quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

“ EU NÃO SABIA QUEM ERA…”

Estas crónicas integram-se num conjunto de crónicas semanais, a publicar no JN até ao dia 5 de Outubro 2010, destinadas a um público jovem, sob o título genérico "DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE EM 1910"
.
CHAMO-ME José Joaquim, e fiz ontem 14 anos.
O meu pai chamou-me ao escritório e ofereceu-me um livro de capa de couro castanha.
Folheei-o.
Todas as páginas estavam em branco.
- E a história? — perguntei.
Ele sorriu, diante do meu olhar de espanto, e disse:
- A história és tu que a vais escrever. E tenho a certeza de que vai ser uma grande história…
Na capa, em letras douradas, lia-se:

“O MEU DIÁRIO”

O meu pai disse então que eu devia assentar nele tudo o que fosse importante na minha vida.
E depois, com aquele ar grave que ele põe sempre quando me chama ao escritório, abriu um livro e leu:
- “Era eu um rapaz de 14 anos, e não sabia quem era”…
Olhou para mim e acrescentou:
- É assim que Camilo Castelo Branco começa o seu folhetim “Mistérios de Lisboa”.

O meu pai gosta muito dos livros de Camilo Castelo Branco.
Eu cá, para falar verdade, gostar, o que se chama gostar, gosto das aventuras do Texas Jack, que se compram a 60 reis no quiosque da esquina.
Mas não disse nada.
Olhei para o meu pai e esperei.
- Também tu tens 14 anos. Também tu ainda não saberás quem és. Escrever este diário vai ajudar-te.
Abriu a caixa das mortalhas, e começou a enrolar um cigarro--sinal de que a conversa acabara ali.
Agradeci – e agora aqui estou, debruçado sobre o meu diário, tentando escrever o melhor que posso, nesta letra inglesa ,inclinada e certa, que o meu mestre me ensinou no colégio.
Escrevo devagar, cuidadosamente, não apenas para que o aparo não deixe cair nenhum borrão que inutilize a página, mas também porque assim tenho tempo de pôr as ideias em ordem.
“Tudo o que for importante na tua vida” — tinha dito o meu pai.
Mas tenho medo que a palavra “importante” tenha um significado para mim, e outro, muito diferente, para ele.

Claro que me lembro de coisas muito importantes: do dia em que mataram El-Rei e o Príncipe, da confusão por toda a parte, da fuzilaria, dos mortos, da multidão desorientada, da minha mãe só a perguntar “mas por onde andará o teu pai?”, da minha avó aos gritos “é o fim do mundo! eu sempre disse que vinha aí o fim do mundo!”, dos boatos que se ouviam de janela para janela, do quiosque a cerrar os taipais antes da hora, e eu só a pensar “nunca mais vou ler o Texas Jack!”
Hoje tenho muita vergonha de ter pensado nisso. Sobretudo quando me lembro dos mortos todos, dos presos, do meu mestre desaparecido para sempre, do ar cada vez mais sério do meu pai, do medo da minha mãe de cada vez que se ouve um tiro na rua.
O “fim do mundo” — e eu a pensar no Texas Jack.
Só posso encontrar uma desculpa: nessa altura eu tinha 12 anos, ainda não sabia quem era.

O meu pai tem razão: escrever aqui vai ensinar-me a descobrir muita coisa.
Vai ser melhor que os folhetins do Camilo.

«JN» de 16 Jan 10

2 comentários:

  1. Enternecedor. Aguardo a continuação porque, suspeito, irá "ensinar-me a descobrir muita coisa".

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