dele têm mesmo graça; que o Pavlov (o pastor alemão que lhe dá lambidelas nojentas na boca sempre que a vê pela frente e passa a noite com insónias a ladrar ao gato da vizinha e larga pêlos pretos espetados e com pepitas de carraças no seu sofá branco) não nos põe a cabeça em água; que não, quer lá agora casar de papel passado, que ideia, você é pela união de facto…

4 - Passar a comer 8 mil calorias por refeição

Até ao Zé Manel, você era um exemplo para qualquer nutricionista. Depois do Zé Manel, a única vez em que volta a ver a cor verde na sua vida é quando o Benfica joga com o Sporting. Nos primeiros dias até tentou convertê-lo aos bróculos, depois tentou comer bróculos enquanto ele se encharcava de esparguete à bolonhesa com tiramissu e ainda lhe mandava bocas do estilo: - Só comes isso? Depois ficas sem defesas e apanhas gripe A e eu tenho de ficar uma semana sem te ver - O Zé Manel acha que vegetais é para coelhos, muesli é para piriquitos, iogurte é para bebés, coitadinhos, e tofu é para professores de ioga gay sentados em cima de tapetes com os olhos fechados a meditar em imenso sexo tântrico que podiam fazer e não fazem porque não se alimentam convenientemente.Em resumo, quando dá por si, com todo o esparguete à bolonhesa à luz das velas e todo os jantarinhos românticos, já engordou cinco quilos.

5 - Perdoar-lhe tudo

Se ele anda maldiposto é porque o chefe é um bruto e não lhe reconhece a genialidade, se ninguém o ensinou a abrir a porta às senhoras é porque é um espírito livre e acredita na igualdade dos sexos, se não pára de falar é porque é uma pessoa super-interessante e com imenso assunto, se não ouve o que lhe dizem é porque, coitadinho, é um bocadinho aluado como todos os Aquários, e se é um egoista de primeira apanha e só pensa nele próprio é porque teve um trauma de infância quando o pai dele saiu de casa tinha ele 7 anos. Ou seja, você corre o risco de acordar um dia com o efeito do elixir de amor já expirado, e pensar de repente: - Mas que palhaço! Onde é que eu tinha a cabeça?

6 - Dar o nome da mãezinha dele à primeira filha

Assim que soube que era menina, ele bateu o pé. Que tinha de ser Odete Emília, porque a mãezinha dele ia ficar tão contente! E pior ainda é se a mãezinha dele já cá nem estiver para ficar contente. Você, pronto, que lhe queria chamar qualquer coisa mais, enfim, moderna, inda torceu o nariz, mas não adianta nada, é Odete Emília ou ele sai de casa com a Odete Emília às cavalitas… Acorde! Não deixe! Telefone à Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, peça asilo político, fuja de casa numa noite escura e tempestuosa, mas não deixe a criança arcar com um nome que não nasceu ara ela.

7 – Adiar as suas férias

Tirou uns dias para depois do verão ainda antes de o conhecer, mas ele agora protesta que ninguém vai de férias em Novembro, que não vai aguentar ficar sete dias sem si, que podiam ir ao dois em Abril para um hotel de charme e fazer massagem tailandesa com óleos de orquídea silvestre… Não adie. Sabe lá se vai cá estar em Abril. Sabe lá se vai estar com ele em Abril. Sabe lá se não vai haver um golpe de estado de extraterrestres que vai rebentar com a Terra! Hehehe. (Isto é da BD de ficção científica dele. Já a contagiou. Que você já lhe disse milhares de vezes que adora, apesar de achar mais infantilóide que a Ovelha Xoné).

´"ACTIVA" - 2009

segunda-feira, 29 de março de 2010

PASSEIO DE DOMINGO

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Por Alice Vieira

OLHOU para o espelho.
Às vezes pensava no que lhe aconteceria se fosse a outra, a do tempo da infância, a que se metia pelo espelho dentro, a que se deixava cair pelo poço, a que seguia lebres e chapeleiros malucos, a que pedia “dêem-me histórias com muita loucura por dentro” .

Ela sempre gostara de histórias e de pessoas com muita loucura por dentro.
Pessoas iguais a ela.
Pessoas iguais a ele.

O risco sobre a pálpebra direita está meio esborratado, foi da pressa, claro, mas está no céu quem inventou os cottonettes, pensa, enquanto rapidamente tudo se recompõe.
Escolhe os brincos, tem quatro caixas cheias deles, diferentes para cada estação do ano, mais compridos para quando é verão e tem o cabelo curto, mais curtos para quando é inverno, e não dá jeito andar a correr à chuva com aquela coisa toda a chocalhar e a prender-se no cachecol ou nas golas altas das camisolas.

Ele deve estar a chegar.

De repente lembra-se que lhe devia ter pedido que não trouxesse a mota.
Por uma vez na vida, que viesse de carro.
Claro que ela também gosta da mota, não há melhor sensação do que apanhar o vento pela cara, agarrada a ele pelas estradas a não sei quantos à hora, mas o seu espírito motard não é tão furioso como o dele e, de vez em quando, sabe-lhe bem vestir saia rodada, daquelas até aos pés, daquele linho indiano enrugado que não é preciso engomar e se torce todo na secagem.

Mas saias e mota é que não jogam mesmo nada.
Por isso se calhar o melhor é jogar pelo seguro e optar pelas calças, jeans desbotados que já viram melhores dias, mas agora são todos assim, nem se nota quando são novos ou velhos.
Ainda não chegou ao cúmulo de pegar numas tesouras e fazer cortes pelas pernas abaixo, e deixar aquilo a desfiar-se, apesar de tudo ainda lhe faz alguma confusão pagar uma pipa de massa para ficar com ar de sem-abrigo.

Escolhe a t-shirt apropriada, de manga comprida porque ainda não faz muito calor, e em cima da mota a não sei quantos à hora, o frio é sempre de acautelar.
Esteve para vestir a que diz “Aleluia! Encontrei Jesus! Estava no balneário do Benfica!”, que encomendou pela net num dia em que o Sporting levara uma goleada — mas desiste, sabe lá quem vão encontrar pelo caminho, e as pessoas agora ofendem-se por tudo.
“Andam muito chocadiças”, como lhe diz a empregada.
Opta por uma que não desperta paixões clubísticas, “Não sou grega mas também estou falida”, e que até mostra o seu interesse pela actual conjuntura política. Motards, mas a par do que se passa.
Ouve o ronco do motor a aproximar-se. Ainda bem que se decidira pelas calças.
Pela janela acena-lhe, vê que ele traz o pendura do costume, e fica contente a pensar que sempre é uma boa companhia.
Também fica contente por ele trazer o lenço de riscado vermelho atado à cabeça, uma vez que a sua t-shirt é de fundo vermelho e assim sempre vão ambos a condizer.
Abre a porta ao miúdo, que resmunga uma coisa parecida com bom dia e se enfia pelo corredor.
Deita as chaves de casa para dentro de um bolso das calças, o telemóvel e o cartão multibanco para o outro, de nada mais precisa para a sua liberdade absoluta.
Ele ri-se a ler a t-shirt, ela enfia o capacete, e num momento desaparecem ao fundo da rua.
Em casa, os dois netos só têm um pouco de receio do que os vizinhos possam comentar.

In ‘ACTIVA’ de Abril 2010

sábado, 27 de março de 2010

BOMBAS NO TEJO, BISPOS EM LISBOA

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

ISTO não anda bem.

A Rosa que, nos intervalos da paixão impossível pelo Dr. António José, namora com o Alfredo, que é marçano e todos os dias carrega com as compras da mercearia até nossa casa, contou que ele lhe disse que tinham sido deitadas ao Tejo uma data de cestos cheios de bombas, daquelas que as pessoas fazem em casa.

- Se calhar alguém os avisou que tinham sido denunciados à polícia e resolveram desfazer-se delas--disse a minha mãe.

- E o Alfredo também disse que há cestos cheios delas enterrados nas hortas…
- Que perigo! – murmurou a minha mãe.
- É por isso que aos domingos nunca mais fomos passear às hortas — disse a Rosa.

A Rosa tem a tarde de domingo livre, de quinze em quinze dias, e sempre na condição de voltar para nossa casa a tempo de fazer o jantar.
A minha avó até acha que é descanso a mais, e que há muitas casas que nem isso dão às criadas.

- Coitada…- diz sempre a minha mãe — farta-se de trabalhar!
- Farta-se é de mandriar! — diz a minha avó, para quem os outros nunca trabalham o suficiente.

Ontem ao jantar, o meu pai deixou escapar:

- Isto está por pouco.

A minha mãe ficou muito pálida:

- Pelo amor de Deus, Fernando!, diga-me que não está metido em nada!

A Rosa foi a correr fazer chá de tília, enquanto o meu pai tentava sossegá-la:

- Tenha calma! Já sabe que, no seu estado, não se pode enervar!

Eu ia perguntar em que estado é que a minha mãe se encontrava (no colégio ensinavam-nos o estado sólido, o líquido e o gasoso, mas parecia-me que não era desses estados que o meu pai falava) quando a minha avó desatou a gritar, que eu até saltei na cadeira:

- Não se pode enervar, não se pode enervar, isso é tudo muito bonito, mas como é que uma pessoa não se há-de enervar, quando andam para aí esses maçónicos, e mais esses anarquistas, que devem ter feito pacto com o diabo, por isso é que todos os bispos do país se reuniram há dias aqui em Lisboa, o de Braga, o de Évora, o do Coimbra, o do Porto, o da Guarda, todos, senhor meu genro, olhe que não faltou nem um!, nunca me lembro de uma coisa assim ter acontecido! Ora para os bispos se juntarem aqui todos, eles que devem ter tanto trabalho, coitadinhos, é porque temem pela salvação das nossas almas, é porque a coisa é mesmo séria!
Ninguém lhe respondeu, e ela acabou por se levantar da mesa e ir para o quarto.
- Mais umas rezas a São Expedito, a ver se ajuda os bispos a salvarem as nossas almas…- disse o meu pai, tentando sorrir.

Nestes últimos tempos, a minha mãe repetia muito essa frase: “diga-me que não está metido em nada”. Mas o meu pai desviava sempre a conversa e nunca respondia.
Mas, desta vez, deu-lhe um beijo na testa e disse:

- Quanto menos souberem, melhor para todos!

Se a Rosa não tem chegado nesse instante com o chá de tília, acho que a minha mãe tinha desmaiado logo ali.

- Ao menos prometa que tem muito cuidado!
- Prometo — disse o meu pai – Sabe bem que os republicanos não são loucos!

E ficaram em silêncio.
Só espero que S. Expedito, para além de ajudar os bispos, também dê uma ajudinha aos republicanos.

«JN» de 27 Mar 10

quarta-feira, 24 de março de 2010

Erros de ‘casting’

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Por Catarina Fonseca

NÃO, NÃO TEM NADA a ver com o cinema. Ou melhor, tem a ver com o ‘filme’ da nossa vida. Sabe aquelas pessoas que achámos fantásticas e depois percebemos que não eram o que esperávamos? Cá ficam algumas desilusões por que quase todas passámos.

Afinal, as nossas primeiras impressões nem sempre são muito apuradas. Enganámo-nos, por exemplo, nas seguintes:

- A Mulher a Dias Tradicional

Situação: Ao fim de uns meses a jurar que conseguíamos fazer tudo sozinhas, era o que faltava, naquela casa nunca entraria mão alheia, ao fim de sonharmos anos e anos que, no dia em que tivéssemos casa nova, ela ia cheirar a cera e a maçãs, a realidade cai-nos em cima com todo o seu peso de realidade (costuma ser muito). Não só não conseguimos fazer tudo sozinhas como a casa, se cheira a alguma coisa, é aos ténis do Paulinho e a porcaria entranhada, nada que lembre remotamente cera ou maçãs.

Sonho: Ao fim de muitas investigações, decidimos contratar a Odete. A Odete é a mulher da nossa vida. A Odete tem a cara e o aspecto que tinham todas as empregadas dos filmes, e só não anda fardada porque, enfim, já era um bocadinho demais. Mas quando chega a casa e vê a roupa lavada, tem vontade de beijar a Odete na boca.

Realidade: Ao fim de uns dias, a roupa demora um bocado mais a ser lavada. Há bolinhas de cotão por todos os cantos. A Odete deu em fiscalizar a sua vida e torce os cantos da boca de cada vez que você lhe diz. Ó D. Odete, por favor não me arrume os cds que eu gosto de os ter espalhados. No dia seguinte, os CDs estão outra vez empilhadinhos e você já não sabe onde tem nada. A Odete queima-lhe equipamentos de ginástica à velocidade da luz, porque ainda não percebeu que há certas coisas que não gostam de ferro. A Odete acha que você é uma galdéria que não sabe o que a vida custa a ganhar e de certeza que lhe roga pragas pelas costas e põe sal atrás das portas.

- A Vizinha Simpática

Situação: Você acaba de se mudar para uma casa nova onde não conhece ninguém. Não sabe a que porta bater se o telemóvel pifar, o cão tiver um ataque de histeria ou entrar uma barata pelo cano do lava-loiças. Sente-se uma alma desamparada num caixote com muitas gavetas, e amaldiçoa o dia em que decidiu ser independente.

Sonho: Nos filmes a malta tem sempre um vizinho louro e simpático e incompreensivelmente solteiro, apesar de ser louro, simpático e com casa própria. A malta vai-lhe bater à porta porque precisa de um ovo e no episódio seguinte já estão enroladinhos à lareira a escolher o nome dos filhos.

Realidade: Ao fim de um tempo, faz finalmente amizade com a D. Albertina, do 5º esquerdo. Desvantagem: a D. Albertina é como os rotweillers, quando ferra não larga. A D. Albertina faz-lhe esperas para lhe contar a sua vidinha de uma ponta à outra, do filho que casou e foi para a Suíça e partir daí nunca mais ninguém o viu, até ao primo Anacleto que era tão bom rapazinho e coleccionava escaravelhos e veja lá, deu em drogado, ‘então e a menina, tem namorado? Ah não? Porquê? Olhe que essas coisas não se podem arrastar, olhe depois chega aos 40 e não encontra homem que a queira.’ Ainda por cima, arrasta cómodas corredor fora até às 4 da manhã (deve ser promessa, porque ninguém tem assim tanta cómoda para arrastar) ou depois ouve o Frei Hermano da Cãmara até às 4, porque tem insónias e é surda.

- A Companheira de Viagem

Situação: De repente, apeteceu-lhe tirar uns dias só para si. Uns dias para ir a algum sítio onde a mão do Homem nunca pôs o pé. Ou enfim, a qualquer sítio mais exótico que Cascais. Problema: detesta viajar sozinha, e o Paulinho avisou logo que nos meses mais próximos não podia tirar dias nenhuns porque o chefe andava maldisposto e quando o chefe anda maldisposto, não se lhe pode pedir nem um pacote de açúcar.

Sonho: Decide investigar qual das suas amigas terá um chefe mais bem-disposto que a deixe tirar uns dias para vir a algum sítio mais exótico que Cascais. Encontra a Joaninha, que é um amor de pessoa e sempre teve o sonho de ir a Pequim.

Realidade: Percebe imediatamente que a Joaninha não tem a noção de onde fica Pequim. O avião inda vai no ar há 12 minutos e já ela refila que tem pavor de aviões e que um ministro famoso morreu de tromboflebite numa viagem a não sei onde. Depois quer sempre ir à janela. Protesta que a comida nos aviões é de plástico. Chateia a hospedeira porque precisa de uma manta, depois porque a manta tem muito pêlo e depois porque afinal não quer a manta que deve estar atochadinha de ácaros. Quando chegam, fica de trombas porque está a chover, depois porque na China só falam chinês, são uns ignorantes, depois porque o hotel não é nada como nos folhetos, depois porque o guia cheira mal dos pés, os nativos são todos iguais, e a comida não é nada como no ‘Dragão do Oriente’ lá ao pé de casa dela. Quando a viagem chega ao fim, toda a gente jura que nunca irá mais longe que Cascais. Ou pelo menos, na companhia da Joaninha.

- A Instrutora Loura

Situação: Decide finalmente que desta é que é: vai perder aqueles quilos que a impedem de ser a Giselle Bundchen e vai descobrir finalmente onde é que ficam os trícepes. Enche-se de coragem e inscreve-se num ginásio. Compra um top que lhe deixa o umbigo à mostra, uns ténis daqueles com molas no calcanhar e apresenta-se assim fardadinha no primeiro dia de aulas, com a vaga sensação de não ter estudado a lição.

Sonho: Quando bota os olhos na instrutora, fica mais descansada. A rapariga deve ter metade da idade da sua filha, está vestida de cor de rosa dos pés à cabeça como uma bailarina de caixa de música, e também tem ténis com molas nos calcanhares, o que a deixa mais calma. Podia ir numa procissão mascarada de anjinho.

Realidade: O Anjinho avisa logo que não está ali para brincadeiras e quem quiser uma cena calminha pode iniciar-se no ponto cruz. Parece que baixou um Espírito do Mal que a leva a dizer as coisas mais anti-condizentes com alguém vestido de cor de rosa. Os outros têm todos cara de quem nunca fez ponto cruz na vida, nem qualquer outra ‘cena’ pró sossegado. O Anjinho já ligou a turbina, e o resto da turma tem um ar feroz como se fosse para o Afeganistão depois de amanhã. Dez minutos depois, você parece uma torneira humana. Pouco falta para malhar com as ossadas no chão. Só se lembra da Luísa Castel-Branco a dizer ‘Você é o elo mais fraco, adeus’. No dia seguinte, são precisas quatro tentativas para sair da cama. Doem-lhe todos os músculos, inclusive músculos que não sabia que tinha. Continua a não saber qual deles é o trícepes, mas de certeza que também lhe dói.

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CAIXA

Como prevenir desilusões
- Investigar bem se aquela é o tipo de pessoa que você procura.
- Não se deixar levar demasiado pela aparência.
- Conhecer-se a si própria: costuma julgar bem as pessoas à primeira vista ou não?
- Racionar o seu tempo: não gaste demasiado tempo de vida com pessoas de quem não gosta.

´"ACTIVA" - 2009

sábado, 20 de março de 2010

ISTO SÓ LÁ VAI COM UMA REVOLUÇÃO…

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Por Alice Vieira


Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

O MEU PAI anda preocupado.

“Isto só lá vai com uma revolução” — ouvi-o murmurar há dias.

E na livraria, onde entra muita gente que lá fica na conversa com ele, já ouvi muitos dizerem a mesma coisa.
Eu acho que em Portugal nunca houve uma revolução. Na escola falou-se de uma “revolução liberal” em 1820, muito importante porque deu ao país a primeira constituição — mas não é de uma revolução assim que eu falo.
É de uma mesmo a doer, como a francesa — que o meu pai me explicou muito bem depois daquele dia em que descobriu que eu não sabia quem era o Danton.
Ou como a americana, cheia de índios e cowboys e pradarias e desfiladeiros e muitos tiros e muito sangue.
Nem estou a ver, aqui em Lisboa, como é que se fazia uma revolução dessas.
Mas ultimamente não se fala de outra coisa.
Acho mesmo que as únicas pessoas que não devem falar disso são aqueles que moram nas Necessidades.
Porque, nestes últimos tempos, enquanto cá em casa o meu pai se preocupa, por lá tem sido um corrupio de festas e jantares e comemorações: no fim do mês, foi um grande banquete no Palácio com “as mais altas individualidades do Estado” (não sei quem sejam, mas devem ser todos muito importantes. Pelo menos, devem ser todos muito altos.); há três dias, foi uma grande festa desportiva no Quartel de Marinheiros; depois de amanhã entra no Tejo um navio russo e lá vai o rei almoçar a bordo; e ontem houve festa outra vez, porque o infante D. Afonso prestou juramento na Câmara dos Deputados como Príncipe Real.
Quer dizer: se houver outra cena de tiros como há dois anos e D. Manuel morrer, é ele o rei.
Tenho pena do D. Afonso, coitado, que nunca na vida deve ter pensado em ser Príncipe Real. Irmão de D. Carlos, deve ter suspirado de alívio assim que nasceram os sobrinhos: o trono estava garantido.
O atentado de há dois anos é que não estava nos seus projectos…

- Ao Arreda, quem o quiser ver feliz é dar-lhe um automóvel para as mãos…- disse o meu pai ontem ao jantar.

A minha avó ofendeu-se logo:

- Porque é que o senhor meu genro não se refere a Sua Alteza pelo seu nome, em vez de usar essa alcunha ordinária?
- Ordinária porquê? — exclamou o meu pai — Toda a gente sabe que de automóveis é que ele gosta! E todos o vêem por essas ruas de Lisboa, numa velocidade como se estivesse nalguma corrida, a berrar “arreda! arreda!” para as pessoas o deixarem passar! Estava a pedir a alcunha…

Eu não disse nada, mas fiquei cá a pensar que, se eu fosse o D. Afonso, a ter de carregar até ao fim da vida com o nome de (levei dois dias a sabê-lo de cor!) “Afonso Henrique Maria Luís Pedro de Alcântara Carlos Humberto Amadeu Fernando António Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis João Augusto Júlio Valfando Inácio de Saxe-Coburgo-Gota e Bragança” — havia de me sentir muito feliz por ter uma alcunha com uma palavra só.

quarta-feira, 17 de março de 2010

O que ainda falta inventar

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Por Catarina Fonseca

JÁ QUASE TUDO foi inventado, é certo, mas havia tantas coisas que nos fariam infinitamente felizes e nos transformariam a vida para sempre!

Aqui ficam apenas alguns exemplos de engenhocas que nos fariam imenso jeito.

Detector de Sacanas

- Situação: A gente está numa festa/’rave’/missa, de copo/pastilha/missal na mão, e de repente achega-se um qualquer e diz: ó Rita/minha/irmã, dá-me o teu telemóvel que te acho uma mulher inacreditável e nunca conheci ninguém como tu.
- Sem DS: A malta, esteja onde estiver e seja com que capacidades lhe sobrarem na altura, acredita instantaneamente que o tipo viu aquilo que ninguém mais viu: como você é uma pessoa absolutamente genial. Dá-lhe o seu telemóvel e fica três dias à espera que ele ligue. Ele não só não liga como sempre que a vê finge que não a conhece. Encontra-o na próxima festa/rave/missa a dizer a mesma coisa a outra.
- Com DS incorporado no seu, digamos, sutiâ: 1ª versão: Uma Voz que lhe lembra o Brad Pitt/Bob Marley/ Deus sai-lhe do peito e lembra-lhe todas as razões por que aquele não é o homem ideal para si. Infelizmente, a primeira versão do DS revelou-se completamente inútil porque a maioria das ‘informadas’ desligavam imediatamente o sensor e seguiam em frente assim mesmo. A segunda versão é constituída por um engenhoso sistema que liberta gás hilariante. A gente desata a rir na cara do tipo, mesmo que não queira, e depois é obrigada a ir à casa de banho lavar a cara. Quando volta, ele já lá não está, ou está com a autoestima de rastos, o que vai dar no mesmo.

Telecomando para os Miúdos

- Situação – O Manel quer andar de baloiço, a Maria também, o Manel prega uma galheta na Maria, a Maria desata a gritar e para animar a festa chega uma criança alheia que se senta no baloiço, caso em que o Manel e a Maria desatam os dois a gritar em coro.
- Sem TM – A pobre mãe tenta rever mentalmente todos os programas da Oprah com especialistas que ensinavam a lidar com crianças e todos os livros do Brazelton a informar que se deve deixar gritar os filhos. O Brazelton nunca deve ter tido filhos. Ou pelo menos, filhos que gritam.
- Com TM – Aponta-lhes o telecomando no botãozinho que diz ‘Birras’ na setinha do volume, e baixa-lhes o som. Depois carrega na setinha que diz ‘rewind’ até ao sítio onde se aproximou do baloiço, e leva-os rapidamente para o outro lado do parque sem nunca terem passado por baloiço nenhum. Aponta o comando à criança alheia, carrega em setinha que diz ‘Lot’ e transforma-a numa estátua de sal (pronto, está bem, num vendedor de gelados, que estátua de sal já está muito visto. Pensando melhor, é melhor não. Vendedor de gelados, em não se querendo comprar gelados, é ainda pior que um baloiço. É melhor transformá-lo numa amoroso caniche com as vacinas em dia, a que as crianças possam fazer festas). Aponta o comando ao baloiço e carrega na setinha que diz ‘Jorge’. O baloiço transforma-se imediatamente no George Clooney que a leva para o seu chalé no lago Como e se dedica a ser seu escravo sexual e a servir-lhe cafés como nomes de música clássica para o resto da vida.

Sapatos Inteligentes

- Situação – Tenta calçar aqueles sapatos de salto vertiginosamente alto/fino/finíssimo que viu na revista, onde lhe garantiam que lhe acrescentavam mais meio-metro de perna. De facto acrescentam, mas têm como efeito secundário que passa a vida a enterrar os stilettos entre as pedras da calçada portuguesa, que deve ter sido toda feita por calceteiros gay que odiavam profundamente as mulheres.
- Sem SI - No fim do dia, partindo do princípio que consegue chegar ao fim do dia, doem-lhe tanto os dedos dos pés que só se lembra das irmãs da Cinderela que tiveram de cortar os dedinhos para caberem no sapatinho de cristal. Começa a desconfiar que há qualquer coisa que todas as outras mulheres lhe estão a esconder. Quando regressa a casa aos esses pela calçada, esborracha-se nas pedras. Incapaz de se levantar, lá fica a ouvir uma velhota resmungar: “estas raparigas agora metem-se todas nas drogas e andam por aí aos caídos que é uma tristeza, gente tão nova”.
- Com SI - Os sapatos transformam-se automaticamente conforme a situação do dia. Quando sai de casa, são uns sólidos sapatos de caminhada. No local de trabalho, crescem automaticamente para 10 cm de salto se, e só se, se aproximar alguém que valha a pena (é favor não fazer analogias com outras coisas). Em estando a 10 m do ginásio, transformam-se em ténis fluorescentes com molas cor de rosa nos calcanhares e contador de calorias. Os modelos mais recentes incluem GPS e um DS incorporado, que a leva automaticamente para onde deve estar em qualquer momento da sua vida.

Instrutora de Moda

- Situação – A gente acorda verde como a princesa do Shrek, como é que ela se chamava, com vários quilos a mais como a princesa do Shrek, e o problema é que não podemos ir trabalhar com um vestido cor de rosa até aos pés. Queremos recordar a paleta de cores que nos fica bem, segundo lemos num artigo da Activa, e não conseguimos. Por qualquer razão, nada na gaveta/armário/chão nos grita: ‘veste-me e leva-me contigo para o trabalho!’.
- Sem IM – A gente apanha a primeira coisa que encontramos na gaveta/armário/chão, mesmo que não faça parte da nossa paleta, nem da paleta de qualquer outra pessoa, mesmo que nos faça gorda e nos transforme num clone da avó Emília e nos grite que nenhum homem à face da Terra gostaria de ser visto ao nosso lado num semáforo, quanto mais ao nosso lado num altar.
- Com IM – Quando acordamos, ligamos a Instrutora de Moda como ligamos o Esquentador. A Instrutora de Moda aparece no espelho como uma projecção holográfica da nossa melhor amiga, e diz-nos: “Olá, Sofia/Rita/Catarina, estás tão gira hoje! Eis como podes ficar ainda mais gira. Veste aquele top branco que juraste à tua mãezinha que nunca usarias, aquelas calças pretas que achas que nasceram para a mãe da Família Adams mas que fazem um rabo minúscuclo, ah, e onde pára o casaco cor de rosa, está na máquina há três semanas, não faz mal, podes vestir o azul, aquele que o teu ex te deu, ah, queimaste-o/ofereceste aos Emaús/aproveitaste para um esconjuro à luz do luar na Serra de Sintra, não faz mal, pronto, veste o kispo! Sim! O que tens desde o euro 94! 1894! Sim, o preto! Quero lá saber da tua paleta de cores!”

Escravo Holográfico

- Situação - O dia arrasta-se como se a força da gravidade fosse maior para nós do que para o resto do mundo. parece que andamos com botas de chumbo nos pés, como os prisioneiros daquelas prisões de alta segurança nos Estados Unidos. Só nos lembramos das penas para os condenados nos livros do Lucky Luke: 25462849 anos de trabalhos forçados. Carregamos compras. Levantamos pesos no ‘body pump’. Carregamos a criança. E o carrinho da criança. E a mala da infindável tralha de que a criança precisa. E depois, ainda temos que vestir e despir, que dá uma grande trabalheira!
- Sem EH – Desenvolvemos olheiras perpétuas, o Zé Manel começa a fazer olhinhos à Soraya que anda no body-attack de top cor de rosa que lhe acaba acima do esterno (não que ela saiba onde fica o esterno), o Luisinho traz uma mensagem da professora a dizer que é hiperactivo e disléxico e a culpa é nossa, vamos ao médico e ele encosta o estetoscótpio que é frio como as estepes da Ucrânia às nossas costeletas, manda inspirar e expirar, e diz: ‘o que a senhora tem é cansaço’.
- Com EH – Eis que entra em cena o, digamos em homenagem ao Natal, Rodolfo. O Rodolfo, é alto, espadaúdo, de olho azul e nunca diz: olha carrega tu os sacos que eu já levo aqui a grade de cerveja. O Rodolfo lava, aspira, puxa o lustro e pole as pratas sem um queixume, o Rodolfo levanta-se de noite quando o bebé chora e canta-lhe cantigas de embalar do Zeca Afonso, o Rodolfo vai connosco ao supermercado e carrega trinta packs de dez de leite meio-gordo, o Rodolfo programa do gravador de DVDs para todas as ‘Anatomias de Grey’ até ao ano 4000, o Rodolfo vai connosco ao ginásio e carrega a barra por nós, faz ele próprio 600 flexões e 516 abdominais e corre daqui até Cascais sem uma palavra de desespero, o Rodolfo acompanha-nos ao vestiário, veste-nos e despe-nos e maquilha-nos, depois leva-nos a casa e põe o banho a correr com sais cor de rosa e o patinho vibrador, enfia-nos na cama e dá-nos um beijo de boa noite e aconchega os lençóis e deita-se no chão, no tapete, depois de ter dito: ‘Até amanhã, Milady.’

Teletransporte

- Situação – Prometemos à tia Júlia que a íamos visitar ao, digamos, Texas, se ela prometesse votar no Obama. Problema: é preciso mudar de avião a meio, e antes de mudar de avião é preciso entrar nele, que dá uma grande trabalheira e por isso é que ainda não cumprimos a promessa desde que a tia Júlia ajudou a pôr o Obama lá onde ele está.
- Sem TT – Recorda-se demasiado tarde que os aviões que vão para a América nunca são o fofo ‘Pisco’ nem o, como é que ele se chama, ainda mais fofinho ‘Alexandre O’Neil’, são umas coisas gigantescas onde de certeza que vai escaqueirar o Galo de Barcelos gigante que comprou para a tia Júlia, e de certeza que o seu casaco vai acabar atochadinho de ácaros no meio de todos os outros casacos, as hospedeiras têm cara de pau e de certeza que sabem qualquer coisa que você não sabe, e ao seu lado acaba de se sentar um gajo trombudo e de barba preta com um ar muito enervado que tem ‘Atenção! Sou director-geral da Al-Caeda e pretendo fazer explodir todo este avião e respectivo conteúdo dentro de cinco minutos assim que sobrevoarmos o Fórum Picoas porque me prometeram 11 mil virgens!” escrito na testa. Tem vontade de lhe dizer que não há 11 mil virgens em todo o mundo. A não ser no Horóscopo. De certeza que ele não está a pensar no Horóscopo. Pensa se deve prevenir a hospedeira. E se ele será Escorpião.
- Com TT – Lembram-se do ‘Caminho das Estrelas’? Toda a gente teria um Teletransportador em casa, era como ter, sei lá, microondas, a gente casava-se e o sogro oferecia-nos o teletransportador, que se punha a um canto da casa de banho com o desumidificador apontado para não criar bolor. A gente era só pegar na mala e no Galo de Barcelos, abrir a porta do teletransportador, digitar a morada da tia Júlia e a quem queriámos que fosse avisado caso alguma coisa corresse mal na reagregação de moléculas (esoperam lá, isto é melhor não) e pimba. Meio segundo depois, estávamos na cozinha da tia Júlia, ou na lareira, caso fosse um daqueles teletransportadores comprados em saldo no Natal que só funciona de lareira em lareira e por isso foi muito baratinho.
Em resumo: resolvia-se a crise do petróleo, dos transportes, e dos cereais. Era a solução para o mundo! Quais energias renováveis!

´"ACTIVA" - 2009

segunda-feira, 15 de março de 2010

TARDE DE CHUVA

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Por Alice Vieira

EU TINHA PROMETIDO chegar cedo, muito antes da reunião, para podermos beber um café e dar-nos ao luxo de perder alguns minutos em amena, saudável, imprescindível cusquice.
Sempre fui de opinião que nada melhor do que meia hora a falar de coisa nenhuma, para depois se resolver tudo.
O meu contributo para a salvação do planeta é não ter automóvel, e sou feroz adepta de metro e autocarro.
Isto, evidentemente, quando não posso utilizar o meu meio de transporte preferido, a saber: as solas dos sapatos.
Mas convenhamos que não é o meio de transporte mais recomendável entre o Saldanha e Alfragide. (Eu sei que o Cesário Verde ia a pé da Baixa até Linda-a-Velha, mas morreu tuberculoso aos 30 anos, o que prova que nem sempre o exercício físico faz bem à saúde…)
Mas para chegar cedo, decidi enfiar-me num táxi, apanhado milagrosamente naquela tarde de chuva.
Entro, digo boa tarde, o nome da rua para onde vou, e oiço uma voz furiosa:
“Mas o que é que te passou pela cabeça?!”
Mal tenho tempo de me recompor e logo entendo que aquilo não é para mim, o taxista fala freneticamente ao telemóvel, faz-me um aceno de mão e de cabeça para que eu perceba que já sabe para onde eu quero ir—e lá nos pomos a caminho, com a voz dele sempre em música de fundo.
A conversa anima porque entretanto (“passa-lhe aí o telemóvel ”) entra na conversa um Senhor Doutor, a quem o taxista pede muitas desculpas, explicando que “ esse meu colega é meio passado dos carretos, e por isso é preciso a gente dar-lhe um certo desconto”
Mas enquanto ele está nestas explicações, toca outro telemóvel, e a voz dele amacia, oh como amacia!, e passa a dividir as atenções entre o Senhor Doutor (que já percebi tratar-se de um advogado) e o colega passado dos carretos (que já percebi tratar-se de um tonto prestes a embarcar na compra de um carro em 2ª mão) e a Xana ( que já percebi tratar-se da Xana, prometendo-lhe arroz de pato se ele passar lá por casa).
Tento dizer-lhe qual o melhor caminho para se fugir às obras a seguir a Sete Rios, mas o colega passado dos carretos insiste que o carro em 2ªmão está mesmo como novo, e ele volta a mandar passar o telemóvel ao Senhor Doutor, para ver se ele lhe põe alguma ordem nas ideias, “tá-se mesmo a ver que é um negócio da tanga, ele agora paga pouco mas depois é preciso motor, é preciso jantes, é preciso tudo!”.
E a Xana pergunta “mas tu estás a falar com quem?” e ele, ”nada, estou com um cliente”, e o cliente, que devo ser eu, desiste de lhe sugerir outro caminho porque entretanto, e como era de prever, caímos em plenas obras a seguir a Sete Rios.
A Xana cansa-se (“´pera aí, ó Xaninha!”) e desliga, mas logo há outro em linha, a perguntar-lhe se ele se esqueceu do cliente da Ribeira das Naus, “ó caraças, já não vou a tempo! vai lá tu, apanha o gajo e explica-lhe” --e desliga para logo ligar para outro número, “ó Sr. Vítor, vai aí um colega meu buscá-lo, que eu não posso, estou aqui numa encrenca dos diabos, acho que houve um acidente aqui na estrada, nem para trás nem para a frente!”, e do Sr. Vítor passa para o colega anterior, ”já falei com o gajo, dizes que vais da minha parte, que ele está à tua espera”, e desliga, e retoma a questão do Senhor Doutor e do colega passado dos carretos — e eu chego, exausta, ao meu destino.
Aponta-me o taxímetro, faz o troco - sem largar a conversa com o colega e com o Senhor Doutor.
Na empresa estranham o meu atraso e o meu ar cansado, a pedir sofregamente um café e uma aspirina.
E todos pensam que enlouqueci quando lhes digo que venho de um complicado negócio de venda de carros em segunda mão, que pelo caminho passei pela Ribeira das Naus — e que tudo me cheira a arroz de pato.

«ACTIVA» de Mar 10