sábado, 3 de julho de 2010

O MEU AMIGO AQUILINO

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Por Alice Vieira

O ALFREDO foi preso.
A Rosa chora dia e noite, sobretudo quando se lembra do Sr.Mateus, nosso vizinho preso já há meses e de quem nunca mais se ouviu falar.
O meu pai já lhe disse que o Sr.Mateus é diferente: foi apanhado a fazer uma bomba. Ao passo que o Alfredo foi levado num grupo de muitos, que tinham sido denunciados à Secreta, mas não havia bombas nenhumas.

- Além disso — explica ele — diz-se por aí que o Mateus fugiu para França.
- Ai, Sr. Fernando!, pela sua rica saúde, não me diga que o meu Alfredo vai fugir para França!

E a Rosa corre para a cozinha, enquanto o meu pai aproveita para dizer que os da Carbonária são todos uns inconscientes, sem cuidado nenhum, e por isso estão sempre a ser presos.

- Ouve o que te digo, Zé Joaquim: não é glória nenhuma ser preso! Devemos sempre ter inteligência suficiente para sabermos trocar-lhes as voltas! Glória é lutar por uma causa justa!

Claro que, se formos presos, temos de nos portar como verdadeiros homens, mas o nosso objectivo é prosseguir a luta cá fora!
Nestes últimos tempos, o meu pai fala sempre em jeito de comício.
E a propósito da fuga do Sr. Mateus, o meu pai recordou um amigo dele chamado Aquilino Ribeiro, que eu ainda me lembro de ver na livraria, que um dia foi apanhado a fazer explodir uma bomba, foi levado para a prisão, e há mais de dois anos desapareceu.

- Está em França. De vez em quando tenho notícias dele. E, se bem o conheço, de certeza que não está parado…

Eu gostava de ouvir este amigo do meu pai. Tinha uma fala engraçada, diferente da nossa.

- O Aquilino nasceu perto de Viseu, e os beirões falam “achim” — dizia o meu pai.

Estava sempre a conspirar e a fabricar bombas e a escrever coisas contra a monarquia.
E tinha paciência para mim.
Uma vez contou-me que até tinha inventado para si próprio um nome diferente, para poder escapar melhor.

- Sou Alberto Ramos. Já sabes. Só me tratas por Alberto Ramos, ouviste?

Alberto Ramos — para que a pessoa que lhe alugava o quarto, e a lavadeira que lhe tratava da roupa não desconfiassem de nada, ao verem as iniciais “A.R.”, que a mãe dele tinha bordado em toda a roupa…
Lembro-me um dia, estava-se no Carnaval, de ver o meu pai chegar a casa vermelho de fúria, a chamar-lhe louco varrido, inconsciente e mais não sei o quê.

- Mas que foi que ele fez? — perguntou a minha mãe.
- Nem vais acreditar…Imagina que aquela alma do diabo, procurado pela polícia em toda a parte, mascarou-se de dominó e foi pedir lume ao tenente-coronel Dias!!

O meu pai dava voltas à mesa da casa de jantar, tal era a fúria:

- Ao tenente-coronel Dias! O n.º 1 da polícia do reino!

Pouco depois dessa aventura, ouvi o meu pai dizer que ele tinha fugido para França — e nunca mais me lembrei dele a não ser agora, por causa do Alfredo.
Para além da prisão do Alfredo, a única coisa importante que aconteceu é que se marcaram eleições para dia 28 de Agosto.
Este ano é que o meu pai não vai pôr o pé na praia.
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«JN» de 2 Jul 10

sábado, 26 de junho de 2010

NOVO GOVERNO E NADA DE FÉRIAS…

Por Alice Vieira

ESTE FIM-DE-SEMANA traz toda a gente muito excitada.
Enfio-me no meu quarto e aproveito para escrever no meu diário.
(Há dias o meu pai disse-me que, daqui a uns anos, isto ainda vai ser um bom documento destes tempos. Nunca se sabe…)
Pois então lá temos outro governo. Desta vez, do ministro Teixeira de Sousa que, antes de vir para a política era médico em Trás os Montes - segundo o meu pai me disse. Acho que nunca o vi (ministro do reino é bicho que não frequenta a nossa livraria…), mas vi uma fotografia: velhote, como todos, de cabelo branco e grande bigode.
Desde que o rei andou aqueles dias todos por Inglaterra, as coisas por cá, se já estavam feias, mais feias ficaram, e nunca mais se recompuseram.
O chefe do governo dizia que não conseguia governar; o rei dizia-lhe que tivesse calma, muita calma (isto devia ele ter ouvido em Inglaterra: a minha mãe está sempre a dizer que os ingleses têm imensa calma, muito mais calma do que nós…); os partidos não se entendiam; a Polícia cada vez fazia mais prisões; e depois de muita confusão, lá se foi o outro governo e lá veio este.
Que não deve durar muito, pois já se fala em fazer eleições no mês de Agosto…
(Se calhar nem valia muito a pena tomar nota aqui do nome deste ministro, que não deve aquecer o lugar, mas como o meu pai diz que este diário ainda pode ser um bom documento, tenho de aqui assentar tudo.)
Também ouvi dizer que o governo é formado por mais seis ministros e que já há quem lhes chame “os sete satanazes”…

- Que país este, santo Deus, onde tudo tem alcunhas! — protestou a minha avó.

Para dizer a verdade não me preocupam muito as alcunhas, nem o novo governo, nem os novos ministros.
O que verdadeiramente me preocupa é que este ano ainda não ouvi ninguém falar das férias de verão.
Em anos normais, a esta hora já a minha mãe estava a organizar tudo para partirmos para a praia de Pedrouços.
A D. Etelvina vinha para nossa casa todas as tardes para arranjar a nossa roupa, deitar bainhas abaixo, alargar e apertar saias, pôr em ordem a roupa de mesa e de cama, essas coisas que é sempre preciso levar quando se vai de férias.
Todos os anos passamos as férias no Chalet Gonçalves, em frente da Drogaria Gonçalves. Pertencia tudo ao Sr. Gonçalves, que era amigo do meu avô, e que já morreu. Agora pertence tudo à D. Bebiana, que é a viúva.
Desde sempre que me lembro de alugarmos a casa para toda a temporada de verão.
Umas semanas antes, a minha mãe ia com a Rosa abrir as janelas, levar já algumas malas, e pedir à D. Bebiana para arranjar duas raparigas que pudessem ir lá para casa servir durante esses meses, porque a Rosa sozinha não dava conta do recado.
Depois mudávamo-nos todos para lá - menos o meu pai, que só ia ao fim de semana, porque não podia fechar a livraria.
Mas este ano, ou por causa da república, ou por causa do meu irmão, ainda ninguém começou a falar em férias.
E isto, sinceramente, isto é que verdadeiramente me preocupa.
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«JN» de 26 Jun 10

sábado, 19 de junho de 2010

PÃO COM SERRADURA

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Por Alice Vieira


Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

QUANDO EU ERA PEQUENO, pensava que o meu pai conhecia o mundo inteiro.
É claro que neste momento já tenho outra ideia do mundo mas, mesmo assim ainda fico admirado com a quantidade de gente que ele conhece.
Ouço-o falar de Miguel Bombarda, Machado Santos, Cândido dos Reis, Magalhães Lima e sei que um dia, quando vier a República, vão ser todos pessoas muito importantes.
Muitos são clientes habituais da livraria, ou fazem da livraria o seu lugar de conversa, ou encontram-se na Brasileira, ou vão ler as notícias do mundo enviadas pela Agência Havas que a Havaneza afixa, ou fazem por não perder um sarau do São Carlos. (Há mesmo quem assegure que são melhores as conspirações que se tramam entre as quatro paredes do São Carlos do que as óperas que lá se ouvem…)
Há mesmo um grupo de amigos do meu pai que anda pelo estrangeiro a pedir apoios para quando a revolução rebentar a sério.
Mas enquanto não rebenta, o governo não se entende.
Quer dizer, o governo nunca se entende.
Basta dizer que, desde que D. Manuel é rei, este já é o quinto governo do país. E, pelos vistos, já outro se anuncia para breve.

- Casa onde não há pão…- murmura a minha avó.

O que até vem a propósito, pois parece que até com o pão tem havido sarilhos.
Ouvi o meu pai falar disso à mesa.
Dizia ele que, como há falta de cereais, o pão fica muito caro.
(E aí aproveitou logo para exclamar, com voz de comício:

- Uma das primeiras medidas da República será fazer descer o preço do pão!)

E então, para as pessoas o poderem comprar, (“se as pessoas não comerem pão o que é que elas vão comer, com a miséria que vai por aí?”, murmura a minha mãe) ele é posto à venda abaixo do seu preço real de produção.
E então os produtores, para ver se podem lucrar mais qualquer coisita, vá de misturarem a farinha com serradura, cal e gesso!
E sei que os problemas não se ficam por aí: ontem a Rosa contou que o Alfredo lhe tinha contado que os moços de padeiros estavam em greve. E que o governo tinha mandado o exército dar serventia às padarias!

- Bem me parecia que o pão tem andado com um gosto estranho…-- disse a minha avó, metendo o dente na terceira torrada.
- Só a revolução nos pode salvar…- murmurou o meu pai.
- Muito gosta o senhor meu genro de falar em revoluções…. — disse a minha avó—Toda a gente sabe que uma revolução é um acto condenável, que vai sempre contra a ordem, contra a religião…

(A minha avó, quando quer, também tem voz de comício, mas de comício de sacristia…)
Então o meu pai aclarou a voz e disse:

- “As revoluções não são factos que se aplaudam ou se condenem. São factos fatais. Têm de vir “
- Quem é que disse isso? Algum dos seus irmãos maçons?
- Não. Por muito que lhe custe ouvir, quem disse isto foi o Eça de Queiroz.

Com uma força inaudita, a minha avó ferrou o dente na quarta torrada. Mesmo que tivesse serradura, gesso ou cal, ela tê-la-ia trincado da mesma maneira.

«JN» de 19 Jun 10

sábado, 12 de junho de 2010

O DIA DE CAMÕES

Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

DESDE QUE EU ME LEMBRO de ser gente que o dia 10 de Junho se festeja cá em casa.
Se calha a dia de semana, festeja-se mais tarde porque o meu pai tem de fechar a livraria e eu tenho de chegar do colégio.
Se calha a um domingo, festeja-se mais cedo, assim que a minha avó e a minha mãe chegam da missa.
Vamos todos até ao Chiado, bem junto da estátua, e o meu pai recorda a vida do poeta: as privações por que passou, a perda de um olho (nesse momento a minha avó murmura “ai coitadinho…”), o naufrágio (nesse momento a minha mãe murmura “ai, Dinamene!...”), e o regresso à pátria – e nesse momento eu murmuro “ cá vou eu…” porque já sei que é a altura de o meu pai apontar para as estátuas que rodeiam, cá em baixo, a figura do poeta lá no cimo, e perguntar:

- Zé Joaquim, quem são estes?

Com o treino destes anos todos, já os conheço de cor:

- Fernão Lopes, Pedro Nunes, Gomes Eanes de Zurara, João de Barros, Fernão Lopes de Castanheda, Vasco Mouzinho de Quevedo…

(Neste momento faço uma ligeira pausa porque já sei que é aqui que o meu pai murmura: “completamente esquecido e tantas vezes considerado um segundo Camões…Injustiças desta vida…” – e termino:)

- …Jerónimo Corte-Real, e Francisco Sá de Meneses.

O meu pai fica feliz, e regressamos a casa, não sem antes termos passado pela livraria, para vermos a beleza da montra: um busto de Camões, e várias edições de “Os Lusíadas”, acompanhadas de edições de “A Fome de Camões”, de Gomes Leal, “Camões” de Almeida Garrett e “Camões” de António Feliciano de Castilho –livros que eu todos os anos morro de medo que o meu pai se lembre de me mandar ler. Até agora, felizmente, tenho escapado.
Depois ao jantar o meu pai recorda os grandes festejos do terceiro centenário — as luzes, o cortejo, os barcos no rio — e remata:

- Eu tinha 16 anos, e marcou-me para a vida.

Nesse momento sabemos que a evocação está terminada, e a vida volta ao normal.
O meu pai está sempre a dizer que é uma vergonha o10 de Junho não ser feriado.
(De resto, eu acho que é uma vergonha os dias todos não serem feriados, porque em todos eles deve ter acontecido qualquer coisa de extraordinário ao longo destes 1910 anos…)
E acrescenta:

- Claro que se fosse um santo tinha direito a isso e a muito mais…É ver o que acontece com o Santo António!...

Aí eu já não digo nada, porque no dia de Santo António vou sempre com a Rosa e o Alfredo aos arraiais de Alfama. Comem-se sardinhas, há muita música, e gosto de ver os tronos.
O Alfredo, que sabe muitas coisas, já me contou que este hábito de fazer os tronos e pedir uma moedinha para o santo vem de muito longe, do ano de 1755, quando um grande terramoto destruiu Lisboa. Esta foi então uma das maneiras que o povo encontrou de arranjar dinheiro para a reconstrução da cidade.
Fico a pensar que se o povo se lembrasse de fazer tronos de Santo António para arranjar dinheiro para a revolução, se calhar a República já cá estava.
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«JN» de 12 Jun 10

sábado, 5 de junho de 2010

O CENTENÁRIO DA ARGENTINA

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Por Alice Vieira


Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

POR TODA A PARTE se ouve falar da república e de conspirações. Pelo que ouço, toda a gente conspira. E toda a gente sabe que toda a gente conspira!
Acho mesmo que só o rei é que não sabe.
Um dia acorda, e tem uma grande surpresa, olá se tem.
Mas enquanto não acorda, anda nas festas do costume. Esta semana, por exemplo, festeja-se o centenário da Argentina.

A Argentina era uma colónia espanhola mas, depois de muitas lutas, conseguiu ser país independente — e republicano!
Quando penso que Portugal já é independente há quase oitocentos anos, fico espantado por haver países que são independentes há tão pouco tempo!
Segundo conta o meu pai, as coisas na Argentina andam complicadas (pelos vistos a república não resolve tudo…) e estes festejos, que têm carácter internacional, são mais para fazer esquecer o que verdadeiramente lá se passa.
Mas, apesar disso, lá fez a montra da livraria a chamar a atenção das pessoas para o acontecimento.
Só que em vez de pôr a fotografia do presidente (que passou esta semana por Lisboa, numa visita relâmpago, apenas o tempo de ir cumprimentar o rei e as rainhas ás Necessidades) pôs fotografias de heróis argentinos — e heróis, felizmente, todos os países têm.
A Argentina tem Simon Bolívar e José de San Martín.

No colégio, a propósito destas comemorações, aprendemos a sua história, as suas lutas, e como dedicaram a vida a libertar todos os povos do poder de Espanha, e saímos todos para a rua a berrar “liberdade ou morte!”
Ao lado dos retratos dos heróis o meu pai colocou ainda uma placa, onde ele próprio tinha escrito em letra desenhada, uma frase de Bolívar num dos seus primeiros discursos:

................“Juro pelo deus de meus pais
................Juro por eles
................Juro pela minha honra
................Juro pela minha pátria
................- que não darei descanso ao meu braço nem repouso à minha alma até ter conseguido quebrar as grilhetas que subjugam os nossos povos ao poder espanhol.”

Mas para não se dizer que não falava de livros — sempre era a montra de uma livraria… - colocou em lugar de destaque uma obra - “El Gaúcho Martin Fierro” e “La Volta de Martin Fierro” - de um poeta argentino chamado José Hernández.
O meu pai diz que se trata do livro mais importante da literatura argentina, que fala das lutas de gaúchos (uma espécie de cowboys) e de índios, dos combates pela terra quando começou a construção das linhas de caminho de ferro, a luta pelo domínio das pampas (uma espécie de pradaria) e contra a exploração.

- Uma espécie de “D.Quixote” — diz ele.

Eu não quero desdizê-lo mas parece-me mais uma espécie de Texas Jack-- mas com a desvantagem de ser em espanhol, em verso, e em dois volumes…
Fora isto, foi uma semana pacífica: está a decorrer o Concurso Hípico Internacional (lá vai o rei a todas as provas…), a minha mãe ainda não estreou a máquina de costura nova, e a casa toda cheira a Heno de Pravia.

«JN» de 5 Jun 10

sábado, 29 de maio de 2010

A MINHA MÃE FEZ ANOS

Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

A MINHA MÃE fez anos ontem.
Vieram bolinhos de amêndoa e rebuçados de ovo da Confeitaria Nacional, o meu pai foi a Belém comprar pastéis, tirou-se a loiça de Vista Alegre do aparador e, na véspera, a Rosa gastou uma embalagem inteira de Pomada Amor a arear as pratas, para tudo ficar reluzente.
Veio pouca gente, para ela não se cansar: as vizinhas de baixo, e a Dra. Adelaide Cabete, que é médica da minha mãe.
A Dra. Adelaide, como diz a minha avó, que não morre de amores por ela, “enche uma casa”. E quando está muito bem disposta, até canta modas alentejanas, dos seus tempos de juventude em Elvas.
Tempos bem difíceis, segundo o meu pai já me contou: trabalhou na apanha da ameixa até muito tarde, foi criada de servir, até que casou e o marido empurrou-a para os estudos, apesar de todas as dificuldades.
Já a ouvi contar que esfregou muitas vezes o chão com o livro de anatomia ao pé do balde, para ir decorando o que era preciso.
Por isso é agora uma grande médica. (“E uma grande republicana!”, acrescenta logo o meu pai).
Por isso ontem, de repente, virou-se para a Rosa e disse-lhe que o melhor que ela tinha a fazer era estudar, mas estudar mesmo a sério, para vir a ser uma mulher “ daquelas de que a República precisa”.

- Sei ler e escrever! — disse a Rosa.
- Foi a minha filha que fez essa caridade… — exclamou logo a minha avó.

Para a minha avó, todo o bem que fazemos aos outros em geral e à Rosa em particular - é sempre por caridade.
Esqueceu-se foi de contar como barafustava de cada vez que a Rosa largava a cozinha para se sentar ao lado da minha mãe, diante dos livros.

- É muito bom mas não chega — continuou a Dra. Adelaide – é preciso ir para uma escola, tirar um curso, ter opinião…
- Opinião tem ela que chegue… - murmurou a minha avó que, para rematar a conversa, propôs que se passasse à sala para verem os presentes que a minha mãe tinha recebido.

Este ano a minha mãe não teve sorte nenhuma com os presentes: só recebeu coisas para o meu irmão!
Até o meu pai! Quando eu esperava que ele lhe oferecesse uma salva de prata da Casa Leitão (que é sempre o que ele lhe dá em datas festivas) — dá-lhe uma máquina de costura! Uma enorme máquina Pfaff, daquelas que custam sete mil reis e vêm anunciadas em todos os jornais como a maior maravilha.
Pode ser uma maravilha — mas é uma maravilha que vai dar muito trabalho à minha mãe !
Para além disso - casaquinhos, babeiros, cueiros, chambres, toucas, até parecia a montra do Eduardo Martins!
Para ela mesmo só recebeu um frasco de “Heno de Pravia”, que é um perfume que agora se vende em Espanha, oferta da vizinha Henriqueta, que veio há dias de Badajoz.
***
(Ah, é verdade: o rei já voltou. Levou 11 dias a ver a coroação do rei de Inglaterra — mas lá voltou…Não sei se terá feito muita falta, eu cá não dei por nada.)

«JN» de 29 Mai 10

quarta-feira, 26 de maio de 2010

AS NÃO-NOTÍCIAS

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Por Alice Vieira

ÀS VEZES ainda costumo guardar recortes de jornais. Hábitos que ficam…
Eu sei que hoje já poucos lêem jornais.
Jornais a sério, quero eu dizer.
Jornais — para utilizar uma expressão muito na moda e que eu detesto — “em suporte papel”.
Hoje quase toda a gente clica e lê na net — o que não tem nada a ver com o prazer que dá a leitura de um jornal — até porque se perde muita coisa.
E acabei de recortar uma notícia que me apareceu hoje nas páginas centrais do “Diário de Notícias”.
Porque estava muito bem escrita?
Porque era extremamente importante?
Porque era algum acontecimento a que eu não queria faltar?
Nada disso.
Pura e simplesmente porque era…uma não-notícia.
E é terrível a frequência com que hoje os jornais se enchem de não-notícias.
Os jornais, onde nunca há espaço, por exemplo, para noticiar coisas de cultura, encontram sempre espaço para noticiar o que não interessa a ninguém.
Uma vez estive uma semana no Funchal, integrada numa semana cultural de uma escola. Uma semana em que tinha havido exposições, debates, encontros com autores, etc, etc. Nunca a televisão se lembrou de ir ver o que lá se passava. Uma noite, um grupo de vândalos à solta lembrou-se de partir uma data de vidros da escola. Resultado: logo de manhãzinha a televisão já lá estava.
Mas vamos lá à tal notícia que ocupava hoje espaço no “Diário de Notícias”.
Então a história era esta: a mulher de Tony Blair estava de manhã em casa a fazer torradas, e esturrou uma torrada. Vai daí, o alarme lá de casa tocou e, alguns momentos depois, apareceram os bombeiros, pensando que havia fogo. A senhora agradeceu, disse que não era preciso nada, e eles foram-se embora.
Pronto.
A história é esta.
E é isto que é importante para o jornal! Que até ilustra a notícia com… uma fotografia do Tony Blair, coitado, que nem entra na anedota…
E eu pergunto-me o que é que esta notícia nos traz assim de tão importante…
Que a mulher do Tony Blair é uma naba a fazer torradas?
Que o alarme da casa deles funciona bem?
Que os bombeiros ingleses respondem às chamadas?
Que o Tony Blair saiu sem tomar o pequeno almoço?
É que realmente não consigo mesmo atinar.
Porque isto, evidentemente, é uma não-notícia. E para as não-notícias há sempre espaço. Para as outras é que nem tanto…
Aqui há meses, a Câmara de Lisboa assinou um protocolo com a Casa Fernando Pessoa.
Um protocolo importante, claro.
Tão importante que a directora da Casa Fernando Pessoa, a escritora Inês Pedrosa, decidiu lá organizar um concerto, trazendo a Lisboa um dos maiores intérpretes de Fernando Pessoa : o cantor e compositor italiano Mariano Deidda.
Mariano Deidda tem dedicado grande parte da sua vida a musicar, a cantar e a divulgar a poesia de Fernando Pessoa, tem CD’s gravados (que é quase impossível encontrar à venda por cá…) já fez espectáculos no CCB e no Teatro Nacional. (Já agora, quem estiver interessado procure no Youtube que encontra)
Ter Mariano Deidda na Casa Fernando Pessoa era um privilégio.
E foi, de facto, um privilégio assistir àquele concerto.
Uma amiga minha jornalista estava lá, para fazer a reportagem para o jornal onde trabalha (não, não era o” Diário de Notícias”, para que conste)
Assistiu à assinatura do protocolo, falou com o presidente da Câmara, com a directora da Casa Fernando Pessoa, com Mariano Deidda, e assistiu ao concerto.
Tudo como lhe competia.
Tudo o que qualquer jornalista faria.
No dia seguinte, ao abrir o jornal onde a minha amiga trabalha, encontro uma fotografia do Presidente da Câmara a assinar o protocolo, e meia dúzia de linhas a explicar de que protocolo se tratava.
Mais nada.
Nem sequer a menção de que, a seguir, tinha havido um extraordinário concerto de um dos maiores intérpretes de Fernando Pessoa, que se tinha deslocado de Itália a Lisboa para dar este único espectáculo.
Nem uma palavra.
A minha amiga nem conseguia falar direito quando me ligou, a explicar que todo o resto da reportagem lhe tinha sido cortada porque, segundo quem manda no jornal onde ela trabalha, essas coisas culturais não têm importância nenhuma.
Apesar de tudo, quero crer que ainda há jornais onde a cultura tem algum espaço. Cada vez mais reduzido, é certo, e com um conceito de cultura cada vez mais duvidoso — mas pronto, ainda dão algum espaço a estas coisas.
Mas, para a maioria, se calhar o que é mesmo, mesmo importante, aquilo que toda a gente tem mesmo, mesmo de saber, é que a mulher do Tony Blair deixou esturrar as torradas e que, apesar disso, não aconteceu nada.
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AUDÁCIA de Maio 2010

sábado, 22 de maio de 2010

... E O MUNDO CONTINUA!

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

AFINAL O COMETA chegou, e não aconteceu nada!
O dia 18, que muita gente dizia ser o fim do mundo, foi uma quarta feira igual a todas.
Devo mesmo dizer que foi um dia particularmente calmo, sem bombas, sem rusgas, sem prisões - pelo menos que eu desse por isso.
O meu pai saiu à hora do costume para abrir a livraria, avisando que não esperássemos por ele para jantar, porque possivelmente ia até S. Pedro de Alcântara ou até ao monte de S.Gens, os melhores lugares da cidade para se ver a passagem do fenómeno.
A minha mãe ainda pensou em ir com ele mas depois teve medo que aquilo deitasse para muito tarde — os cometas nunca têm hora certa de chegar… - e a médica está sempre a dizer-lhe que agora tem de dormir muito.
A minha avó passou o dia todo a rezar a Sto. Expedito, e a Rosa andou sempre com a garrafa de oxigénio dentro do bolso do avental.
Eu tive as aulas do costume, e às quatro horas já estava em casa.
Até ao fim do dia ainda esperei que acontecesse qualquer coisa, mas às dez da noite estava tão cheio de sono que caí na cama e só acordei na manhã seguinte.
Ao pequeno almoço o meu pai contou que no alto de S. Pedro de Alcântara se tinha visto um clarão no céu lá pelas duas da madrugada — e mais nada.
Deste fim do mundo já nos livrámos.
É claro que o meu pai não perde nenhuma oportunidade para fazer um discurso — e lá foi dizendo, entre dois goles de café com leite, que os cometas, quando aparecem, são sempre sinais de grandes mudanças.

- Desgraças! – murmurou a minha avó
- Mudanças, senhora minha sogra — emendou ele — eu disse “mudanças”! Não tenho dúvidas nenhumas de que este irá ficar conhecido como “o cometa da República”, porque também não tenho dúvidas nenhumas de que a monarquia está por um fio…Atentai no que eu vos digo: a República está a chegar!
- O rei é que nunca mais chega! — exclamou a minha mãe.

De facto, está toda a gente admirada com a demora de D. Manuel II em Londres. Jorge V, o novo rei inglês, já foi coroado, e o nosso parece que não tem pressa nenhuma de regressar à pátria…
Saiu de cá no dia 15, já hoje estamos a 22, e ele nada.

- A Gaby deve andar a mostrar-lhe a cidade… - e a minha mãe deu uma gargalhada.
Segundo me contou a Rosa (que lhe contou o Alfredo), o rei anda apaixonado por uma actriz francesa que se chama Gaby Qualquer Coisa (a Rosa diz que é um apelido complicado, e nomes complicados não é com ela…)

Conheceu-a numa das viagens que fez, e agora, sempre que vai ao estrangeiro, aproveita para estar com ela.

- Coitadinho… - diz a Rosa (que é muito republicana mas que, em questões de coração, deixa de ter partido) — tem de aproveitar enquanto pode, pois qualquer dia obrigam-no a casar, e lá se vai a actriz!

E pronto, lá passámos mais uma semana.
Sem fim do mundo e sem rei.
Se demorar muito, se calhar ainda a República chega primeiro do que ele.

«JN» de 22 Mai 10

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A SENHORA DO PAI

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Por Alice Vieira

A PRINCÍPIO
nem ligou. Sempre que voltava do pai ele não se calava, naquele seu linguajar de bebé, a querer meter o mundo todo nas poucas palavras que o seu vocabulário permitia. Ela sorria, enquanto ia desfazendo a mala de fim de semana, com o Rato Mickey de enormes orelhas estampado bem a meio.
Foi a insistência dele que lhe chamou a atenção. E foi então que, nitidamente, percebeu o que ele dizia: “a senhora do pai.”
Sentou-o ao colo, fez-lhe uma festa no cabelo, tudo com muita calma, e foi murmurando:

- A senhora do pai?
Ele acenou com a cabeça.

- O pai tem uma senhora?
Ele acenou com a cabeça.

- Miguel, olha para a mãe…
Ele fixou nela os seus olhos esverdeados.

- Diz à mãe, Miguel… O pai tem uma senhora?
Ele voltou a acenar e acrescentou:

- No carro.
Ela ia perdendo a cabeça. Ainda nem estavam divorciados e já ele andava a enfiar mulheres dentro do carro, e logo no fim de semana em que ela o deixara ficar com o filho. Podia-se pensar que, pelo menos nesses dias, ele se portasse como um pai a sério, até porque podia estar em causa a futura regulamentação do poder paternal, mas não, se calhar “a senhora” até já ficava lá em casa…
Tentou acalmar-se:

- E quando o pai veio trazer o Miguel, a senhora estava no carro?
Ele voltou a acenar com a cabeça mas, farto do interrogatório, deslizou-lhe do colo e foi brincar.
Ela ainda pensou em ligar à mãe a contar, mas desistiu.

- Vamos ter uma conversa, meu menino…- murmurou, discando o número dele no telemóvel.
Combinaram encontrar-se no café, dali a minutos.
- Estás com uma voz! — disse ele — É grave?
- Daqui a dez minutos – repetiu ela.
- Não pode ser aí em casa? — estranhou ele.
- No café — disse ela, desligando.

Não queria correr o risco de o Miguel entrar na sala e ouvir a conversa, café era sítio neutro.
Assim que ele chegou, nem o deixou fazer qualquer pergunta:

- Não me podias ter dito que já tinhas arranjado uma namorada?
Ele olhou-a, espantado.

- Que eu o quê?
- Não te faças de tolo. O Miguel contou-me.

Ele parecia cada vez mais espantado:

- Mas contou-te o quê?
- Que tinhas uma namorada.
- O Miguel disse isso? Uma namorada?
- Não disse uma namorada. Mas disse que o pai tinha uma senhora no carro… Sabes que o vocabulário dele ainda…

Uma enorme gargalhada dele interrompeu-lhe o discurso, e surpreendeu-a, aquele não era propriamente um motivo para risadas.

- Uma senhora… no carro... — repetia ele, rindo cada vez mais. Depois recompôs-se, e disse:
- E claro que pensaste logo no pior. Que eu tinha metido o meu filho no carro com uma galdéria qualquer… Nunca te passou pela cabeça que fosse… A voz do GPS a ensinar o caminho?

Ela olhou-o sem saber se devia ficar furiosa consigo própria, se rir à gargalhada.

- O Miguel ouviu, ficou muito admirado, eu entrei na brincadeira e disse-lhe : “o carro novo do pai tem uma senhora!”

Acabaram por rir os dois, ela a censurar-se intimamente por aqueles ciúmes doentios, que nem com a separação tinham passado, e voltou para casa, contente por não ter falado com a mãe, o que ela não lhe diria agora, quando ela lhe contasse.
E ele entrou no carro, sorrindo. Tirou o telemóvel do bolso, discou um número e, em voz mansa disse:

- Pronto, já arranjei tudo. Veio-me à cabeça uma desculpa verdadeiramente genial! Depois eu conto-te. Mas para a próxima temos de ter mais cuidado.
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ACTIVA de Maio 2010

sábado, 15 de maio de 2010

VEM AÍ O COMETA

Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

D. MANUEL LÁ PARTE AMANHÃ para Londres, para assistir à coroação do novo rei de Inglaterra.

- Agora é que lhe arranjam casamento com a tal princesa inglesa…- diz a minha avó.
- Não me parece…- diz a minha mãe — Não estou a ver a Rainha a deixar casar o filho com uma princesa que não é católica…

A Rosa, que até ganhou novas cores desde que o Alfredo lhe voltou a aparecer ao domingo (“ai homem de Deus, que já te fazia na choça!”), garante que o rei vai mas é encontrar-se com uma actriz francesa que conheceu há uns tempos…Pelo menos é o que o Alfredo conta, e ele anda sempre muito bem informado.
Mas nestes últimos dias, cá em casa - e ao contrário do que é costume…- nem se tem ouvido falar em monarquia ou república.
Agora, anda toda a gente aflita por causa do cometa.
Até eu não me sinto lá muito seguro, sobretudo depois de ver a capa da última “Ilustração Portuguesa”, que traz o monstro que dentro de dias pode atacar a Terra e dar cabo de nós.
O Cometa Halley está a chegar — é o que se ouve em toda a parte. Dizem que vai passar tão perto da Terra, que o mais certo é esbarrar nela e ninguém pode prever o que vai acontecer. Dizem que até há gente que já se suicidou por causa disso.

- É o fim do mundo — murmura a minha avó.

(Quando mataram D. Carlos e D. Luís Filipe, a minha avó também disse que era o fim do mundo.
Quando foi do terramoto de Benavente, a minha avó também disse que era o fim do mundo.
De cada vez que rebentam bombas, a minha avó também diz que é o fim do mundo.
Digamos que o fim do mundo já se vai tornando um hábito cá em casa.)
Ontem a Rosa chegou da Praça da Figueira e disse:

- Andam a vender garrafas de oxigénio por causa do cometa. Eu já comprei uma.

O meu pai até deu um berro.
E deu mais outro quando ela acrescentou que, para lá das garrafas de oxigénio, também estavam a vender máscaras de gás e comprimidos milagrosos. O dinheiro dela é que só tinha dado para a garrafa.
Indignado, o meu pai fez logo ali um comício republicano, a protestar contra a ignorância em que queriam manter o povo, para assim o poderem explorar melhor.

- Se as pessoas tivessem instrução, saberiam que isso é tudo obra de vigaristas, e que desde o ano passado os cientistas observam o cometa, e estão preparados para a sua chegada.
- Dizem que a cauda é enorme e que, com o embate, se vão espalhar gases desconhecidos que podem devastar o planeta! — disse a minha avó.
- Mas quais gases…Aquilo é tudo vapor de água!.... — o meu pai estava mesmo muito ofendido com a nossa ignorância.
- Não quero ouvir cá em casa mais disparates destes! — disse ele.

E, virando-se para a minha mãe, acrescentou:

- Preocupa-te com o enxoval do rapaz, que já tens bastante com que te ocupar!

E saiu.
Estive mesmo para perguntar:

- E se for uma rapariga?

Mas não perguntei: com as desgraças do cometa, a ignorância do povo, e o rei a viajar para Inglaterra, não quis agravar a situação.
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«JN» de 15 Mai 10

sábado, 8 de maio de 2010

MORREU O REI DE INGLATERRA

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

MORREU O REI de Inglaterra, e cá em casa não se fala noutra coisa.
Não é que a morte do rei me interesse muito: só estou ligeiramente preocupado porque D. Manuel vai ficar uma data de dias em Londres e, com tanto tempo sem rei, se calhar agora é que vem a república.
A minha avó está muito ofendida comigo por eu não me lembrar do dia em que o rei de Inglaterra veio a Lisboa, mas nessa altura eu tinha sete anos, e confesso que, até hoje, as únicas coisas que me lembro de ouvir contar sobre o rei de Inglaterra é que ele tinha subido ao trono muito velho porque a mãe nunca mais morria; e que por causa dele é que o Parque da Liberdade se tinha ficado a chamar Parque Eduardo VII.
O meu pai diz que é muito má altura para D. Manuel ir ao estrangeiro porque por cá as coisas andam mal: acho que rebentou um grande escândalo num banco chamado Crédito Predial, e a gente já sabe que quando se mete dinheiro pelo meio, fica tudo de cabeça perdida.

- Pode ser que ele não fique por lá muito tempo…- disse o meu pai.
- Lembra-te da coroação…- disse a minha mãe e, de repente, ela e o meu pai desataram a rir. A minha avó franziu as sobrancelhas, murmurou “mais respeito!”, e eles calaram-se.

Então o meu pai contou-me que há sete anos, quando a rainha finalmente morreu e o filho subiu ao trono, estava já tudo preparado para a coroação, com representantes de todos os países, (incluindo o nosso, que mandou o príncipe herdeiro, que então era D. Luís Filipe, porque ainda não tinha sido morto…) - mas na véspera, ao fumar o seu cigarrito, o rei tinha-se sentido muito mal e lá veio o médico a correr que diagnosticou uma apendicite!.
Eu não sei que doença é essa, mas o meu pai disse que era uma coisa muito grave e que foi preciso operar, e que foi a primeira vez que foi usada a “anestesiologia”, que é uma ciência que ensina os médicos a darem uns remédios ás pessoas que elas parece que estão mortas mas não estão, e depois acordam e não sentiram nada.
E por causa da apendicite, a coroação do rei, marcada para Junho, teve de ser em Agosto. E lá voltaram os reis todos para casa.
Mas é claro que agora, com o rei já morto, essas coisas não vão acontecer.
O meu pai também parece ofendido por eu não me lembrar nada do que aconteceu há sete anos. Republicano como ele é, nunca pensei que a minha ignorância dos reis de Inglaterra o incomodasse tanto.

- Nem te lembras de quando D. Carlos foi a Inglaterra assinar o segundo Tratado de Windsor?

Foi quase logo a seguir…
Estive para lhe dizer que não me lembrava do primeiro, quanto mais do segundo, mas calei-me.

- Esse ano de 1902 foi mesmo muito importante — murmura ele.

Dou voltas à cabeça, a tentar recordar em que republicano é que ele estará a pensar, em que conspiração falhada, comício, greves, bombas…
Nada.
Para mim, o ano de 1902 é um deserto.
Até que o meu pai respira fundo e diz:

- Foi o ano em que foi fundado o Sport Lisboa e Benfica.

E sai de casa, para ir abrir a livraria.
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«JN» de 8 Mai 10

sábado, 1 de maio de 2010

EM ESTADO DE CHOQUE…

Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

ESTOU em estado de choque.
O meu pai chegou hoje à tarde do Porto, onde foi ao congresso do Partido Republicano.
Ao jantar, pelo meio dos pastéis de bacalhau, começou a contar o que se tinha passado:

- Os preparativos para a revolução já estão em marcha! Isto agora vai! Mas temos de ser cuidadosos se não queremos que…

A voz da minha avó:

- Ó Rosa, você acha que isto é uma travessa que se apresente ? Ora vá arranjar tudo como deve ser!

A minha mãe olhou para a minha avó, o meu pai suspirou e continuou:

- …se não queremos novo falhanço como no dia 1 de Abril. Falou-se sobre as investidas policiais contra os anarquistas e…

A minha avó:

- Ó Rosa, o jantar é para hoje ou para amanhã?

E a Rosa, afogueada, a voltar com a travessa, e o meu pai:

- …e contra a Carbonária…

E a Rosa:

- Ai minha Nossa Senhora, por isso é que ele não me apareceu hoje… Se calhar já está na choça!

E a largar a travessa no meio da mesa.
A Rosa anda muito transtornada desde que descobriu que o Alfredo é da Carbonária.
Ela já andava desconfiada de que ele estava metido nalguma, sempre tão bem informado, sempre com tanta gente à volta dele, “ quando saímos ao domingo, aquilo são primos que nunca mais acabam!, olá primo!, como vai o primo!”
Até ao dia em que o galego da esquina lhe contou que é assim que os membros da Carbonária se tratam uns aos outros.
O meu pai respirou fundo e continuou:

- E é preciso também pensar que temos de ter apoio internacional! Por isso o congresso elegeu uma comissão…

E a minha avó:

- Ó Rosa, então larga-se assim a travessa em cima da mesa?

A Rosa lá veio da cozinha, lavada em lágrimas, o meu pai voltou a respirar fundo e continuou:

- Uma comissão composta pelo Alves da Veiga, pelo Magalhães de Lima e pelo José Relvas…
- Esse fazia bem melhor se ficasse a tratar das vinhas lá em Alpiarça…- resmungou a minha avó.
- …para ir pela Europa pedir apoio para a nossa causa.

O meu pai parou, finalmente.
Por momentos só se ouvia o bater dos talheres nos pratos e a Rosa a fungar.

- A monarquia está a morrer — murmurou o meu pai, fazendo uma festa na mão da minha mãe – Esse aí já vai viver num tempo diferente.

Foi então que eu perguntei:

- Esse… quem?

De repente todos olharam para mim, como se eu tivesse dito alguma inconveniência.
A Rosa correu para a cozinha, (“ai valha-me Deus!”), a minha avó levantou-se e foi para o quarto (“está na hora da novena a Sto. Expedito”), o meu pai descobriu que estava atrasado para uma reunião, e a minha mãe decidiu ir dar uma ajuda a lavar a loiça.
Já quase a sair da sala de jantar voltou-se para mim e disse:

- Vais ter um irmão.

Assim.
Como se me dissesse “os pastéis estavam salgados”, ou “lava os dentes antes de te deitares”
E aqui estou eu, sentado à mesa do jantar, sem me conseguir mexer, ainda sem perceber o que me aconteceu.
A monarquia a morrer, e um irmão a nascer — é muito para quem tem só 14 anos.

«JN de 1 Mai 10

quarta-feira, 28 de abril de 2010

TODOS PARA A COZINHA

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Por Catarina Fonseca

HÁ OS QUE FAZEM tudo, os que não fazem nada, e os que funcionam só com o frigorífico. E o seu, como é?

- O Desinteressado – Acham que a cozinha é o Reino da Mulher, ou quando muito da Mulher a Dias, ou de outra pessoa qualquer que não eles. Moram na mesma casa há 30 anos e ainda não sabem onde está o açucareiro. A relação de máxima proximidade que têm com a cozinha é gritarem do sofá: ‘Ó Maria Teresa, traz-me aí uma cerveja”.

- O Especialista – Há o especialista em bolos, que faz imensa porcaria. Quando ele sai, há chantili desde o tecto aos imans do frigorífico, quatro tigelas por lavar, a super-centrifugadora com cascas de ananás nas sete divisórias, e a bancada coberta de farinha, pão ralado e açúcar. O especialista em salgados passa o tempo entre a cozinha e o telefone, ou tem o telemóvel no bolso do avental, porque se farta de telefonar para a prima Elvira a perguntar em que parte do refogado é que entra o colorau. Em comum, os dois especialistas têm o facto de nunca incluírem no pacote de especialista a parte de lavar a loiça, arrumar a cozinha e consertar os estragos.

- O Criado – Faz tudo, mas com um ar muito deprimido. Já percebeu que dá mais trabalho refilar do que despachar serviço, e portanto despacha serviço. Geralmente é dos que têm uma mulher paranóica que não suporta um copo em cima da mesa. Geralmente também, são daqueles que saem de casa um dia para comprar cigarros e não voltam.

- O Cozinheiro – Este é a sério. Até sabe fazer Bôla, daquelas com queijo e fiambre e uma mistura que ele começa a explicar que leva alho, pimenta, carne de porco, banha, cebolinho, e a meio já toda a gente desligou com um ar muito deprimido como se ele estivesse a ensinar uma equação de terceiro grau, isto depois de ele ter assegurado que era a coisa mais simples do mundo e que tinha aprendido com a mãezinha dele antes de fazer 4 anos. Podia montar sozinho um pronto-a-comer na Lapa, mas prefere cozinhar para os amigos e ouvir os elogios como se não fosse nada com ele.

- O Aplicado – Coitado, ele bem tenta, mas na maioria das vezes quando quer fazer Frango na Púcara sai-lhe empadão de arroz, e quando tenta as almôndegas sai-lhe uma espécie de Brigadeiros de cimento. Ninguém lhe dá tempo para aprender, ele convence-se que um Homem não nasceu para aquilo e pronto, aqui temos mais um candidato ao sofá e ao ‘Maria Teresa traz-me aí uma cerveja”.

- O Esporádico – Até se esforça, mas é só às vezes. Ao Sábado acorda de madrugada particularmente decidido, vai à praça com um grande cesto, e chega com um ar tão importante como se estivesse na Pré-História e chegasse à caverna a arrastar um dinossauro. A única parte da cozinha digna de um homem é o ‘barbecue’. Durante o dia faz carne assada, porco no espeto, sardinhas e camarão frito, e depois fica três meses de rastos sem sequer lavar um copo.

- O Gourmet – São os que falam do mundo macho do touro e do vinho tinto, e ainda incluem a cozinha. Acham que a verdadeira culinária pertence aos homens, e que as mulheres só sabem fazer arroz de tomate e puré de legumes para os bebés, que coitadinhos inda não se sabem queixar. São os das ervinhas e dos enchidos, dos charutos e das garrafeiras, os que assinam a revista do azeite, os que dizem que têm uma relação ‘sensual’ com a culinária, o que quer dizer que só cozinham quando lhes apetece e sempre só para eles próprios ou para um rancho de amigos homens. Mais uma vez, escusado será dizer que quem lava a loiça e arruma a cozinha é a mulher a dias.

- O Distraído – Tem uma relação quase fetichista com o frigorífico. Ficam eternidades de pé com a porta aberta a olhar lá para dentro como uma vidente para uma bola de cristal. Ninguém sabe porquê, deixam a porta do frigorífico aberta todo o tempo que passam na cozinha, mesmo que lá fiquem duas horas à espera que o arroz coza. Para eles, nunca nada leva menos de duas horas a cozer.

- O Perfeito – Nem é que queira ser moderno, mas já percebeu que as coisas funcionam melhor se de facto houver um trabalho de equipa. Até já aprendeu a fazer açorda. Geralmente, como todos os recém-convertidos, faz muito bem açorda.

sábado, 24 de abril de 2010

Coitado do Rei...

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

A MINHA avó nem conseguia falar.
Deixou-se cair na chaise-longue enquanto a Rosa foi preparar um chá de tília.
A minha mãe abanava-a com o leque, e ela só repetia, “eu vi-o! eu vi-o! tão novo e tão triste, coitadinho!”
O meu pai chegou nessa altura e foi então que a minha mãe explicou tudo:

- Vimos o rei.
- E então? Ainda o vimos há dias, na exposição do Silva Porto.
- Mas aqui foi diferente. Parecia uma pessoa normal, a descer o Chiado, a entrar na “Ferrari”…
- Não me digas que vos ofereceu um capilé!

O meu pai anda sempre muito sério e não costuma dizer coisas destas, de maneira que desatei a rir e a Rosa, que levava a bandeja de prata com o bule do chá, até ia entornando tudo.

- Fique o senhor meu genro sabendo — exclamou a minha avó-- que o povo de Lisboa estava todo ali a aplaudi-lo!
- Que exagero! - exclamou o meu pai…- O povo do Chiado…e, mesmo assim, se calhar nem todo…

A minha mãe contou então o que se tinha passado: estavam elas a tomar chá na Ferrari quando de repente vêem entrar D. Manuel.

- Mas olha que lá fora eram palmas que nunca mais acabavam…

A minha avó tentou endireitar-se, o que é coisa complicada por causa das barbas do espartilho.

- Claro! O povo ama o seu rei! Só os republicanos e os excomungados da Maçonaria e da Carbonária é que o querem matar!

O meu pai levantou-se e saiu da sala, que é sempre o que faz para evitar discussões.
Mas voltou logo a seguir, com um livro nas mãos.

- Se a senhora minha sogra, em vez de ler aqueles romances de cordel que lhe vêm vender à porta, lesse aquilo que interessa, saberia que não se trata de matar o rei. A monarquia é que está velha, é um ninho de corruptos, e a república vai chegar, mais dia menos dia. Não foi no dia 1 de Abril? Noutro dia será, mas é uma fatalidade, quer a senhora queira quer não, e …

A minha mãe tossiu levemente, que é o sinal que ela dá ao meu pai quando ele se deixa embalar em discursos intermináveis.
Ele ajustou os óculos e disse:

- Esta é uma carta dirigida ao rei. Não a vou ler toda, mas se a senhora minha sogra quiser, fica com o livro.

Aclarou a voz :

- “O trono de Vossa Majestade está perdido e nada o salvará da sua perda. É lastimável que Vossa Majestade herdasse um trono a cair mas a verdade é esta: ele está a cair.
Vossa Majestade é muito novo mas para o mundo que veio encontrar é velhíssimo. Veio tarde. Vossa Majestade é um novo rei, mas não é uma monarquia nova. Vossa Majestade teve verdadeiramente pouca sorte. Nasceu rei quando já não era preciso".

O meu pai calou-se e fez-se um grande silêncio.

- Quem escreveu isso? – perguntou a minha avó.
- João Chagas – respondeu o meu pai.
- Claro, tinha de ser um da sua laia… Os republicanos são todos iguais!

E saiu da sala.
Mas até eu percebi que aquelas palavras a tinham tocado.
Como me tocaram a mim que, sem querer, já estava a murmurar “coitado do rei”.
(Que o meu pai nem sonhe!...)

«JN» de 24 Abr 10

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O que eles (não) mudam por amor

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Por Catarina Fonseca

É O SONHO de qualquer mulher – a seguir a conhecer o George Clooney e ter dinheiro para não ter de pensar na vida: conseguir que um homem mude por amor. Ao que parece, é desejo inútil: eles não mudam mesmo. Ou será que sim? Fomos investigar, afinal, o que é que pode esperar em termos de mudança.

O que queríamos que mudassem

Queríamos, pois queríamos, mas podemos esperar sentadas: nunca vai acontecer. Mas seria assim tão difícil que eles mudassem…

- A toalha no chão – Não apanham. É escusado. Podem estar quatro toalhas em ‘cúmulo’ como nuvens de Primavera, que eles continuam a alçar a perna e passar por cima na maior das descontracções. Também não fazem ideia de onde nos vem a mania de andar sempre a puxar tampa da sanita para cima, por que é que uns pelitos no lavatório nos põem apopléticas ou por que raio é que uma tampa de pasta de dentes fora do sítio pode arruinar um casamento.

- O copo na mesa da sala – Altos ou baixos, gestores ou trolhas, atinadinhos ou destrambelhados, há uma coisa em são todos todos todos iguais, ainda mais iguais que no Estranho Caso da Toalha no Chão: acham que tudo o que deixaram desarrumado se arruma sozinho. Aliás, arrumar pertence ao tipo de coisa que eles nem notam que precisa de ser feita. Afinal, daqui a nada já está tudo desarrumado outra vez...

- A ‘dislexia’ para datas - “Ó Ricardinho, o dia de hoje não te diz nada?”, e ele franze o sobrolho e todos os seus neurónios (o Tico e o Teco) franzem os neurónios um para o outro e pensam, “Espera lá, Ricardo Manuel, será dia de levar o cão ao veterinário? De pagar à mulher a dias? Do Benfica-Estrela da Amadora?” e depois pensa “Bem, o Benfica-Estrela da Amadora não deve ser com certeza” e fica a remoer nas outras duas hipóteses. Depois estranha que ela faça greve de sexo durante três dias por causa do cão, acha que deve ser do período, depois lembra-se que ou ela teve nesse mês três períodos ou não deve ser do período, e só muito mais tarde é que descobre que faziam anos de namoro. Mas continua sem perceber por que isso tem assim tanta importância. Afinal, continuam juntos, ou não?

O que eles não mudam mesmo

Há coisas sagradas, fincadas com todas as forças na personalidade deles. Ele pode estar disposto a morrer por si mas nunca estará disposto a abandonar...

- O Clube – Quem nasceu Benfiquista (ou Sportinguista ou Boavisteiro) morre Benfiquista, seja o que for que lhe aconteça entre nascer e morrer, e pode vir a Giselle Bundchen que o Benfica há-de sempre estar em primeiro lugar no seu coração.
A Mãezinha – Bem, em segundo. Em primeiro, vem sempre a mãezinha. Quem tenha mãezinha, claro. Com os homens, não há meio termo: ou são orfãos (há os que não são verdadeiramente mas são tecnicamente orfãos, que costumam ser ainda piores que os que têm Mãezinha) ou a Mãezinha é que manda. Desiluda-se: a mãezinha é que faz os melhores pastéis de bacalhau, com a mãezinha é que se almoça ao Domingo, ao sábado à tarde é preciso ir passear a mãezinha mais o Lúcifer (é o caniche da mãezinha), e a mãezinha pode dizer coisas do estilo ‘ó Zezinho estás mesmo magrinho, é essa lambisgóia que não trata de ti’, a mãezinha pode mandar bitaites sobre tudo, do nome dos filhos às tortas de laranja, a mãezinha pode dizer que acha que Carlota é nome de cadela e que Sebastião só houve um e deu mau resultado, a mãezinha pode dizer que as crianças estão malcriadas e o chão está sujo, e a mãezinha é a única pessoa à face da Terra que poderá pronunciar as palavras “o Makukula falhou lamentavelmente aquele penalti”. Palavras que, aliás, nunca ninguém ouviu nem ouvirá na boca da mãezinha…

- Os Amigos – Há sempre um Zé Pedro, que andou com ele no secundário. O Pimpão, que tocava baixo na banda. O Tozinho, que deu em gestor e agora é o Dr. Ataíde e tem uma secretária loura com quem toda a gente acha que ele engana a mulher mas não engana porque é gay mas só o melhor amigo é que sabe. E depois há os adventícios: os da cerveja ao sábado, os do futebol ao Domingo, os do trabalho, dos copos, das farras, do body-pump e do congresso de máquinas agrícolas onde ele foi há 6 anos. Não interessa. São todos para a vida. E para a morte, evidentemente.

Também nunca aceitarão mudar de…

Até podiam mudar, com um bocadinho de boa vontade, mas se pensarmos bem, será assim tão importante começar uma guerra por causa da…

- Música – É na música que se revela toda a sua alma de guerreiro: tudo o que não tenha batuques, é para meninas. Tudo o que tenha cheirinho de melodia, é para meninas. Tudo o que seja cantado, é para meninas. Há os executivos que gostam da Diana Krall, mas só porque ela é loura e não se despenteia enquanto canta e têm uma secreta fantasia de levar a Diana Krall à festa da empresa (levar a Diana Krall para a cama não lhes interessa nem metade que levá-la à festa da empresa). Os outros, quem lhes tira She Wants Revenge, Rammstein, ou Rage Against the Machine, tira-lhes tudo. Se estiver muito muito muito apaixonado (para aí na primeira semana) até pode ser que vá arrastado a um concerto do Roberto Carlos, mas de óculos escuros e sempre a olhar para todos os lados, não vá alguém reconhecê-lo. Se quiser ir de t-shirt com a cara do ídolo e uma tira azul-fosforescente na testa a dizer ‘Roberto É o Rei’, leve um grupo de amigas e esqueça os homens.

- Carro – Para nós, um carro é um carro. Para os homens, um carro é um amigo. E nada se interpõe entre um homem e os seus amigos. E então se tiver mota, pior. Há-de acordar a meio da noite e vir contemplá-la da janela, há-de passar a tarde de sábado a polir as jantes com um paninho de camurça e a ssusurrar-lhe ao, enfim ouvido?, há-de dar mais passeios com ela do que consigo. Habitue-se.

- Playstation – Há-de aproveitar o facto de a mulher estar a tomar banho para jogar Fifa 2008 às escondidas como os miúdos, há-de dizer ‘vai para a caminha, querida, vai que estás com ar cansado’ só para ficar rodando entre galáxias on-line num jogo tipo Guerra das estrelas com up-grade que joga com mais quatro internautas por esse mundo fora, um americano, um japonês, um polaco e um de Odivelas, e é o homem mais feliz do mundo.

O que, com um bocadinho de esforço, até conseguem

Aleluia! Nem tudo são más notícias! Chegámos à parte boa. É agora que ele vai ser um Príncipe! Enfim, alguém que se possa apresentar à avó.

- Roupa – Dá um bocado de trabalho, mas como para eles, geralmente, tanto faz vestir uma t-shirt como outra, a gente dá-lhes outra (desde que não seja cor de rosa) e eles nem percebem que ficam muito melhor, até porque acham que é daquelas áreas em que nós percebemos mais do que eles (e têm razão, o que não é dizer muito). Também se pode pedir-lhes que mudem de corte de cabelo, e alguns até mudam. Até se pode pedir que cortem o bigode (isto é um favor à Humanidade) e até se pode oferecer-lhes uma água de colónia que não cheire a insecticida. Bem envernizadinhos, ninguém diria que têm idade mental de dez anos e meio.

- O Controlo da televisão –Dêem-lhes um sofá e um écran, e estão no paraíso. Não são esquisitos, e papam tudo o que nós vemos na maior das boas-vontades, desde os CSIs de todas partes da América até aos Drs. House, correm todas as urgências dos hospitais de Chicago (costumam adorar isto, porque são todos hipocondríacos) e choram baba e ranho com os hospitais de animais. E cuidado: habituam-se a ver telenovelas com mais facilidade que uma adolescente. Claro que nunca admitiriam aos amigos que vão ficar em casa a ver ‘Desejo Proibido’, mas prepare-se, porque lá chegará o dia em que vai querer sair com ele e ele há-de atirar ofendido: “Nem penses. Hoje é o dia em que a Maria Paula vai dizer ao Reginaldo que o filho não é dele.”

- A Barriga – Com um bocado de sorte, passam a ir ao ginásio connosco, principalmente se lá andarmos, não tanto para perder a barriga como para fiscalizar a concorrência. Geralmente, acontece uma de duas coisas: ou desistem ao fim de duas semanas, ou ficam daqueles ‘freaks’ do Body-Attack que fazem a aula com dois relógios de calorias um em cada pulso e vão à net ver as coreografias novas e se correspondem com outros ‘freaks’ de todo o mundo e quando você diz que aquilo até está fácil franzem as sobrancelhas e respondem: “Deixa-me decorar os passos e aprender a coreografia e tu já vais ver o que é que é fácil’. Acham todos que dois passos à frente e um atrás é uma coreografia.

- A Ajuda – Pronto, é verdade: eles acham que ‘ajudar em casa’ é levar o cão à rua e pôr o lixo lá fora. Mas com muita persistência, até se pode treiná-los para qualquer coisa. Claro que a iniciativa é sempre nossa, por eles dormiam nos mesmos lençois até ao Euro 2012, mas enfim…

- A Comida – Com os amigos continuam a comer feijoada e perceves, mas em casa nós é que mandamos porque somos nós que vamos ao supermercado, quando eles só se lembram de ir ao Clube del Gourmet comprar patê de texugo turco e ostras congeladas.

- A Decoração – Há uns muito picuinhas que vão connosco às lojas e fazem finca-pé porque sempre sonharam ter cortinados roxos na sala como a família Adams, mas homem que é homem nem vê onde é que está sentado, e se for um sofá aos coraçõezinhos com a cara da Betty Boop tudo bem, desde que seja um sofá.

sábado, 17 de abril de 2010

A ELECTRICIDADE VAI DOMINAR O MUNDO

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

AO QUE PARECE, depois da revolta falhada do dia 1, as pessoas resolveram descansar um bocadinho.
Pelo menos o meu pai.
Hoje até fechou a livraria mais cedo para ir à Academia Real das Belas Artes, à inauguração de uma exposição de um pintor chamado Silva Porto, que já morreu há anos mas de quem ele gosta muito.
Diz-se que o Rei também lá vai estar.

- Quero ver a recepção que vai ter — disse o meu pai.
Como a inauguração prometia ser calma, a minha mãe também foi, muito contra a vontade da minha avó:
- A menina sabe muito bem que, no seu estado, não deve sair de casa!

(Lá vinha outra vez aquela coisa do “estado”, um dia destes tenho mesmo de saber do que é que se trata)
Mas a minha mãe disse que isso eram ideias antigas, sentia-se bem, e não ia perder a inauguração por nada.
Antes de saírem, o meu pai perguntou-me:

- Já leste o novo Salgari que te trouxe da livraria?
- Está quase…- murmurei, sabendo que ainda não tinha passado do princípio.
- Depois falamos — disse ele.

O Emílio Salgari é dos meus autores preferidos, mesmo ao lado do Júlio Verne.
O meu pai até nem gosta muito, porque diz que aquilo é pirataria a mais, e nem o facto de um dos heróis ser português o consegue comover.
Mas desta vez o novo livro de Salgari não trata de Sandokan, nem de Gastão de Sequeira, nem da ilha de Mompracém.
Desta vez o livro passa-se…imaginem! — no ano 2000!
Eu nem consigo imaginar o que seja o ano 2000. Para já, a minha avó garante que é nesse ano que o mundo vai acabar.
E então nesse ano 2000, conta o Salgari, a electricidade vai dominar o planeta, e acontecem coisas extraordinárias: as paredes da nossa casa transmitem imagens do mundo inteiro, e a electricidade é tanta que as pessoas andam sempre a correr e em choque permanente.
E como há muitas máquinas para substituir as pessoas, há muitos trabalhadores desempregados. E quando eu estava à espera de greves e bombas e estas coisas que agora acontecem por causa do desemprego - não!: os trabalhadores transformam-se todos em agricultores e pescadores!
E não há revoluções, nem ditaduras, nem guerras. E, em vez de exércitos, só há um destacamento de bombeiros, para acudir a alguma catástrofe natural – ou, enfim, a um ou outro anarquista que tenha sobrado do passado…E quais os castigos para esses? Apanham com um jacto de água electrificada, e depois são conduzidos num trem eléctrico até ao Pólo Norte, para trabalharem, até ao fim das suas vidas, pelo bem do planeta.
E se por acaso nesse tempo ainda houver criminosos, daqueles que roubam e assaltam casas, então esses são enfiados em prisões flutuantes e, ao mais leve sinal de revolta, umas bombas, estrategicamente colocadas, mandam todos para o fundo do mar.
Tudo por causa da electricidade que vai dominar o mundo no ano 2000.
Mas como ainda estamos em 1910, espero que a república, quando vier, não venha carregada de electricidade.

«JN» de 17 Abr 10

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Todas acreditamos no amor romântico

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Por Catarina Fonseca


EMBORA nos estejam sempre a dizer que ‘isso só acontece aos outros’, a verdade é que todas acreditamos em milagres… amorosos. Quer a prova? A gente apresenta uma data delas. Atreva-se a dizer que consigo é diferente.

Mesmo o mais racionalista, o duro dos duros, o que sabe perfeitamente que o amor romântico é um mito, poucos resistem aos seguintes gestos:

- Abrir um mail com o título ‘encontre a sua alma gémea’ – Mesmo que esteja farta de dizer a si própria que não existem almas gémeas, quando muito existem almas ligeiramente irmãs, ou enfim, primas, quem é que não resiste a saber se por acaso, do outro lado do mar ou aqui mesmo à porta, não está o verdadeiro amor da nossa vida?

- Fazer um teste de compatibilidades entre signos – Mesmo quem não acredita em signos, mesmo quem está farta de dizer a toda a gente que não tem nada a ver com o Escorpião que as estrelas lhe destinaram, a verdade é que fazemos sempre aqueles testes que dizem que, se lhe calhou um Aquário na rifa, esqueça, porque o Aquário não atura um Escorpião. A gente lê e fica tristíssima, embora continue a não acreditar em nada disso, e até chegamos a pôr a hipótese de nos concubinarmos com um Touro qualquer, que pelo menos astralmente é mais dado a escorpiões.

- Achar que ele nos lê a mente – É um dos mitos mais perigosos do amor romântico, e no entanto toda a gente parte do princípio de que é verdade. Achamos que, só porque ele nos ama de paixão, sabe exactamente o que nos vai na alma em cada minuto da nossa existência, e se isso não acontece é porque afinal não nasceu para nós.

- Acreditar no amor à primeira vista – Mesmo que nunca tenha acontecido connosco, sabemos que há-de haver um dia em que vamos bater os olhos nele e cair um raio do céu e ouvir vozes, muitas vozes, que nos dizem que sim, que finalmente aconteceu.

- Acreditar nos anúncios – A gente sabe que aquelas cenas do rapaz a correr pela rua fora à chuva e à neve atrás da rapariga, ou dos namorados a atirarem-se do prédio, ou o clássico dos clássicos do desconhecido que nos oferece flores (que saudades!) são só para vender carros, ou telemóveis, ou desodorizantes, mas no fundo no fundo achamos que mais telemóvel menos telemóvel aquilo ainda vai acontecer connosco, qualquer dia.

- Acreditar que a Barbie anda mesmo com o Ken - Embora toda a gente saiba que ela tem um caso com o Action Man.

- Acreditar que o amor existe mesmo, nós é que não procuramos direito – Como diria o Luis Fernando Veríssimo. Aliás, na maioria das vezes nem procuramos, deixamo-nos estar sentadinhas à espera que ele nos desça pela chaminé, como o Pai Natal, mesmo que nem sequer se tenha chaminé…

- Acreditar que o Hugh Grant existe mesmo, nós é que nunca fomos a Hollywood – Mas quando lá formos vai acontecer o mesmo que com a Júlia Roberts em ‘Notting Hill’, a gente vai entrar numa livraria e ele vai lá estar. Que o Hugh Grant não trabalha em livrarias é um pormenor sem a mínima importância.

sábado, 10 de abril de 2010

FALHOU A REVOLUÇÃO E A TOURADA

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

DESDE QUE NESTA CASA só se pensa em revoluções, andamos todos muito apoquentados. Como diz a minha avó, “só tenho coisas que me ralem”.
Desconfiamos de toda a gente.
Qualquer barulho é uma bomba a rebentar.
Se um rato de madrugada se lembra de atravessar o soalho, é logo uma vozearia (“ai minha Nossa Senhora que está um ladrão a arrombar a porta!”) e o prédio inteiro acorda.
Aqui há dias a Rosa ia já de vassoura em punho para dar em cima de quem não parava de bater à porta da cozinha — quando lhe apareceu pela frente a Senhora Felismina, trouxa à cabeça, aos berros:

- Ó santinha, dá-me lá uma ajuda, senão ainda a roupa se me rebola toda pelas escadas!

A Senhora Felismina é quem lava a nossa roupa. Todas as semanas a vem buscar, todas as semanas a vem trazer.
Vive em Caneças, e aproveita a carroça que vem distribuir as bilhas de água a Lisboa.
Caneças fica longe, não há estrada, e por isso as carroças têm de sair de madrugada para se meterem naqueles caminhos de cabras e chegarem cá de manhã. Muitas lavadeiras aproveitam a viagem, e chegam cá doridas de tanto solavanco.
Atrás da Senhora Felismina vem o aguadeiro entregar as bilhas.
Cá em casa só bebemos água de Caneças. A minha mãe diz que ela cura anemias e males de estômago. Se cura ou não, não sei, nunca me lembro de ouvir o Dr. António José receitá-la no consultório.
A Rosa pediu desculpa, escondeu a vassoura, e conferiu com o rol se todas as peças de roupa que tinham ido para lavar tinham voltado lavadas. A Senhora Felismina é mulher séria, mas nunca fiando.
E por causa da revolução, o meu pai até se esqueceu de me levar ao Campo Pequeno.
Todos os anos, no domingo de Páscoa, começa a temporada das touradas na Praça do Campo Pequeno.
Desde miúdo que não falho uma — apesar dos protestos da minha avó, que tem sempre muita pena dos touros e diz que só um ateu é que pode festejar o domingo de Páscoa daquela maneira.
O meu pai, como sempre, faz que não é nada com ele.
Às vezes, quando vou à livraria, oiço-o discutir o assunto com alguns amigos que passam por lá para dois dedos de conversa. E há os que o censuram e lhe dizem que as touradas são próprias de talassas e que ele, como bom republicano, devia lutar pela sua abolição, ao que o meu pai responde que tourada é arte, e arte não tem nada a ver com monárquicos ou republicanos, ao que eles dizem que tem-- e nunca mais dali saímos.
Este ano veio a Páscoa, e o meu pai desculpou-se com o mau tempo.

- Mas tu queres apanhar uma pneumonia? Não vês como chove?

Chovia torrencialmente, é verdade — basta ver as fotografias que vieram há dias na “Ilustração Portuguesa”.
Mas o motivo não foi esse.
O que acontece é que o meu pai no domingo de Páscoa já andava muito apoquentado: uma semana depois, foi o tal dia da revolução que era para ser, mas falhou.
Falhou-lhe a revolução, falhou-me a tourada.
Só tenho coisas que me ralem.

«JN» de 10 Abr 10

quinta-feira, 8 de abril de 2010

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A Lei das Compatibilidades: Descubra o Homem que Nasceu para Si

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Por Catarina Fonseca

AO CONTRÁRIO
do que nos ensinaram, não há almas gémeas absolutas. Às vezes, as almas gémeas dependem da altura da vida em que se está. Saiba quais podem ser as suas melhores escolhas em termos de… romance.

Diga-nos em que situação está, e nós dizemos-lhe para onde dirigir as suas energias:

A Principiante
- Situação: Tem 17 anos, é estudante, mora em casa dos pais. Tem quem lhe lave a roupa e lhe faça a cama, o que não é necessariamente mau. É da geração que já sabe que o Príncipe Encantado não existe, mas nunca comeu morangos sem açúcar, e portanto ainda não sabe até que ponto a inexistência de um príncipe é dramática.

- Par incompatível: Sabe aquele amigo do seu pai? O que tem nome de Rei Mago, o Baltazar, o que aparece ao fim da tarde e lá fica a um canto da sala a fumar e a beber um resto de conhaque dourado num copo de borda metálica, tão metálica como os olhos dele que a apanham de vez em quando lá do fundo, muito de vez em quando como quem não quer a coisa, e de vez em quando vem ter umas conversinhas para o seu lado, ronronando como um gato, assim umas coisas de adultos sobre jazz pós-moderno e Kafka, coisas que se viessem de uma pessoa normal lhe entravam a si por um ouvido e saíam pelo outro, que também é o que acontece agora mas também não interessa nada o que ele está a dizer. Sabe quem é? Esqueça. Saia da sala quando ele entrar. Vá ao cinema com o João Filipe. Vá ouvir jazz pós-moderno fechada no seu quarto.

- Par compatível: O João Filipe, seu colega de carteira (ou enfim. De mesa pré-fabricada) pode parecer absolutamente inviável: partilham o mesmo autocarro (ele a cair de sono e a cheirar a ténis velhos, você a tentar ter um ar digno apesar de àquela hora nem sequer saber como é que se chama a sua mãezinha), ele dá-lhe graxa para que você lhe empreste os apontamentos de química, e o mais romântico de que se consegue lembrar é passar-lhe uma rasteira e dar-lhe um carolo como prova do seu amor e da sua dedicação. Más notícias: nesta altura do campeonato, é a sua melhor hipótese.

A Desalentada
- Situação: Tem 25 anos, acabou com o seu último namorado e acha que a vida acabou. Entre a sua vida e o deserto de Góbi, parece-lhe que a única diferença é que o deserto ainda vai tendo uns oásis. A sua vida é isto: o emprego de sonho custa a chegar, um amigo do seu pai (não o Gato Baltazar, que fisgou uma sueca e montou uma empresa de produção de eventos em Estocolmo) arranjou-lhe um lugarito de ‘assistente’ num escritório de contabilidade onde você baralha os números e navega pela net com toda a fúria do cargueiro do ‘Speed 2’, apesar de toda a gente dizer que é ‘muito aplicada’.

- Par Incompatível: O Vasco, que é primo da sua amiga Constança e que conheceu numas férias em Vilamoura. O Vasco também é aplicadinho, tirou Economia e Gestão na Católica e não pára de lhe falar em casamento. Ao princípio até parece um Par Compatível, mas cuidado antes de comprar o vestido de noiva: o Vasco há-de desatar a comprar lençóis de linho biológico pela net, depois amua porque a loja não tem o serviço Vista Alegre que ele queria, depois há-de querer convidar 600 pessoas, depois a mãezinha dele há-de dizer que o seu vestido é pindérico e corre o risco de se achar daqui a um ano grávida de gémeos sem saber muito bem como é que se meteu naquilo.

- Par Compatível: O irmão mais velho do João Filipe, que você quase nunca via porque sempre que lá ia a casa ele estava nos treinos de horseball de alta competição ou enfiado no quarto a bater com o lápis da mesa e a estudar engenharia genética de ‘headphones’ postos com os Pixies a berrar muito, e as guitarradas dos Placebo que ele acha que lhe dá um ar cool, ou os ronronanços do Leonard Cohen, que lhe dá um ar ainda mais cool mas de que ele se envergonha secretamente porque acha que é música para meninas. Voltou a encontrá-lo numa festa de amigos e descobriu que ele não só tinha um ar cool como era a sua alma gémea. Quando perceber que não existem almas gémeas, já estará casada com ele. Mas não se preocupe com isso agora.

A Desesperada
- Situação: Tem 35 anos, e das duas uma: ou está desesperada porque acabou de se separar do Paulo Jorge que a deixou sozinha com os gatos nos braços, ou está desesperada porque depois de passar anos em festas de amigos, passeios temáticos, cruzeiros no Douro (sozinha) e chats onde só lhe apareciam criançolas inconscientes à procura de noites escaldantes, percebeu finalmente que o Príncipe Encantado só existia na ‘Bela Adormecida’ e mesmo aí, uma aposta em como era gay.

- Par Incompatível – Com separação ou sem ela, muito cuidado com os ‘homens do desespero’: não se meta em nada a achar que é só ‘para animar’. Os homens que adoram as desesperadas geralmente só querem é copos e curtes. Os que querem qualquer coisa mais séria, nunca a querem com uma desesperada. Portanto, arrisca-se a dar com uma alma que só quer é curtes e copos. Problema: você também diz que o que quer é curtes e copos, mas as mulheres NUNCA querem só curtes e copos, portanto arrisca-se a entrar numa relação em que as duas partes querem coisas diferentes.

- Par Compatível – Como dizia o Luís Fernando Veríssimo, ‘o amor é como a tesourinha das unhas, nunca está onde a gente espera’. Por isso, refreie o desespero. Volte a frequentar as festas de amigos. Com um bocado de sorte, o irmão do João Filipe, que você deixou escapar aos 25, também se há-de estar a divorciar. Com ainda mais sorte, o Baltazar já voltou de Estocolmo (pormenor irritante: tem três filhos suecos, o Lars, a Ingrid, e qual é o outro, o Sven? Todos a falarem como se estivessem num filme do Ingmar Bergman mas pronto). Azar: continua a não querer mais nada do que ronronar-lhe ao ouvido. É capaz de continuar a não ser boa ideia.

A Carente
- Situação: Tem 43 anos e um divórcio traumático aos ombros. Teve de dividir filhos, pratas e DVDs. Foi chato. Principalmente o Sebastião. Teve de lutar pelo Sebastião, porque o seu ex também o queria. Mas ficou com o vinil do álbum ‘Revolver’ dos Beatles. Isso calou-o. O Sebastião agora dorme com a cabeça na sua almofada e passa as noites a ladrar por tudo e por nada, deve achar que é o homem da casa.

- Par Incompatível – Qualquer pessoa com um divórcio igualmente traumático. Quem está recentemente divorciado não tem alma para andar a construir novas relações, eles nem têm alma para lavar a louça quando chegam a casa, quanto mais para se apaixonarem. Só têm alma para desabafarem os seus desgostos, e como você também precisa de colo, vão-se chocar dois divórcios, duas carências, e quatro pessoas. Ah, e esqueça os romances com rapazes de 20 só para fazer ciúmes ao seu ex (ele não está nem aí) ou se sentir 20 anos mais nova. Correm sempre mal, principalmente porque os rapazes de 20 nunca ouviram falar da ‘África Minha’ e não se pode ter romance decente com alguém que nunca viu a ‘África Minha’. Se ele se chama Fábio e o filme preferido dele é ‘O Maneta de Ferro contra a Guilhotina Voadora’, parta para outro.

- Par Compatível – Temos pena, mas não é o Sebastião. O homem certo é aquele que a ama em segredo há anos, à espera que você finalmente visse a Luz e desse um chuto no Luís Miguel. Tristemente, você despreza-o, acha-o um choninhas, e nem sequer sabe que ele existe. Investigue bem. Não se esqueça de olhar por baixo da secretária.

A Impaciente
- Situação: Tem 52 anos. Está sozinha há mais tempo do que leva a aprender mandarim. Mil caracteres de solidão por dia. Há tanto tempo que até já nem liga. Parece que já nada de interessante vai acontecer. Passa o serão no sofá a ler ‘600 Receitas Para Quem Gosta de Cozinhar mas Não Tem Tempo’. Só fala com velhinhos chatos a querem desabafar consigo as suas mazelas, colegas de trabalho que a vêem como uma colega de trabalho, rapazolas que não lhe ligam porque afinal já é uma cota (aliás, se tivesse vinte anos a menos já era uma cota), e a sua filha a querer que você ature as crianças no fim de semana enquanto ela vai em segunda lua-de-mel com o marido para o Choupana Hill, e em resumo, ninguém percebe a mulher fantástica que ali está. Parvos.

- Par Incompatível: A sua filha, que só quer o seu bem, a sua felicidade, e mais um par de braços para manietar o Salvador, o Tomás e o Sebastião (o filho, não o cão) arranjou um jantar a quatro com ela e o marido e mais um amigo do marido. Problema: não tem gracinha nenhuma. Só lhe pergunta se já foi ver a exposição do Berardo. Diz que as lulas lhe dão azia. Os dentes dele gritam por um aparelho desde que ele tinha 14 anos (que já foi há mais ou menos 120). Os abdominais dele gritam por um ginásio desde que ele tinha 18 (que já foi há 116). Ele continua surdo. Metafórica e verdadeiramente falando. E ainda há quem ache que podia ser o homem da sua vida.

- Par Compatível: Como dizem no Canal Odisseia, ‘Abra Sua Mente’. Se Sua Mente não está definitivamente virada para os encantos dos velhinhos nem dos rapazolas nem dos tipos com divórcios traumáticos às costas, pode ser que um dia destes tenha uma surpresa e descubra que aquele seu colega que se oferece para lhe tirar fotocópias para que você não perca o seu rico tempo pode ser o homem da sua vida. Ah, e é verdade: o Baltazar agora é que deve estar no ponto, quando nenhum de vocês está interessado em nada mais sério (é verdade que já fez 75, mas continua charmoso e a beber conhaque com ar de gato se os gatos bebessem conhaque).