sábado, 5 de fevereiro de 2011

PRINCESAS FELIZES

.
Por Alice Vieira

DETESTAVA festas de escola.

As mães a gabarem as gracinhas dos filhos, e os pais com as câmaras de vídeo apontadas ao palco para imortalizarem aquele segundo em que a Martinha, no seu fato de borboleta, se enganou no passo mas disse adeus à tia Henriqueta , ou em que o João Maria se estatelou entre as meninas e desatou num berreiro que parecia não ter fim, mas que engraçadinho que ele ficava quando fazia birras!

Por isso quando Miguel há tempos telefonara a dizer que este ano ia ele com a filha à festa de carnaval da escola, ela até tinha suspirado de alívio.

Claro que devia ter logo desconfiado.

O Miguel nunca na sua vida tomara nota de nada (“não sei como consegues viver sem agenda…”, repetia-lhe ela muitas vezes, nos cinco anos que aguentara casada com ele), não era agora que ia começar.

Ela devia ter-se lembrado de lhe telefonar todos os dias, ou de o bombardear com SMS, ou e-mails — mas a verdade é que descansara, e só o recordou mesmo na véspera.

- Ó diabo! Passou-me completamente! Tenho uma reunião e a esta hora já não dá para desmarcar… Mas para o ano não falto!

Mas ela está-se nas tintas para o ano, o que ela queria era que ele viesse hoje, agora, dentro de uma hora no máximo.

Porque ela também tem uma série de compromissos a que não pode faltar, e agora está ali no café, telemóvel colado à orelha, a filha vestida de Fiona sentada na sua frente, enquanto ela tenta arranjar solução.

São quase horas, a miúda não entende por que ainda ali estão, e murmura

- Quem é que me leva à festa, mãe?

E ela nem lhe responde, marca novamente um número, desliga, volta a marcar,

- Mãe, quem é que me leva…

- Está calada! Não me enerves mais do que eu já estou!

E passa o telemóvel para a outra orelha, mas ninguém atende, parece que toda a gente se esqueceu dos telemóveis em casa, ou estão longe deles, ou simplesmente têm-nos fechados.
Olha para o relógio, tira um cigarro da mala mas logo o volta a enfiar no maço, ali não se pode fumar, e os minutos voam.

- Mãe...

Faz que não a ouve, e volta a clicar nas teclas, e então, de repente, alguém atende, e ela respira fundo, e dá logo a ordem, rápida e seca, nem “olá,” nem “estás onde”, nem “então é assim”, nada.

- Tens de ir com a miúda à festa da escola, vem já ter ao café, depois explico.

Telemóvel desligado, sem dar possibilidade de resposta.

- Era o pai, mãe? — pergunta a miúda, tentando sorrir.

- Mas qual pai… Alguma vez o teu pai tem tempo para nós? Esqueceu-se outra vez de ti, está claro…

- Então quem é que me leva à festa, mãe?

Um fiozinho de voz, quase a tremer.

Ela bebe finalmente a bica, decerto gelada de tanto esperar, e enfia o telemóvel para dentro da mala.

- O Fernando. Está aqui está a chegar.

A filha baixa os olhos.

- O Fernando?...

- Sim, o Fernando. Que é que isso tem?

- Queria o pai…

- Ora…O teu pai ou o Fernando, que diferença faz? O que é preciso é chegares a horas.

A miúda leva as mãos aos olhos.

- Não me faças cenas , que farta de cenas ando eu…

Não faz.

Deixa apenas cair algumas lágrimas no vestido, mas logo as tenta enxugar com a mão.

Ela é uma princesa.

E as princesas, como dizem as histórias que ela ouve na escola, vivem felizes para sempre.
.
«ACTIVA» de Fev 2011

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

EM DEFESA DAS AVÓS

.
Por Alice Vieira

DEI COMIGO há dias a assistir a um programa, destinado ao público feminino, onde se fazia, mais uma vez, a recorrente afirmação de que não há melhor infantário nem escola infantil do que a casa dos avós.

Confesso que acho estranho que, num tempo em que as avós são cada vez mais novas, e cada vez mais activas, não se ergam vozes feministas a contrariar essa peregrina ideia de avó-fada-do-lar.

Parece que ser mulher, com todos os seus direitos, e no pleno gozo das suas capacidades, tem prazo de validade.

Ficar em casa a tratar de marido e filhos — isso nunca.

Ficar em casa a tratar de marido e netos – parece quase um dever.

Claro que não estou a falar destes terríveis tempos de crise que atravessamos, em que é preciso cortar despesas e a casa da avó é mais barata que um infantário. Mas isso é uma solução de recurso, uma emergência.

Mas quem falava naquele programa, não falava de crise.

Falava do melhor para as crianças. Em todos os tempos.

Como se sabe, nem sequer é o melhor para as crianças que, desde pequeninas, precisam de regras, de aprender a viver com os outros, e de entenderem que não são o centro do mundo.

E se não é o melhor paras as crianças, muito menos o é para as avós.

Que, tal como as mães, trabalham.

Que, tal como as mães, contribuem para fazer progredir este país.

Quando se diz que as mães trabalham fora de casa, toda a gente acha normal e louvável, pois claro!, já lá vai o tempo de ser doméstica!

Mas quando uma avó explica que não pode, por muito que os ame de paixão, ficar com os netos em casa, porque sai às 8 da manhã e só volta às oito da noite, ou porque tem um trabalho para entregar, todos olham para ela como se estivessem diante de uma aberração da natureza.

E era aí que eu gostava de ver as feministas saírem em sua defesa. Mas não saem.

Se calhar porque também elas precisam de alguém a quem deixar as crianças.
.
«JN» de 28 Jan 11

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

NA MORTE DE VÍTOR ALVES

.
Por Alice Vieira

ESTAVA EM VISEU, quando um SMS me avisou: “Morreu o Vítor Alves”.
Infelizmente era uma notícia daquelas que se esperam — mas que, no fundo, nunca se esperam. Porque todos os nossos amigos são eternos e, quando descobrimos que não são, temos muita dificuldade em acreditar.
Vítor Alves pertencia àquele grupo de homens a quem devemos viver hoje em liberdade e em democracia. Para as gerações mais novas, isto parece um dado tão adquirido que nem lhes passa pela cabeça que alguma vez pudesse ter sido doutra maneira.
Mas foi. Durante muitos anos.
Até que um dia estes homens decidiram arriscar tudo -- vida, liberdade, carreira, saúde, família—em nome de um sonho que, com desvios e loucuras e erros e recuos, ainda é o que hoje nos mantém vivos e actuantes.
Esta é uma dívida que nunca poderemos pagar — nem eles estavam à espera disso.
Mas é muito triste descobrir como as pessoas têm a memória curta.
Foi vergonhosa a maneira como a morte de Vítor Alves foi tratada nos meios de comunicação — já para não falar das muitas horas de um velório quase vazio, quando deveria ter estado SEMPRE, em todas as horas, cheio de gente.
Atirada a notícia para o rodapé dos telejornais — que se enchiam do assassínio de Carlos Castro em Nova Iorque, com direito a um rol de jornalistas em directo, e entrevistas a meio mundo.
Reduzida, num jornal dito de referência, no dia a seguir ao enterro, a uma pequena fotografia em que se via a parte de trás do carro funerário e dois homens a ajudar a colocar o retrato junto do caixão — enquanto páginas inteiras continuavam reservadas ao crime passional de Nova Iorque.
Mas Vítor Alves não se meteu em escândalos, não morreu num hotel de luxo em Nova Iorque, não alimentou crónicas cor-de-rosa, nem sequer pertencia ao jet-set.
Pecados por demais suficientes para o atirar para o limbo dos que não merecem mais que uma breve evocação.
Mas se calhar é aí que ele fica bem — ao lado dos que deram tudo pela pátria, e que a pátria, vergonhosamente, esqueceu.
.
«JN» de 14 Jan 11

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O TRICOT

.
Por Alice Vieira

ABRIU A JANELA na manhã daquele domingo de Janeiro, suspirou fundo e murmurou:
“Desta vez é que vai ser”
A filha tinha acabado de se arranjar, pronta para o ritual dos almoços de domingo, quando ela lhe descobriu um piercing na língua e uma tatuagem a meio do pescoço.
Engoliu em seco e repetiu:
“Desta vez é que vai ser”
Desde miúda que sente sempre que os primeiros dias de Janeiro são mágicos, porque tudo pode acontecer.
A irmã ria-se dela.
A irmã ria de tudo, parecia viver noutro mundo.
Mesmo as coisas difíceis de suportar (os ralhos do pai, agora a morte da mãe, a deixá-la sozinha; os namorados que apareciam e desapareciam da sua vida) era como se não lhe tocassem: sentava-se no sofá, e tricotava o dia inteiro.
Desde muito nova que era assim.
A mãe ralhava, o pai ralhava, os namorados ralhavam — e ela corria a enfiar-se no sofá a fazer malha.
Ela fora sempre muito diferente da irmã, se gritavam ela gritava também, respondia sempre, não se ficava.
Mas ainda continuava a pensar em Janeiro como num tempo de promessas cumpridas, de novos planos postos em prática.
Por isso logo nos primeiros dias do ano limpava a casa com um vigor renovado, deitava fora baldes e baldes de lixo acumulado, respirava outro ar.
Mas havia rituais a que não podia fugir.
Quando há dois meses a mãe morrera, pensou que o ritual dos almoços de domingo morrera com ela. Os silenciosos almoços de domingo que acabavam, inevitavelmente, com o marido aos berros assim que entravam em casa, e a filha a berrar ainda mais.
Mas logo a irmã avisara que tudo ia ser como dantes, e que ninguém se lembrasse de faltar.
A irmã tinha uma maneira subtil de os fazer rebentar de remorsos, quando murmurava, entre dois sorrisos, “ a mãe não ia gostar nada…”
Então lá iam todos, cada um sonhando estar noutro lugar, com outras pessoas, falando de outras coisas.
À uma hora em ponto a terrina da sopa vinha para a mesa e o silêncio era geral.
“À mesa não se conversa”, tinha sido sempre a filosofia dos pais. Por isso os silenciosos almoços de domingo eram um suplício, que só terminava quando a irmã se levantava da mesa e começava a tricotar — e cada um podia ir à sua vida.
“Que seca…”murmurava a filha, vestida de preto dos pés à cabeça, a viver o seu período gótico.
(No primeiro domingo a seguir ao enterro, a irmã olhara para a miúda e ficara imenso tempo abraçada a ela a fazer-lhe festas no emaranhado do cabelo, pensando que o preto era a expressão do seu desgosto pela morte da avó, e ninguém teve coragem de a desiludir)
“Estou a ficar sem pachorra nenhuma para estas fantochadas”, murmurava o marido, desfazendo finalmente o nó da gravata.
“Tu nunca tiveste pachorra para nada…”, respondia ela.
Era o rastilho. E logo começava a zaragata, ela a dizer coisas que até nem queria, ele a dizer coisas que até nem pensava, a filha a ameaçar tipo bazar dali rapidamente, se aquela cena tipo não acabasse.
Hoje lá vão todos de novo, em romaria.
E ela tem a certeza de que o regresso a casa vai ser complicado, porque o marido ainda não descobriu o piercing nem a tatuagem da miúda e, quando descobrir, a discussão vai ser das valentes. Discussão em casa, evidentemente, porque a irmã não permite coisas dessas lá em casa, “a mãe não ia gostar nada”.
Suspira fundo mais uma vez, antes de fechar a janela.
“Desta vez é que vai ser…”, murmura.
Desta vez é que se vai encher de coragem e pedir à irmã que a ensine a fazer malha.
.
«Activa» de Janeiro 2011

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

EUROPEUS, QUE BOM!

.
Por Alice Vieira

DESCULPEM LÁ mas eu, se fosse americana, tinha-me sentido muito ofendida por um cão me ter desejado bom ano.
De certeza que toda a gente viu na televisão, passou em todos os canais, com direito a repetições: Barak Obama e a mulher, em duo natalício, mandavam os seus votos de Boas Festas a todo o povo americano. Em nome de ambos,”e também de Malia, e de Sasha” — e vai a Sra. Obama, sorridente, e acrescenta: “e de Bo!” O que o marido reafirma, evidentemente : “e de Bo!”
Bo é o cão da família Obama. Cão de Água português, como toda a gente sabe, o que faz com que tenhamos um infiltrado na Casa Branca.
Mas nem o meu mais acérrimo patriotismo aceita que um cão me deseje Boas Festas. Era só o que mais faltava.
Eu até gosto do casal, palavra!, e só não votei nele porque não pude, mas festejei a vitória cá em casa com um grupo de amigos, champanhe, e tudo aquilo a que a alegria tem direito.
E eu até percebo que os 48% de popularidade não sejam de molde a deixá-lo muito tranquilo, e que portanto há que recorrer a todas as estratégias de marketing para recuperar quem se perdeu.
Mas há limites.
Imaginem que o presidente Cavaco Silva, na mensagem de Ano Novo, exprimia os seus votos em dueto com a mulher, trazendo à liça a família toda, “e também em nome do Bruno e da Patrícia e da Mariana, e do Afonso…”, etc, etc, etc - que o nosso presidente, em número de familiares, leva a palma ao americano.
Já imaginaram? E olhem que eu não incluí cão nem gato nem passarinho nem tartaruga, que não sei se existe lá por casa.
Já pensaram nas reacções? Na risota? Nas anedotas do dia seguinte?
Não há dúvida: ter quase 900 anos de história em cima dos ombros é bem diferente do que ter pouco mais de 200.
Deixem-me ser elitista: ser europeu (está bem, somos velhos; está bem, estamos gastos) ainda é uma coisa muito bonita!
E bom ano para todos!
.
«JN» de 31 Dez 10

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

QUANDO ELES NOS DEIXAM

.
Por Alice Vieira

ENTRO na sala, e é como se tudo faltasse só porque ele falta.
Desde ontem que ando para aqui sem saber o que fazer, abro portas, fecho portas, olho em volta, como se isso chegasse para o fazer voltar a casa.
Foi a primeira vez que passou a noite fora.
E sem aviso.
Ligo às amigas, na tentativa de um consolo, de uma palavra de conforto. Para isso é que se inventaram as amigas.
Nada feito.
Riem-se de mim. Deve ser a isto que se chama “solidariedade feminina”.
“Cinco anos, dizes tu? Aguentou cinco anos? Meu Deus, mas isso é uma eternidade! O meu não aguentou nem dois!
“E o meu? Ao fim de um ano, adeuzinho!”
Estremeço.
Nem me passa pela cabeça que ele não vai voltar.
Elas voltam a rir.
“Até pode ser que volte, não digo que não, mas vais ver, nunca mais te entendes com ele…Vem mudado, com uma linguagem diferente… “
Desligo o telefone.
A minha filha também não me ajuda:
“Ó mãe, não penses mais nisso, procura mas é um novo…
“Tu não me digas uma coisa dessas! Ele vai voltar”
“Isso é o que dizem todos”
Tento ocupar o tempo — mas sem ele é impossível.
Sem ele não consigo ouvir música.
Nem ler um jornal.
Nem partilhar histórias.
De cada vez que olhava para ele, tinha a certeza de que havia de viver o resto da minha vida ao seu lado.
A minha filha ria-se, porque esta tinha sido uma relação assumida muito tarde.
“Quem te viu e quem te vê… - murmurava ela — “Ao princípio, quando toda a gente te falava nele, zangavas-te, juravas que nunca iria entrar na tua vida…E agora…”
E agora — oh felicidade! — ouço a campainha da porta, é ele que volta, eu tinha a certeza.
Reconheço-o imediatamente, ainda antes de abrir a porta do elevador, e a minha vida volta a ter razão de ser, enquanto oiço a voz do homem que me diz:
“Prontinho, aí o tem de volta, formatei-lhe o software, instalei-lhe mais uns programas, mais um anti-vírus profissional, e está com três gigas. Com as deslocações, são 170 euros, mais IVA.”
.
«JN» de 17 Dez 10

domingo, 5 de dezembro de 2010

RECORDANDO CARLOS DE OLIVEIRA

.
Por Alice Vieira

QUANDO CHEGA Dezembro, começamos a notar que à mesa familiar falta cada vez mais gente.
“Mesa familiar” é, no fundo, a metáfora que usamos para nesta altura abraçarmos um pouco mais os amigos, e ficarmos felizes só pelo facto de eles estarem ao nosso lado.
Mas ao nosso lado vai havendo cada vez mais lugares vagos.
A minha mesa familiar ainda não se habituou às ausências do João Aguiar, da Rosa Lobato de Faria, da Matilde Rosa Araújo, do Raul Solnado, da Mariana Rey Monteiro, todos eles ainda tão dentro de mim.
Mas, de repente, chega-me uma terrível e inesperada saudade de alguém que há muitos anos desapareceu da minha mesa.
Tudo por causa de um programa que a RTP-2 passou, dedicado aos “Grande Livros”.
Naquela noite, o livro era “Uma Abelha na Chuva”, do Carlos de Oliveira.
É um grande romance da nossa literatura, e foi bom recordarmos as imagens do filme do Fernando Lopes, e ouvir falar dele (a Laura Soveral e a sua voz incomparável…)
Mas o que sobretudo me marcou foi o rosto do Carlos de Oliveira — aquele olhar que entrava dentro de nós e nos dizia tudo o que era preciso, aquele sorriso que me recebia sempre, quando eu chegava à sua mesa do “Monte Carlo”.
Ele e o Zé Gomes Ferreira — sempre. Depois às vezes por lá caíam o Abelaira, o Mário Dionísio, tantos outros.
Mas o Carlos e o Zé Gomes eram a minha âncora. E foram a minha verdadeira universidade. Eu, vinte e poucos anos, deslumbrada no convívio diário com gente que nunca pensara vir a conhecer.
E, de repente, quando a revolução de Abril dava os seus primeiros passos, o Carlos de Oliveira morre. De um dia para o outro.
Nunca perdoei ao destino, e acho que aquela geração mais nova que privou com ele nunca mais se recompôs.
Fosse o que fosse que fizéssemos ou escrevêssemos, pensávamos sempre: “o que é o Carlos dirá disto”.
Ele era o rigor, a coerência, a lucidez em estado puro.
Ele era a nossa consciência moral.
Nunca mais tivemos outra.
.
«JN» de 3 Dez 10

sábado, 20 de novembro de 2010

DENUNCIANTES

.
Por Alice Vieira

OS JORNAIS anunciaram que, a partir de agora, é oficialmente reconhecida a nobre profissão de denunciante.

Já tardava, é um facto. Mas pronto, antes tarde que nunca.

Todos sabemos como a nobre arte da denúncia tem sólidas raízes entre nós.

No tempo do Senhor D. João III (e nos tempos que depois se seguiram…) muitos foram os que acabaram nas fogueiras da inquisição, denunciados por vizinhos, familiares ou amigos, prontos a jurar que os tinham visto, por exemplo, “ a ter comércio com o demónio”, ou a “apartar-se da nossa santa fé católica, passando-se à lei de Moisés, vestindo camisas lavadas aos sábados, e jejuando às 2ª e 5ª, e não comendo carne de porco”.

Sabe-se como a nossa santa fé lhes ficou eternamente grata.

Muito mais tarde, nos saudosos tempos do Estado Novo, a nobre arte da denúncia foi de novo reinstaurada. Uma legião de impolutos cidadãos, amantíssimos esposos e extremosos pais de família, encarregava-se de escrever cartas denunciando vizinhos, colegas de trabalho, familiares, amigos, ou vagamente conhecidos, jurando que os tinham ouvido falar contra a ordem estabelecida, denegrindo a figura do Sr. Presidente do Conselho, ou pondo em causa a nossa patriótica presença em África, ou ouvindo rádios a soldo de potências inimigas estrangeiras, ou acolhendo gente suspeita em suas casas pela calada da noite. Assim o juravam e assinavam, a bem da nação.

Sabe-se como a nação lhes ficou eternamente grata.

Como se vê, está-nos na massa do sangue.

Agora, se alguém suspeitar de corrupção — as autoridades ordenam que se denuncie imediatamente.

Com a net é uma limpeza, pena ela não existir nos tempos do Senhor D.João III ou do Sr. Dr. Oliveira Salazar, bom jeito tinha dado.

Claro que há uma triagem — dizem.

Claro que há uma investigação — dizem.

Claro que os tempos são outros — dizem

Mas os denunciantes, lá no fundo, nunca mudam.
.
«JN» de 19 Nov 10

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Convite para lançamento de livro

Por Alice Vieira

18 Nov 10 / 18h30m
El Corte Inglés de Lisboa (piso 7)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

OS MORTOS DE NOVEMBRO

.
Por Alice Vieira

OS MORTOS, claro!, os mortos de Novembro! os intermináveis mortos de Novembro — e ela de vermelho.
Podia ter escolhido outra cor, digamos, menos agressiva, menos “espampanante”, diria a mãe...
Adora a palavra “espampanante”, lembra-lhe champanhe a transbordar da flûte.
Meu Deus, os mortos de Novembro, e ela de vermelho e a pensar em champanhe.
Teresa a chamar por ela, a esperar por ela, a mandar-lhe SMS atrás de SMS, “tou cá em baixo”, “desces ou subo?”, “tás muito atrasada?”, e ela de telemóvel na mão sem saber o que responder, porque só tem olhos para o vestido vermelho, logo hoje, por que raio se esqueceu que era novembro, data marcada para pensar nos mortos, única altura em que a irmã se lembrava deles.
Com a morte da mãe (que se fizera enterrar na aldeia natal, a centenas de quilómetros dali) chegara a pensar que tudo isso tinha terminado.
Mas já devia saber que Teresa era igual à mãe.
Vêm-lhe subitamente à cabeça os Dias dos Mortos da sua infância, em que a mãe os levava a todos ao cemitério.
A mãe dizia sempre “Dia dos Fiéis Defuntos”.
Um dia ela perguntou-lhe se havia defuntos infiéis (na escola falavam muito dos “infiéis” com quem D.Afonso Henriques andava sempre à espadeirada), e a mãe deu-lhe um estalo com tanta força que os dedos lhe ficaram marcados na cara durante uma semana. A mãe sempre tivera uma maneira muito própria de responder a perguntas difíceis.
Iam sempre na véspera, porque na véspera é que era feriado e a mãe não trabalhava. Sentava-os em minúsculos banquinhos portáteis, contava-lhes rapidamente a história dos que ali estavam (e que, com o andar dos anos, já todos sabiam de cor) — enquanto tirava do saco um frasco de detergente e se punha a esfregar o mármore das campas, como se não houvesse amanhã.
“O Sr. Salvador está cada vez mais desleixado…” — ouviam-na murmurar.
O Sr. Salvador era o coveiro e quem ali tratava de tudo.
E todos olhavam uns para os outros e riam à socapa, para que a mãe não ouvisse, porque achavam muita graça à ideia de alguém, chamado Salvador, tratar de quem já não tinha salvação possível.
Todos, menos Teresa, evidentemente. Muito direita no banco, e muito séria, Teresa estava ali para sofrer, honestamente, por todos.
Às vezes a mãe até lhe pedia ajuda: “Teresinha, toma o esfregão e limpa aí esse lixo ao pé da “saudade eterna” da placa do tio João Martins”
E a Teresa que, tal como os outros, nem sabia quem tinha sido o tio João Martins, desatava a esfregar, rivalizando com a mãe em suor e dedicação.
Uma vez por ano, na véspera do Dia dos Mortos, Teresa tinha pena dos mortos da família — mesmo que nunca os tivesse visto em vida.
Mesmo que a mãe já não dominasse as suas vidas.
“Amanhã venho buscar-te ao meio-dia”, tinha-lhe dito, num rápido telefonema.
E ela pensara que, num súbito (embora estranho) ataque de saudades, a irmã mais velha quisesse passar o feriado com ela.
Nem se lembrou de perguntar “para quê?”
Ficou contente, até se vestiu de vermelho.
Agora, de repente, tão despropositado.
Faz um esforço para recordar onde estão enterrados os seus mortos, aqueles de que verdadeiramente sente a falta, aqueles cujas campas nunca conheceram as fúrias salvadoras da mãe e da irmã.
E sorri a pensar neles todos, e em como todos eles, à sua maneira, tinham dado sentido à sua vida, e era como se ainda ouvisse as suas palavras, como se ainda sentisse o calor das suas mãos, a alegria das suas gargalhadas.
Novo SMS: “então?”
“Já desço” - responde.
Pega na carteira, fecha a porta, entra no elevador.
Enquanto Teresa estiver a chorar pelos mortos desconhecidos, ela irá em busca dos que lhe pertencem.
Dos que a fizeram feliz.
Dos que merecem o seu vestido vermelho.
.
«ACTIVA» de Nov 2010

sábado, 6 de novembro de 2010

A SALA DOS PROFESSORES

.
Por Alice Vieira

EU SEI QUE, hoje, ser professor é profissão de risco.
De resto, qualquer profissão, hoje, é de risco — quanto mais não seja o risco de ir para a rua em dois segundos.
Mas aquele letreiro, à entrada da sala dos professores, chamou a minha atenção.
“É expressamente proibido os alunos incomodarem os professores durante os intervalos.”
Se calhar foi aquele “expressamente proibido”, se calhar foi aquele “incomodarem”, não sei, alguma coisa naquela frase me projectou de repente aos meus 20 anos, quando trabalhei com o prof. Calvet de Magalhães — um dos grandes pedagogos que este país conheceu — que nunca fechava a porta do seu gabinete.
A Escola Francisco Arruda, de que era director, foi um modelo único de experimentação de metodologias, de integração na comunidade, de educação pela arte.
A Francisco Arruda tinha laboratórios, oficinas, biblioteca, anfiteatro, ginásio (até um infantário para filhos de professores e funcionários, carinhosamente conhecido por “Chiquinha”)
E, aos sábados, abria as portas de par em par—e enchia-se de miúdos dos bairros da lata que então envolviam a escola, e que sabiam que naquele dia tinham ali à sua disposição gente que lhes contava histórias, ou artesãos que lhes explicavam ao vivo os seus ofícios, ou música, ou ateliers de modelagem, ou xadrez.
Os sábados eram uma festa.
Foi no “Diário de Lisboa” que conheci o prof. Calvet de Magalhães, a organizar “O Natal Visto pelas Crianças” — um concurso destinado a todas as escolas do país, com uma aceitação que se traduzia em caixotes e caixotes de trabalhos que as escolas mandavam. À sua volta reunia um júri de peso nas artes e na literatura: José Gomes Ferreira, Matilde Rosa Araújo, Alice Gomes, Rocha de Sousa, António Domingues.
Eu estava então a iniciar-me na aventura do jornalismo, dando apoio àquelas pessoas, que para mim, até então, só viviam nos livros…
E um dia, de repente, o Prof. Calvet de Magalhães disse-me: “no sábado, vais ler histórias aos miúdos da minha escola”
Passei aquela semana em pânico, ora escolhia uma história, ora escolhia outra (estava tão longe de um dia vir a escrevê-las!) e, por muitos anos que eu viva, nunca esquecerei aquela sensação de me ver em cima de um palco diante de um salão enorme a rebentar pelas costuras da malta da pesada…
Mas aguentei-me.
E, sábado sim sábado não, lá estava eu na minha nova actividade…
Foi nesses anos que aprendi o que era verdadeiramente ser professor. A dedicação, a disponibilidade permanente, (“a porta do meu gabinete está sempre aberta, porque nunca sabemos quando um miúdo precisa de nós”), o gosto pelo trabalho que se faz, até o sentido de humor: havia uma sineta, à entrada da escola, com a inscrição: “Quando o progresso falhar, lembrem-se de mim”
Lembrei-me de tudo naquele dia, ao ler o aviso na porta da sala dos professores.
E tive muitas saudades do Prof. Calvet de Magalhães.
.
«JN» de 6 Nov 10

sábado, 30 de outubro de 2010

SAUDADES DA NÈLITA

.
Por Alice Vieira

Por que nos lembramos de umas pessoas e esquecemos outras? O que leva a nossa memória a ser selectiva? Seja o que for, ela terá as suas razões.

AS VELHAS DA CASA sempre lhe tinham tentado ensinar que era na primavera que se faziam as limpezas, mas ela nunca tivera essa obsessão primaveril pelo aspirador, pela esfregona ou pelo pano do pó. E se havia altura em que (vagamente) lhe apetecia dar uma arrumadela na casa, era sempre em Outubro.

Porque, para ela, era então que o ano começava. E que as coisas velhas e sem préstimo se deitavam fora. E se trocava a posição dos móveis. E se mudavam as fotografias das molduras.
Nunca se tinha conseguido libertar daquilo a que o marido chamava “a síndroma do antigamente-a-escola-era-risonha-e-franca”, ou seja, é em outubro que as aulas começam, que se abre uma vida nova, que se escolhem os cadernos, que se forram os livros, que se baixa a bainha das batas.

Tantos anos depois – quando já ninguém sabe como se forra um livro e para que é que isso serve, ou que raio de coisa é uma bata — na sua cabeça tudo continua igual.

Era em Outubro que o ano começava. Ela chegava dos três meses espalhados pela praia, pelo campo, pelas termas, a morrer de saudades das colegas e dos amigos do bairro (nessa altura nem sonhava que iria casar com um deles) apesar de, naqueles meses, terem trocado entre si muitos postais e cartas.

Por isso não pode deixar de sentir um leve aperto no estômago — “como o tempo passa!” - quando, pelo meio da papelada que rasga, lhe caem no colo uma série de postais antigos.

Todos enviados entre Agosto e Setembro de 1956, de Viana do Castelo, pela Nèlita.

Com diversas variantes de “camponesas em trajo de trabalho”, e de “motivos regionais” (o que vinha a dar no mesmo, ou seja, moçoilas vestidas à moda do Minho dos pés à cabeça, à frente de carros de bois e de rebanhos.)

Dá voltas à cabeça — e não consegue lembrar-se de nenhuma Nèlita mas, pelos postais, vê-se que devia ser amiga íntima, possivelmente lá do bairro, porque pergunta pela família inteira ,e sabe o nome de cada uma das velhas, e num deles até lhe dá os parabéns pelo exame de solfejo no Conservatório, ao mesmo tempo que a informa de que “o primo da Zulmira entrou para o Colégio Militar”, enquanto noutro se espanta, “nem acredito que o meu querido partiu duas costelas!”, e noutro ainda lhe dá conta da sua indignação:”imagina que escrevi à Elizabeth Taylor mas não recebi fotografia nenhuma.”

Fica a sorrir, tentando imaginar-se naquele ano de 1956, com 13 anos, a escrever postais à Nèlita, e tem muita pena de a ter esquecido assim, como se ela não tivesse existido.

Ao jantar fala nisso ao marido, “imagina, devemos ter sido tão amigas e nem me lembro dela!”

Ele dá uma gargalhada:

“A Nélita! Como é que tu não te lembras da Nèlita? Andava sempre atrelada à Zulmira e deviam ser as miúdas mais feias lá da nossa rua!”

E depois de uma pausa, acrescentou:

“Feia, mas muito simpática! Nunca me hei-de esquecer que foi a única das tuas amigas que se preocupou comigo naquele verão em que tive um torcicolo que não havia meio de passar! Até me escreveu um postal!”

“Só por causa de um torcicolo?”

Ele voltou a rir:

“É que eu disse-lhe que tinha partido duas costelas… Ela estava de férias no norte, nunca veio a descobrir”.

De súbito, já não tem pena nenhuma de ter riscado a Nèlita da sua memória.

E fica muito contente por a Elizabeth Taylor não lhe ter enviado nenhuma fotografia.
.
«ACTIVA» - Outubro de 2010

sábado, 23 de outubro de 2010

DESCOBRI O SIMPLEX

.
Por Alice Vieira

TENHO MAIS MEDO de entrar numa repartição de Finanças ou da Segurança Social do que no consultório do dentista.

Por isso, quando entrei na Segurança Social para pedir um documento a provar que não devo nada a ninguém, até tremia.

Tirei a senha e, oh alegria!, era a senha 35 e já iam na 14, não devia demorar muito.

Nem valia a pena sentar-me, fiquei encostada à parede a olhar para os que iam chegando, e tirando senhas, e suspirando.

Quando, hora e meia depois, ainda se continuava na senha 14, comecei a não achar graça.

Reparo então - tenho pouca prática destas coisas - numas senhas com a designação de “prioritárias”. Pergunto quais as prioridades que abrangem - mas ninguém me sabe responder.

De repente, num écran em que passa muita informação a correr, com toda a gente a sorrir muito, a dizerem-nos - a nós, que já ali estamos há horas — como tudo agora é fácil e rápido, descubro que basta uma pessoa ter mais de 65 anos para usufruir dessa benesse.

Tiro outra senha, desta vez a 20, quando já estavam a chamar a 10. Óptimo, agora é que era.

O pior é que se estava na hora do almoço - e, durante mais de uma hora, nenhuma senha mexeu.

Palavra que temi um levantamento popular. Uma senhora começou a fazer um comício às massas, “devíamos era ir com panelas a São Bento!”, mas como a maior parte não estava a perceber o que faziam ali as panelas, ela lá explicou que era uma coisa que tinha acontecido no Chile, mas na sua cabeça as coisas deviam andar um pouco baralhadas porque, dali a momentos, já era a Argentina e as mães da Praça de Maio, e nós que éramos todos uns bananas, que amochávamos tudo. Desiste de esperar e vai embora, ela e mais alguns, e por isso, ao fim de seis horas de ali estar, chamam-me para me informarem que o que eu quero não é com eles.

Deve ser a isto que o nosso primeiro chama o “simplex”.
.
«JN» de 22 Out 10

sábado, 9 de outubro de 2010

VIVA (ENFIM!) A REPÚBLICA!!

.
Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

A MINHA CABEÇA está baralhada e nem sei por onde começar.
A confusão toda começou quando há dias o Alfredo entrou aos berros, “um louco assassinou o Dr. Miguel Bombarda!”
A minha mãe caiu desamparada na chaise-longue da sala, gritando “ai que mal que eu me sinto!”, e o meu pai, sem saber se havia de acudir à Pátria ou à mulher, disse:

- Chamem a parteira! - e desapareceu pelas escadas com o Alfredo, que não parava de perguntar “e agora quem é que distribui as armas ao pessoal?”

Foi então que percebi que a revolução vinha aí, e que desta vez é que era. Segundo ouvi dizer, havia senha para os revoltosos e tudo! “Mandou-me procurar?”, era a pergunta, - a que se devia responder “passe, cidadão!”
Não sei explicar mas, desde esse dia 3, em que o doutor foi assassinado, até ao dia 5, em que o meu pai entrou em casa de madrugada cheio de sangue nas calças - na minha cabeça não há divisões, nem manhãs nem noites, como se tivesse sido tudo um único dia.
O meu pai andava num entra e sai, preocupado com a criança a nascer em casa, e com a revolução a nascer na rua.
E de cada vez que entrava, trazia notícias diferentes.

- A revolução a rebentar, e o rei a jantar com o presidente do Brasil! Disseram-lhe que seria melhor cancelar o jantar — e ele disse que o mais que podia fazer era prescindir da sobremesa para acabar mais cedo!

Às vezes o meu pai vinha eufórico, e falava de nomes como Machado Santos, Afonso Costa, José Relvas, João Chagas, e os olhos dele brilhavam quando contava que os bravos de Infantaria 16 não tardavam a vir por aí abaixo, e que os soldados se tinham deitado vestidos e equipados para estarem prontos a sair quando fosse dado o sinal!
Mas às vezes chegava desanimado, como quando se deixou cair no sofá da sala, murmurando:

- O almirante Cândido dos Reis suicidou-se.

Até a minha mãe se esqueceu das dores.

- Ainda me parece estar a ouvi-lo ontem : ”Se me julgasse incapaz de assumir o comando das forças da marinha e de as conduzir à vitória, dava um tiro na cabeça!” Disseram-lhe que estava tudo perdido e ele não aguentou.

Mas logo o meu pai recuperou forças e voltou a sair, exclamando:

- Mas nada está ainda perdido!

Foi quando apareceu o Alfredo a gritar “Machado Santos está na Rotunda com mais 400 homens, e vão chegar muitos mais! “
Saíram os dois e nunca mais os vimos até à madrugada do dia 5, quando nos entraram pela casa, exaustos, empoeirados, colarinhos abertos, casacos rotos, manchas de sangue nas calças.

- Ganhámos!...

Exactamente no momento em que a parteira saía do quarto da minha mãe e dizia:


- Manuel Alfredo… - murmurou o meu pai. — Nasce no dia em que se anuncia um mundo novo!

O meu filho vai ter…
E a parteira:

- “Menina”, eu disse “menina”…

Resumindo (até porque este caderno está mesmo a acabar e não me apetece muito começar um novo) : já temos República, o rei, as rainhas e o Arreda foram de barco para o exílio em Gibraltar, e vamos escolher um presidente.

- Cá estaremos para ver no que dá…- murmura a minha avó.

É isso: cá estaremos
(Ah, e a minha irmã foi baptizada com o nome de Maria da Anunciação.
Sempre se podem aproveitar os monogramas da roupa).
.
«JN» de 9 Out 10

sábado, 2 de outubro de 2010

“CONQUISTEI O EXÉRCITO!”

.
Por Alice Vieira

FALTA POUCO para voltar à escola e, para aproveitar os dias de liberdade que me restam, pedi ao meu pai que me levasse ao Coliseu : há lá uma dupla irresistível de cómicos e o cavaleiro australiano Silant faz prodígios com o chicote!

Mas o meu pai disse que não estamos em tempo de palhaçadas.
Depois do jantar a Rosa disse que, se eu quisesse, podia ir com ela e com o Alfredo para a semana ao teatro.

- O Alfredo tem entradas para o Teatro do Príncipe Real! Deu-lhas um marçano amigo dele. Eu conheço-o, chama-se António Silva e é um tipo magrinho e com muita graça! O António entra na peça que se estreeou agora, chamada “O Rei Maldito”. Quer dizer, entra e sai, porque quase nem abre a boca, mas já é o suficiente para ter direito a borlas!

A Rosa contou que o Alfredo nem queria ir porque diz que a vida não vai para teatros, mas ela lá o convenceu. Agora, resta-me convencer a minha mãe.
Mas não são apenas o meu pai e o Alfredo que estão preocupados : toda a gente anda sobressaltada.
As greves não têm fim. Neste momento há greves dos tanoeiros, dos tipógrafos, dos conserveiros, dos garrafeiros, e sobretudo dos corticeiros, que estão a ocupar as estações de caminho de ferro, para impedir o embarque da cortiça.
Ouvem-se os boatos mais desencontrados, e as prisões continuam.
Ontem a D. Etelvina, que agora vem cá quase todas as tardes para acabar o enxoval do meu irmão, até tremia só de pensar nos dois vizinhos que de manhã tinham sido levados pela polícia.

- Imagine a Sra.D. Joaquina - dizia ela para a minha avó — eu a cruzar-me com eles todos os dias, “boa tarde, Sr. João Borges! Boa tarde, Sr. Manuel Ramos!”, e eles , “boa tarde D.Etelvina!”, sempre muito bem educados - e vai-se a ver eram bombistas! A polícia diz que eles tinham em casa centenas de bombas! Já viu se aquilo tudo explodia lá no prédio?!

E a D. Etelvina tremia tanto que até se picou com a agulha.

- Isto anda muito mal — disse a minha mãe — mas o rei continua por aí a passear como se nada fosse…Andou pelo Buçaco a brincar às batalhas…
- Era um centenário importante! — a voz ofendida da minha avó.

A minha mãe riu:

- Coitado, acho que ele não está mesmo a perceber nada do que se passa...Contaram-me que lá no Buçaco, depois das cerimónias, e dos desfiles e dos “vivas” do costume, exclamou: “Conquistei o exército!”

E a minha mãe deu uma gargalhada:

- Agora anda a fazer de cicerone ao Presidente Hermes da Fonseca, que acabou de chegar do Rio de Janeiro… Não me admiro nada de o ouvir dizer um dia destes: “conquistei o Brasil!”

A minha mãe estava mesmo bem disposta. Foi então que me lembrei de lhe perguntar por que é que o meu irmão se vai chamar Manuel Alfredo.
Ela ficou muito séria e foi a minha avó que exclamou:

- Porque o teu pai não tem vergonha na cara e vai dar ao filho o nome dos dois criminosos que mataram D. Carlos e D. Luís Filipe!

A minha mãe encolheu os ombros e ficou a abanar a cabeça, enquanto a minha avó levava a D. Etelvina até ao roupeiro para guardarem mais um lençol!

«JN» de 2 Out 10

sábado, 25 de setembro de 2010

O MEU IRMÃO JÁ TEM NOME

.
Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

AS CORTES abriram anteontem.
Eu estava na livraria com o meu pai e ouvi-o falar disso com o Dr. Miguel Bombarda, que é um médico muito amigo dele (“um grande republicano!”) que vai lá muito comprar livros, e depois fica na conversa.
Segundo ouvi, D. Manuel fez um discurso que parecia não ter fim, prometendo reformas da instrução, da justiça, da administração, enfim, de praticamente tudo.

- Está louco…- dizia o Dr. Miguel Bombarda – Completamente louco…

(O Dr. Miguel Bombarda é especialista em tratar pessoas loucas, de maneira que está sempre a ver loucura em tudo…)
Mas o meu pai deu-lhe razão:

- Um discurso perfeitamente irrealista! Mas não podemos esquecer que o discurso foi feito na base das propostas de medidas que constavam do programa de governo!
- Loucos!...Todos loucos!...

O discurso, no entanto, não deve ter grande efeito, porque as Cortes voltaram a fechar hoje, e só devem abrir em 12 de Outubro. Até lá, muita coisa pode mudar.
E, mais uma vez, andamos em festa.

- Amanhã chega a Lisboa o Duque de Wellington — disse o meu pai, ao jantar.

Até me ia engasgando com a carne assada.

- O Duque de Wellington?? O verdadeiro?

A minha avó murmurou logo que todos os duques são verdadeiros, mas o meu pai olhou para mim de tal maneira que tive vontade de me enfiar pelo chão.

- Isso nem parece teu, Zé Joaquim! Vamos comemorar o centenário da batalha do Buçaco, e tu querias que o duque fosse o mesmo? Este é o neto!

Mas para mim, heróis são heróis, e netos de heróis não têm graça nenhuma , por isso desinteressei-me do assunto, e o meu pai ficou a discutir com a minha mãe a qualidade do ensino em Portugal e que se calhar, em Outubro, eu ia para outra escola, muito possivelmente para uma das que funcionam nos Centros Republicanos.
No fim do jantar a minha avó foi buscar o bastidor e ficou a bordar na roupa o monograma do meu irmão, tal como tinha feito quando eu nasci. Ainda hoje gosto de olhar para esses dois “J”, como duas minúsculas bengalas, bordados na roupa que era minha e que está agora guardada no roupeiro.
Agora o monograma é diferente: depois de alguma discussão, os meus pais chegaram a acordo e o meu irmão vai-se chamar Manuel Alfredo. Portanto a minha avó borda na roupa as iniciais MA entrelaçadas uma na outra.

- E tenho de me despachar, porque a parteira disse que a criança era capaz de nascer fora de tempo…- diz ela, não se importando de assustar ainda mais a minha mãe.

Não percebo porque é que escolheram aqueles dois nomes – eu sou José Joaquim em honra da minha mãe, Maria José, e da minha Avó, Joaquina — mas na família não há nenhum Manuel nem nenhum Alfredo, e duvido muito que seja em honra do rei…
Mas a minha avó deve saber qualquer coisa — e não lhe agrada, porque se farta de soprar enquanto borda as letras no bastidor, e há dias ouvia-a murmurar:

- Criminosos…Dois criminosos…

Mas o meu pai apareceu na sala nessa altura e ela pediu à Rosa água chalada para os nervos, e já não bordou mais.
.
«JN» de 25 Set 10

sábado, 18 de setembro de 2010

VOLTARAM OS TIROS

.
Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

COMO A DRA. ADELAIDE continua sem tempo para acudir aos enjoos da minha mãe, o meu pai mandou a Rosa pedir ajuda à vizinha Henriqueta, que imediatamente enviou a nossa casa uma senhora muito simpática, que sorriu para todos e, em jeito de apresentação, disse:

- Trabalhei muito tempo com a D. Alice Costa!

A minha avó desfez-se em sorrisos e acompanhou-a ao quarto da minha mãe, enquanto o meu pai resmungava:

- Talassa…

Tudo porque, segundo me contou a Rosa, a D. Alice Costa foi quem ajudou D. Luis Filipe e D. Manuel a nascer.
Depois de examinar a minha mãe, a senhora veio ter connosco e disse:

- Ou ela fica em repouso absoluto, ou a criança nasce antes do tempo.

É muito grave uma criança nascer antes do tempo, pode até morrer, e por isso estamos todos um bocado assustados, e o meu pai até ficou em casa. A situação política também o preocupa: as Cortes deviam ter aberto hoje, mas ficou tudo adiado para dia 23.
Sentou-se ao lado da minha mãe e começou a ler-lhe o último número da “Ilustração Portuguesa”.

- Veja lá que assunto é que escolhe! - barafustou a minha avó.
- A senhora minha sogra fique descansada, o que vou ler é uma obra de arte! Literatura com um L gigante!

E então disse que se tratava de uma reportagem que o seu amigo Aquilino Ribeiro tinha mandado de Paris.

- Pelo amor de Deus, não me fale desse bombista! - gritou a minha avó, mas o meu pai fez que não ouviu e começou a ler o relato de um circuito de aviação em Paris.

Eu adoro aviões, e já me estava a ver dentro de um deles, nessa viagem de 800 quilómetros, ou então no campo de Issy-les-Moulineaux, entre a multidão que tinha ido assistir à partida das aeronaves.
O meu pai lia pausadamente, de vez em quando parava para exclamar “ esta alma do diabo escreve mesmo bem!”, e depois continuava, e eu estava um bocado confuso com aquelas palavras, mas se o meu pai dizia que era bom é porque era.
Estava ele, emocionado, a ler

“…e as passarolas, airosas como aves do paraíso, saíram dos seus ninhos e, açoitando a atmosfera doirada do nascente, filistriaram, curvetearam, descreveram mil regalos à vista e…”

quando um petardo rebenta mesmo ao pé da nossa casa.
A casa tremeu toda, os copos na cristaleira batiam uns nos outros que nem sei como não se partiram, e a minha mãe desatou aos gritos.
Fomos todos à janela, só se ouviam tiros e o barulho que os cascos dos cavalos do esquadrão da Guarda Municipal faziam na calçada.
Um homem passou a correr debaixo da nossa janela e gritou:

- A carbonária anda a lançar bombas à polícia!

Fechámos bem as janelas, e tentámos acalmar.
O meu pai voltou para o pé da minha mãe, e dizia:

- Então, Maria José, não é nada…Quer dizer…é o costume…Já devias estar habituada…

Mas a “Ilustração Portuguesa”, mais as “passarolas airosas como aves do paraíso”, ficaram abandonadas em cima da mesa.
Há momentos da nossa vida que nenhuma literatura consegue igualar.
Mesmo com L gigante.

«JN» de 18 Set 10

sábado, 11 de setembro de 2010

A CADEIRA DE SÃO GENS

.
Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

FOI UM REGRESSO a Lisboa muito atribulado.
A minha mãe não parava de vomitar, e ninguém conseguia encontrar a Dra. Adelaide Cabete, para lhe acudir.
- Isto não é nada — dizia ela, para nos sossegar, mas ninguém sossegava.
- Claro — resmungava a minha avó — escolhem médicas que se interessam mais pela política do que pelos doentes e depois é isto… Deve andar lá pelos estrangeiros, a gritar que as mulheres é que devem mandar neste mundo..
- E talvez não fosse má ideia--dizia a minha mãe, entre dois vómitos.
- Va de retro, Satanás! – exclamava logo a minha avó.
Foi então que ontem a vizinha Henriqueta subiu cá acima com um conselho para a minha mãe. Por que é que ela não ia até à capelinha da Senhora do Monte e se sentava, por uns minutos, na cadeira de São Gens? Toda a gente sabia que era uma cadeira milagrosa.
O meu pai, que estava em casa nessa altura, só não explodiu de fúria porque era pessoa educada e fazia questão de manter boas relações com a vizinhança.
Mas eu vi como ele ficou vermelho.
- A D. Henriqueta desculpar-me-á — disse, com a voz mais calma que lhe era possível - mas não vejo como é que uma cadeira pode fazer milagres. Isso é mais uma daquelas aldrabices que os padres querem enfiar à força na cabeça das pessoas ignorantes!
A minha avó suspirou muito fundo, e a vizinha Henriqueta fez que nem o ouviu e disse apenas:
- Sr. Fernando, é evidente que não é uma cadeira qualquer! É a cadeira onde se sentava o mártir São Gens, que foi o primeiro bispo de Lisboa! A mãe de São Gens morreu de parto…
- Ai, nem me fale nisso — murmurou a minha mãe, baixinho.
--… e, por isso ,todas as mulheres grávidas que se sentam nessa cadeira…
- Morrem de parto, não me diga! — exclamou o meu pai .
- Credo, Sr. Fernando, nem a brincar diga uma blasfémia dessas! — e a vizinha Henriqueta benzeu-se três vezes, para esconjurar desgraças .
Depois, já mais calma, continuou:
- É exactamente o contrário! Por acção do mártir São Gens, todas as mulheres grávidas que se sentam nessa cadeira têm uma gravidez tranquila, e uma hora pequenina.
Para mim, todas as horas são iguais, sessenta minutos cada, e não percebi como podia haver horas mais pequenas que outras, mas não disse nada, se calhar também era milagre do santo.
A vizinha Henriqueta insistia:
- Vá lá, D. Joaquina! Vai ver como todo esse mau estar lhe passa!
A minha mãe olhou para o meu pai, mas o meu pai olhou para o relógio e disse apenas:
- Tenho de ir abrir a livraria.
E saiu.
Então ontem, a minha mãe, a minha avó, a Rosa, a vizinha Henriqueta e eu fomos todos até à Graça, subimos a rua íngreme que leva à Senhora do Monte, e a minha mãe sentou-se na cadeira de pedra, logo à entrada da capelinha. Ao princípio foi complicado, porque a cadeira é muito estreita e a minha mãe está um bocado gorda, mas lá se conseguiu encaixar.
Quando à noite o meu pai chegou, ninguém lhe disse nada.
Mas o que é facto é que a minha mãe desde ontem que não vomita.

«JN» de 11 Set 10

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Crónica fútil

Por Catarina Fonseca

PASSAMOS A VIDA a comparar-nos com as outras. Ai eu sei que é inútil, mas são estes pequenos momentos que nos deitam (momentaneamente) abaixo.

Sabem aqueles dias em que nos sentimos mesmo giras? No outro dia, acordei assim. Saí de casa a pensar, Ai que gira que eu estou. Estou mesmo gira. É que se fosse homem saltava-me imediatamente para cima.

Eis senão quando se me pranta à frente uma tipa com três metros de perna, mais quatro de trança, mais bronze do Optimus Alive. Era eu em gira. Em muito muito muito mais gira. Fui condenada a segui-la rua abaixo. Inda por cima a rua era comprida. Vocês não odeiam metáforas?

Fiquei a pensar naquela cena deprimente de haver sempre quem seja muito melhor do que nós, o que quer que se faça ou seja na vida. Cheguei de autoestima arrasada à minha secretária e comecei logo bem o dia com um daqueles mailes de Bobis a precisar de lar: ‘Cãozinho acorrentado a uma casota, de família de etnia cigana, com fome, parasitas, e ferido…’ O pobre do Bobi cigano (dúvida que me ocorre de repente: e terão tirado o cão à família cigana com parasitas e deixado lá as crianças?) com parasitas e fome estava bem pior que eu, que a única desgraça que tinha na vida era não ser tão gira como a Rapunzel da minha rua (além de ter janelas que fecham mal e um estore avariado, que não chega a ser tão mau como ter parasitas, embora chegue ligeiramente mais perto). É verdade que a inveja é o pior dos parasitas, mas ainda assim não é tão grave como parasitas a sério.

Decidi portanto procurar ajuda especializada e embrenhei-me no livro ‘Os segredos das mulheres brasileiras’, da fantástica Nelma Penteado. De certeza que a outra rapariga o leu. Ou se calhar não precisava. Há quem tenha a sorte de nascer brasileira de alma (e ainda mais sorte em nascer de corpo). Estava eu embrenhada a divertir-me mais do que na Feira Popular (ai que saudades!) quando dou com o seguinte parágrafo sobre reforçar os nossos pontos positivos: “Não gosta das suas pernas? Há pessoas que não as têm! Não gosta do seu rosto? Há pessoas bem piores! Tem só uma perna? Passe-lhe creme, pinte as unhas dos pés e transforme a sua vida numa vida feliz.”
Ai meu Deus. Estou a tremer até hoje. Só uma perna? Imaginei-me só com uma pernita, a passar verniz nos meus cinco deditos únicos! Tive pesadelos a noite toda comigo mesma a tentar fazer RPM só com uma pernita. Isto sim, é mau! É muito pior do que ser cão com parasitas numa família cigana! Comparado com isto, já nem me atrevo a chorar no ombro da minha mãezinha e dizer-lhe “Ai porque é que não saio ao tio Olímpio que ele sim tinha três metros de perna!” ao que ela me responderia, se bem a conheço, “Pois tinha, e também era careca e estrábico, e não se chamava verdadeiramente Olímpio porque havia mais 16 irmãos e a mãe pôs o mesmo nome a dois filhos.”

Não liguem. É do calor. Da ressaca das férias. Conclusão disto tudo? Sejam o mais giras que possam e não olhem para as outras. Não abram mailes de cãezinhos abandonados ao princípio da manhã. E acima de tudo, passem creme na(s) perna(s).

P.S – Isto era para ser uma crónica séria e útil sobre o eterno retorno do Regresso às Aulas. Sendo que não tenciono regressar às aulas nem amarrada de pés e mãos, fiquem-se com a Nelma e sejam felizes. E giras. Se puderem.
.
«Passiva» de Set 10

sábado, 4 de setembro de 2010

A MINHA MÃE ANDA MUITO NERVOSA

Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

PARA A SEMANA voltamos para Lisboa.
A minha mãe recomeçou a vomitar, e todos cá em casa se assustaram. Ainda sugeri que tomasse umas colherzinhas do Elixir do Dr. Mealhe, que cura os males de estômago da minha avó, mas ela resmungou:

- Isto não tem nada a ver com o estômago. E não são conversas para ti.

Quando me dizem isto, eu vou logo perguntar à Rosa e ela explica-me.
Não percebo porque é que a minha mãe ou a minha avó não me explicam o que ela explica. Ela diz que há assuntos que as pessoas não gostam que as crianças saibam, e que também há assuntos que são só de mulheres e assuntos que são só de homens. Parece que os vómitos da minha mãe são assunto só de mulheres, e acontecem por causa do meu irmão. Ter uma criança deve fazer um mal horrível ao estômago das mulheres.
Para além disso, a minha mãe dorme mal, e tem pesadelos, porque em todo o lado se ouve falar de uma epidemia de bexigas doidas em Lisboa, que os médicos não conseguem controlar.
Os jornais dizem que centenas de pessoas estão a ser vacinadas todos os dias, e a minha mãe anda sempre a pedir ao meu pai que a leve também à vacina, porque as bexigas doidas são um perigo, e quando uma pessoa as apanha ou morre ou fica marcada para a vida inteira, e se ela as apanhar o meu irmão morre à nascença.
O meu pai tenta acalmá-la, e diz-lhe que a varíola (o meu pai nunca diz “bexigas doidas”…) ataca sobretudo as pessoas que vivem na miséria e numa completa falta de higiene.

- Não é a nós que a varíola ataca. Nós temos possibilidades de viver numa casa boa, com todas as condições, e podemos passar férias em lugares saudáveis. A varíola ataca as famílias que vivem amontoadas em casebres miseráveis, sem dinheiro, sem condições, essa legião de mendigos que cada vez é maior…
- Lá está o senhor meu genro a fazer política…- resmungou a minha avó.

E o meu pai saiu da sala, para não aumentar a discussão e a minha mãe ficar ainda mais nervosa.
O meu pai até tem andado bem disposto, porque nas eleições da semana passada os republicanos duplicaram a votação! Tinham sete deputados, e agora têm 14 — como o ouvi dizer há bocado ao Sr. Sebastião.
Que, por acaso, me pareceu mais interessado numa notícia da “Ilustração Portuguesa”, em que se falava de um invento de um engenheiro dinamarquês, coisa verdadeiramente revolucionária: um aparelho completamente automático para mungir as vacas.
O Sr. Sebastião, que tem umas terras e uns animais na Beira, nem queria acreditar:

- Imagine o Sr. Fernando que nem é preciso mexermos com as nossas mãos nas tetas delas!

Olhei para o meu pai e vi que ele nem estava a ouvir nada. Estava a pensar nos 14 deputados.
Agora é que a revolução está mesmo, mesmo a rebentar.
E talvez por isso ele tenha aproveitado este mal estar da minha mãe para anunciar o regresso a Lisboa: não tinha mesmo graça nenhuma que a República rebentasse quando ele estivesse a conversar sobre as vacas do Sr. Sebastião na Drogaria Gonçalves.
.
«JN» de 4 Set 10