sábado, 27 de fevereiro de 2010

QUANDO O MEU PAI VIU O JÚLIO VERNE

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Por Alice Vieira

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910".

HOJE fui ter com o meu pai à livraria.
Quando eu era muito pequeno, pensava que o meu pai já tinha lido aqueles livros todos. E que por isso mesmo é que era o dono.
Gosto de passar a mão pelas encadernações dos livros, e folheá-los, e imaginar que histórias contarão.
Gosto sobretudo de folhear os livros do Júlio Verne, e já perdi a conta às vezes que li “A Viagem ao Centro da Terra e “Da Terra à Lua”. (Se o “D. Jayme” fosse como algum destes livros, ao tempo que eu já o sabia de cor…)
E, quando gosto de um livro, tenho sempre vontade de conhecer o seu autor. O que é quase sempre impossível, ou porque já morreu há muito, ou porque vive num estrangeiro que eu nem sei onde fica.
Adorava ter conhecido o Júlio Verne. (Nunca me passou pela cabeça querer conhecer o Tomaz Ribeiro…)
Mas o meu pai conheceu o Júlio Verne!
Quando ele esteve em Portugal, o meu avô tinha acabado de morrer. Ninguém esperava que ele morresse tão cedo e o meu pai, aos 20 anos, viu-se sozinho à frente da livraria.
Como ele está sempre a dizer, “se eu consegui ter pulso para dirigir sozinho o negócio, por que é que este beato meio raquítico, que sabe tanta língua, e tem tanto professor e tanta gente à volta dele não consegue dirigir o país?” (Se a minha avó está presente, o meu pai, para evitar zangas, muda o “beato meio raquítico” para “esta amostra de rei”)
Mas dizia eu que, da última vez que Júlio Verne cá veio, o meu pai tinha 20 anos e já dirigia a livraria. Como era amigo de muita gente dos jornais (amizades herdadas do meu avô), conseguiu ir com eles ao encontro do escritor, no Hotel Bragança.
Estava-se em Maio de 1884
(“nunca esqueças as datas, José Joaquim!”…)
e era a segunda vez que Júlio Verne vinha a Lisboa.
Mas, diz o meu pai, vinha sempre a correr : chegava no seu iate, vinha a terra para comer e encontrar-se com alguns jornalistas e escritores, voltava para o iate, e na manhã seguinte já estava de volta a França.
De tal maneira eram breves as visitas que o meu pai está sempre a contar (e todas as vezes ri à gargalhada, ele que é sempre tão sisudo…) que nesse ano um jornalista de quem o meu avô era muito amigo, chamado Rafael Bordalo Pinheiro, publicou o relato do encontro no seu jornal e, admirado com a rapidez da visita, rematou:
“ só andando com esta pressa toda é que o Sr.Júlio Verne pôde fazer viagens à lua no tempo que qualquer pessoa gasta em ir á Porcalhota comer coelho guisado!”
Mas mesmo só por breves minutos, eu havia de ter gostado de o ver. Olho para a fotografia que o meu pai tem na estante onde estão todos os livros dele, mas não é a mesma coisa.
Acho que era capaz de viver numa livraria!
Garanto: se a livraria do meu pai vendesse o “Texas Jack”, era melhor livraria do mundo! Quem sabe até se o Júlio Verne não teria cá vindo?

«JN» de 27 Fev 10

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