domingo, 10 de janeiro de 2010

O COPO DE VIDRO AZUL

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AINDA NEM ESTAVA em mim, palavra! , e o pior era as pessoas pensarem que eu devia ter enlouquecido.
“Mas o que é que lhe passou pela cabeça para fazer um chinfrim destes?”— eu olhava para a cara da Laurinda e estava a frase lá estampada.
Mas olhava sobretudo para a cara dele, sobrolho franzido e exclamando “era só um traste velho!”
O copo de vidro azul em cacos.
O copo de vidro azul, onde ninguém a não ser eu mexia – em cacos.
Perguntei-lhe por que é que tinha mexido no copo e ele riu e disse que eu só podia estar maluca, que aquele copo devia ser a coisa mais velha que havia lá em casa, e além disso era o que estava à mão, qual o mal ?
Pronto, tinha-lhe escorregado dos dedos e tinha-se partido, mas em qualquer loja dos chineses havia montes de copos iguais àquele, com cinco euros eu comprava para aí meia dúzia. E de certeza melhores.
Olhei para ele e não acreditei.
O meu homem, o homem pelo qual há 30 anos eu tinha fugido de casa, o homem com quem partilhara as melhores horas da minha vida, o homem que era meu marido e me devia conhecer por dentro e por fora — o meu homem olhava para aquele copo e dizia “era um traste!”
O copo de vidro azul tinha 30 anos.
É raro um copo de vidro barato durar tanto—mas eu tinha-o colocado numa prateleira alta, onde ninguém facilmente chegava.
Era um copo para se olhar para ele, não para se beber nele. E ia durar—pensava eu—para sempre.
Apanhei os bocados de vidro enquanto aos meus ouvidos chegava, lá de muito, muito longe, a voz dele num dia em que olhara para mim e perguntara:
-E agora?
Tínhamos rido muito, na despreocupação dos 20 anos, “alguma coisa se há-de arranjar, trabalhamos ambos, à fome não morremos”
“A minha casa é um cubículo”, disse ele, e eu respondi que era magra, em qualquer lado me encaixava, e rimos outra vez, e outra vez ele disse “nem sequer há pratos ou copos para dois”, e mais uma gargalhada, “lojas é que não faltam”.
E no dia seguinte ele chegou a casa e disse “já não falta tudo”, e entregou-me um embrulho atamancado em papel de jornal, daquele que ainda sujava muito as mãos.
“Foi o que se pôde arranjar, “ disse, “o dinheiro é pouco”.
Era um copo barato de vidro azul.
A primeira prenda, no primeiro dia de uma vida a dois.
O copo de vidro azul — trinta anos depois, em cacos no chão da cozinha.
Estou a pensar nisso tudo quando a Laurinda me avisa que vieram entregar uma encomenda para mim, e que é preciso assinar um papel.
Digo-lhe que deve ser engano, não estou à espera de encomenda nenhuma, mas ela quase me empurra até à entrada, e diz que o homem está à porta, com um caixote que diz “frágil” e com um envelope com o meu nome escrito e a morada certa.
Faço um rabisco qualquer e abro o envelope:
“Ao menos estes são de cristal…Espero que cheguem para pagar essa porcaria que parti…”
Durante muito tempo fiquei a olhar para o caixote, sem o abrir.
Durante muito tempo fiquei a pensar no que verdadeiramente se tinha partido para sempre no exacto momento em que se partira o copo de vidro azul.
E chorei a tarde inteira.

in "ACTIVA" Dezembro 2009

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