sábado, 29 de maio de 2010

A MINHA MÃE FEZ ANOS

Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

A MINHA MÃE fez anos ontem.
Vieram bolinhos de amêndoa e rebuçados de ovo da Confeitaria Nacional, o meu pai foi a Belém comprar pastéis, tirou-se a loiça de Vista Alegre do aparador e, na véspera, a Rosa gastou uma embalagem inteira de Pomada Amor a arear as pratas, para tudo ficar reluzente.
Veio pouca gente, para ela não se cansar: as vizinhas de baixo, e a Dra. Adelaide Cabete, que é médica da minha mãe.
A Dra. Adelaide, como diz a minha avó, que não morre de amores por ela, “enche uma casa”. E quando está muito bem disposta, até canta modas alentejanas, dos seus tempos de juventude em Elvas.
Tempos bem difíceis, segundo o meu pai já me contou: trabalhou na apanha da ameixa até muito tarde, foi criada de servir, até que casou e o marido empurrou-a para os estudos, apesar de todas as dificuldades.
Já a ouvi contar que esfregou muitas vezes o chão com o livro de anatomia ao pé do balde, para ir decorando o que era preciso.
Por isso é agora uma grande médica. (“E uma grande republicana!”, acrescenta logo o meu pai).
Por isso ontem, de repente, virou-se para a Rosa e disse-lhe que o melhor que ela tinha a fazer era estudar, mas estudar mesmo a sério, para vir a ser uma mulher “ daquelas de que a República precisa”.

- Sei ler e escrever! — disse a Rosa.
- Foi a minha filha que fez essa caridade… — exclamou logo a minha avó.

Para a minha avó, todo o bem que fazemos aos outros em geral e à Rosa em particular - é sempre por caridade.
Esqueceu-se foi de contar como barafustava de cada vez que a Rosa largava a cozinha para se sentar ao lado da minha mãe, diante dos livros.

- É muito bom mas não chega — continuou a Dra. Adelaide – é preciso ir para uma escola, tirar um curso, ter opinião…
- Opinião tem ela que chegue… - murmurou a minha avó que, para rematar a conversa, propôs que se passasse à sala para verem os presentes que a minha mãe tinha recebido.

Este ano a minha mãe não teve sorte nenhuma com os presentes: só recebeu coisas para o meu irmão!
Até o meu pai! Quando eu esperava que ele lhe oferecesse uma salva de prata da Casa Leitão (que é sempre o que ele lhe dá em datas festivas) — dá-lhe uma máquina de costura! Uma enorme máquina Pfaff, daquelas que custam sete mil reis e vêm anunciadas em todos os jornais como a maior maravilha.
Pode ser uma maravilha — mas é uma maravilha que vai dar muito trabalho à minha mãe !
Para além disso - casaquinhos, babeiros, cueiros, chambres, toucas, até parecia a montra do Eduardo Martins!
Para ela mesmo só recebeu um frasco de “Heno de Pravia”, que é um perfume que agora se vende em Espanha, oferta da vizinha Henriqueta, que veio há dias de Badajoz.
***
(Ah, é verdade: o rei já voltou. Levou 11 dias a ver a coroação do rei de Inglaterra — mas lá voltou…Não sei se terá feito muita falta, eu cá não dei por nada.)

«JN» de 29 Mai 10

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