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Por Alice Vieira
EU SEI QUE, hoje, ser professor é profissão de risco.
De resto, qualquer profissão, hoje, é de risco — quanto mais não seja o risco de ir para a rua em dois segundos.
Mas aquele letreiro, à entrada da sala dos professores, chamou a minha atenção.
“É expressamente proibido os alunos incomodarem os professores durante os intervalos.”
Se calhar foi aquele “expressamente proibido”, se calhar foi aquele “incomodarem”, não sei, alguma coisa naquela frase me projectou de repente aos meus 20 anos, quando trabalhei com o prof. Calvet de Magalhães — um dos grandes pedagogos que este país conheceu — que nunca fechava a porta do seu gabinete.
A Escola Francisco Arruda, de que era director, foi um modelo único de experimentação de metodologias, de integração na comunidade, de educação pela arte.
A Francisco Arruda tinha laboratórios, oficinas, biblioteca, anfiteatro, ginásio (até um infantário para filhos de professores e funcionários, carinhosamente conhecido por “Chiquinha”)
E, aos sábados, abria as portas de par em par—e enchia-se de miúdos dos bairros da lata que então envolviam a escola, e que sabiam que naquele dia tinham ali à sua disposição gente que lhes contava histórias, ou artesãos que lhes explicavam ao vivo os seus ofícios, ou música, ou ateliers de modelagem, ou xadrez.
Os sábados eram uma festa.
Foi no “Diário de Lisboa” que conheci o prof. Calvet de Magalhães, a organizar “O Natal Visto pelas Crianças” — um concurso destinado a todas as escolas do país, com uma aceitação que se traduzia em caixotes e caixotes de trabalhos que as escolas mandavam. À sua volta reunia um júri de peso nas artes e na literatura: José Gomes Ferreira, Matilde Rosa Araújo, Alice Gomes, Rocha de Sousa, António Domingues.
Eu estava então a iniciar-me na aventura do jornalismo, dando apoio àquelas pessoas, que para mim, até então, só viviam nos livros…
E um dia, de repente, o Prof. Calvet de Magalhães disse-me: “no sábado, vais ler histórias aos miúdos da minha escola”
Passei aquela semana em pânico, ora escolhia uma história, ora escolhia outra (estava tão longe de um dia vir a escrevê-las!) e, por muitos anos que eu viva, nunca esquecerei aquela sensação de me ver em cima de um palco diante de um salão enorme a rebentar pelas costuras da malta da pesada…
Mas aguentei-me.
E, sábado sim sábado não, lá estava eu na minha nova actividade…
Foi nesses anos que aprendi o que era verdadeiramente ser professor. A dedicação, a disponibilidade permanente, (“a porta do meu gabinete está sempre aberta, porque nunca sabemos quando um miúdo precisa de nós”), o gosto pelo trabalho que se faz, até o sentido de humor: havia uma sineta, à entrada da escola, com a inscrição: “Quando o progresso falhar, lembrem-se de mim”
Lembrei-me de tudo naquele dia, ao ler o aviso na porta da sala dos professores.
E tive muitas saudades do Prof. Calvet de Magalhães.
.Por Alice Vieira
EU SEI QUE, hoje, ser professor é profissão de risco.
De resto, qualquer profissão, hoje, é de risco — quanto mais não seja o risco de ir para a rua em dois segundos.
Mas aquele letreiro, à entrada da sala dos professores, chamou a minha atenção.
“É expressamente proibido os alunos incomodarem os professores durante os intervalos.”
Se calhar foi aquele “expressamente proibido”, se calhar foi aquele “incomodarem”, não sei, alguma coisa naquela frase me projectou de repente aos meus 20 anos, quando trabalhei com o prof. Calvet de Magalhães — um dos grandes pedagogos que este país conheceu — que nunca fechava a porta do seu gabinete.
A Escola Francisco Arruda, de que era director, foi um modelo único de experimentação de metodologias, de integração na comunidade, de educação pela arte.
A Francisco Arruda tinha laboratórios, oficinas, biblioteca, anfiteatro, ginásio (até um infantário para filhos de professores e funcionários, carinhosamente conhecido por “Chiquinha”)
E, aos sábados, abria as portas de par em par—e enchia-se de miúdos dos bairros da lata que então envolviam a escola, e que sabiam que naquele dia tinham ali à sua disposição gente que lhes contava histórias, ou artesãos que lhes explicavam ao vivo os seus ofícios, ou música, ou ateliers de modelagem, ou xadrez.
Os sábados eram uma festa.
Foi no “Diário de Lisboa” que conheci o prof. Calvet de Magalhães, a organizar “O Natal Visto pelas Crianças” — um concurso destinado a todas as escolas do país, com uma aceitação que se traduzia em caixotes e caixotes de trabalhos que as escolas mandavam. À sua volta reunia um júri de peso nas artes e na literatura: José Gomes Ferreira, Matilde Rosa Araújo, Alice Gomes, Rocha de Sousa, António Domingues.
Eu estava então a iniciar-me na aventura do jornalismo, dando apoio àquelas pessoas, que para mim, até então, só viviam nos livros…
E um dia, de repente, o Prof. Calvet de Magalhães disse-me: “no sábado, vais ler histórias aos miúdos da minha escola”
Passei aquela semana em pânico, ora escolhia uma história, ora escolhia outra (estava tão longe de um dia vir a escrevê-las!) e, por muitos anos que eu viva, nunca esquecerei aquela sensação de me ver em cima de um palco diante de um salão enorme a rebentar pelas costuras da malta da pesada…
Mas aguentei-me.
E, sábado sim sábado não, lá estava eu na minha nova actividade…
Foi nesses anos que aprendi o que era verdadeiramente ser professor. A dedicação, a disponibilidade permanente, (“a porta do meu gabinete está sempre aberta, porque nunca sabemos quando um miúdo precisa de nós”), o gosto pelo trabalho que se faz, até o sentido de humor: havia uma sineta, à entrada da escola, com a inscrição: “Quando o progresso falhar, lembrem-se de mim”
Lembrei-me de tudo naquele dia, ao ler o aviso na porta da sala dos professores.
E tive muitas saudades do Prof. Calvet de Magalhães.
«JN» de 6 Nov 10
