sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

AS VELHINHAS INGLESAS

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Por Alice Vieira

DEPOIS da família real e dos polícias, as velhinhas são uma instituição inglesa.
Nenhum país tem velhinhas como as inglesas.
As francesas são terríveis, espiando-nos debaixo dos seus chapelinhos cinzentos.
As nossas enchem autocarros e urgências de hospitais só a falar de doenças, ou deixam-se enganar por qualquer caramelo que lhes bata à porta a prometer fortunas se elas lhes passarem para as mãos as economias guardadas no colchão.
As inglesas, não.
Agatha Christie olhou-se ao espelho e depois olhou à sua volta, e percebeu logo que o poder estava nelas.
Miss Marple, entre duas carreiras de meia e liga, ou entre duas chávenas de Earl Gray, sorri para nós, “oh dear, oh dear!”, e diz-nos, na sua voz mansa, quem matou o diplomata, ou o vizinho de cima, ou a estrela de cinema. E descobrimos que estava tudo diante dos nossos olhos, ela nem sequer faz caixinha, como o antipático do Poirot, que descobre tudo só porque tem elementos que nós não temos…Homens… (E belgas…)
Desde então, as velhinhas inglesas têm sido tema de livros, filmes, séries, etc. Quem não se lembra da extraordinária Mrs. Wilberforce, de “O Quinteto era de Cordas”, que, entre velhas amigas, scones, e Mozart, deita por terra o projecto de cinco assassinos encartados.
Um encanto, as velhinhas.
Só que, até mesmo em Inglaterra, a tradição já não vai sendo exactamente o que era...
E quando aqueles seis gatunos de meia tigela, em Northampton, se lembraram de assaltar uma joalharia — uma velhinha apareceu.
Vestida de vermelho – mas velhinha.
Só que, de repente, sem a doçura de Miss Marple ou o sorriso de Mrs. Wilberforce, vá de se meter ao estalo, ao soco e ao murro a todos eles, com uma das mais mortíferas armas que uma velhinha pode usar: a mala de mão.
Os ladrões foram apanhados — e ainda agora devem estar a tentar perceber como é que, de um momento para o outro, as velhinhas inglesas ficaram tão diferentes.
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«JN» de 11 Fev 11

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