segunda-feira, 25 de março de 2013

O SENHOR QUE CONTAVA HISTÓRIAS

Por Alice Vieira
HÁ MUITOS, muitos anos, eu tive a vossa idade.

“Ainda havia dinossauros?”, perguntou-me há dias o meu neto mais novo.

Não, realmente JÁ não havia dinossauros.

Mas AINDA não havia televisão, nem computador, nem telemóvel, nem iPOD, nem MP3, nem Playstation, nem uma série de outras maravilhas, indispensáveis na nossa vida actual.

Mas o facto de elas não existirem não impediu que – no meio de uma infância difícil, solitária e pouco afectuosa - eu fosse uma criança feliz.

E essa felicidade devo-a aos livros que li — e, muito especialmente, aos livros de um senhor chamado Adolfo Simões Muller.

Adolfo Simões Muller sabia muitas histórias, e levou toda a sua vida a contar histórias.

Os seus livros estavam cheios de heróis, de artistas, de exploradores, de aventureiros, e ele contava as suas histórias como se eles vivessem mesmo ali ao nosso lado, como se, de repente, entrassem pela nossa casa dentro, como se fossem nossos amigos, com quem pudéssemos passar a tarde inteira a conversar.

As personagens dos seus livros foram os amigos verdadeiros que tive na minha infância.

Atacada sempre por muitas doenças, eu sonhava com a noite em que Florence Nightingale (enfermeira inglesa, famosa pela sua actuação na Guerra da Crimeia, no séc. 19, e personagem de “A Lâmpada Que Não Se Apaga”) chegasse à beira da minha cama, pusesse a mão na minha testa e espantasse a febre para muito longe.

E quando vinha o frio, eu recordava sempre a cena em que Madame Curie (cientista, que descobriu o rádio, Prémio Nobel por duas vezes, e personagem de “A Pedra Mágica e a Princesinha Doente”) estudante quase na miséria, quando se deitava punha a cadeira do quarto em cima da cama, para ter a ilusão de mais calor.

Com os livros de Adolfo Simões Muller, eu aprendi que a nossa vida era aquilo que nós conseguíssemos fazer dela.

Com o “Príncipe do Mar” (que têm agora em vossas mãos), eu aprendi a ter orgulho do povo a que pertenço — que se meteu à aventura sobre águas desconhecidas, rumo a terras desconhecidas, ouvindo as vozes de então garantir que a linha do horizonte era o fim do mundo, e que para lá do fim do mundo havia só dragões.

Mas o Infante D. Henrique sabia que nada disso era verdade, que havia muitas terras para lá daquela linha que a nossa vista alcançava, e descobri-las foi o sonho e o trabalho de toda a sua vida.

E a realização desse sonho foi tão importante que, com tantos infantes que a nossa história teve, ainda hoje quando dizemos “O Infante” — é sempre a ele que nos referimos.

Os livros do Adolfo Simões Muller têm atravessado gerações. Os meus filhos leram-nos, e deram-nos aos filhos que depois tiveram.

É bem possível que os teus pais e os teus avós os tenham também lido.

Agora é a vossa vez.

E só lhes peço que, depois de lerem (e relerem…) este “Príncipe do Rio”, o guardem com muito cuidado na vossa estante.

Para um dia chegar em bom estado às mãos dos vossos filhos, e deles às mãos dos vossos netos.

Que, muito possivelmente irão olhar para vocês e perguntar:

- No vosso tempo ainda havia dinossauros?...

sábado, 16 de março de 2013

UM BREVE RECADO PARA AS EDUCADORAS DE INFÂNCIA

 Por Alice Vieira
ELAS CHEGARAM agora junto de ti.
Elas pensavam que o mundo cabia inteiro nas paredes da sua casa, e que quem lá vivia eram os seus únicos habitantes. Terás de mostrar-lhes que não é verdade.
Elas têm poucas palavras para nomear o que as rodeia. Terás de as ajudar a encontrar as que faltam.
Elas vão ver o mundo com as cores que tu puseres em cada som e em cada gesto.
Elas vão olhar para ti, aprender o teu nome, chamar-te por tudo e por nada, geralmente por nada. Que é sempre tudo.
Vais mostrar-lhes como se vive com os outros, como se aceita quem não é igual a nós, tal como se aceita um desenho pintado com todas as cores do arco-íris.
Vais aprender a ter de lhes dizer muitas vezes “ não”, sem te deixares levar pelo seu beicinho irresistível.
Mas vais também dizer-lhes muitas vezes “sim” e sentir que é para ti que elas sorriem e estendem as mãos.
Vais levá-las ao jardim quando há sol, vais empurrar baloiços que chegam ao céu, vais assoar narizes cem vezes ao dia, vais fazê-las aprender a gostar de sopa, vais ler-lhes histórias e ensinar-lhes que todas as meninas têm direito a ser princesas, e todos os meninos têm direito a ser piratas das Caraíbas.
Elas vão ser, naquele pequeno universo diário, os filhos que tens em casa, ou na escola, ou não tens, ou esperas vir a ter mais tarde.
E por vezes podes sentir uns ligeiros remorsos por teres para elas o tempo que não tens para os teus.
Elas levam-te nos olhos quando à tarde as vêm buscar. E esperas que te levem também no coração.
Elas vão acreditar em ti como acreditam nas fadas e no Pai Natal.
Elas vão pôr-te os nervos à flor da pele e fazer-te esquecer, por vezes, o que aprendeste, e perder a paciência que sempre julgaste inesgotável.
Elas vão fazer-te suspirar pela hora do regresso a casa, vão fazer-te levar muitas vezes as mãos à cabeça e proferir intimamente palavras impronunciáveis. Porque elas são crianças. E porque tu és humana.
Resumindo: elas vão-te fazer feliz para o resto da tua vida.
 -
Para um prefácio de uma agenda das Educadoras de Infância

quinta-feira, 7 de março de 2013

CHÁ DAS CINCO


Por Alice Vieira

DIZEM que foi um imperador chinês que o descobriu.
Preocupado com longas epidemias que assolavam o império, ordenou que toda a gente bebesse água sempre fervida.
Um dia, estava ele à sombra de uma árvore e pediu água. Lá lhe trouxeram a água a ferver, e ele teve de esperar alguns minutos, pois até mesmo quem é imperador não aguenta água a escaldar pela goela abaixo.
Enquanto esperava, não reparou que umas folhas da árvore tinham caído para dentro do copo (chávena? caneca? malga?) e a água tinha ficado um bocado para o castanho.
O natural seria – sobretudo rodeado de epidemias por todos os lados… - que deitasse fora aquela mistela e voltasse a pedir mais água fervida, e nós nunca viríamos a saber de nada.
Mas não.
Ou porque a vista já não estivesse lá muito apurada, ou porque a sede fosse insuportável, ou porque – e eu aposto nesta... — pensou que a um imperador nada de mal podia acontecer, o certo é que bebeu tudo. E até gostou!
E como não morreu nem lhe aconteceu nada de grave nos dias seguintes, deve ter chegado à conclusão de que a planta não era venenosa e vá de se aproveitar dela.
Não sabemos que árvore seria exatamente aquela (Lapsang Su Chong, seria??) mas aquele foi o primeiro chá que se bebeu no mundo inteiro.
Também há quem tire o imperador dessa história e diga, muito simplesmente, que desde tempos muito antigos os monges budistas cultivavam chá nos Himalaias.
Seja como for, depois entra muita gente ao barulho, até que aparecemos nós, portugueses, que, ao chegarmos ao oriente, pegámos no chá e trouxemo-lo para o porto de Lisboa – donde partiu para outros mundos.
Como sempre, tivemos tudo nas mãos, e perdemos para outros, sobretudo para os holandeses.
 Adiante.
O mais importante é que os pais do british “five o’ clock tea” – somos nós.
É por nossa causa que os ingleses andam sempre de caneca na mão, e que não há personagem de livro, filme ou série britânica que, a dado momento, não diga "let’s have a cup of tea".
Já pensaram no inspetor Maigret ou em qualquer polícia americano a pedir chazinho???
Tudo porque no século XVII, a nossa princesa D. Catarina de Bragança, filha de D. João IV, quando foi para a corte inglesa casar com Carlos II, instituiu esse hábito. Às cinco da tarde, chazinho para a rainha e suas damas.
As minhas velhas tias eram burguesas e republicanas, mas isso não as impediu, séculos mais tarde, de seguirem o exemplo de D. Catarina: tocavam a campainha (vocês ainda são do tempo em que havia campainhas colocadas em todas as salas das nossas casas?), a criada aparecia e elas diziam “ Emília, traga o chá.”
Nunca lhes passou pela cabeça irem à cozinha pedi-lo, e muito menos fazê-lo…
E depois seguia-se todo um ritual, de folhas de chá, de bules escaldados, de chávenas de Vista Alegre.
Aprendi com elas que todas as doenças se podiam curar com chá — de cavalinha, de tília, de macela, de camomila, de carqueja, do hipericão do Gerês, de perpétuas roxas, de cascas de cebola, de pés de cereja, de raiz de valeriana, de erva-do-diabo, de hortelã, de hibisco, de calêndula… digam-me a maleita e eu receito o chá.
Nessa altura não me lembro de ouvir falar em chá verde, branco ou vermelho. Ou bem que era chá – preto, forte, a escaldar e sempre sem açúcar – ou bem que era “chá de” : a primeira vez que tomei contacto com a palavra ”tisana” foi nos livros do Poirot (que era belga!) e tive de ir ao dicionário ver o que era.
Para lá de ter herdado das tias a sabedoria do chá, herdei-lhes também os bules, para os quais de vez em quando olho. Mas confesso que hoje em dia já os uso pouco: a água a ferver é deitada na caneca e dispenso os rituais.
As tias devem dar voltas no túmulo.
D. Catarina também.
 -
In Revista “Epicuro”, Out. 12

segunda-feira, 4 de março de 2013

Ruy Belo

Por Alice Vieira

CONHECI o Ruy Belo quando ambos entrámos para a Faculdade de Letras de Lisboa, em 1961.

Eu era uma jovem ainda a cheirar à infância do liceu; ele, dez anos mais velho, já tinha uma série de cursos no currículo, um doutoramento feito em Roma, um livro de poemas publicado.

 A princípio fazia-me confusão que uma pessoa como ele ainda insistisse em estudar mais, e se tivesse de novo matriculado numa faculdade, e andasse ali junto dos caloiros ( e todos juntos estaríamos quando, pouco tempo depois, rebentou a greve académica, que nos uniu ainda mais.)

Mas a nossa faculdade fazia-se muito mais no bar de Letras, onde a Menina Manuela tirava bicas, e onde as mesas se enchiam de gente que falava, discutia, acreditava que era possível fazer do país um lugar onde – como ele dizia pelo meio desse primeiro livro – “ um dia haverá barcos e seremos livres”

Às vezes, de repente, o Ruy exclamava:

“Tenho de ir para casa”.

E levantava-se da mesa e saía.

E eu sabia que era um poema que estava a chegar. Nunca conheci nenhum poeta a quem a inspiração chegasse assim.

Mas o Ruy era também a pessoa mais desorientada que alguma vez conheci na vida…

Nunca me hei-de esquecer do dia em que ele insistiu em ir buscar-me a casa para irmos…? À distância destes anos todos não me lembro exatamente onde iríamos, mas possivelmente a uma exposição de pintura na Galeria 111, que era o poiso de todos nós. Mas lembro-me de ter dito “eu levo o meu carro” (o meu carro era, na altura, o carro onde se amontoava toda a gente, “que saudades do tempo em que, para nós, “mini” era o teu carro e não uma cerveja”, dizia há dias o Jorge Silva Melo, nosso comum amigo…), e de ele ter respondido “desta vez vamos no meu”.

Eu vivia então na Av. António Augusto de Aguiar – e até hoje me lembro do pânico que senti quando o Ruy, metendo a primeira para arrancar, começa a subir a Av. Fontes Pereira de Melo — em sentido contrário.

“Ó Ruy, não é por este lado!”, gritava eu, e os carros que vinham contra nós a buzinarem feitos doidos, e ele “deixa estar que isto é rápido!”

Era nos anos 60, claro. Se fosse hoje, com o trânsito de hoje, aquele teria sido o nosso último dia de vida.

Depois o curso acabou, as nossas vidas levaram rumos diferentes, mas nunca deixei de estar em contacto com ele, e às vezes aparecia cá por casa, ou vinha jantar (quase sempre em dia diferente daquele que tinha sido combinado…).

Lembro-me de como me indignei quando não o deixaram entrar como professor na faculdade, e ele teve de ir dar aulas num curso noturno de uma escola do então Ensino Técnico, no Cacém.

Lembro-me de ouvir a sua voz magoada: “à noite, quando chego a casa, custa-me tanto subir as escadas…”

Hoje, enquanto recordo tudo isto, tenho na minha frente um postal da Fonte de Neptuno, em Madrid, que ele me escreveu, na sua letra tremida quando, nos anos 70, lá era leitor.

“O meu quarto na Casa do Brasil é o nº 15-A. Escreve-me, por favor”

E agora, para onde lhe poderei escrever?

sábado, 22 de dezembro de 2012

OS GLADÍOLOS

Por Alice Vieira
NEM SABIA bem por que ali estava.
Vingança, raiva, ou nenhuma razão em especial. Tinha dado de caras com a notícia no jornal, enquanto bebia o café e, de repente, vê-se a pagar a bica, a correr até à praça de táxis mais próxima, enfiar-se no carro, fechar os olhos, e deixar-se embalar até ouvir o homem dizer “cá estamos, minha senhora”.
Na rua em frente da igreja há uma florista. Pede gladíolos, mas dizem-lhe que já tiveram mas já não têm. Compra uma rosa.
A igreja está cheia, como já esperava que estivesse.
Tem muita pena de não trazer gladíolos. Um enorme ramo de gladíolos, como os que ele lhe entregava, sorriso manso nos lábios, quando regressava a casa, e lhe pedia desculpa pela pancada, pelos insultos, chegando mesmo a receitar-lhe pomadas infalíveis para as nódoas negras--prometendo nunca mais voltar ao mesmo.
Ela punha os gladíolos na jarra, e durante uma semana havia paz.
“Figura pública junta sempre mais gente no funeral do que em vida”, pensa, olhando para tantas pessoas que se acotovelavam à entrada da igreja, porque lá dentro já não cabia mais ninguém ou porque, simplesmente, não tinham podido resistir ao apelo do cigarro. Pessoas que, muito provavelmente, nunca lhe teriam dirigido sequer a palavra se alguma vez o tivessem encontrado na rua.
Alguns, mais velhos, olham para ela, ainda a reconhecem e acenam ligeiramente a cabeça.
Vagos conhecimentos, apenas. Os seus amigos verdadeiros, os que a tinham amparado nos tempos difíceis da separação, nunca ali estariam.
Entra na igreja, tentando a custo chegar até ao caixão.
Quer vê-lo.
Nunca mais o tinha visto, desde o dia em que se tinham encontrado no tribunal para o divórcio.
“Ainda te vais arrepender”, murmurara ele nessa altura. “O que és tu sem mim, não me dizes?”
Ela nem respondera. Fizera questão de deixar muito claro que não queria dele nem um centavo, o advogado aos berros, “mas a senhora não está a ver que ele vai ser condenado e pagar-lhe uma boa quantia?”, e ela a insistir, “nem um centavo desse homem, antes esfregar escadas a vida inteira.”
Tinha-se aguentado. Com a ajuda dos pais ao princípio, por si própria logo depois, na empresa onde esteve até se reformar.
É difícil chegar até ao caixão, há muita gente em volta e ninguém parece querer sair dali. Olha para o banco onde se senta a família. Só conhece a mulher das fotos nas revistas. E espera que ninguém a reconheça a ela, já passaram tantos anos e, de certeza, que ele não guardou fotografias desse tempo.
Olha para a mulher, franzina, sem a pintura que habitualmente ostenta nos retratos e, de repente, tem vontade de se sentar a seu lado, de lhe perguntar como correram aqueles anos todos, quantas vezes ele a atirou ao chão, e a espancou, e a insultou, e a ameaçou com facas - dando-lhe flores a seguir.
Olha para a cara dela, tentando encontrar marcas de antigas agressões, mas os cremes tudo apagam. Pena não haver cremes que também apagassem a dor e a humilhação e a revolta — que uma vida inteira não chegava para apagar.
A mulher tira um lenço da carteira e passa-o pela cara. Depois olha para ela. $$Ficam as duas a olhar uma para a outra, em silêncio.
Depois desviam os olhos.
Vai a sair quando, num impulso, volta atrás e deixa a rosa no colo da mulher. $$E voltam a olhar-se fixamente.
“Obrigada”, diz-lhe ela, numa voz quase inaudível.
Ela sai a correr, não sem antes olhar para o caixão.
O morto quase nem se vê, ao peso de tantos gladíolos.
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«Activa» - Dezembro de 2012

sábado, 8 de dezembro de 2012

UM NÚMERO DIFERENTE

Por Alice Vieira
ESTE É O Nº 500 da “Audácia”. Este é um número muito especial e, por isso, estamos todos em festa.
A “Audácia” nasceu em Novembro de 1966 - o que significa que está quase, quase a fazer 46 anos.
O que significa que os seus leitores atuais ainda nem eram sonhados quando ela apareceu. E, se calhar, nem a maioria dos pais.
Em 1966 o mundo era outro. Nós éramos outros. A maneira de fazer revistas era outra.
Nada destas máquinas sofisticadas que agora nos poupam tanto trabalho e tantas horas de esforço.
Lembro-me muito bem desse ano de 1966.
Eu tinha 23 anos, um curso acabado há dois, a família toda a insistir para que eu fosse professora (pois não era para isso que, segundo toda a gente, eu tinha estudado?), e eu, muito a contragosto, a ensinar um alemão rudimentar a alunos que queriam seguir Direito e precisavam de fazer exame de alemão e de ter ao menos 10 para poderem aceder à Universidade.
Foi a primeira e única vez que eu ensinei o que quer que fosse a alguém.
Eu já trabalhava no jornal – mas, para a família, jornalista era profissão que nenhuma menina decente e de boas famílias poderia escolher.
Jornalista era profissão de homens.
Feios, porcos, sujos e maus.
Mas esse foi o ano em que eu decidi que era preciso arriscar e não ter medo de escolher o que queria fazer da minha vida – mesmo que os outros abanassem a cabeça ou me virassem as costas. 
Há alturas em que tem de ser assim. Porque ninguém vive a nossa vida por nós.
E é por isso que, de cada vez que pronuncio a palavra “audácia”, me lembro da audácia que tive em largar tudo, de um momento para o outro, nesse ano de 1966: profissão, família, casa, conforto, segurança, despreocupação.
Tive a audácia de arriscar.
Depois – porque estas coisas acabam sempre por ser recompensadas…-- tive a felicidade de encontrar alguém, com quem partilhei quase 40 anos da minha vida, e que também nunca teve medo de arriscar, quando sabia que estava em jogo a liberdade, a coerência, a justiça, um futuro que sonhávamos bem melhor.
Pediram-me para hoje aqui falar dele.
Porque Mário Castrim escreveu na “Audácia” nos últimos anos da sua vida e, por isso, festejar este nº 500 é também festejar todos os que nesta revista têm trabalhado.
Mas, para mim, é tarefa muito complicada. É muito difícil falar de alguém de quem estive (e continuo a estar…) tão próxima.
Basta ler os seus textos – e as crónicas publicadas aqui na “Audácia” estão, felizmente, reunidas em livro — para se perceber a pessoa que ele era.
Trabalhou — trabalhámos… - muitos anos da nossa vida sob a censura.
Aqueles que já nasceram em liberdade têm dificuldade em entender o que isso era.
O que era não se poder falar nem escrever sobre aquilo que queríamos.
O que era “o lápis azul” a cortar páginas de alto a baixo.
O que era vermos completamente deturpado tudo o que escrevíamos (bastava o “lápis azul” cortar um “não”, por exemplo…)
O que era haver gente cujo nome nem sequer se podia mencionar.
Muitos foram desistindo. Por cansaço. Pela sensação de inutilidade. Pelo risco. (Abril vinha muito longe ainda…)
Mas o Mário nunca desistiu. Nem quando o telefone tocava cá em casa de madrugada, com ameaças. (Ainda hoje me custa atender um telefone que toca noite dentro…)
Talvez que a infância difícil que teve o tivesse preparado, e de que maneira, para a luta. A infância -- boa ou má –molda sempre as nossas vidas.
O Mário entrou para o sanatório do Outão aos 9 anos de idade – e saiu de lá dez anos depois.
Dez anos de afastamento da família, que vivia longe, de amigos, da vida normal de uma criança.
Dez anos em que sonhava com livros, muitos livros que pudesse ler à vontade, que o ajudassem a suportar dias e noites difíceis.
Acho que a única coisa que pedia, nesse tempo, eram livros.
Um dia o sanatório foi visitado por um grupo de dirigentes do Benfica, que iam conversar sobretudo com os miúdos, tentar, por momentos, fazê-los participar da vida que corria lá por fora.
- O que é que tu gostavas mais que te dessem? – perguntaram-lhe.
- “A Cidade e as Serras”, do Eça de Queiroz — respondeu ele.
Imagino o ar espantado da comitiva…
O que é certo é que, dias depois, chegava ao Sanatório do Outão um caixote com as obras completas do Eça de Queiroz e do Camilo Castelo Branco.
E esta foi a razão que tornou o Mário num benfiquista ferrenho até ao fim da sua vida.
E a vontade de nunca se deixar vencer pela doença foi sempre uma constante: estudou sozinho e pediu para fazer exames no sanatório, e fez. Quando saiu do Outão, quase com 20 anos, vinha disposto a ser professor – e foi.
Ainda hoje encontro velhos alunos dele que vêm ter comigo para me contarem como eram as aulas do “professor Fonseca”.
E depois o jornalismo.
A escrita de livros.
O resto da sua vida.
E isto é o pouco, o muito pouco, que sou capaz de dizer dele.
O resto é só meu.

Revista “Audácia”, Out.12

domingo, 25 de novembro de 2012

AS SAUDADES DA CASA


Por Alice Vieira
E DE REPENTE a casa voltou a ficar silenciosa.
De um momento para o outro, os objetos regressaram todos ao seu lugar habitual, o piano fechou-se, deixou de haver sapatos largados pelo meio da casa de banho e dos quartos, acabaram-se as risadas à meia noite (“meninos! Já deviam estar a dormir há que horas!”), o frigorífico readquiriu o seu ritmo pacato e parou de ser esvaziado de cinco em cinco minutos, a despensa readquiriu o seu ar honesto e saudável, sem pacotes de batatas fritas nem garrafas de coca-cola, os livros de histórias encontraram de novo o seu lugar na estante, os “Simpsons” e a “Family Guy” desapareceram dos serões televisivos,
E a casa voltou ao que era, antes de os netos todos terem chegado para se apoderarem dela durante um mês inteiro.
Olho para os quartos, para a cozinha, para o corredor – e acho que a casa se deve ter sentido muito bem.
Durante este mês, ela deve ter pensado que tinha finalmente regressado ao antigamente da nossa vida, quando havia sempre gente a chegar e gente a partir, e a voz do meu filho, pequenino, a perguntar logo de manhã ao meu ouvido “mãe, temos hóspedes?”
A seguir ao 25 de Abril de 1974, o ritmo da casa serenou.
Quer dizer: a casa ficou, a partir dessa altura, a pertencer menos aos adultos e mais às crianças – e raro era o dia de anos em que, no fim da festa, eu não tivesse de ligar aos pais, a pedir que os deixassem cá ficar a dormir. (Aqui tenho de partilhar a responsabilidade com o meu marido, que inventava grutas de lobos na sala, fazia jogos de futebol no corredor — acabando toda a gente a desenhar ou a escrever o que lhe passasse pela cabeça numa parede mágica que havia reservada para isso mesmo. Hoje, lavada e pintada desde que o meu filho foi para universidade, é uma parede igual às outras…)
A Ana Rita ficou célebre até hoje (em que já deve ser mãe de filhos crescidos…) por cá ter dormido quase uma semana, até que foi preciso o pai vir pôr ordem naquilo e arrastá-la de cá por um braço...Quase todos os anos encontro a tia na Feira do Livro, e recordamos sempre essa odisseia…

Mas antes de 1974, os tempos eram muito difíceis, e raro era o dia em que não nos batiam à porta amigos que precisavam de cá ficar uma noite, duas noites, sabiam lá eles e nós quantas noites… Às vezes partiam de manhã cedo, e nunca mais tínhamos notícias deles.
O quarto do fundo estava sempre disponível (lembras-te, Rogério? Lembras-te, Isabel? Lembras-te, Daniel? Lembras-te, Armindo? e por aí fora…)  e, quando não estava, havia sempre uma cama vaga, ou chão livre para nele se estenderem colchões-camas.
Uma noite, o Armando bateu à nossa porta.
Eu nunca tinha visto o Armando. Conhecia-o apenas dos textos que ele mandava para o suplemento “Juvenil” do jornal “Diário de Lisboa”, onde eu trabalhava.
Quer dizer: do Armando, as únicas coisas que eu sabia era que escrevia muito bem, e que vivia nos Carvalhos, perto do Porto.
Ele à porta e eu sem saber quem era aquele que, em hora tão pouco apropriada, me batia ao ferrolho.
Ele, “sou o Armando”, e eu só a pensar “pelo amor de Deus, vai-te embora, vai-te embora!”, e ele, coitado, só a repetir o nome e a dizer “desculpa, mas preciso de cá ficar esta noite!”— e a olhar para mim, estranhando certamente o ar de poucos (de nenhuns…) amigos que via na minha cara, caramba!, nem um sorriso, nem um “entra amigo, a casa é tua!”, nada.
O Armando a olhar para mim, e eu, apoiada à ombreira da porta, só a respirar fundo, a respirar muito fundo, a respirar fundíssimo.
Afastei-me e fiz-lhe sinal que entrasse.
Ele entrou, e ali ficou, com um saco aos pés, esperando que eu dissesse alguma coisa.
Passados alguns minutos, e depois de ter novamente respirado muito fundo, apontei-lhe o armário que ficava mesmo no fim do corredor:
- Sabes fazer uma cama, não sabes?
Ele acenou que sim.
- Então olha, os lençóis estão ali, o cobertor também, faz a cama onde quiseres, fica o tempo que quiseres, sai quando quiseres — que eu tenho de ir já para a maternidade!
A minha filha nascia horas depois.
Acho que o Armando nunca chegou a conhecê-la – mas, durante anos a fio, nunca se esqueceu de lhe mandar os parabéns.
Devia ser de tudo isto que a casa tinha saudades.
Revista “Audácia”, Nov. 12

sábado, 20 de outubro de 2012

Manuel António Pina


Por Alice Vieira
AS NOVAS tecnologias têm isto de bom: quando estamos longe e temos saudades dos amigos, elas se encarregam de nos aproximar.
De cada vez que eu estava fora do país, mandava um sms ao Manuel António Pina. Porque normalmente estava em congresso, em encontro literário, em escola ou biblioteca e queria trocar impressões, género “já cá estiveste?”, “O que é isto?”, etc. Porque, normalmente, por razões daquilo que escrevíamos, eu e o Pina andávamos pelos mesmos sítios.
Um dia — vá-se lá saber porquê…- eu aterrei na cidade francesa de Périgueux, num Encontro de Literatura Gourmet!!!
Sms logo para o Pina: “o que é isto?”
Respondeu-me que também já lá tinha estado e até tinha gostado, — e faz-me um estranho pedido: “por favor, vai à Rua tal, é uma rampa e mesmo no fim, à esquina, há uma casa pequena, há de estar uma velha à porta com uma gata castanha, diz-lhe que lhe mando um abraço.
Pensei que estava a brincar comigo mas, num intervalo do congresso, lá fui.
Encontrei a rua, a rampa, a esquina, a casa, a velha, a gata.
Tudo como ele tinha dito.
Lá lhe expliquei a história (“sou portuguesa, e um escritor português meu amigo pediu-me…” etc…) — e logo a velha se abre num enorme sorriso: o Pina tinha estado em Périgueux há uns tempos e, nos seus passeios pela cidade, tinha-a visto à porta com a gata. Parou no passeio, foi ter com ela e ali tinham ficado tempos infindos, a conversarem…sobre gatos.
O Pina adorava gatos.
Espero que o céu esteja cheio deles.
NOTA (CMR): procurando uma fotografia para ilustrar as palavras da Alice, encontrei esta, [aqui]. Acho que fica bem…

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

MUSEU DE CERA


Por Alice Vieira
HÁ MUITO tempo que não subia aquela rua.
Durante muitos anos trabalhara ali perto, conhecia-lhe os cantos e recantos, tascas e cafés, mercearias onde tudo se vendia, alfarrabistas e casas de velas, tabacarias a transbordarem de revistas de croché e de culinária, num tempo em que o jet-set ainda não tinha sido descoberto.
Há muito lixo pelas esquinas e, nos degraus das portas, garrafas vazias de cerveja marcam o rasto das noites.
O velho elevador está em obras. Quem quiser trepar a colina terá de contar apenas com a força das pernas, e este continua a ser um bairro de gente velha.
Na manhã em que sobe a rua, tem quase a certeza de reconhecer toda a gente, de tal maneira todos se parecem com os que, há mais de trinta anos, se cruzavam com ela. Se lhes desse os bons dias, como se atravessasse uma rua da aldeia, todos lhe responderiam.
Há mais de trinta anos aquele lugar era quase uma aldeia.
Era ali que nasciam todos os jornais. Ou quase todos.
Era um lugar que cheirava a chumbo, porque as novas tecnologias nem sequer ainda se sonhavam, e —nunca conseguira perceber porquê — a açúcar queimado . 
Dos jornais saía sempre a mesma gente, que se encontrava à mesma hora, nas mesmas tascas e nos mesmos cafés.
Mesmo os que se arrastavam pelas esquinas ou se colavam horas infindas aos balcões dos cafés, e que não liam jornais, mesmo essas os conheciam a todos pelos nomes. Reduzidos à sua expressão mais simples: o Sôr Armando, o Sô Pedro, a D. Antónia, e por aí fora.
Continua a subir a rua, na pastelaria da esquerda há, como sempre, um velhote a comprar uma caixa pequenina de petits-fours que depois atira para dentro de um saco de plástico.
Porque aquele é o reino dos sacos de plástico.
As velhas saem de casa com sacos de plástico, entram nas lojas e nos cafés, e regressam ainda com mais sacos de plástico.
As velhas daquele lugar sempre tiveram muitos sacos de plástico e muitas doenças.
Ela entra no café onde há mais de trinta anos entrava todos os dias, pouca coisa mudou, consegue até sentar-se na que foi, durante todos esses anos, a sua mesa, há apenas umas estranhas pinturas verdes na parede, e outro sistema de pagamento: com a bica e a água entregam-lhe um cartão numerado, que apresentará na caixa registadora, à saída.
Às 10 da manhã, tem o número 065. Não sabe a que horas abre agora o café, por isso não tem ideia se a afluência foi muita ou pouca.
E as velhas também não mudaram.
Olha para elas e é capaz de jurar que se disser “Ó D. Isilda” ou “ó D.Felisbela”, ou “ó Menina Odete” – elas respondem. E que lhe hão de contar as mesmas histórias de filhos ingratos, e que lhe hão de perguntar se “a vidinha vai bem” e, com um sorrisinho cúmplice à beira dos lábios, avisá-la de quem avistam ao fundo da rua.
Ao balcão do café fazem, como sempre, o ponto da situação. O que lhes dói mais, o que lhes dói menos. Mas o pior de tudo são sempre, como sempre foram, os nervos.
Queixam-se dos médicos que não as entendem, dos remédios que não fazem nada, das noras que-para-ali-estão, e rematam sempre com a frase de fazer calar o pessoal :” eu é que me sinto.”
Levanta-se da mesa, vai pagar.
Enquanto lhe fazem o troco, ainda olha para cada uma das velhas, à espera de as ouvir dizer, olhando através da janela,” olhe que o Sô Mário já ali vem”.
Na rua, há uma loja em frente chamada “Flower Power”.
“Bem vinda ao século XXI”, disse baixinho.
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«ACTIVA» de Outubro 2012

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A DOR DE CABEÇA


Por Alice Vieira
NEM SABIA há quanto tempo não entrava naquele jardim, perto da casa onde nascera. Ou antes: do sítio onde nascera, já que a casa há muito se transformara num stand de automóveis.
Uma vez passou por lá e ficou feita parva a olhar para a montra, pensando se o lugar da cama da mãe seria ali onde então se exibia um Aston Martin em todo o seu esplendor, ou, se calhar, lá mais para o fundo, onde se situava a secretária do vendedor .
Riu-se e o vendedor, lá de dentro, franziu os olhos, certamente nunca devia ter visto ninguém rir diante da montra, e ela desceu logo a rua, não fosse ele chegar à porta e perguntar “deseja alguma coisa?”, e ela “nasci onde o senhor está sentado.”
Mas nem mesmo nessa altura se lembra de ter entrado no jardim.
De resto o jardim estava então quase em ruínas. Os jornais traziam notícias e fotos,acabando todos a insultar a Câmara, que não fazia o que lhe competia.
Nunca mais se lembrara do assunto. O seu lugar de nascimento dizia-lhe muito pouco, até porque, segundo lhe contavam, tinha saído de lá aos quinze dias de idade.
Mas agora os netos andavam num curso de férias ali perto, e não havia outro sítio onde ela pudesse passar o tempo até serem horas de os ir buscar.
Alegrou-se com a recuperação do jardim (“ jardins abandonados só ficam bem nos poemas românticos e nas fotografias a preto e branco”, dizia muitas vezes) mas a dor de cabeça,aliada a um cansaço que ultimamente se agravava, quase a impedia de ver tudo como desejaria. O sol feria-lhe a vista, e teve de se sentar numa das cadeiras da pequena esplanada debaixo do enorme jacarandá, sem flor mas com sombra.
Em seu redor – e isso lembra-se de ser “imagem de marca” daquele bairro – muitos mendigos, por ali arrastando miséria e sujidade.
No meio do jardim, um parque infantil, onde as crianças gritavam e os adultos ainda gritavam mais do que elas, “Ruben, não caias! Ó Sónia,se atiras outra vez a bola lá para fora, a avó não ta vai buscar! Ai valha-me Deus, que são horas de ir fazer o almoço!”
Os gritos ainda lhe aumentam a enxaqueca (Odeia a palavra mas, quando está mesmo muito atacada  é só assim que se lhe refere, para tudo ser ainda pior..) Deixa cair a cabeça entre as mãos, fecha os olhos, deseja que aquelas duas horas passem depressa.
De repente ouve uma voz muito perto de si, sente um estranho bafo rente à sua cara:
“Precisa de alguma coisa?”
Abre os olhos e dá de caras com um dos mendigos.
“Quer que lhe vá buscar um copo de água ao quiosque?”
Nem consegue responder e já ele se arrasta até ao quiosque, onde há um jarro e copos no parapeito, e vê-o encher cuidadosamente o copo até acima.
E ela não quer ver a sujidade das mãos, e da barba e do cabelo, e não quer sentir o cheiro de há pouco, não quer mesmo mas não consegue, e ele traz o copo até à sua mesa, devagarinho para que não se entorne.
“Beba que lhe vai fazer bem”
E ela a olhar para as mãos dele, para sujidade das unhas, para os farrapos daquilo que um dia terá sido um casaco, e ele, estendendo-lhe o copo:
“Vá, beba”.
Agarra no copo e bebe a água toda de uma vez.
Ele sorri e ela sorri também.
Quando se lembra de lhe perguntar o nome, já ele tinha desaparecido. Vê-o, ao ,longe, a tirar qualquer coisa de um caixote do lixo.
São horas de ir buscar os netos.
Há-de contar-lhes esta história. Até para eles aprenderem a maneira mais rápida e eficaz de curar uma dor de cabeça.
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«ACTIVA» de Setembro 2012

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

AS NAUS DAS DESCOBERTAS

Por Alice Vieira

TINHA sido um verdadeiro sufoco, ela na rua e de repente a pensar
“esqueci-me das chaves e do telemóvel em casa”
A quem pedir ajuda, e como pedi-la? Mesmo com cabines telefónicas nos passeios e moedas nos bolsos, desde que se inventaram os telemóveis que ela nunca mais soube nenhum número de cor, está tudo na memória, ela a viver pela memória de uma máquina, ao que isto chegou.
Mas foi sufoco breve, felizmente não estava longe de casa quando deu pela falta, e pôde rapidamente voltar atrás e entrar no café, que desde sempre guarda uma cópia das suas chaves para uma qualquer emergência. Como esta.
Ainda bebeu uma tranquila bica antes de voltar a casa para buscar o que esquecera, meditando, como sempre em ocasiões semelhantes, na dependência em que todos vivemos de máquinas e tralhas afins.
Vem-lhe à memória o tempo longínquo em que o primeiro telefone móvel entrara lá em casa. Uma maravilha da técnica. Tirava-se do descanso e podia-se levar pela casa toda, e falar confortavelmente estiraçado na cama, ou na sala, ou na cozinha, enquanto se mexia a sopa.
Tinha sido o filho quem mais vibrara com o objeto. Agora podia enfiar-se no quarto, sem dar cavaco a ninguém, e passar horas com as suas diversas namoradas.
Preocupava-a aquele filho, sem nunca pegar num livro, naquela casa onde eles estavam por todo o lado e onde ninguém podia passar sem eles. Ninguém, menos ele, claro, que pelos vistos passava mesmo muito bem, porque a verdade é que tinha boas notas e não chumbava.. Mas ler não era, definitivamente, o seu passatempo favorito.
Por isso ela se lembra do ar de espanto que fez no dia em que ele lhe perguntou:
- Mãe, onde estão “As Naus”?
Nem percebera.
- Onde está o quê?
- “As Naus”, mãe. Aquele livro do Lobo Antunes.
Não quis mostrar demasiado o seu espanto, o rapaz ainda era capaz de se arrepender, e tirou-o da prateleira. Tinha estado muito recentemente a pôr a sua estante em ordem, sabia onde o tinha colocado.
O filho pegou no livro, enfiou-se pelo quarto, fechou a porta e lá ficou.
Nos dias seguintes “As Naus” lá continuavam na mesa de cabeceira. Um dia achou por bem voltar a pô-lo na prateleira.
À noite, o filho, meio zangado:
- Mãe, qu’é das “Naus”?
Pelos vistos a leitura do romance entusiasmava-o.
Um dia arriscou:
- Estás a gostar das “Naus”?
Foi a vez de ele a olhar espantado.
- Das “Naus”?
- Sim, do romance do Lobo Antunes.
- Ah!!
Foi um enorme “Ah” que se devia ter ouvido pela casa toda.
Depois foi buscar o livro e abriu-o na primeira página, onde se viam uns números escritos a lápis.
- Tás a ver, mãe... É que há dias, quando tu andavas a fazer a arrumação dos livros, a Teresa ligou e eu precisava de tomar nota do número do telefone dela. E isto era a única coisa que eu tinha à mão. Como nunca sei o telefone dela, preciso sempre de ver aqui.
Ainda pensou em dar-lhe uma agenda – mas desistiu. Pegar num livro era bem melhor. Até podia ser que ele se entusiasmasse e passasse da primeira página.
Como de resto veio a acontecer, não por causa de “As Naus” mas por causa de uma namorada que lhe disse:
- Ou tu lês o que eu leio, ou nada feito.
Casaram, são muito felizes, têm 5 filhos.
( “As Naus” continuam com o número de telefone escrito a lápis, já um bocado sumido, que os anos não perdoam.)

«Activa» de Agosto de 2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

FÉRIAS GRANDES


Por Alice Vieira

JÁ NÃO sabia as vezes que tinha feito, desfeito e refeito a mala.
- Raio de tempo… --murmurou.
O marido largou o jornal e as palavras cruzadas e sorriu:
- Ninguém te entende…Se chove é porque chove, se faz sol é porque faz sol…
Deixou-se cair no sofá. Não era nada disso e ele sabia.
- O que eu queria era o tempo certo. Fiável. Dantes, quando íamos de férias no verão, levávamos roupa leve, um guarda-chuva, vá lá, por mera precaução, mas nunca enchíamos a mala de camisolas, casacos, meias…
No verão anterior nunca conseguira largar o casaco de fazenda. Mesmo as pessoas daquela praia do norte, habituadas a pouco calor, diziam que nunca se lembravam de um tempo assim, o vento a levar tudo atrás, tempestades de areia, as pessoas dias inteiros enfiadas em casa. Lembra-se até que a Goretti, amiga de há muitos anos, lhe tinha telefonado a dizer “se quiseres lareira, arranja-se!”
Só por vergonha não aceitou.
- O que eu queria…
- O que tu querias – riu o marido -- era ser criança, confessa! Quatro meses de férias, um verão que nunca mais acabava, as ”férias grandes” dizíamos nós, sem preocupações nenhumas…Mas isso, minha querida, isso era o paraíso, e já devias saber que, quando nos tornamos adultos, os paraísos desaparecem.
Regressou às palavras cruzadas, repetindo:
- Era mesmo o paraíso.
Ela voltou a enfiar mais umas camisolas na mala.
 Sempre que o verão aparecia no calendário (e, cada vez mais , só mesmo no calendário) vinha-lhe aquela estúpida saudade da infância, ela que nunca tinha saudades de nada, muito menos da infância, ficava amarrada à recordação da quinta, do grande plátano diante da casa, da ruazinha orlada de cedros que levava ao muro que dava para a outra quinta, onde vivia a família do António.
O António vivia sempre enfiado lá em casa, lia os números atrasados da “Mecânica Popular” que os irmãos dela colecionavam e iam deixando na quinta, quando chegava a hora de voltar para Lisboa, e fazia coisas complicadíssimas com as peças do Meccano.
- Hei de ser engenheiro…-- garantia ele
Mas houve um dia em que ele largou a revista e o Meccano e lhe disse:
- Vamos dar uma volta.
Os pais tinham saído, a caseira andava distraída no galinheiro, os irmãos tinham pegado nas bicicletas e desaparecido.
Foi na ruazinha dos cedros que então o António lhe perguntou:
- Queres ser minha namorada?
E ela sem saber o que responder, porque acabara de fazer 12 anos e nunca tinha tido um namorado.
Mas durante aquele verão foram namorados.
E foi um verão muito quente, e os dias eram enormes, e as noites parecia que ardiam.
Até que um dia o pai chegou muito zangado a casa, porque tinha ouvido não sei o quê no café, mandou a mãe fazer as malas e voltaram para Lisboa mais cedo do que era habitual. Nunca o pai lhe disse o que acontecera, mas a verdade é que ela nunca mais voltou a ver o António, que nas férias seguintes já não morava naquela casa ao lado do muro da rua dos cedros.
Às vezes dá consigo a pensar no que lhe terá acontecido, se será engenheiro, se terá emigrado, se estará casado e pai de família. Como era possível as pessoas desaparecerem assim das nossas vidas.
Deve ter suspirado com muita força porque o marido perguntou:
- Disseste alguma coisa?
Não respondeu.
Pensava ainda na palavra “paraíso”.
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«Activa» de Julho 2012