domingo, 10 de janeiro de 2010

CONTA CORRENTE

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ANA OLHA PARA O ÉCRAN e a imagem dele enche a casa.
Quer desviar os olhos mas não consegue.
Pega no comando para desligar, mas é como se a mão estivesse presa e ela no meio de uma daquelas séries de bruxas e génios do mal que abundam na programação.
Nem ouve as perguntas que lhe fazem. Vê-o só a ele, o cheiro a colónia que deve pairar naquele estúdio, a pose decerto encenada em casa, a voz que os muitos maços de cigarros ao longo dos anos foram enrouquecendo.
A jornalista sorri, reverente, é sempre bom mostrar respeito diante de uma figura pública, mesmo que o programa seja de futilidades e a figura pública, que sempre se recusou falar da sua vida privada, agora olhe para as câmaras numa operação de charme que Ana não entende.
E depois passam uma reportagem feita na casa nova, a casa escolhida pela Bé, como ele não se cansa de repetir, e a Bé a aparecer ao fundo do corredor, e ele pendurando-se no braço dela, e a mostrar a mesa onde escreve os livros,” todos dedicados à Bé, evidentemente”, os quadros da parede, “escolhidos pela Bé, que percebe imenso de pintura”, a música que ouve, “em conjunto com a Bé, que está muito mais a par destas coisas ”, o cão que lhe salta para o colo, “trazido pela Bé, que o encontrou à nossa porta”.
Ana sorri.
Ele sempre fora alérgico a cães.
Uma tarde um rafeiro atravessara-se no seu caminho—e ele esteve a espirrar a tarde inteira.
Entretanto a reportagem acabara e estava-se de novo no estúdio. “Toda a minha vida esperei pela Bé”, murmura ele.
E Ana não percebe como um homem tão inteligente pode fazer figuras tão tristes diante de milhares de pessoas, e ouve-o dizer que só com a Bé encontrou um sentido para a vida, que antes da Bé nada teve importância.
-Devo-lhe tudo, absolutamente tudo - repete ele.
É então que Ana tem uma fúria.
Não pelo facto de ele ter apagado 25 anos da sua vida; não pelo facto de a Bé ter idade para ser sua neta e ele se ter casado com ela de papel passado e tudo, coisa que nunca julgou importante fazer com ela; não por ele ter saído de casa uma tarde sem a avisar de que não iria voltar. Por nada disso.
Aquele “devo-lhe tudo” é que a fez rebentar.
Pega num papel e numa esferográfica (ele deve ter levado a máquina de calcular, há muito tempo ela não a encontra), e enquanto ele se desfaz em sorrisos e baboseiras diante das câmaras, Ana vai somando parcelas e mais parcelas, de rendas de casa, de água, gás, luz, electricidade, eTv Cabo, das compras ao fim do mês, dos cinemas ao sábado, das resmas de papel e depois do portátil e da impressora e dos tinteiros, e das termas nas férias por causa das alergias, e da assinatura do “Magazine Littéraire”-- porque durante anos ele só viveu para a sua escrita, mas a fama e o dinheiro tardavam a chegar, e foi Ana que andou com a vida para a frente.
E as parcelas vão surgindo de todos os recantos da memória, e Ana vai somando tudo, e multiplicando tudo por muitos meses, e por muitos anos, e começa a rir, a fazer contas e a rir, com aquele riso que só a muita raiva dá.
Quando as contas ficarem prontas, Ana vai mandar tudo para casa dele.
Para que ele veja que afinal nem tudo deve à Bé.
Pelo menos alguma coisa ainda lhe deve a ela.

in "ACTIVA" Julho 2009

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