domingo, 8 de agosto de 2010

MAIS UMA SEMANA DE ESPERA

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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

As pequenas coisas

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Por Catarina Fonseca

NASCEMOS FELIZES como nascemos com cabelo castanho, olhos azuis e predisposição para bolhas nos pés, ou tornamo-nos felizes?

Tenho um amigo cronicamente infeliz. Sofre de infelicidade como outras pessoas sofrem de reumático, dores nas costas, asma ou hemorróidas. A infelicidade, nele, é quase uma forma de ser feliz. Sempre que nos encontramos, temos a mesma conversa (a seguir a ‘Porque é que toda a gente nos trata como se tivéssemos 14 anos’): afinal, por que é que vale a pena viver?

Da primeira vez, fui apanhada desprevenida. Durante uns bons minutos nem soube o que lhe responder. Finalmente, lá consegui gaguejar: “Chanel 19?”

É para vocês verem os estranhos labirintos do nosso cérebro. Só a seguir é que me veio à cabeça tudo o que me faz verdadeiramente feliz: os meus sobrinhos (especialmente a dormir), o mar da Costa Nova, gelado de cheesecake, borboletas no estômago quando nos apaixonamos, banhos de imersão com sais cor de rosa, conversas metafísicas, pessoas interessantes, livros que nos fazem ter vontade de voltar para casa. Despejei-lhe tudo isso aos trambolhões. A tudo ele torcia o nariz. O mar? É gelado! Os bebés? Choram! E rematava, “E isso são pequenas coisas”. Iá? Mas não são as pequenas coisas que nos fazem verdadeiramente feliz? Quando me preparava para voltar ao ataque com novas munições a eito (“aviões! lareiras! presentes! rouxinóis! Mozart! O George Clooney?”) percebi de repente que estava a gastar o meu Clooney. Os infelizes não são convertíveis porque a felicidade não depende de qualquer coisa fora de nós. Depende de nós. De que parte de nós e em que altura da nossa vida é que a contraímos, já não sei. Temo que tenha qualquer coisa a ver com sermos amados em bebés, mas como conheço imensa gente amada em bebé que está de mal com o Universo desde que largou a chucha, não deve ser assim tão simples.

Fui portanto documentar-me. O estudo mais recente sobre a felicidade é decisivo: ser feliz não tem a ver com a pessoa que se é mas com o sítio onde se vive. E então, qual é o país mais feliz do mundo? Não, não são as Caraíbas. É a Suíça. O que faz sentido: muitos chocolates e poucos impostos. Parece-me uma boa receita para a felicidade. Não sei se a Heidi também terá alguma coisa a ver com isso. Estão empatados com a Dinamarca (também faz sentido: são todos louros e acreditam em fadas) e a seguir os islandeses. Sendo que o inquérito era de 2006, seria interessante saber se depois de terem levado com duas cacetadas na carroceria (as cinzas do Fyjfyjfyj – pronto, do Zé Manel – e a bancarrota) continuam assim tão felizes. Os mais infelizes são os moldovos. Eu nem sei onde é que fica a Moldova. Eles pelos vistos também preferiam não saber.

Conclusão: não é preciso ter praias, é preciso ter amigos e confiança em quem nos governa. Nós portugueses desconfiamos profundamente da felicidade. Aliás, capitalizamos no fado, o que me parece bem. Já que somos infelizes, ao menos que se venda muito CD sobre isso aos totós dos Suíços. Mas, ó meninos, não exagerem! Sejam lá felizes e não chateiem! Há uns tempos, a propósito daquele 7-0 no Mundial com os pobres dos Coreanos, houve um comentador que disse: ‘É preciso não entrar em euforia!’ A única pessoa que achou isto estranho era (adivinhem lá) brasileira.

«Activa» de Agosto 2010

sábado, 31 de julho de 2010

VAMOS A BANHOS

Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

PARECE QUE É desta que vamos para Pedrouços.
Todos os dias a minha mãe insistia, mas o meu pai torcia o nariz, com os argumentos de sempre - a situação política instável e o nascimento do meu irmão.
A minha mãe tentava sossegá-lo:

- A monarquia, por muito que lhe custe, está de pedra e cal, e o nosso filho só nasce em fins de Outubro. Não vejo motivo nenhum para não irmos em Agosto para Pedrouços. De resto, a D. Bebiana está à nossa espera, e nunca aluga a casa a mais ninguém. Era uma grande desfeita que lhe fazíamos.
- De resto — acrescentou logo a minha avó — é só olhar para a cara do Zezito para ver como está a precisar de bons ares.

(O Zezito sou eu. Odeio que me chamem assim mas felizmente só a minha avó tem essa mania — e normalmente só quando estou doente.)
Desde sempre que oiço dizer que as nossas idas para Pedrouços são por minha causa, porque aquela aldeia é conhecida pelos seus bons ares e pelas suas águas, que operam milagres na cura da anemia, do raquitismo e da depressão. Há mesmo estrangeiros que vêm dos seus países só por causa dos bons ares de Pedrouços.
Eu nunca tive anemia nem raquitismo nem depressão — mas a minha avó diz que vale mais prevenir que remediar - e nestes últimos tempos não tem feito outra coisa senão dizer à minha mãe que eu ando muito descorado.
Aqui há dias queria mesmo levar-me à Farmácia Peninsular, na Rua Augusta, para me comprar Pílulas Pink, que é um remédio de que toda a gente fala e que, segundo diz a minha avó, “transforma o sangue pobre e viciado em sangue puro e generoso”.
Se há comprimidos que fazem as pessoas generosas…venham eles! Mas a minha mãe não deixou, porque disse que se estava mesmo a ver que isso era uma grande aldrabice.
A minha avó amuou, ninguém comprou Pílulas Pink, e eu continuo descorado.
Então o meu pai acabou por concordar com a nossa ida.
Claro que ele só vai aos fins-de-semana, porque a livraria não pode fechar. E também porque não é muito apreciador das belezas de Pedrouços... Assim que a minha mãe começa a fazer os preparativos para a nossa ida, começa ele a recitar uma frase do Ramalho Ortigão, um autor de quem ele gosta muito.
(Quer dizer, o meu pai diz que ele é um grande escritor, mas não gosta dele como pessoa porque é monárquico. O meu pai diz que a gente tem sempre de separar essas coisas, embora eu ache difícil…Mas o meu pai consegue: lembro-me uma vez de ver o Ramalho Ortigão, que é já muito velho, entrar na livraria, e o meu pai olhava para ele como eu olharia para o Júlio Verne se o visse na minha frente.)
Então o meu pai recorda a frase de um livro dele sobre as praias, em que diz, a respeito de Pedrouços: “pela manhã a gente abre a janela do nosso quarto, deita a cabeça de fora e pode fazer a barba no espelho do vizinho do prédio em frente.”
Eu também acho que Pedrouços já tem gente a mais mas, mesmo assim, tudo é preferível a esta pasmaceira de Lisboa no verão.

«JN» de 31 Jul 10

sábado, 24 de julho de 2010

O ALFREDO VOLTOU

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".


ESTÁVAMOS A TOMAR o pequeno almoço, ainda o meu pai não tinha saído para a livraria quando, de repente, ouvimos um grito da Rosa.

- Um assalto! — disse logo a minha avó, levantando-se da mesa.

(A minha avó anda muito preocupada porque os jornais não param de falar da onda de assaltos e violência — “onda vermelha” é assim que eles escrevem — na cidade de Lisboa)
Mas não era um assalto, era apenas o Alfredo que voltava!
A Rosa estava branca como se tivesse visto um fantasma, e quase desmaiara ao dar de caras com ele no patamar das escadas de serviço. Mais magro, com olheiras e barba de muitos dias, depois de ter andado por aí, a seguir à fuga dos calabouços da esquadra do Caminho Novo, juntamente com alguns amigos.

- Eu não te disse, rapariga, que ele andava escondido? — disse o meu pai, acrescentando — Se calhar por causa dele e dos primos dele é que isto deu no que deu…
- O senhor sabe que não é verdade! — gritou o Alfredo, que pode estar fraco de carnes mas não está fraco de voz—Desta vez a culpa foi toda…
- Pronto, pronto! – interveio a minha mãe — o Alfredo está cá fora e está bem, hoje é dia de festa e não quero discussões!

E para a festa ser a sério, deu o dia livre à Rosa.

- Maus hábitos — resmungou logo a minha avó – Hoje dás-lhe o dia livre, para a semana também, não tarda está a exigir-te um dia livre todas as semanas! Ouve o que te digo! O pessoal tem que ser tratado com rédea curta senão abusa logo! E de resto...

E a minha avó pôs aquela cara que ela costuma reservar para os grandes problemas do mundo:

- De resto, temos muito poucos motivos para festas… A menina não lê jornais? Não sabe o que se passa?
- Sei! Sei que, por exemplo, a sua querida rainha Maria Pia…
- Dona Maria Pia, se faz favor... — emendou logo a minha avó
- …mandou vir um chapéu de Paris que custou 18 contos de réis! Isso é que eu sei! 18 contos por um chapéu, quando o povo está na miséria!

A voz da minha mãe até tremia.
(Para falar verdade, eu nem consigo imaginar o que sejam 18 contos de reis…Já os 60 reis que eu pago pelo “Texas Jack” no quiosque aqui em frente me parece uma fortuna… E oiço sempre o meu pai barafustar quando paga 80 reis pela onça de tabaco francês que fuma…)
A minha avó não lhe respondeu e continuou:

- Dizia eu que não há motivo para festas quando o rei de Espanha acabou agora de escapar a um atentado! E foi por pouco! O anarquista estava mesmo a disparar a pistola quando foi preso!
- Então... — disse a minha mãe – se escapou, ainda bem! Se tivesse morrido é que era mau!
- Não faça de conta que não percebe! A Espanha é mesmo aqui ao lado, hoje o atentado é contra Afonso XIII, amanhã é contra D. Manuel! E nem sempre falham. Lembre-se do que aconteceu a D. Carlos e D. Luís Filipe…

Suspirou muito fundo e rematou:

- Os anarquistas estão por toda a parte! É o fim do mundo.

E lá foi para a sua novena, deixando a minha mãe a lavar a loiça do pequeno almoço. Quem dava dias livres às criadas tinha de acarretar com as consequências.
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«JN» de 24 Jul 10

sábado, 17 de julho de 2010

PIOR QUE ARRANCAR UM QUEIXAL…

Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

ESTA FOI uma semana complicada.
O meu pai entrava em casa a desoras, ou até mesmo nem entrava em casa.
“Anda a dormir sabe-se lá por onde”, murmurava a minha mãe, que todos os dias refila porque não se encontra em estado de ter ralações como esta. Claro que a revolução não tem culpa nenhuma que a minha mãe esteja de esperanças, mas ela não pensa nisso.
É que a Revolução estava marcada para dia 14!
Finalmente!
Desta vez é que era!
Comemorava-se mais um aniversário da Tomada da Bastilha — que é uma data muito importante para os franceses, porque foi quando eles também puseram os reis deles fora do trono,
(eles foram muito mais apressados do que nós, e acabaram com a monarquia há mais de 120 anos…)
era uma data simbólica, e aproveitava-se o facto de D. Manuel andar distraído, de férias e de amores lá pelo Grand Hotel da Mata do Buçaco…
Mais uma vez estava tudo, tudo, para acontecer... mas mais uma vez não aconteceu.
E o meu pai não parava de barafustar que a culpa era toda daqueles incompetentes de Caçadores-2 que, à última da hora, quando se estava à espera que viessem por ali abaixo — tinham roído a corda e nem um passo tinham dado.
Bom, mas se estava tudo, tudo preparado para dia 14 — então ficaria para dia 16, que era para os ânimos não esfriarem.
“Desta vez”, disse o meu pai, “ vamos nós tomar conta do assunto!”
Quando o meu pai diz “nós”, eu já sei que se refere aos seus “irmãos” da maçonaria. Esses, segundo ele, sabem o que fazem, são rigorosos, têm a cabeça no lugar. “Os outros”, da Carbonária, são uns loucos que estragam tudo…
Então, para que nada pudesse falhar no dia 16, o meu pai contou que se tinha organizado um novo plano, que dividia a cidade de Lisboa em 6 grandes comandos, e que assim tudo ficava mais fácil de orientar.
“Desta vez é que não falha!” — disse ele para a minha mãe, antes de, mais uma vez, sair porta fora.
A minha mãe até estava admirada por ele ter falado tanto. Era a prova de que realmente estava tudo mesmo, mesmo para acontecer. Uma questão de horas, de minutos.
Mas o certo é que já hoje é dia 17- e a monarquia ainda cá está.
Desta vez parece que, no meio de mais uma reunião, alguém disse que ainda não era oportuno…
Pelos vistos, custa mais tirar a república de cá do que custou tirar da minha boca aquele queixal infectado que me fazia imensas dores! O dentista arrancou-mo que foi uma beleza. Gritei que nem um vitelo, aquilo era sangue pelo consultório todo, e um cheiro a éter que agoniava — mas pronto, cortou-se o mal pela raiz (na verdadeira acepção da frase…)
“Tudo pronto para sair para a rua, tudo controlado, os marinheiros de Alcântara e o Arsenal a postos — e vem aquela alimária e diz que não é ainda oportuno!!!” — grita o meu pai que, nestes últimos dias, não tem feito outra coisa.
Confesso que não faço ideia nenhuma do que seja “alimária” e assim que puder vou ver no dicionário.
Mas tenho cá um palpite que não deve ser coisa boa.
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«JN» de 17 Jul 10

sábado, 10 de julho de 2010

FÉRIAS NO BUÇACO

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

A ROSA NÃO PÁRA
de chorar, sem notícias do Alfredo.
O meu pai diz-lhe que não é caso para alarme, o mais provável é ele ter arranjado maneira de fugir e estar escondido num sítio qualquer.

- E por que é que não me dá notícias? — chora a Rosa
- Porque está escondido. Se está escondido é porque não quer que ninguém o veja — e faz ele bem!

E o meu pai desatou logo a resmungar que é por estas e outras que a revolução tem falhado sempre.

- Começam a falar com quem não devem, começam a aparecer às namoradas, dão com a língua nos dentes - e lá se vai tudo por água abaixo.

Fez uma pausa e murmurou:

- Mas desta vez não vai falhar…

A minha mãe sentiu-se logo maldisposta, e pediu um chá de tília.

- Fernando, não me esconda nada! É agora? Diga-me: é agora?

O meu pai sossegou-a:

- Esteja descansada! Então não sabe que o nosso rei está de férias? Se o rei - que, segundo diz a senhora minha sogra, só pensa na segurança e bem-estar do seu povo - foi tranquilamente para o Buçaco, ouvir os passarinhos - é porque está tudo bem.
A minha mãe não pareceu convencida:

- Eu conheço-o, Fernando…

Então o meu pai deu-lhe um beijo e saiu.
A minha mãe não sossegou nessa tarde.
A minha avó ainda pensou em mandar a Rosa chamar a Dra. Adelaide, mas a minha mãe não deixou:

- Nem pense, minha mãe! Se anda conspiração no ar, de certeza que a Dra. Adelaide está lá metida, e não vai ter tempo para acudir a achaques sem importância…Isto é nervoso, já passa. E realmente, o Fernando tem razão: se D.Manuel foi de férias para o Buçaco, é porque está tudo calmo.
- E ao que parece não está lá sozinho... — resmungou a Rosa, entrando com a tisana para a minha mãe – Esse ao menos manda chamar a namorada e não lhe esconde nada…

A minha avó saiu logo em defesa do bom nome do seu rei:

- D.Manuel não tem namorada nenhuma. Isso são más línguas!
- Ora essa! – defendeu-se a Rosa -Toda a gente sabe que a actriz está lá com ele! E que ele a cobre de jóias! E que até já lhe deu um automóvel!
- Pronto, já bebi o chá, leva a xícara — disse a minha mãe, para repor a paz na sala.

Finalmente fez-se silêncio.
A minha mãe tricotava qualquer coisa em tons de azul.
No bastidor, a minha avó bordava a palavra “BEBÉ” a ponto de cruz, no meio de um babeiro.
Eu tentava passar da primeira página de “Os Miseráveis”, de um escritor francês muito importante chamado Victor Hugo, que o meu pai me mandou ler há mais de um mês.

- Não há dúvida que os nossos reis não podem ver uma actriz na sua frente…--murmurou então a minha mãe - Já o avô, foi o que foi…
- Não é bonito falar mal dos mortos — disse logo a minha avó.

E era bonito D. Luís andar para todo o lado com a Rosa Damasceno? E é bonito este andar feito doido com a Gaby Deslys? O país numa situação tão grave, o povo a passar fome, e eles a gastarem dinheiro desta maneira?
A minha avó largou o bastidor sobre a mesa.

- Quando a menina fala como o seu marido fica insuportável.

E retirou-se para o quarto.
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«JN» de 10 Jul 10

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Um pequeno conto musical - Convite

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Por Alice Vieira

VAMOS estrear Um Pequeno Conto Musical no próximo dia 11, domingo, às 21h30m, no Jardim da Cascata do Palácio de Belém. Imprima o convite para assistir ao concerto ao vivo da Orquestra Metropolitana de Lisboa, com narração de Alice Vieira e direcção musical de Cesário Costa. Na altura será lançado o livro com o texto e música, editado pela Caminho.

IMPORTANTE:
é obrigatória a apresentação do convite na entrada do Museu da Presidência, em Belém, e é preciso confirmar até amanhã, dia 8 Jul 10, pelo tel. 213 617 344.

sábado, 3 de julho de 2010

O MEU AMIGO AQUILINO

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Por Alice Vieira

O ALFREDO foi preso.
A Rosa chora dia e noite, sobretudo quando se lembra do Sr.Mateus, nosso vizinho preso já há meses e de quem nunca mais se ouviu falar.
O meu pai já lhe disse que o Sr.Mateus é diferente: foi apanhado a fazer uma bomba. Ao passo que o Alfredo foi levado num grupo de muitos, que tinham sido denunciados à Secreta, mas não havia bombas nenhumas.

- Além disso — explica ele — diz-se por aí que o Mateus fugiu para França.
- Ai, Sr. Fernando!, pela sua rica saúde, não me diga que o meu Alfredo vai fugir para França!

E a Rosa corre para a cozinha, enquanto o meu pai aproveita para dizer que os da Carbonária são todos uns inconscientes, sem cuidado nenhum, e por isso estão sempre a ser presos.

- Ouve o que te digo, Zé Joaquim: não é glória nenhuma ser preso! Devemos sempre ter inteligência suficiente para sabermos trocar-lhes as voltas! Glória é lutar por uma causa justa!

Claro que, se formos presos, temos de nos portar como verdadeiros homens, mas o nosso objectivo é prosseguir a luta cá fora!
Nestes últimos tempos, o meu pai fala sempre em jeito de comício.
E a propósito da fuga do Sr. Mateus, o meu pai recordou um amigo dele chamado Aquilino Ribeiro, que eu ainda me lembro de ver na livraria, que um dia foi apanhado a fazer explodir uma bomba, foi levado para a prisão, e há mais de dois anos desapareceu.

- Está em França. De vez em quando tenho notícias dele. E, se bem o conheço, de certeza que não está parado…

Eu gostava de ouvir este amigo do meu pai. Tinha uma fala engraçada, diferente da nossa.

- O Aquilino nasceu perto de Viseu, e os beirões falam “achim” — dizia o meu pai.

Estava sempre a conspirar e a fabricar bombas e a escrever coisas contra a monarquia.
E tinha paciência para mim.
Uma vez contou-me que até tinha inventado para si próprio um nome diferente, para poder escapar melhor.

- Sou Alberto Ramos. Já sabes. Só me tratas por Alberto Ramos, ouviste?

Alberto Ramos — para que a pessoa que lhe alugava o quarto, e a lavadeira que lhe tratava da roupa não desconfiassem de nada, ao verem as iniciais “A.R.”, que a mãe dele tinha bordado em toda a roupa…
Lembro-me um dia, estava-se no Carnaval, de ver o meu pai chegar a casa vermelho de fúria, a chamar-lhe louco varrido, inconsciente e mais não sei o quê.

- Mas que foi que ele fez? — perguntou a minha mãe.
- Nem vais acreditar…Imagina que aquela alma do diabo, procurado pela polícia em toda a parte, mascarou-se de dominó e foi pedir lume ao tenente-coronel Dias!!

O meu pai dava voltas à mesa da casa de jantar, tal era a fúria:

- Ao tenente-coronel Dias! O n.º 1 da polícia do reino!

Pouco depois dessa aventura, ouvi o meu pai dizer que ele tinha fugido para França — e nunca mais me lembrei dele a não ser agora, por causa do Alfredo.
Para além da prisão do Alfredo, a única coisa importante que aconteceu é que se marcaram eleições para dia 28 de Agosto.
Este ano é que o meu pai não vai pôr o pé na praia.
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«JN» de 2 Jul 10

sábado, 26 de junho de 2010

NOVO GOVERNO E NADA DE FÉRIAS…

Por Alice Vieira

ESTE FIM-DE-SEMANA traz toda a gente muito excitada.
Enfio-me no meu quarto e aproveito para escrever no meu diário.
(Há dias o meu pai disse-me que, daqui a uns anos, isto ainda vai ser um bom documento destes tempos. Nunca se sabe…)
Pois então lá temos outro governo. Desta vez, do ministro Teixeira de Sousa que, antes de vir para a política era médico em Trás os Montes - segundo o meu pai me disse. Acho que nunca o vi (ministro do reino é bicho que não frequenta a nossa livraria…), mas vi uma fotografia: velhote, como todos, de cabelo branco e grande bigode.
Desde que o rei andou aqueles dias todos por Inglaterra, as coisas por cá, se já estavam feias, mais feias ficaram, e nunca mais se recompuseram.
O chefe do governo dizia que não conseguia governar; o rei dizia-lhe que tivesse calma, muita calma (isto devia ele ter ouvido em Inglaterra: a minha mãe está sempre a dizer que os ingleses têm imensa calma, muito mais calma do que nós…); os partidos não se entendiam; a Polícia cada vez fazia mais prisões; e depois de muita confusão, lá se foi o outro governo e lá veio este.
Que não deve durar muito, pois já se fala em fazer eleições no mês de Agosto…
(Se calhar nem valia muito a pena tomar nota aqui do nome deste ministro, que não deve aquecer o lugar, mas como o meu pai diz que este diário ainda pode ser um bom documento, tenho de aqui assentar tudo.)
Também ouvi dizer que o governo é formado por mais seis ministros e que já há quem lhes chame “os sete satanazes”…

- Que país este, santo Deus, onde tudo tem alcunhas! — protestou a minha avó.

Para dizer a verdade não me preocupam muito as alcunhas, nem o novo governo, nem os novos ministros.
O que verdadeiramente me preocupa é que este ano ainda não ouvi ninguém falar das férias de verão.
Em anos normais, a esta hora já a minha mãe estava a organizar tudo para partirmos para a praia de Pedrouços.
A D. Etelvina vinha para nossa casa todas as tardes para arranjar a nossa roupa, deitar bainhas abaixo, alargar e apertar saias, pôr em ordem a roupa de mesa e de cama, essas coisas que é sempre preciso levar quando se vai de férias.
Todos os anos passamos as férias no Chalet Gonçalves, em frente da Drogaria Gonçalves. Pertencia tudo ao Sr. Gonçalves, que era amigo do meu avô, e que já morreu. Agora pertence tudo à D. Bebiana, que é a viúva.
Desde sempre que me lembro de alugarmos a casa para toda a temporada de verão.
Umas semanas antes, a minha mãe ia com a Rosa abrir as janelas, levar já algumas malas, e pedir à D. Bebiana para arranjar duas raparigas que pudessem ir lá para casa servir durante esses meses, porque a Rosa sozinha não dava conta do recado.
Depois mudávamo-nos todos para lá - menos o meu pai, que só ia ao fim de semana, porque não podia fechar a livraria.
Mas este ano, ou por causa da república, ou por causa do meu irmão, ainda ninguém começou a falar em férias.
E isto, sinceramente, isto é que verdadeiramente me preocupa.
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«JN» de 26 Jun 10

sábado, 19 de junho de 2010

PÃO COM SERRADURA

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Por Alice Vieira


Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

QUANDO EU ERA PEQUENO, pensava que o meu pai conhecia o mundo inteiro.
É claro que neste momento já tenho outra ideia do mundo mas, mesmo assim ainda fico admirado com a quantidade de gente que ele conhece.
Ouço-o falar de Miguel Bombarda, Machado Santos, Cândido dos Reis, Magalhães Lima e sei que um dia, quando vier a República, vão ser todos pessoas muito importantes.
Muitos são clientes habituais da livraria, ou fazem da livraria o seu lugar de conversa, ou encontram-se na Brasileira, ou vão ler as notícias do mundo enviadas pela Agência Havas que a Havaneza afixa, ou fazem por não perder um sarau do São Carlos. (Há mesmo quem assegure que são melhores as conspirações que se tramam entre as quatro paredes do São Carlos do que as óperas que lá se ouvem…)
Há mesmo um grupo de amigos do meu pai que anda pelo estrangeiro a pedir apoios para quando a revolução rebentar a sério.
Mas enquanto não rebenta, o governo não se entende.
Quer dizer, o governo nunca se entende.
Basta dizer que, desde que D. Manuel é rei, este já é o quinto governo do país. E, pelos vistos, já outro se anuncia para breve.

- Casa onde não há pão…- murmura a minha avó.

O que até vem a propósito, pois parece que até com o pão tem havido sarilhos.
Ouvi o meu pai falar disso à mesa.
Dizia ele que, como há falta de cereais, o pão fica muito caro.
(E aí aproveitou logo para exclamar, com voz de comício:

- Uma das primeiras medidas da República será fazer descer o preço do pão!)

E então, para as pessoas o poderem comprar, (“se as pessoas não comerem pão o que é que elas vão comer, com a miséria que vai por aí?”, murmura a minha mãe) ele é posto à venda abaixo do seu preço real de produção.
E então os produtores, para ver se podem lucrar mais qualquer coisita, vá de misturarem a farinha com serradura, cal e gesso!
E sei que os problemas não se ficam por aí: ontem a Rosa contou que o Alfredo lhe tinha contado que os moços de padeiros estavam em greve. E que o governo tinha mandado o exército dar serventia às padarias!

- Bem me parecia que o pão tem andado com um gosto estranho…-- disse a minha avó, metendo o dente na terceira torrada.
- Só a revolução nos pode salvar…- murmurou o meu pai.
- Muito gosta o senhor meu genro de falar em revoluções…. — disse a minha avó—Toda a gente sabe que uma revolução é um acto condenável, que vai sempre contra a ordem, contra a religião…

(A minha avó, quando quer, também tem voz de comício, mas de comício de sacristia…)
Então o meu pai aclarou a voz e disse:

- “As revoluções não são factos que se aplaudam ou se condenem. São factos fatais. Têm de vir “
- Quem é que disse isso? Algum dos seus irmãos maçons?
- Não. Por muito que lhe custe ouvir, quem disse isto foi o Eça de Queiroz.

Com uma força inaudita, a minha avó ferrou o dente na quarta torrada. Mesmo que tivesse serradura, gesso ou cal, ela tê-la-ia trincado da mesma maneira.

«JN» de 19 Jun 10

sábado, 12 de junho de 2010

O DIA DE CAMÕES

Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

DESDE QUE EU ME LEMBRO de ser gente que o dia 10 de Junho se festeja cá em casa.
Se calha a dia de semana, festeja-se mais tarde porque o meu pai tem de fechar a livraria e eu tenho de chegar do colégio.
Se calha a um domingo, festeja-se mais cedo, assim que a minha avó e a minha mãe chegam da missa.
Vamos todos até ao Chiado, bem junto da estátua, e o meu pai recorda a vida do poeta: as privações por que passou, a perda de um olho (nesse momento a minha avó murmura “ai coitadinho…”), o naufrágio (nesse momento a minha mãe murmura “ai, Dinamene!...”), e o regresso à pátria – e nesse momento eu murmuro “ cá vou eu…” porque já sei que é a altura de o meu pai apontar para as estátuas que rodeiam, cá em baixo, a figura do poeta lá no cimo, e perguntar:

- Zé Joaquim, quem são estes?

Com o treino destes anos todos, já os conheço de cor:

- Fernão Lopes, Pedro Nunes, Gomes Eanes de Zurara, João de Barros, Fernão Lopes de Castanheda, Vasco Mouzinho de Quevedo…

(Neste momento faço uma ligeira pausa porque já sei que é aqui que o meu pai murmura: “completamente esquecido e tantas vezes considerado um segundo Camões…Injustiças desta vida…” – e termino:)

- …Jerónimo Corte-Real, e Francisco Sá de Meneses.

O meu pai fica feliz, e regressamos a casa, não sem antes termos passado pela livraria, para vermos a beleza da montra: um busto de Camões, e várias edições de “Os Lusíadas”, acompanhadas de edições de “A Fome de Camões”, de Gomes Leal, “Camões” de Almeida Garrett e “Camões” de António Feliciano de Castilho –livros que eu todos os anos morro de medo que o meu pai se lembre de me mandar ler. Até agora, felizmente, tenho escapado.
Depois ao jantar o meu pai recorda os grandes festejos do terceiro centenário — as luzes, o cortejo, os barcos no rio — e remata:

- Eu tinha 16 anos, e marcou-me para a vida.

Nesse momento sabemos que a evocação está terminada, e a vida volta ao normal.
O meu pai está sempre a dizer que é uma vergonha o10 de Junho não ser feriado.
(De resto, eu acho que é uma vergonha os dias todos não serem feriados, porque em todos eles deve ter acontecido qualquer coisa de extraordinário ao longo destes 1910 anos…)
E acrescenta:

- Claro que se fosse um santo tinha direito a isso e a muito mais…É ver o que acontece com o Santo António!...

Aí eu já não digo nada, porque no dia de Santo António vou sempre com a Rosa e o Alfredo aos arraiais de Alfama. Comem-se sardinhas, há muita música, e gosto de ver os tronos.
O Alfredo, que sabe muitas coisas, já me contou que este hábito de fazer os tronos e pedir uma moedinha para o santo vem de muito longe, do ano de 1755, quando um grande terramoto destruiu Lisboa. Esta foi então uma das maneiras que o povo encontrou de arranjar dinheiro para a reconstrução da cidade.
Fico a pensar que se o povo se lembrasse de fazer tronos de Santo António para arranjar dinheiro para a revolução, se calhar a República já cá estava.
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«JN» de 12 Jun 10

sábado, 5 de junho de 2010

O CENTENÁRIO DA ARGENTINA

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Por Alice Vieira


Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

POR TODA A PARTE se ouve falar da república e de conspirações. Pelo que ouço, toda a gente conspira. E toda a gente sabe que toda a gente conspira!
Acho mesmo que só o rei é que não sabe.
Um dia acorda, e tem uma grande surpresa, olá se tem.
Mas enquanto não acorda, anda nas festas do costume. Esta semana, por exemplo, festeja-se o centenário da Argentina.

A Argentina era uma colónia espanhola mas, depois de muitas lutas, conseguiu ser país independente — e republicano!
Quando penso que Portugal já é independente há quase oitocentos anos, fico espantado por haver países que são independentes há tão pouco tempo!
Segundo conta o meu pai, as coisas na Argentina andam complicadas (pelos vistos a república não resolve tudo…) e estes festejos, que têm carácter internacional, são mais para fazer esquecer o que verdadeiramente lá se passa.
Mas, apesar disso, lá fez a montra da livraria a chamar a atenção das pessoas para o acontecimento.
Só que em vez de pôr a fotografia do presidente (que passou esta semana por Lisboa, numa visita relâmpago, apenas o tempo de ir cumprimentar o rei e as rainhas ás Necessidades) pôs fotografias de heróis argentinos — e heróis, felizmente, todos os países têm.
A Argentina tem Simon Bolívar e José de San Martín.

No colégio, a propósito destas comemorações, aprendemos a sua história, as suas lutas, e como dedicaram a vida a libertar todos os povos do poder de Espanha, e saímos todos para a rua a berrar “liberdade ou morte!”
Ao lado dos retratos dos heróis o meu pai colocou ainda uma placa, onde ele próprio tinha escrito em letra desenhada, uma frase de Bolívar num dos seus primeiros discursos:

................“Juro pelo deus de meus pais
................Juro por eles
................Juro pela minha honra
................Juro pela minha pátria
................- que não darei descanso ao meu braço nem repouso à minha alma até ter conseguido quebrar as grilhetas que subjugam os nossos povos ao poder espanhol.”

Mas para não se dizer que não falava de livros — sempre era a montra de uma livraria… - colocou em lugar de destaque uma obra - “El Gaúcho Martin Fierro” e “La Volta de Martin Fierro” - de um poeta argentino chamado José Hernández.
O meu pai diz que se trata do livro mais importante da literatura argentina, que fala das lutas de gaúchos (uma espécie de cowboys) e de índios, dos combates pela terra quando começou a construção das linhas de caminho de ferro, a luta pelo domínio das pampas (uma espécie de pradaria) e contra a exploração.

- Uma espécie de “D.Quixote” — diz ele.

Eu não quero desdizê-lo mas parece-me mais uma espécie de Texas Jack-- mas com a desvantagem de ser em espanhol, em verso, e em dois volumes…
Fora isto, foi uma semana pacífica: está a decorrer o Concurso Hípico Internacional (lá vai o rei a todas as provas…), a minha mãe ainda não estreou a máquina de costura nova, e a casa toda cheira a Heno de Pravia.

«JN» de 5 Jun 10

sábado, 29 de maio de 2010

A MINHA MÃE FEZ ANOS

Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

A MINHA MÃE fez anos ontem.
Vieram bolinhos de amêndoa e rebuçados de ovo da Confeitaria Nacional, o meu pai foi a Belém comprar pastéis, tirou-se a loiça de Vista Alegre do aparador e, na véspera, a Rosa gastou uma embalagem inteira de Pomada Amor a arear as pratas, para tudo ficar reluzente.
Veio pouca gente, para ela não se cansar: as vizinhas de baixo, e a Dra. Adelaide Cabete, que é médica da minha mãe.
A Dra. Adelaide, como diz a minha avó, que não morre de amores por ela, “enche uma casa”. E quando está muito bem disposta, até canta modas alentejanas, dos seus tempos de juventude em Elvas.
Tempos bem difíceis, segundo o meu pai já me contou: trabalhou na apanha da ameixa até muito tarde, foi criada de servir, até que casou e o marido empurrou-a para os estudos, apesar de todas as dificuldades.
Já a ouvi contar que esfregou muitas vezes o chão com o livro de anatomia ao pé do balde, para ir decorando o que era preciso.
Por isso é agora uma grande médica. (“E uma grande republicana!”, acrescenta logo o meu pai).
Por isso ontem, de repente, virou-se para a Rosa e disse-lhe que o melhor que ela tinha a fazer era estudar, mas estudar mesmo a sério, para vir a ser uma mulher “ daquelas de que a República precisa”.

- Sei ler e escrever! — disse a Rosa.
- Foi a minha filha que fez essa caridade… — exclamou logo a minha avó.

Para a minha avó, todo o bem que fazemos aos outros em geral e à Rosa em particular - é sempre por caridade.
Esqueceu-se foi de contar como barafustava de cada vez que a Rosa largava a cozinha para se sentar ao lado da minha mãe, diante dos livros.

- É muito bom mas não chega — continuou a Dra. Adelaide – é preciso ir para uma escola, tirar um curso, ter opinião…
- Opinião tem ela que chegue… - murmurou a minha avó que, para rematar a conversa, propôs que se passasse à sala para verem os presentes que a minha mãe tinha recebido.

Este ano a minha mãe não teve sorte nenhuma com os presentes: só recebeu coisas para o meu irmão!
Até o meu pai! Quando eu esperava que ele lhe oferecesse uma salva de prata da Casa Leitão (que é sempre o que ele lhe dá em datas festivas) — dá-lhe uma máquina de costura! Uma enorme máquina Pfaff, daquelas que custam sete mil reis e vêm anunciadas em todos os jornais como a maior maravilha.
Pode ser uma maravilha — mas é uma maravilha que vai dar muito trabalho à minha mãe !
Para além disso - casaquinhos, babeiros, cueiros, chambres, toucas, até parecia a montra do Eduardo Martins!
Para ela mesmo só recebeu um frasco de “Heno de Pravia”, que é um perfume que agora se vende em Espanha, oferta da vizinha Henriqueta, que veio há dias de Badajoz.
***
(Ah, é verdade: o rei já voltou. Levou 11 dias a ver a coroação do rei de Inglaterra — mas lá voltou…Não sei se terá feito muita falta, eu cá não dei por nada.)

«JN» de 29 Mai 10

quarta-feira, 26 de maio de 2010

AS NÃO-NOTÍCIAS

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Por Alice Vieira

ÀS VEZES ainda costumo guardar recortes de jornais. Hábitos que ficam…
Eu sei que hoje já poucos lêem jornais.
Jornais a sério, quero eu dizer.
Jornais — para utilizar uma expressão muito na moda e que eu detesto — “em suporte papel”.
Hoje quase toda a gente clica e lê na net — o que não tem nada a ver com o prazer que dá a leitura de um jornal — até porque se perde muita coisa.
E acabei de recortar uma notícia que me apareceu hoje nas páginas centrais do “Diário de Notícias”.
Porque estava muito bem escrita?
Porque era extremamente importante?
Porque era algum acontecimento a que eu não queria faltar?
Nada disso.
Pura e simplesmente porque era…uma não-notícia.
E é terrível a frequência com que hoje os jornais se enchem de não-notícias.
Os jornais, onde nunca há espaço, por exemplo, para noticiar coisas de cultura, encontram sempre espaço para noticiar o que não interessa a ninguém.
Uma vez estive uma semana no Funchal, integrada numa semana cultural de uma escola. Uma semana em que tinha havido exposições, debates, encontros com autores, etc, etc. Nunca a televisão se lembrou de ir ver o que lá se passava. Uma noite, um grupo de vândalos à solta lembrou-se de partir uma data de vidros da escola. Resultado: logo de manhãzinha a televisão já lá estava.
Mas vamos lá à tal notícia que ocupava hoje espaço no “Diário de Notícias”.
Então a história era esta: a mulher de Tony Blair estava de manhã em casa a fazer torradas, e esturrou uma torrada. Vai daí, o alarme lá de casa tocou e, alguns momentos depois, apareceram os bombeiros, pensando que havia fogo. A senhora agradeceu, disse que não era preciso nada, e eles foram-se embora.
Pronto.
A história é esta.
E é isto que é importante para o jornal! Que até ilustra a notícia com… uma fotografia do Tony Blair, coitado, que nem entra na anedota…
E eu pergunto-me o que é que esta notícia nos traz assim de tão importante…
Que a mulher do Tony Blair é uma naba a fazer torradas?
Que o alarme da casa deles funciona bem?
Que os bombeiros ingleses respondem às chamadas?
Que o Tony Blair saiu sem tomar o pequeno almoço?
É que realmente não consigo mesmo atinar.
Porque isto, evidentemente, é uma não-notícia. E para as não-notícias há sempre espaço. Para as outras é que nem tanto…
Aqui há meses, a Câmara de Lisboa assinou um protocolo com a Casa Fernando Pessoa.
Um protocolo importante, claro.
Tão importante que a directora da Casa Fernando Pessoa, a escritora Inês Pedrosa, decidiu lá organizar um concerto, trazendo a Lisboa um dos maiores intérpretes de Fernando Pessoa : o cantor e compositor italiano Mariano Deidda.
Mariano Deidda tem dedicado grande parte da sua vida a musicar, a cantar e a divulgar a poesia de Fernando Pessoa, tem CD’s gravados (que é quase impossível encontrar à venda por cá…) já fez espectáculos no CCB e no Teatro Nacional. (Já agora, quem estiver interessado procure no Youtube que encontra)
Ter Mariano Deidda na Casa Fernando Pessoa era um privilégio.
E foi, de facto, um privilégio assistir àquele concerto.
Uma amiga minha jornalista estava lá, para fazer a reportagem para o jornal onde trabalha (não, não era o” Diário de Notícias”, para que conste)
Assistiu à assinatura do protocolo, falou com o presidente da Câmara, com a directora da Casa Fernando Pessoa, com Mariano Deidda, e assistiu ao concerto.
Tudo como lhe competia.
Tudo o que qualquer jornalista faria.
No dia seguinte, ao abrir o jornal onde a minha amiga trabalha, encontro uma fotografia do Presidente da Câmara a assinar o protocolo, e meia dúzia de linhas a explicar de que protocolo se tratava.
Mais nada.
Nem sequer a menção de que, a seguir, tinha havido um extraordinário concerto de um dos maiores intérpretes de Fernando Pessoa, que se tinha deslocado de Itália a Lisboa para dar este único espectáculo.
Nem uma palavra.
A minha amiga nem conseguia falar direito quando me ligou, a explicar que todo o resto da reportagem lhe tinha sido cortada porque, segundo quem manda no jornal onde ela trabalha, essas coisas culturais não têm importância nenhuma.
Apesar de tudo, quero crer que ainda há jornais onde a cultura tem algum espaço. Cada vez mais reduzido, é certo, e com um conceito de cultura cada vez mais duvidoso — mas pronto, ainda dão algum espaço a estas coisas.
Mas, para a maioria, se calhar o que é mesmo, mesmo importante, aquilo que toda a gente tem mesmo, mesmo de saber, é que a mulher do Tony Blair deixou esturrar as torradas e que, apesar disso, não aconteceu nada.
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AUDÁCIA de Maio 2010

sábado, 22 de maio de 2010

... E O MUNDO CONTINUA!

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

AFINAL O COMETA chegou, e não aconteceu nada!
O dia 18, que muita gente dizia ser o fim do mundo, foi uma quarta feira igual a todas.
Devo mesmo dizer que foi um dia particularmente calmo, sem bombas, sem rusgas, sem prisões - pelo menos que eu desse por isso.
O meu pai saiu à hora do costume para abrir a livraria, avisando que não esperássemos por ele para jantar, porque possivelmente ia até S. Pedro de Alcântara ou até ao monte de S.Gens, os melhores lugares da cidade para se ver a passagem do fenómeno.
A minha mãe ainda pensou em ir com ele mas depois teve medo que aquilo deitasse para muito tarde — os cometas nunca têm hora certa de chegar… - e a médica está sempre a dizer-lhe que agora tem de dormir muito.
A minha avó passou o dia todo a rezar a Sto. Expedito, e a Rosa andou sempre com a garrafa de oxigénio dentro do bolso do avental.
Eu tive as aulas do costume, e às quatro horas já estava em casa.
Até ao fim do dia ainda esperei que acontecesse qualquer coisa, mas às dez da noite estava tão cheio de sono que caí na cama e só acordei na manhã seguinte.
Ao pequeno almoço o meu pai contou que no alto de S. Pedro de Alcântara se tinha visto um clarão no céu lá pelas duas da madrugada — e mais nada.
Deste fim do mundo já nos livrámos.
É claro que o meu pai não perde nenhuma oportunidade para fazer um discurso — e lá foi dizendo, entre dois goles de café com leite, que os cometas, quando aparecem, são sempre sinais de grandes mudanças.

- Desgraças! – murmurou a minha avó
- Mudanças, senhora minha sogra — emendou ele — eu disse “mudanças”! Não tenho dúvidas nenhumas de que este irá ficar conhecido como “o cometa da República”, porque também não tenho dúvidas nenhumas de que a monarquia está por um fio…Atentai no que eu vos digo: a República está a chegar!
- O rei é que nunca mais chega! — exclamou a minha mãe.

De facto, está toda a gente admirada com a demora de D. Manuel II em Londres. Jorge V, o novo rei inglês, já foi coroado, e o nosso parece que não tem pressa nenhuma de regressar à pátria…
Saiu de cá no dia 15, já hoje estamos a 22, e ele nada.

- A Gaby deve andar a mostrar-lhe a cidade… - e a minha mãe deu uma gargalhada.
Segundo me contou a Rosa (que lhe contou o Alfredo), o rei anda apaixonado por uma actriz francesa que se chama Gaby Qualquer Coisa (a Rosa diz que é um apelido complicado, e nomes complicados não é com ela…)

Conheceu-a numa das viagens que fez, e agora, sempre que vai ao estrangeiro, aproveita para estar com ela.

- Coitadinho… - diz a Rosa (que é muito republicana mas que, em questões de coração, deixa de ter partido) — tem de aproveitar enquanto pode, pois qualquer dia obrigam-no a casar, e lá se vai a actriz!

E pronto, lá passámos mais uma semana.
Sem fim do mundo e sem rei.
Se demorar muito, se calhar ainda a República chega primeiro do que ele.

«JN» de 22 Mai 10

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A SENHORA DO PAI

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Por Alice Vieira

A PRINCÍPIO
nem ligou. Sempre que voltava do pai ele não se calava, naquele seu linguajar de bebé, a querer meter o mundo todo nas poucas palavras que o seu vocabulário permitia. Ela sorria, enquanto ia desfazendo a mala de fim de semana, com o Rato Mickey de enormes orelhas estampado bem a meio.
Foi a insistência dele que lhe chamou a atenção. E foi então que, nitidamente, percebeu o que ele dizia: “a senhora do pai.”
Sentou-o ao colo, fez-lhe uma festa no cabelo, tudo com muita calma, e foi murmurando:

- A senhora do pai?
Ele acenou com a cabeça.

- O pai tem uma senhora?
Ele acenou com a cabeça.

- Miguel, olha para a mãe…
Ele fixou nela os seus olhos esverdeados.

- Diz à mãe, Miguel… O pai tem uma senhora?
Ele voltou a acenar e acrescentou:

- No carro.
Ela ia perdendo a cabeça. Ainda nem estavam divorciados e já ele andava a enfiar mulheres dentro do carro, e logo no fim de semana em que ela o deixara ficar com o filho. Podia-se pensar que, pelo menos nesses dias, ele se portasse como um pai a sério, até porque podia estar em causa a futura regulamentação do poder paternal, mas não, se calhar “a senhora” até já ficava lá em casa…
Tentou acalmar-se:

- E quando o pai veio trazer o Miguel, a senhora estava no carro?
Ele voltou a acenar com a cabeça mas, farto do interrogatório, deslizou-lhe do colo e foi brincar.
Ela ainda pensou em ligar à mãe a contar, mas desistiu.

- Vamos ter uma conversa, meu menino…- murmurou, discando o número dele no telemóvel.
Combinaram encontrar-se no café, dali a minutos.
- Estás com uma voz! — disse ele — É grave?
- Daqui a dez minutos – repetiu ela.
- Não pode ser aí em casa? — estranhou ele.
- No café — disse ela, desligando.

Não queria correr o risco de o Miguel entrar na sala e ouvir a conversa, café era sítio neutro.
Assim que ele chegou, nem o deixou fazer qualquer pergunta:

- Não me podias ter dito que já tinhas arranjado uma namorada?
Ele olhou-a, espantado.

- Que eu o quê?
- Não te faças de tolo. O Miguel contou-me.

Ele parecia cada vez mais espantado:

- Mas contou-te o quê?
- Que tinhas uma namorada.
- O Miguel disse isso? Uma namorada?
- Não disse uma namorada. Mas disse que o pai tinha uma senhora no carro… Sabes que o vocabulário dele ainda…

Uma enorme gargalhada dele interrompeu-lhe o discurso, e surpreendeu-a, aquele não era propriamente um motivo para risadas.

- Uma senhora… no carro... — repetia ele, rindo cada vez mais. Depois recompôs-se, e disse:
- E claro que pensaste logo no pior. Que eu tinha metido o meu filho no carro com uma galdéria qualquer… Nunca te passou pela cabeça que fosse… A voz do GPS a ensinar o caminho?

Ela olhou-o sem saber se devia ficar furiosa consigo própria, se rir à gargalhada.

- O Miguel ouviu, ficou muito admirado, eu entrei na brincadeira e disse-lhe : “o carro novo do pai tem uma senhora!”

Acabaram por rir os dois, ela a censurar-se intimamente por aqueles ciúmes doentios, que nem com a separação tinham passado, e voltou para casa, contente por não ter falado com a mãe, o que ela não lhe diria agora, quando ela lhe contasse.
E ele entrou no carro, sorrindo. Tirou o telemóvel do bolso, discou um número e, em voz mansa disse:

- Pronto, já arranjei tudo. Veio-me à cabeça uma desculpa verdadeiramente genial! Depois eu conto-te. Mas para a próxima temos de ter mais cuidado.
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ACTIVA de Maio 2010

sábado, 15 de maio de 2010

VEM AÍ O COMETA

Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

D. MANUEL LÁ PARTE AMANHÃ para Londres, para assistir à coroação do novo rei de Inglaterra.

- Agora é que lhe arranjam casamento com a tal princesa inglesa…- diz a minha avó.
- Não me parece…- diz a minha mãe — Não estou a ver a Rainha a deixar casar o filho com uma princesa que não é católica…

A Rosa, que até ganhou novas cores desde que o Alfredo lhe voltou a aparecer ao domingo (“ai homem de Deus, que já te fazia na choça!”), garante que o rei vai mas é encontrar-se com uma actriz francesa que conheceu há uns tempos…Pelo menos é o que o Alfredo conta, e ele anda sempre muito bem informado.
Mas nestes últimos dias, cá em casa - e ao contrário do que é costume…- nem se tem ouvido falar em monarquia ou república.
Agora, anda toda a gente aflita por causa do cometa.
Até eu não me sinto lá muito seguro, sobretudo depois de ver a capa da última “Ilustração Portuguesa”, que traz o monstro que dentro de dias pode atacar a Terra e dar cabo de nós.
O Cometa Halley está a chegar — é o que se ouve em toda a parte. Dizem que vai passar tão perto da Terra, que o mais certo é esbarrar nela e ninguém pode prever o que vai acontecer. Dizem que até há gente que já se suicidou por causa disso.

- É o fim do mundo — murmura a minha avó.

(Quando mataram D. Carlos e D. Luís Filipe, a minha avó também disse que era o fim do mundo.
Quando foi do terramoto de Benavente, a minha avó também disse que era o fim do mundo.
De cada vez que rebentam bombas, a minha avó também diz que é o fim do mundo.
Digamos que o fim do mundo já se vai tornando um hábito cá em casa.)
Ontem a Rosa chegou da Praça da Figueira e disse:

- Andam a vender garrafas de oxigénio por causa do cometa. Eu já comprei uma.

O meu pai até deu um berro.
E deu mais outro quando ela acrescentou que, para lá das garrafas de oxigénio, também estavam a vender máscaras de gás e comprimidos milagrosos. O dinheiro dela é que só tinha dado para a garrafa.
Indignado, o meu pai fez logo ali um comício republicano, a protestar contra a ignorância em que queriam manter o povo, para assim o poderem explorar melhor.

- Se as pessoas tivessem instrução, saberiam que isso é tudo obra de vigaristas, e que desde o ano passado os cientistas observam o cometa, e estão preparados para a sua chegada.
- Dizem que a cauda é enorme e que, com o embate, se vão espalhar gases desconhecidos que podem devastar o planeta! — disse a minha avó.
- Mas quais gases…Aquilo é tudo vapor de água!.... — o meu pai estava mesmo muito ofendido com a nossa ignorância.
- Não quero ouvir cá em casa mais disparates destes! — disse ele.

E, virando-se para a minha mãe, acrescentou:

- Preocupa-te com o enxoval do rapaz, que já tens bastante com que te ocupar!

E saiu.
Estive mesmo para perguntar:

- E se for uma rapariga?

Mas não perguntei: com as desgraças do cometa, a ignorância do povo, e o rei a viajar para Inglaterra, não quis agravar a situação.
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«JN» de 15 Mai 10

sábado, 8 de maio de 2010

MORREU O REI DE INGLATERRA

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

MORREU O REI de Inglaterra, e cá em casa não se fala noutra coisa.
Não é que a morte do rei me interesse muito: só estou ligeiramente preocupado porque D. Manuel vai ficar uma data de dias em Londres e, com tanto tempo sem rei, se calhar agora é que vem a república.
A minha avó está muito ofendida comigo por eu não me lembrar do dia em que o rei de Inglaterra veio a Lisboa, mas nessa altura eu tinha sete anos, e confesso que, até hoje, as únicas coisas que me lembro de ouvir contar sobre o rei de Inglaterra é que ele tinha subido ao trono muito velho porque a mãe nunca mais morria; e que por causa dele é que o Parque da Liberdade se tinha ficado a chamar Parque Eduardo VII.
O meu pai diz que é muito má altura para D. Manuel ir ao estrangeiro porque por cá as coisas andam mal: acho que rebentou um grande escândalo num banco chamado Crédito Predial, e a gente já sabe que quando se mete dinheiro pelo meio, fica tudo de cabeça perdida.

- Pode ser que ele não fique por lá muito tempo…- disse o meu pai.
- Lembra-te da coroação…- disse a minha mãe e, de repente, ela e o meu pai desataram a rir. A minha avó franziu as sobrancelhas, murmurou “mais respeito!”, e eles calaram-se.

Então o meu pai contou-me que há sete anos, quando a rainha finalmente morreu e o filho subiu ao trono, estava já tudo preparado para a coroação, com representantes de todos os países, (incluindo o nosso, que mandou o príncipe herdeiro, que então era D. Luís Filipe, porque ainda não tinha sido morto…) - mas na véspera, ao fumar o seu cigarrito, o rei tinha-se sentido muito mal e lá veio o médico a correr que diagnosticou uma apendicite!.
Eu não sei que doença é essa, mas o meu pai disse que era uma coisa muito grave e que foi preciso operar, e que foi a primeira vez que foi usada a “anestesiologia”, que é uma ciência que ensina os médicos a darem uns remédios ás pessoas que elas parece que estão mortas mas não estão, e depois acordam e não sentiram nada.
E por causa da apendicite, a coroação do rei, marcada para Junho, teve de ser em Agosto. E lá voltaram os reis todos para casa.
Mas é claro que agora, com o rei já morto, essas coisas não vão acontecer.
O meu pai também parece ofendido por eu não me lembrar nada do que aconteceu há sete anos. Republicano como ele é, nunca pensei que a minha ignorância dos reis de Inglaterra o incomodasse tanto.

- Nem te lembras de quando D. Carlos foi a Inglaterra assinar o segundo Tratado de Windsor?

Foi quase logo a seguir…
Estive para lhe dizer que não me lembrava do primeiro, quanto mais do segundo, mas calei-me.

- Esse ano de 1902 foi mesmo muito importante — murmura ele.

Dou voltas à cabeça, a tentar recordar em que republicano é que ele estará a pensar, em que conspiração falhada, comício, greves, bombas…
Nada.
Para mim, o ano de 1902 é um deserto.
Até que o meu pai respira fundo e diz:

- Foi o ano em que foi fundado o Sport Lisboa e Benfica.

E sai de casa, para ir abrir a livraria.
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«JN» de 8 Mai 10

sábado, 1 de maio de 2010

EM ESTADO DE CHOQUE…

Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

ESTOU em estado de choque.
O meu pai chegou hoje à tarde do Porto, onde foi ao congresso do Partido Republicano.
Ao jantar, pelo meio dos pastéis de bacalhau, começou a contar o que se tinha passado:

- Os preparativos para a revolução já estão em marcha! Isto agora vai! Mas temos de ser cuidadosos se não queremos que…

A voz da minha avó:

- Ó Rosa, você acha que isto é uma travessa que se apresente ? Ora vá arranjar tudo como deve ser!

A minha mãe olhou para a minha avó, o meu pai suspirou e continuou:

- …se não queremos novo falhanço como no dia 1 de Abril. Falou-se sobre as investidas policiais contra os anarquistas e…

A minha avó:

- Ó Rosa, o jantar é para hoje ou para amanhã?

E a Rosa, afogueada, a voltar com a travessa, e o meu pai:

- …e contra a Carbonária…

E a Rosa:

- Ai minha Nossa Senhora, por isso é que ele não me apareceu hoje… Se calhar já está na choça!

E a largar a travessa no meio da mesa.
A Rosa anda muito transtornada desde que descobriu que o Alfredo é da Carbonária.
Ela já andava desconfiada de que ele estava metido nalguma, sempre tão bem informado, sempre com tanta gente à volta dele, “ quando saímos ao domingo, aquilo são primos que nunca mais acabam!, olá primo!, como vai o primo!”
Até ao dia em que o galego da esquina lhe contou que é assim que os membros da Carbonária se tratam uns aos outros.
O meu pai respirou fundo e continuou:

- E é preciso também pensar que temos de ter apoio internacional! Por isso o congresso elegeu uma comissão…

E a minha avó:

- Ó Rosa, então larga-se assim a travessa em cima da mesa?

A Rosa lá veio da cozinha, lavada em lágrimas, o meu pai voltou a respirar fundo e continuou:

- Uma comissão composta pelo Alves da Veiga, pelo Magalhães de Lima e pelo José Relvas…
- Esse fazia bem melhor se ficasse a tratar das vinhas lá em Alpiarça…- resmungou a minha avó.
- …para ir pela Europa pedir apoio para a nossa causa.

O meu pai parou, finalmente.
Por momentos só se ouvia o bater dos talheres nos pratos e a Rosa a fungar.

- A monarquia está a morrer — murmurou o meu pai, fazendo uma festa na mão da minha mãe – Esse aí já vai viver num tempo diferente.

Foi então que eu perguntei:

- Esse… quem?

De repente todos olharam para mim, como se eu tivesse dito alguma inconveniência.
A Rosa correu para a cozinha, (“ai valha-me Deus!”), a minha avó levantou-se e foi para o quarto (“está na hora da novena a Sto. Expedito”), o meu pai descobriu que estava atrasado para uma reunião, e a minha mãe decidiu ir dar uma ajuda a lavar a loiça.
Já quase a sair da sala de jantar voltou-se para mim e disse:

- Vais ter um irmão.

Assim.
Como se me dissesse “os pastéis estavam salgados”, ou “lava os dentes antes de te deitares”
E aqui estou eu, sentado à mesa do jantar, sem me conseguir mexer, ainda sem perceber o que me aconteceu.
A monarquia a morrer, e um irmão a nascer — é muito para quem tem só 14 anos.

«JN de 1 Mai 10

quarta-feira, 28 de abril de 2010

TODOS PARA A COZINHA

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Por Catarina Fonseca

HÁ OS QUE FAZEM tudo, os que não fazem nada, e os que funcionam só com o frigorífico. E o seu, como é?

- O Desinteressado – Acham que a cozinha é o Reino da Mulher, ou quando muito da Mulher a Dias, ou de outra pessoa qualquer que não eles. Moram na mesma casa há 30 anos e ainda não sabem onde está o açucareiro. A relação de máxima proximidade que têm com a cozinha é gritarem do sofá: ‘Ó Maria Teresa, traz-me aí uma cerveja”.

- O Especialista – Há o especialista em bolos, que faz imensa porcaria. Quando ele sai, há chantili desde o tecto aos imans do frigorífico, quatro tigelas por lavar, a super-centrifugadora com cascas de ananás nas sete divisórias, e a bancada coberta de farinha, pão ralado e açúcar. O especialista em salgados passa o tempo entre a cozinha e o telefone, ou tem o telemóvel no bolso do avental, porque se farta de telefonar para a prima Elvira a perguntar em que parte do refogado é que entra o colorau. Em comum, os dois especialistas têm o facto de nunca incluírem no pacote de especialista a parte de lavar a loiça, arrumar a cozinha e consertar os estragos.

- O Criado – Faz tudo, mas com um ar muito deprimido. Já percebeu que dá mais trabalho refilar do que despachar serviço, e portanto despacha serviço. Geralmente é dos que têm uma mulher paranóica que não suporta um copo em cima da mesa. Geralmente também, são daqueles que saem de casa um dia para comprar cigarros e não voltam.

- O Cozinheiro – Este é a sério. Até sabe fazer Bôla, daquelas com queijo e fiambre e uma mistura que ele começa a explicar que leva alho, pimenta, carne de porco, banha, cebolinho, e a meio já toda a gente desligou com um ar muito deprimido como se ele estivesse a ensinar uma equação de terceiro grau, isto depois de ele ter assegurado que era a coisa mais simples do mundo e que tinha aprendido com a mãezinha dele antes de fazer 4 anos. Podia montar sozinho um pronto-a-comer na Lapa, mas prefere cozinhar para os amigos e ouvir os elogios como se não fosse nada com ele.

- O Aplicado – Coitado, ele bem tenta, mas na maioria das vezes quando quer fazer Frango na Púcara sai-lhe empadão de arroz, e quando tenta as almôndegas sai-lhe uma espécie de Brigadeiros de cimento. Ninguém lhe dá tempo para aprender, ele convence-se que um Homem não nasceu para aquilo e pronto, aqui temos mais um candidato ao sofá e ao ‘Maria Teresa traz-me aí uma cerveja”.

- O Esporádico – Até se esforça, mas é só às vezes. Ao Sábado acorda de madrugada particularmente decidido, vai à praça com um grande cesto, e chega com um ar tão importante como se estivesse na Pré-História e chegasse à caverna a arrastar um dinossauro. A única parte da cozinha digna de um homem é o ‘barbecue’. Durante o dia faz carne assada, porco no espeto, sardinhas e camarão frito, e depois fica três meses de rastos sem sequer lavar um copo.

- O Gourmet – São os que falam do mundo macho do touro e do vinho tinto, e ainda incluem a cozinha. Acham que a verdadeira culinária pertence aos homens, e que as mulheres só sabem fazer arroz de tomate e puré de legumes para os bebés, que coitadinhos inda não se sabem queixar. São os das ervinhas e dos enchidos, dos charutos e das garrafeiras, os que assinam a revista do azeite, os que dizem que têm uma relação ‘sensual’ com a culinária, o que quer dizer que só cozinham quando lhes apetece e sempre só para eles próprios ou para um rancho de amigos homens. Mais uma vez, escusado será dizer que quem lava a loiça e arruma a cozinha é a mulher a dias.

- O Distraído – Tem uma relação quase fetichista com o frigorífico. Ficam eternidades de pé com a porta aberta a olhar lá para dentro como uma vidente para uma bola de cristal. Ninguém sabe porquê, deixam a porta do frigorífico aberta todo o tempo que passam na cozinha, mesmo que lá fiquem duas horas à espera que o arroz coza. Para eles, nunca nada leva menos de duas horas a cozer.

- O Perfeito – Nem é que queira ser moderno, mas já percebeu que as coisas funcionam melhor se de facto houver um trabalho de equipa. Até já aprendeu a fazer açorda. Geralmente, como todos os recém-convertidos, faz muito bem açorda.