sexta-feira, 20 de maio de 2011

EM LOUVOR DA FRALDA DE PANO

.
Por Alice Vieira

VOU CONTAR uma história verdadeira, de há mais de 30 anos.
Nesse tempo eu trabalhava no DN na mesma sala do meu querido amigo Pacheco de Andrade. Dávamo-nos muito bem, nas nossas ideologias completamente opostas, mas nem ele me queria converter a mim nem eu a ele.
Ele tinha acabado de ser pai. Um pai muito tardio, que nunca na vida sonhara ter um dia uma criança nos braços. Os meus filhos eram pequenos mas, de qualquer modo, mais velhos do que o seu bebé, e por isso eu era a sua conselheira para aqueles casos que só são banais quando se tem alguma experiência do assunto.
Um dia o Pacheco de Andrade foi convidado para ir a um programa de televisão. Lembro-me de que na véspera se riu para mim e murmurou: “o que não irá o seu marido escrever depois!”
Pus logo os pontos nos is e expliquei-lhe que tinha dito ao meu marido que, lá pelo facto de o entrevistado ser meu amigo, isso não deveria nunca impedi-lo de escrever o que muito bem quisesse; e, do mesmo modo lhe dizia agora que o facto de eu ser mulher de um crítico que possivelmente o iria desancar, não tinha nada a ver com a nossa amizade.
E o Pacheco de Andrade foi à televisão. E apanhou uma descasca sem apelo nem agravo.
E foi assunto de que nunca mais se falou : eram dois homens completamente opostos, nunca se poderiam entender.
Um dia chego a casa e oiço o meu marido numa estranha conversa telefónica:
“ó homem, faça como eu digo… dobre lá o pano em três partes…agora ponha o bebé ao meio…e ate com dois alfinetes de cada lado…”
O meu marido estava a ensinar o Pacheco de Andrade a pôr a fralda ao filho.
Ficaram amigos para o resto da vida.
Se me lembrei hoje disto é porque acabei de ler que, por causa da crise, as fraldas de pano estão de novo no mercado, a tentar ganhar um território que, durante gerações, lhe pertenceu.
Dão imenso trabalho, pois dão; não há descanso, pois não. Mas, se não chegam para dar cabo da crise, podem ser uma óptima ajuda para a paz entre as pessoas.
«JN» de 20 Mai 11

Sem comentários:

Publicar um comentário